sábado, 12 de setembro de 2026

Primórdios do Hospital São Paulo – Parte 1

       

          O processo de fundação do Hospital São Paulo teve etapas, de modo que também pode ser considerada uma “fundação ampliada”. Em uma primeira etapa a colocação da primeira estaca em 30 de setembro de 1936. Depois, em uma segunda etapa, houve, em 15 de maio de 1937, a fundação do Ambulatório de Oftalmologia, no centro da cidade, provavelmente o primeiro setor a entrar em funcionamento. Em uma terceira fase a fundação do Pavilhão Maria Thereza de Azevedo, em 19 de junho de 1937. Numa quarta etapa, começou o uso efetivo do edifício do hospital, em 4 de outubro de 1940, com seus primeiros cinco andares. Não estamos levando em consideração aqui o uso do Hospital Humberto Primo para aulas de Semiologia, já que se tratava de um outro serviço médico.

          De início, os professores fundadores organizaram todo um movimento em torno da ideia de construir um grande hospital público, ou filantrópico, que pudesse servir a população e o ensino da EPM. Desse modo, mobilizaram a sociedade e os jornais, sendo, por sua vez, eles mesmos engajados nesse movimento com aspectos de “civismo paulista”. Foram diversas as publicações de notícias sobre as mobilizações e atividades realizadas em torno do objetivo de construir um grande hospital na cidade de São Paulo, para atender os menos favorecidos economicamente, que só podiam dispor de serviço gratuito.

          O jornal Correio Paulistano, em 20 de agosto de 1935, publicou a seguinte nota:

Hospital São Paulo

A utilidade irrefutável da “Campanha do Café”, promovida pela Escola Paulista de Medicina, para construção do Hospital São Paulo, merece todos os encômios.

Ela será seguramente bem recebida pela lavoura e pelo povo em geral.

São Paulo, cidade com mais de um milhão de habitantes, tem real necessidade, não de mais um, mas de muito mais hospitais de caridade. Os que temos não bastam para a população pobre.

É bastante dar-se uma vista d’olhos na Santa Casa. Essa benemérita instituição vive numa imensa dificuldade para receber doentes, visto estar o seu hospital superlotado.

As camas, ali, espalham-se por todos os cantos e novos doentes chegam todos os dias em grande número, tendo muitos que ser recusados.

Há ainda outros hospitais que abrigam e tratam gratuitamente os doentes pobres. Mas não chegam.     

Por isso, a iniciativa da Escola Paulista de Medicina é altamente oportuna e muito simpática.

E o povo não deixará de a apoiar.

É de se esperar que dentro em breve a nossa cidade tenha como realidade o grande Hospital São Paulo, e que nossos pobres possam alimentar a certeza de que, numa doença, não lhe faltarão os necessários socorros.

          No texto acima, o que foi chamado de Campanha do Café visava donativos por parte das pessoas do interior do estado de São Paulo, então grande território cafeeiro, já que grande parte dos pacientes que afluíam para a Santa Casa da capital eram provenientes dessa região.

          Em 1 de novembro de 1935, o Correio Paulistano anunciou a realização de baile no dia 9, com a finalidade de beneficiar a construção do Hospital São Paulo. Em 6 de novembro essa notícia foi reforçada com a publicação de centenas de nomes da sociedade paulista que estariam apoiando a iniciativa.

          Em 22 de dezembro de 1935, o jornal Correio Paulistano publicou texto que acentuou a sobrecarga de pacientes na Santa Casa de São Paulo e a necessidade de ampliar vagas em hospitais públicos/filantrópicos:

O problema hospitalar em São Paulo

Já tivemos ocasião de focalizar nestas colunas alguns dos aspectos sob que se apresenta o problema de assistência hospitalar em São Paulo. Mencionamos, por exemplo, a grande proporção de doentes com que concorre o interior do nosso Estado, para serem hospitalizados na Capital e fizemos ver quão suplantada tem sempre ficado a capacidade receptiva dos nossos poucos estabelecimentos hospitalares, cujas possibilidades de atender aos numerosíssimos pedidos, provenientes de todas as localidades, permanecem muito aquém das crescentes necessidades que se apresentam.

Se analisarmos ligeiramente os dados estatísticos apresentados pela Diretoria da Santa Casa de Misericórdia da Capital, veremos que mais da metade dos doentes internados naquele estabelecimento em 1933 procedeu do interior. Cidades como Araçatuba, Marília, Presidente Prudente, Rio Preto, Santos e São Bernardo concorreram para esse total com mais de duzentos doentes cada uma, sendo inúmeras as que enviaram número superior a uma centena. O certo é que todas figuram na relação, umas em maior, outras em menor proporção, mas todas recorrendo aos poucos meios existentes em nossa Capital.

Ora, essa observação nos autoriza a concluir que nada será mais justo do que lançar um apelo aos diversos núcleos que constituem a população do Interior, no sentido de cooperarem, por intermédio dos seus órgãos representativos, que nesse caso seriam as respectivas prefeituras, para que seja levada avante a ideia de se construir um grande hospital em São Paulo, que, de certo modo, pudesse resolver momentaneamente o grave problema que nos assoberba.

Os elementos que estão à testa desse nobre empreendimento, já autorizados para isso, iniciaram a remessa de ofícios aos srs. Prefeitos, sugerindo a aplicação de determinada porcentagem da arrecadação municipal nessa obra.

A evidente oportunidade da ideia e, mais do que tudo, a sua indisfarçável finalidade, asseguram, ao lado da proverbial boa vontade que caracteriza a mentalidade paulista, o mais completo êxito para a iniciativa ora em foco.

          Em sua edição de 12 de janeiro de 1936, o jornal O Estado de São Paulo trouxe o seguinte informe:

Pró-Hospital São Paulo

Ganha terreno a ideia de construção de um grande hospital

Já tivemos ocasião de focalizar nestas colunas alguns dos aspectos sob que se apresenta o problema da assistência hospitalar em São Paulo[1].

Esses aspectos levam-nos a concluir que nada seria mais justo do que lançar um apelo aos diversos núcleos que constituem a população do interior, no sentido de cooperarem, por intermédio de seus órgãos representativos, que nesse caso, seriam as respectivas Prefeituras, para que seja levada adiante a ideia de construir-se um grande hospital em São Paulo, que, de certo, pudesse resolver momentaneamente o grave problema que nos assoberba.

E foi o que se fez. Os elementos que se acham à testa desse nobre empreendimento, já autorizados para isso, remeteram a todos os prefeitos do interior ofícios sugerindo a aplicação de determinada porcentagem da arrecadação municipal em benefício dessa obra.

A evidente oportunidade da ideia e, mais do que isso, os seus fins, fazem antever o mais completo êxito para a obra planejada. Já numerosas respostas têm chegado e continuam a chegar diariamente ao escritório onde se acha instalada a secretaria da Campanha Pró-Hospital São Paulo, revelando o apoio que se esperava das municipalidades paulistas.

É grande a atividade entre os promotores dessa campanha. Aprestam-se os preparativos de organização de várias caravanas que irão cruzar em todos os sentidos o território paulista, a fim de trazer, concretizado em recursos materiais, o apoio do povo paulista para esse grande empreendimento.

          Em 2 de fevereiro de 1936, o jornal O Estado de São Paulo publicou artigo intitulado “Hospital São Paulo”, com uma grande foto do projeto do hospital sobre a qual está escrito: “Com grande animação prossegue a campanha em favor do Hospital São Paulo”. Seguiu-se o seguinte texto:

É grande o interesse que vem despertando o prosseguimento da campanha iniciada em favor da construção do Hospital São Paulo.

Dada a notória deficiência de nossa organização hospitalar, não poderia ser mais oportuna a iniciativa de se dotar a nossa capital de mais um grande hospital, a fim de atender especialmente os indigentes[2], mormente do interior do Estado. Este hospital disporá de cerca de 700 leitos e seu caráter eminentemente popular atrai sobre ele as simpatias de todos os que não desconhecem a grave lacuna existente em nosso meio nesse particular.

Lançada a ideia de se construir o Hospital São Paulo, foi o próprio diretor do Departamento de Municipalidades, sr. Dr. Domício Pacheco e Silva, um dos primeiros a dar a ela sua adesão, recomendando às prefeituras municipais que colaborassem, na medida de suas possibilidades, nessa obra. Ao apelo dessa autoridade não tardaram a ser dadas respostas favoráveis das prefeituras do interior do Estado, dentre as quais se destacam: Presidente Venceslau, Jacupiranga, Botucatu, Monte Alto, Potirendaba, Monte Mor, São Sebastião, Guaratinguetá, Atibaia, Guararema, Jaboticabal, Novo Horizonte, Indaiatuba, São José dos Campos.

No mesmo sentido, foi dirigido pelo sr. Celso Morato Leite um ofício a todos os maquinistas do benefício do algodão em nosso Estado.

Secundando o apelo dirigido pelo Dr. Domício Pacheco e Silva, diversos deputados estaduais dirigiram também ofícios às prefeituras do interior, pondo em relevo a utilidade da iniciativa. Apoiaram às autoridades municipais os seguintes deputados: Dr. Alarico Franco Caiuby, Dr. Benedito Montenegro, coronel Francisco Vieira, Dr. J. A. Souza e Silva, Dr. Elias Machado, Dr. Francisco Mesquita, Dr. J. Pinto Antunes, D. Maria Thereza Barros Camargo, Dr. Motta Filho, Sylvio de Andrade Coutinho, Dr. Thiago Masagão, Dr. Valentim Gentil, sr. Amaral Mello, Dr. Celso Junqueira, Dr. Cory Gomes Amorim, Dr. Dante Delmanto, Leonel Benevides de Rezende, Maciel de Castro, Renato Bucuri Netto, Dr. Toledo Artigas, Dr. Valdomiro Silveira, Dr. Bento Sampaio Vidal.

Atendendo ao apelo que lhes foi feito no sentido de facilitarem o trabalho das caravanas que deveriam percorrer o interior, algumas Companhias de Estradas de Ferro já se manifestaram favoravelmente.

A Partida das Caravanas

Conforme foi noticiado, partiram ontem as primeiras caravanas de professores e estudantes, a fim de pleitearem junto às populações do interior a sua colaboração na obra do Hospital São Paulo.

Ontem – Caravana n. 8 dividida em três etapas: de Campinas a Limeira, tendo como chefe o Prof. Dr. Paulo Mangabeira Albernaz. De Rio Claro a Pirassununga, chefiada pelo Prof. Dr. André Dreyfus. De Palmeiras a Descalvado, cujo chefe é o Prof. Dr. Antonio Bernardes de Oliveira. Fazem parte desta caravana os acadêmicos Favorino Rodrigues do Prado Junior e Isaac Prujansky.

Hoje – Caravana n. 2, em duas etapas: São Roque, Sorocaba, Tatuí, chefiada pelo Prof. Dr. Álvaro Guimarães Filho e Itapetininga, Faxina e Itararé, cujo chefe é o Prof. Dr. José Barbosa Correa. São componentes os acadêmicos Rubens Arantes de Moraes. Francisco Lascala de Moraes e Mário Junqueira Schmidt.

Caravana n.3: cuja primeira etapa compreende as cidades de Itu, Porto Feliz e Tietê, tendo como chefe o Prof. Dr. José Ignacio Lobo; na segunda etapa incluem-se as cidades de Capivari, Piracicaba e São Pedro. Fazem parte os acadêmicos Alberto M. Balthasar e Felício Del Nero.

Seguirá no dia 4 a Caravana n.7 – para Ribeirão Preto, Sertãozinho, Orlândia, São Joaquim, Ituverava, Igarapava, Batatais, Patrocínio, Sapucaí e Franca. Será chefe até São Joaquim o Prof. Dr. Otto Bier e de Ituverava a Franca o Prof. Dr. Felício Cintra do Prado. Os acadêmicos Mário Setzer e Carlos Ary Machado são os componentes desta caravana.

 

Fonte bibliográfica:

Neves, AC. História da Residência Médica na Escola Paulista de Medicina – Os Primórdios. Editora Companhia Ilimitada, 2016, pp. 69-75.



[1] Este texto de O Estado de São Paulo que tem similaridades com o texto do Correio Paulistano pode ter tido o mesmo jornalista como autor, que não assinou o artigo.

[2] O termo “indigente” perdurou até a criação do SUS. Era usado para designar paciente que não tivesse nenhuma afiliação a qualquer organização de saúde, como INAMPS, por exemplo.  

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Escola Paulista de Medicina - 60 anos - parte 3 - 1993 (2026)

 

Do livro “Escola Paulista de Medicina - 60 anos de História – 1933-1993”

“continuação...”

          No dia 15 de julho de 1933 foram iniciadas as atividades, com um discurso do professor Octavio, já escolhido seu primeiro diretor, e uma aula proferida por Antonio Carlos Pacheco e Silva, que seria encarregado do curso de Psiquiatria. Essa aula inaugural, intitulada “Iniciação Médica” terminou com as seguintes palavras:

“Meus senhores, Chateaubriand disse que para cada um de nós há um momento crítico, bem ou mal escolhido, que decide nosso futuro. Para alunos e professores desta Escola o momento crítico é este em que iniciamos nossos cursos. A época é de incertezas, os homens do mundo inteiro têm o sobrecenho carregado e a fronte vincada pelas apreensões do dia de amanhã. Só há um meio de nos furtarmos à avalanche; é o de nos integrarmos ao nosso trabalho imaginando pertencer àquela raça de que nos fala o filósofo da Escola de Alexandria, que, graças à superioridade de suas forças e à acuidade de sua visão, contemplavam o brilho das regiões superiores, procurando elevar-se acima das nuvens e da obscuridade das coisas terrenas, alegres de residir nos domínios da verdade, como os homens que, após longa viagem, entram numa pátria bem governada”.

          Octavio de Carvalho trabalhou intensamente nos primeiros anos. Além de conseguir reunir o grupo de médicos que seriam os primeiros docentes, começou logo a empregar seu prestígio pessoal para conseguir levar à frente a nova instituição. Procurou um local onde a escola pudesse se instalar definitivamente. Entre vários locais que surgiram, foi escolhida a Chácara Schiffini, situada na rua Botucatu, em Vila Clementino, e pertencente ao Dr. Joaquim Penino, que ali instalara um serviço para atendimento de crianças anormais. Foi comprada com dinheiro fornecido pela Caixa Econômica Federal, dirigida pelo Dr. Samuel Ribeiro.

          A senhora Maria Tereza Nogueira de Azevedo havia conseguido levantar na sociedade paulista uma certa quantia que se destinava à construção de um hospital para crianças, o Hospital Piratininga. Essa importância foi doada à Escola Paulista de Medicina e com ela adaptado um edifício existente na chácara adquirida, que passou a se chamar Pavilhão Maria Tereza, nele instalando-se enfermarias de clínica e cirurgia.

          A primeira turma de alunos estava quase chegando à quarta série, quando deveria ter as primeiras aulas práticas de clínica, na Cadeira de Propedêutica Médica, dirigida pelo professor Jairo Ramos. Octavio de Carvalho procurou o conde Francisco Matarazzo (pai) e conseguiu a permissão para usar um pavilhão do Hospital Humberto Primo. Nesse pavilhão, que era bastante espaçoso, foram instaladas cadeiras e mesas para poderem ser ministradas aulas teóricas e, em outra parte colocada meia dúzia de leitos.

          As aulas práticas eram assim ministradas: os assistentes chegavam antes e iam à enfermaria, onde escolhiam casos que servissem à demonstração, levavam os doentes selecionados para o salão e cada um ocupava um leito. Os alunos eram divididos em grupos semelhantes e eram feitas as demonstrações de exame clínico, assunto da referida cadeira. Há um aspecto pitoresco que merece ser contado. Após algum tempo, os doentes acharam que estavam sendo explorados. Passaram, então, a cobrar uma taxa para servirem às demonstrações. Foi estabelecida a taxa de cinco mil réis e essa quantia era fornecida pelos próprios assistentes.

         Octavio de Carvalho continuou lutando valentemente. Conseguiu mais uma vez convencer o presidente da Caixa Econômica Federal, Dr. Samuel Ribeiro, a fazer empréstimo para a construção do Hospital São Paulo. A faculdade de Pinheiros dava as aulas práticas na Santa Casa. Assim, o Hospital da Escola Paulista de Medicina seria o primeiro hospital construído para o ensino.

Fonte bibliográfica:

Autores indeterminados in Escola Paulista de Medicina – 60 anos de História. Do livro com o mesmo título, 1993. Omni Produções Editoriais. Gráfica Poolprint. 1993, páginas 9-11.

  

domingo, 30 de agosto de 2026

Escola Paulista de Medicina “60 anos de História” - Parte 2 (1993)

 

Do livro “Escola Paulista de Medicina – 60 anos de História – 1933-1993”

         

          Fundada a escola, vários problemas logo apareceram, exigindo solução rápida. