Reproduzimos aqui o texto do Prof. Dr. Ribeiro
do Valle, publicado no “O Bíceps” de 1962, nº 27, pgs. 40-41, que foi publicado
pelo Prof. Dr. Durval Rosa Borges em seu livro “Foi isso que eu quis viver: 50
anos de formatura da turma de 1967 da EPM”.
Assim escreve o
Prof. Ribeiro do Valle:
As cadeiras de Farmacologia e de Bioquímica
da Escola Paulista de Medicina funcionam em edifício próprio sito à rua
Botucatu, 862, em Vila Clementino, na cidade de São Paulo. No saguão de entrada
do prédio existe um mural de seis metros de comprimento por quatro metros de
altura, de autoria de Pietro Nerici, pintor italiano radicado no Brasil faz dez
anos. Executados conforme a velha técnica dos afrescos em que se empregam
óxidos metálicos coloridos de mistura com pó de mármore e argamassa, o mural é
bastante sugestivo.
Começaremos a nossa descrição pelo canto
inferior esquerdo, onde três figuras de primeira grandeza da medicina brasileira
– Osvaldo Cruz, Adolfo Lutz e Gaspar Viana – surgem de Manguinhos, reconhecível
pela sua cúpula mourisca. Ao lado, outro instituto de linhas modernas revela ao
observador a influência indutora da célula mater, responsável pela maioria dos
centros de pesquisa biológica existentes no nosso país.
O papel desempenhado pelo Instituto
Osvaldo Cruz no terreno da saúde pública é calcado na cena de crianças brincando
ao ar livre. Aquela vilazinha pendurada no morro lembra a origem de muitos que
aqui trabalham e que na sua infância, sem preconceitos de cor, brincaram com
arco, jogaram bola de panos ou empinaram papagaio.
À esquerda, em cima, Lacerda e Couty
estudam efeitos de plantas. João Baptista de Lacerda (1846-1915) foi o fundador
do primeiro laboratório de fisiologia existente no Brasil, e Louis Couty
(1854-1884), aluno de Vulpian, um dos primeiros a estudar, entre nós, os
efeitos do café. Ambos acompanham o registro gráfico da pressão arterial do
cão. Foi escolhido de propósito o assunto, dada a natureza dos trabalhos
experimentais aqui realizados. De um lado, aspectos microscópicos do rim e de
lesões renais encontradas, por exemplo, na hipertensão arterial experimental
hormonal e, de outro lado, numa lembrança histórica, Stephen Hales (1677-1761)
determinando pela primeira vez, experimentalmente, a pressão arterial carotidiana
num equídeo.
À direita, em cima, Lavoisier (1743-1794),
assistido pela esposa a redigir o protocolo das observações, estuda as trocas
respiratórias, numa antevisão do que significam hoje para a clínica médica e a
semiologia as modernas técnicas da bioquímica. Mais à direita, cortes e
desenhos mostram a importância da endocrinologia. No alto, a representação
esquemática da adeno-hipófise com seus três tipos celulares, a secreção de
gonadotropinas, o endométrio, as gônadas, a genitália, a lactação e a gestação.
Mais à direita, o aparelho tiroparatiroidiano e, à esquerda, o galo normal e o
capão dentro do ovoide testicular. Inferiormente, o timoneiro lembra o ciclo
dos navegantes portugueses, o perigo do escorbuto e o alcance da vitaminologia.
As nossas frutas ricas em ácido ascórbico, o pombo com beribéri e a
representação de cristais de tiamina chamam de novo a atenção para o papel das
vitaminas. Terminando a volta do painel, como se tivéssemos seguido a marcha
dos ponteiros de um relógio, a obtenção do curare pelos índios do Amazonas e o
consequente emprego dos bloqueadores ganglionares em cirurgia a reviver a senda
da farmacologia desde o uso primitivo até o emprego racional e científico de
novos medicamentos.
