segunda-feira, 20 de julho de 2026

Um texto dos 60 anos da EPM em 1993

 

Residência Médica do Hospital São Paulo – Escola Paulista de Medicina

Texto do livro “Escola Paulista de Medicina – 60 anos de História”, de 1993.

 

          A Residência Médica no Hospital São Paulo/Escola Paulista de Medicina iniciou-se oficialmente em 1960, seguindo a mesma concepção dos programas criados no começo do século nos Estados Unidos, sob a inspiração de Osler, e nos anos 50 no Brasil, onde foram pioneiros o Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro e o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

          Uma tentativa fracassada de instalação da Residência Médica na Escola Paulista de Medicina, de muito curta duração, aconteceu na década de 50.

          Um grupo de bolsistas da Escola, nos Estados Unidos, impressionou-se com a importância desse tipo de treinamento profissional, chegando mesmo a elaborar, em um frio inverno de 1953-54, na Filadélfia, um regimento para sua implantação.

          Regressando, contando com o apoio decidido do Departamento de Medicina, deram início à obra, que não vingou, devido à tenaz oposição de alguns professores, catedráticos que eram, que não aceitaram a ideia de receber em seus Serviços, profissionais que não fossem da sua escolha.

          Assim, a Residência Médica surge no Hospital São Paulo em princípios da década de 60. Era uma estrutura incipiente, mas suficientemente organizada, para se chamar Residência Médica. Era composta de dois ciclos básicos: o clínico e o cirúrgico, onde se distribuíam os seus vinte médicos, 10 clínicos e 10 cirurgiões. A especialidade só era permitida no 3º ano da Residência Médica.

          Nos 3 primeiros anos de sua fundação, fruto da grande eficiência desse tipo de ensino, houve uma rápida organização do sistema. A hierarquia era rígida, a disciplina levada a sério e a dedicação ao doente era total. O Chefe dos Residentes era o “senhor todo poderoso”. O regime de trabalho era de dedicação exclusiva. Na seleção dos médicos residentes, as mulheres eram “preteridas” aos homens e os “casados” dificilmente eram escolhidos. Havia necessidade de morar na Residência. Não existia horário de trabalho (eram as 24 horas) e os residentes que se ausentassem do HSP teriam que voltar antes das 22 horas. O quarto do Chefe dos Residentes era o primeiro, na entrada da Residência, situado no 1º andar onde hoje se localiza a Diretoria do HSP. Daí ele controlava facilmente a entrada e saída dos seus comandados.

          Essa disciplina tão rígida não impedia que algumas vezes se disputassem partidas de boliche, onde o campo era o corredor, as bolas as laranjas do lanche e os pinos as garrafas de refrigerantes que sempre acompanhavam o tradicional lanche da meia-noite, que encerrava oficialmente o dia de labuta.

          Raras vezes, é verdade, mas não se tratando de extrema exceção, os pudicos olhares da legendária Madre Richarda eram agredidos por figuras passeando nos largos parapeitos das janelas do 1º andar em trajes menores.

º          Essa mescla de atitudes de extrema responsabilidade para com o doente e outras atitudes inusitadas caracterizaram os primeiros anos da nossa Residência. Baseado no seu intenso trabalho, eles tornaram-se tão necessários à Instituição, que adquiriram o poder de fazê-la.

          No transcorrer da década, a Residência foi-se institucionalizando: o pediatra não precisava mais passar 1 ano na Clínica Médica, o tocoginecologista necessitava fazer somente 1 ano de Cirurgia Geral. Essa estrutura caminhou para os ciclos de especialidade.

          Em 1966, realizou-se o 1º Congresso Brasileiro de Residentes na EPM e HSP, lançou-se a ideia da Associação Nacional dos Residentes.

          A Residência Médica, um sistema que demonstrou ser tão bom, quase se tornou vítima de sua própria eficiência. As boas instituições abusaram do poder de trabalho dos Residentes e as instituições ruins utilizaram-no como mão de obra barata.

          Destes dois fatores surgiu uma série de movimentos sociais, de greves praticamente anuais, que, de repente, colocaram em perigo a própria instituição da Residência.

          É bem verdade que foi o segmento da sociedade que conseguiu mais direitos sociais em curto espaço de tempo. Só para exemplificar, a licença paternidade é um direito dos residentes já há longos anos.

          A Residência Médica é, atualmente, a maior, mais testada e bem estruturada modalidade de formação profissional em qualquer área do conhecimento. Seu princípio básico é o treinamento em serviço, em tempo integral, sob supervisão de docente ou profissional qualificado. Desta maneira, o jovem profissional aprende o seu ofício exercendo plenamente a atividade médica, mas sob supervisão de um indivíduo mais treinado, num ambiente de ensino e pesquisa. Além disso, neste modelo, no sentido de desvincular o médico-residente de uma relação de dependência junto às unidades onde estagia, ele responde hierarquicamente a uma comissão central do hospital ou escola médica, que coordena suas atividades e lhe proporciona bolsa, alimentação e moradia.

          No HSP/EPM, algumas características peculiares da Residência Médica reforçam, ainda mais, a qualidade de formação do médico. Assim, o médico-residente tem a responsabilidade médica principal frente aos pacientes, participando de todas as atividades ligadas ao diagnóstico e tratamento; fato que lhe permite exercer intensamente a profissão e adquirir mais rapidamente a maturidade. Além disso, conceitualmente na nossa instituição, antes da especialização, é sempre necessário pelo menos 1 ano de trabalho em atividades gerais, o que proporciona a formação de especialistas com excelente visão geral de medicina. Ademais, os estágios são rotatórios entre as diversas disciplinas e unidades, o que favorece a exposição a professores com estilos e capacidades diferentes, fator estimulador do desenvolvimento de espírito crítico e independência, traços essenciais para formação do médico. Finalmente, além dos professores, os residentes mais velhos e pós-graduandos estão anexados sistematicamente ao programa de ensino, o que lhes desenvolve a capacidade de ensinar – característica importante na atividade médica, além de aumentar enormemente a capacidade didática da instituição.

          A Residência Médica no Brasil é regulamentada desde a década de 70, quando o Ministério da Educação criou a Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), órgão que autoriza o funcionamento de novos programas e fiscaliza aqueles em andamento a cada 5 anos. Além disso, a Residência Médica é pré-requisito nos Cursos de Pós-Graduação na área profissional.

          No HSP/EPM a Residência Médica é coordenada pela Comissão de Residência Médica e Estágio (COREME), órgão ligado ao Conselho Departamental e à Diretoria da EPM, e constituída por representantes de todos os departamentos onde existam programas credenciados pela CNRM.

         Temos atualmente 32 programas credenciados pela CNRM, implantados progressivamente desde 1960 até 1992, que incluem áreas de Anatomia Patológica, Anestesiologia, Cardiologia, Cirurgia Gastroenterológica, Cirurgia Geral, Cirurgia Pediátrica, Cirurgia Plástica, Cirurgia Torácica e Cardíaca, Cirurgia Vascular Periférica, Clínica Médica, Dermatologia, Doenças Infecciosas e Parasitárias, Endocrinologia e Metabologia, Fisiatria, Gastroenterologia, Ginecologia e Obstetrícia, Hematologia e Hemoterapia, Medicina Preventiva e Social, Nefrologia, Neurocirurgia, Neurologia, Neuropediatria, Oftalmologia, Ortopedia e Traumatologia, Otorrinolaringologia, Pediatria, Pneumologia, Psiquiatria, Radiologia, Radioterapia, Reumatologia, Urologia.

         Estes programas incluem 121 médicos no 1º ano, 121 no 2º ano, 76 no 3º ano e 15 no 4º ano, totalizando 333 alunos.

        A Residência Médica do HSP/EPM formou, desde 1960, cerca de 3.000 profissionais, provenientes de quase todas as faculdades de Medicina do Brasil, hoje em atuação em diversos estados e universidades. Na nossa Instituição sua importância é ainda mais realçada pelo fato de que 90% dos nossos professores da área profissional, graduados depois de 1960, terem sido ex-residentes do HSP/EPM.

        A Residência, portanto, é uma instituição estável e equilibrada e sem dúvida a melhor experiência de ensino de Pós-Graduação “senso lato” para a profissão médica.

Comissão de Residência Médica e Estágio. Presidentes da COREME:

Até abril 1972 – Prof. Dr. Azarias de Andrade Carvalho

De maio 1972 a dezembro 1975 – Prof. Dr. Oswaldo Luiz Ramos

De janeiro 1976 a outubro 1979 – Prof. Dr. Antonio Rubino de Azevedo

De novembro 1979 a novembro 1980 – Prof. Dr. Manuel Lopes dos Santos

De dezembro de 1980 a abril 1983 – Prof. Dr. Ulysses Fagundes Neto

De abril 1983 a agosto 1984 – Prof. Dr. Álvaro Nagib Atallah

De setembro 1984 a abril 1985 – Prof. Dr. Luc Louis Maurice Weckx

De abril 1985 a abril 1987 – Prof. Dr. Luiz Antonio Nogueira Martins

De maio 1987 a abril 1989 – Prof. Dr. Mauro Batista de Morais

De abril 1989 a abril 1991 – Prof. Dr. Ladislau Ruy Ungar Glausiusz

De abril 1991 a março 1993 – Prof. Dr. Rui Monteiro de Barros Maciel

 

Fonte bibliográfica:

“A Escola Paulista de Medicina – 60 anos de História”. Gráfica Poolprint, 1993, páginas 237-240.  

            

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Biografia do Prof. Dr. Álvaro Guimarães Filho

 



Biografia do Prof. Dr. Álvaro Guimarães Filho

A partir de textos de Henrique A. Paraventi e Hélio Begliomini

 

          Nascido em São Paulo, a 29 de agosto de 1901, Álvaro Guimarães Filho estudou em São Paulo no Colégio São Bento e no Rio de Janeiro no Ginásio Oswaldo Cruz.

          Em 1925, graduou-se pela Faculdade de Medicina de São Paulo. Durante o curso médico foi interno da Segunda Enfermaria de Homens da Santa Casa de São Paulo, na Cátedra de Clínica Médica dirigida por Rubião Meira, onde foi supervisionado por Lemos Torres. Nessa ocasião, essa Segunda Enfermaria de Homens da Santa Casa já chamava a atenção e era um renomado centro de estudos médicos, de modo que daí sairiam vários professores da Escola Paulista de Medicina.

          Durante o sexto ano do curso médico, Álvaro Guimarães Filho foi também interno efetivo da “Assistência Policial de São Paulo”, que é como se chamava o primeiro serviço de pronto socorro da cidade de São Paulo. Foi eleito vice-presidente e depois presidente do “Centro Acadêmico Oswaldo Cruz”. Nessa ocasião, ele chefiava a delegação de universitários médicos paulistas, de modo que levaram ao Primeiro Congresso Interestadual de Medicina o trabalho intitulado “Estudo Clínico do Carcinoma Primitivo do Esôfago”.

          Defendeu sua tese inaugural após sua formatura em 23 de março de 1926 com o título “Higiene Mental e sua importância em nosso meio”. Ainda em 1926 viajou à Europa, de modo que estagiou em Paris na Maternidade Baudelocque e no Hospital Broca, recebendo ensinamentos de Couvelaire e Faure. Em Berlim, fez cursos de aperfeiçoamento com Strassman, Straus e Kristeller. Ainda em Viena frequentou na Universidade a Segunda Enfermaria de Mulheres, sob a orientação de Kermauner.

          Após meses de permanência nesses centros médicos, retornou ao Brasil em 1927, onde foi admitido como assistente voluntário da Clínica Obstétrica da Faculdade de Medicina de São Paulo, sob a chefia de Raul C. Briquet. Ali organizou o serviço de Pré-Natal e a Seção de Urologia Feminina, bem como o Departamento de Radiodiagnóstico Obstétrico. Em 1933 foi alçado à chefia clinica dessa disciplina.

         Suas atividades didáticas começaram em 1931, quando foi nomeado professor de Enfermagem Cirúrgica, na Escola de Obstetrícia e Enfermagem Especializada de São Paulo, anexa à Clínica Obstétrica da Faculdade de Medicina.

          Em 1932, quando do Movimento Constitucionalista, exerceu a função de auxiliar médico da Superintendência dos Serviços Auxiliares de Saúde.

          Em 1933, Paula Souza o encarregou de organizar o Serviço de Higiene Pré-Natal, no Centro de Saúde, do então Instituto de Higiene de São Paulo, primeira organização desse gênero instalada no Brasil. Nesse mesmo ano foi designado como Professor Catedrático da Clínica Obstétrica da recém fundada Escola Paulista de Medicina. Essa designação viria a ser desempenhada na prática alguns anos depois, em 1938.

         Participou como sócio fundador da Associação Paulista de Medicina, onde exerceu a presidência do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia.

         Em 1935, foi laureado pela Academia Nacional de Medicina, juntamente com Lemos Torres e Jairo Ramos, com o prêmio e medalha de ouro “Madame Durocher”, pelo trabalho “Coração na Gravidez”, em que consignaram a conduta aplicada à gestante cardiopata.

         Em suas variadas atividades como professor deu grande realce aos métodos de proteção materna e infantil, preocupando-se com o problema da mortalidade e morbilidade maternas e perinatais. Foi grande cultor da semiologia obstétrica, da fisiologia da parturição e da orientação nutricional da gestante.

         Em 1937, tornou-se o primeiro a atingir a Livre Docência da Clínica Obstétrica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

         Com a criação da Faculdade de Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo, foi empossado como Professor Catedrático da Cadeira de Higiene Materna, onde permaneceu até a aposentadoria. Também foi Diretor da mesma faculdade. Integrou o órgão denominado Conselho Universitário de São Paulo. Nessa faculdade orientou variados profissionais de saúde.

          Por muitos anos dirigiu o periódico “Revista de Ginecologia e Obstetrícia de São Paulo”.

          Foi membro do Conselho Superior de Administração da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, por designação do então Cardeal Motta. Foi perito em questões matrimoniais do Tribunal Eclesiástico da Arquidiocese de São Paulo. Foi um dos organizadores da Pró-Matre Paulista.  

          Por solicitação de Lemos Torres, fundou a “Escola de Enfermeiras de São Paulo” e, juntamente com um grupo de senhoras da sociedade paulista, fundou o Amparo Maternal.

         Com a súbita morte de Lemos Torres em 1942, foi eleito Diretor da Escola Paulista de Medicina. Durante quatorze anos manteve essa atividade em conjunto com seus afazeres docentes e de pesquisa. Participou de bancas examinadoras as mais variadas em todo o Brasil.

          Enquanto foi diretor da EPM ocorreram: a ampliação do prédio da escola e a conclusão do Hospital São Paulo, após árduas lutas e reivindicações junto ao Governo Federal para conseguir solucionar a dívida do Hospital com a Caixa Econômica Federal. Segundo a fonte consultada, em 1 de dezembro de 1949 ocorreu um ato público de doação do Hospital São Paulo à Escola Paulista de Medicina, através da Lei Federal 939, sancionada pelo Presidente da República Marechal Eurico Gaspar Dutra, sendo Ministro da Educação e Cultura o Prof. Dr. Clemente Mariani, tendo havido o apoio para esse intento do Deputado Federal paulista Dr. Horácio Lafer. Ainda sob essa gestão foi construído o pavilhão de Patologia nomeado como Edifício Lemos Torres.

          Em 1966, ao atingir a idade limite, foi jubilado pela Escola Paulista de Medicina. Após isso, continuou á frente da direção do Amparo Maternal, onde foi diretor por 37 anos. Foi incompreendido, caluniado, mas também aplaudido e amado.

          Sua sucessora na direção do Amparo Maternal, irmã Anita, dizia que ele era enérgico, mas bem-humorado, frequentemente dizendo a frase: “Entrei pelos canos e saí canonizado”. Disse ela que ele ajudou inúmeras mães e crianças que compareceram a seu sepultamento e disseram: “perdemos nosso pai”.

          Álvaro Guimarães Filho faleceu em São Paulo em 12 de setembro de 1981, aos 80 anos. Seu nome é dado ao patrono da cadeira 61 da Academia de Medicina de São Paulo. Também é nome de rua em São Paulo na Vila Império e nome de anfiteatro na Escola Paulista de Medicina.

Fontes bibliográficas:

Paraventi, H. A. Álvaro Guimarães Filho in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Organizado por José Ribeiro do Valle, 1977, pp. 24-28.

Begliomini, H. Biografia de Álvaro Guimarães Filho. Site da Academia de Medicina de São Paulo. 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Roque de Mingo, escultor do busto de Lemos Torres

          Roque de Mingo (1890-1972) é uma personalidade principalmente da primeira metade do século XX em São Paulo, que tem sido descoberto mais recentemente. Foi escultor e fundidor, que se inseriu no campo artístico a partir de ser fundidor artístico. Galgou posições até se tornar presença frequente na comissão de jurados da seção de  escultura do Salão Paulista de Belas Artes. Filho de imigrantes italianos, nasceu em São Paulo. Seu trabalho em fundição de bronze foi a forma que achou para iniciar seu trabalho em escultura, já que sua família não tinha condições de financiar a ele a Escola de Belas Artes no Rio de Janeiro. Assim, acabou trabalhando e estudando no ateliê do escultor italiano Paschoal de Chirico. Depois ele trabalhou na oficina de fundição do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, chefiada pelo escultor Amadeu Zani. Em 1913, Roque tornou-se chefe dessa oficina. A partir daí, participou de vários concursos para obras, às vezes ganhando, outras vezes perdendo. Por vezes fazia a fundição de obras de outros autores. Foi premiado em vários concursos. Em 1942 realizou o busto de Lemos Torres que fica na entrada da Escola Paulista de Medicina. Faleceu em São Paulo em 1972.  









Roque de Mingo



Fontes bibliográficas:

Scarelli, R. D. (2024). Arte e ofício: a trajetória do escultor e fundidor Roque de Mingo em São Paulo na primeira metade do século XX. Revista Do Instituto De Estudos Brasileiros1(88), 1-34. https://doi.org/10.11606/issn.2316-901X.88.2024.229335

Roque de Mingo. Wikipedia.

 

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Biografia de Luiz Pereira Barreto Neto

 

          Luiz Pereira Barreto Neto nasceu em São Paulo em 10 de setembro de 1898. Formou-se pela Faculdade de Medicina de São Paulo em 1922. Após ter-se formado, ele ficou algum tempo em Londres aprimorando seus estudos. Em 1923 defendeu tese de doutoramento aprovada com distinção com o título “Febre Tifoide e Proteinoterapia”.

          Por 35 anos trabalhou intensamente no Hospital Emílio Ribas. Inicialmente como aluno de graduação, nos últimos dois anos do curso médico. Depois como médico interno, fixando residência no próprio recinto do hospital, em um formato que já lembrava a futura Residência Médica. Em 1950 foi nomeado Diretor desse Hospital, cargo em que ficou até a aposentadoria em 1957.

          Em março de 1929 foi nomeado médico interno da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, trabalhando em regime de plantões de 24 horas, às sextas-feiras. Durante a Revolução de 1932, ele trabalhou dia e noite nesse hospital para atender a feridos. Permaneceu trabalhando na Santa Casa até novembro de 1966, quando recebeu o título de “cirurgião honorário” desse mesmo hospital.

          Em 1937, foi convidado pela Congregação da Escola Paulista de Medicina, na qual assumiu a Cátedra de “Doenças Infecciosas e Parasitárias”, inaugurada nesse mesmo ano para a primeira turma de alunos da EPM. Foi professor dessa instituição por 31 anos, de modo que se aposentou em 1968.

          Foi escolhido como paraninfo por quatro vezes em formaturas da EPM, em 1939, em 1952, em 1958 e em 1964. Várias vezes foi convidado para Secretário da Saúde do Estado de São Paulo, sempre declinando desse cargo. Ele dizia que “o livro da Medicina não tem fim e devemos percorrê-lo toda a vida”. Dizia também “não há Medicina sem Filosofia”, pois segundo ele, “existe a patologia individual, a psicopatologia, a patologia familiar, a patologia social, a patologia universal”. Desse modo, sugeria ao médico aconselhar para além da doença, e considerava a educação geral como fundamental para a saúde da população.

          O Prof. Dr. Jair Xavier Guimarães foi o Primeiro Assistente do Prof. Dr. Pereira Barreto Neto desde 1939, de modo que passou a substituí-lo nessa cadeira a partir de 1968.  

          O Prof. Dr. Luiz Pereira Barreto Neto faleceu em 12 de agosto de 1971, deixando viúva dona Odete Pinto de Souza Barreto e os filhos Maria Cecília Pereira Barreto Sheldon, Luiz Eduardo Pereira Barreto e Raul Carlos Pereira Barreto.


Fontes bibliográficas:

Guimarães, JX. Luiz Pereira Barreto Neto (1898-1971) in A Escola Paulista de Medicina – dados comemorativos de seu 40º aniversário (1933-1973) e anotações recentes. Organizador: José Ribeiro do Vale. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, pp. 190-192.

Acervo do jornal “O Estado de São Paulo”

 

terça-feira, 9 de julho de 2024

Biografia do Prof. José Barbosa Correa

 A partir de texto de Carlos de Oliveira Bastos


          José Barbosa Correa nasceu em São Paulo em 1899. Após ter um bom desempenho no curso secundário, em 1918 entrou na então chamada Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, onde formou-se em 1923, por uma turma que legou vários professores ao ensino da Medicina.

          Filiou-se à Segunda Cadeira de Clínica Médica dessa mesma Faculdade, chamada também de Cátedra de Rubião Meira. Nela, já figurava com destaque Lemos Torres. José Barbosa Correa foi alçado a Segundo Assistente da Cadeira, depois Primeiro Assistente. Em 1936, após concurso público, tornou-se Livre-Docente de Clínica Médica.

         Já era então conhecido por sua dedicação ao ensino, seu interesse pela verdade científica e seus métodos pedagógicos que utilizava em suas aulas regulares, bem como em cursos particulares, nos quais aprofundava técnicas e táticas da Propedêutica Médica e da Clínica Geral.

         Teve participação ativa nos trabalhos preparatórios para a fundação da Escola Paulista de Medicina. Por esta, a partir de indicação de seu Corpo Docente inicial, foi designado em 1934 como Professor de Cardiologia, área ainda de configuração recente, à qual ele dedicava especial atenção [Bastos escreveu este texto bem posteriormente aos fatos e provavelmente não quis dizer Cardiologia no sentido de Disciplina]. 

             Mais especificamente em relação à Cardiologia, podemos observar na edição do Jornal O Estado de São Paulo de 26 de novembro de 1939 a seguinte notícia:

"Realizou-se ontem, no Restaurante da Casa Anglo-Brasileira, um almoço em homenagem ao Prof. José Barbosa Correa, orientador clínico da turma de médicos cardiologistas que frequentaram durante dois anos o curso de especialização em cardiologia organizado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em 1937, por iniciativa daquele livre-docente. Em regozijo pela terminação desse curso, efetuou-se o ágape em apreço, ao qual compareceram diversos professores e o reitor da Universidade. O Prof. José Barbosa Correa foi saudado pelo Dr. Reynaldo Kuntz Bush, ao qual respondeu agradecido".   

          Com a morte de seu mestre, Lemos Torres, em 1942, após concurso de títulos, foi indicado como Professor da Segunda Cadeira de Clínica Médica da Escola Paulista de Medicina, cargo que exerceu com dedicação até sua morte prematura em 1948.

         Em sua carreira participou de numerosos cursos, trabalhos científicos, palestras, conferências, sociedades e teses que orientou. Além disso, tinha especial ao estudo da língua portuguesa e à Filologia, dominando também alemão, inglês, grego e latim, de modo que foi designado, em 1936, para Professor na Cadeira de Latim do Colégio Universitário de São Paulo. Tinha, portanto polimorfa cultura humanística e filosófica que empregava em suas aulas.

        Quando de seu falecimento em 1948, seu discípulo Carlos de Oliveira Bastos publicou em 3 de dezembro desse ano, no jornal “Gazeta” um necrológio do qual foi extraída a seguinte parte:

“Dos diletos discípulos de Lemos Torres, foi Barbosa Correa quem o sucedeu na cátedra. Permitiam-lhe as disposições regimentais o acesso à Segunda Cadeira de Clínica Médica, para a qual se credenciara, em concurso de títulos, pelo excepcional realce de seu passado no magistério superior e dignificante exercício da profissão”.

“Fora, aliás, sempre o seu sonho, acalentado terna e docemente desde os dias da mocidade, a regência do ensino de Clínica Médica, disciplina na qual já se celebrizara, quando assistente de Rubião Meira, na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. E, para tanto, vinha de longa data aprimorando os dotes de sua invejável cultura médica e alevantado saber humanístico”.

“Elevado à cátedra da Escola Paulista, põe-lhe a serviço as inigualáveis virtudes de sua polimorfa personalidade. Espírito lúcido, rutilante inteligência, caráter ilibado, perspicaz e ativo, culto e douto, trabalhador incansável, senhor de princípios, firme nas convicções, bom, puro e santo homem, tornou a Cadeira a razão de ser de sua atribulada e já doentia existência”.

“Do que foi o seu professorado e de quanto dignificou o ensino médico, atestem-no as numerosas turmas de doutorandos, que lhe ouviram as sábias lições; proclamem-no todos quantos, assistentes, médicos, internos e alunos, o viram, dispneico e ofegante, proferir suas esclarecidas aulas, e digam aqueles, as testemunhas de seus inauditos esforços, em não desmerecer dos altos deveres de um mestre de consciência”.

“Tão combalido já andava nos últimos tempos que chegara a solicitar de seus respeitosos alunos que lhe permitissem prelecionar sentado, pois a postura ereta, que sempre fora a sua, já se lhe tornara demasiado penosa”.

“Fez sempre ouvidos moucos aos conselhos dos que o queriam e amavam para restringir a incrível atividade profissional e didática. Eram-lhe o trabalho e o estudo preciosos lenitivos, que em vida soubera encontrar”.

“Foi-lhe a Escola Paulista a menina dos olhos. Para tê-la sempre à vista e mais próxima de seu magnânimo coração, transferiu e edificou sua residência em terreno fronteiriço ao Hospital...”

 

Fontes bibliográficas:

Bastos, C.O. José Barbosa Correa (1899-1948) in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Organizador: José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, pp.171-174. 

Acervo do Jornal O Estado de São Paulo. Edição de 26 de novembro de 1939.  

 


quinta-feira, 13 de junho de 2024

Biografia de Edgar de Melo Mattos Barrozo do Amaral (1904-1974)


A partir de texto de Wilson da Silva Sasso

 

          Edgar de Melo Mattos Barrozo do Amaral formou-se em 1925 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, tendo se doutorado um ano depois pela mesma faculdade. Em 1931, foi contratado como Assistente de Biologia no Serviço de Febre Amarela da Fundação Rockfeller. De março a dezembro de 1933, fez estágio na Fundação Curie.

          Em 1934, trabalhou com André Dreyfus, como Segundo Assistente da Cátedra de Histologia e Embriologia da Escola Paulista de Medicina. Em maio de 1935, foi nomeado Primeiro Assistente, em substituição a Nelson Planet. Em 1936, foi convidado para o cargo de Assistente de Biologia Geral, da recém-inaugurada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Em 1937, deixou o cargo de Primeiro Assistente para substituir a Dreyfus e ser contratado pela Escola Paulista de Medicina como Professor Catedrático de Histologia e Embriologia, cargo esse que ocupou até 1952. Até essa época, Barrozo do Amaral havia sido o único professor que havia permanecido contratado pelo transcorrer de dezoito anos em uma escola médica brasileira.

          Nesse ano de 1952, o Prof. Barrozo do Amaral afastou-se da Escola Paulista de Medicina a fim de poder colaborar na formação da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, tendo sido o seu primeiro professor de Histologia. Nesse processo de formação da Faculdade, foi realçada a sua participação direta na contratação de cinco professores estrangeiros para as Cadeiras de Anatomia, Histologia, Patologia, Psicologia Médica e Fisiologia, sendo que dois deles, os professores Fritz Koeberle de Patologia e Lucien Lison de Histologia e Histoquímica permaneceram como Professores Titulares na Faculdade.

          Nos dezoito anos em que o Prof. Barrozo do Amaral ocupou a Cátedra de Histologia e Embriologia da Escola Paulista de Medicina, devem ser destacados os doutorados realizados sob sua orientação, dos ex-alunos da EPM José de Paula e Silva, que fez a primeira Tese de Doutorado da EPM, e do Dr. Wilson da Silva Sasso. Ambos eram Assistentes da Histologia no ano de seu afastamento, em 1952.

         Durante o seu período de magistério fez parte das bancas de diversos concursos: 1 - de Nylceo Marques de Castro, para Livre-Docência da EPM, Livre-Docência na Faculdade de Farmácia e Odontologia da USP, e para a Cátedra da EPM; 2 – de Lucien Lison, para a Cátedra da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP; 3 – de Octavio Della Serra, para Livre-Docência e Cátedra na Faculdade de Farmácia e Odontologia da USP; 4 – de Clodoaldo Pavan, para Livre-Docência na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP; 5 – de Fernando Aberceb, para a Livre-Docência na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal da Bahia; 6 – de Bruno Alípio Lobo, para Livre-Docência na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro; 7 – de Luiz Carlos Uchôa Junqueira, para Livre-Docência e Cátedra da Faculdade de Medicina da USP; 8 – de Eduardo Ozório Cisalpino, para Livre-Docência na Faculdade de Farmácia e Odontologia da UFMG; 9 – de Milton Picosse, para a Livre-Docência na Faculdade de Farmácia e Odontologia da USP; 10 –  de Wilson da Silva Sasso, para a Livre-Docência na Faculdade de Farmácia e Odontologia da USP.

          Em 1939, concomitantemente a seu trabalho na EPM, o Prof. Barrozo do Amaral prestou concurso de Livre-Docência de Histologia na Faculdade de Medicina da então designada Universidade do Brasil.

         Em 1940, o Prof. Barrozo do Amaral prestou concurso para a Cátedra de Histologia e Embriologia da Faculdade de Farmácia e Odontologia da USP. Até se aposentar nessa Faculdade, em 1961, foram seus assistentes: Nylceo Marques de Castro, na Histologia e Embriologia da EPM; Wilson da Silva Sasso no Instituto de Ciências Biomédicas da USP e na EPM; José Merzel, na Faculdade de Odontologia de Piracicaba da Unicamp; Roberto Domingos Andreucci na Faculdade de Odontologia de São José dos Campos; Eduardo Katchburian, na Faculdade de Medicina da Universidade de Londres.

          Em relação à sua linha de pesquisa, se destacam trabalhos sobre a origem das células intersticiais do ovário e do testículo, que resultaram em suas teses para Livre-Docência e para a Cátedra. A primeira foi defendida na Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil e intitulada “Células do Hilo do Ovário (células de Berger)” e representa a primeira tese brasileira onde foram utilizados métodos histoquímicos. A segunda também fez uso de métodos histoquímicos, intitulada “Contribuição para o estudo da origem e natureza das células de Leydig”.  Esta foi apresentada no Concurso para Cátedra de Histologia e Embriologia da Faculdade de Farmácia e Odontologia da USP.

         O Prof. Barrozo do Amaral colaborou ainda para a instalação da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília, onde ocupou o cargo de Diretor por dois anos.

         Conforme informação do Prof. Sasso, o Prof. Barrozo do Amaral tinha espírito inquieto e entusiasta pela docência e pela organização universitária, de modo que sabia guiar e estimular seus alunos no estudo da Histologia.   

 

Fonte Bibliográfica:

Sasso, W. S. Edgard de Melo Mattos Barrozo do Amaral in A Escola Paulista de Medicina – dados comemorativos de seu 40º aniversário (1933-1973) e anotações recentes. José Ribeiro do Valle (org). Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, São Paulo, 1977, pp. 167-170.                                                                                                                                        

      

 

          

 

      

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Origem do Emblema da Escola Paulista de Medicina



Origem do Emblema da Escola Paulista de Medicina

Fonte bibliográfica: 
Borges, Durval Rosa. De Quanto Tal Viagem Pede e Manda. Volume 6 da Série Fragmentos de Memória (1969-1975). Kato Editorial, 2019, p. 158.