O estudo das plantas, inclusive
medicinais, feito pelos naturalistas que correram os nossos sertões e que
tantas lições nos legaram, vem lembrado na figura de Barbosa Rodrigues
(1842-1909) e de sua esposa quando, em missão do governo imperial, exploraram o
vale do Amazonas. Junto às palmeiras, o ramo de café e dentro do hexágono a
esquematização da tecnologia industrial, sugestivos da potência e das
realizações paulistas. No centro do mural o hexágono do benzeno – símbolo da
química dos organismos – reúne todos esses episódios das ciências fisiológicas
e da nossa medicina. Finalmente, a dominar todo o painel, a figura austera de
Claude Bernard (1813-1878), lídimo representante do espírito latino e fundador
da medicina experimental. A seu lado, a esquematização da fórmula da glicose,
do glicogênio no fígado e do ciclo de aproveitamento energético dos hidratos de
carbono.
A proposta para execução de um mural no
saguão do novo edifício dos Laboratórios de Farmacologia e Bioquímica foi
aprovada pelo Conselho Técnico Administrativo da Escola Paulista de Medicina na
reunião ordinária de 20 de junho de 1956, presidida pelo sr. Diretor Prof. Dr.
José Maria de Freitas, secretariada por dona Ida Paulini e com a presença dos
conselheiros: profs. Drs. Felício Cintra do Prado, Jairo de Almeida Ramos, João
Moreira da Rocha, Walter Pereira Leser e Marcos Lindenberg.
Aprovada a ideia de um mural que aduzisse
episódios da história da medicina mais ligados a nós latinos e brasileiros,
passamos, Paiva, Nerici e eu, a imaginar as cenas e consultar livros e
monografias. Além da pura criação artística, algumas cenas eram calcadas de
figuras conhecidas. Assim, a que representa Hales medindo a pressão arterial
carotidiana da égua foi sugerida de uma gravura do livro de Bettmann e Hench
(O. L. Bettmann e P. S. Hench, A Pictorial History of Medicine, Springfield,
Charles C. Thomas, 1956, p. 199) e a de Lavoisier e sua esposa, da gravura do
livro de Holmyard (E. J. Holmyard, Chemistry to the Time of Dalton, Londres,
Oxford University Press, 1925, p. 107). Na época em que foi pintado o mural
ainda não conhecíamos o retrato de Couty que aparece sem a barba nazarena. O
pintor não deixou de se representar como Osvaldo Cruz; a figura do cirurgião é
a de um dos nossos assistentes, entre as crianças vêm-se representados filhos
dos professores de farmacologia e de bioquímica. Barbosa Rodrigues, Lavoisier e
as respectivas esposas podem ser tomados ainda como alusão ao fato de que vários
casais trabalham nestes Laboratórios.
Durante quatro meses, Pietro Nerici trabalhou
com dedicação e entusiasmo na execução desse mural. Isto constituiu para todos
nós exemplo de que vale colocar a alma inteira na concretização de um plano
fiel e pacientemente elaborado. Diz o pintor que o mural durará enquanto
subsistirem as paredes deste edifício.
Enquanto sobreviver a Escola Paulista de
Medicina, terão os nossos alunos nesse mural a oportunidade de gravarem noções
que, ligadas ao passado, traduzem no campo da medicina o anseio de progresso inadiável
do Brasil no concerto das nações civilizadas.
Fonte bibliográfica:
Ribeiro do Valle, José – Descrição do Mural “Introdução
Pictórica à Medicina Experimental no Brasil” em “O Bíceps”, nº 27, pp. 40-41,
1962 in “Foi isso que eu quis viver:
50 anos de formatura da turma de 1967 da EPM”, de autoria de Durval Rosa
Borges, Kato Editorial, 2017, São Paulo, páginas 34-37.
Observação: livro gentilmente cedido pelo Prof. Dr. Durval
Rosa Borges.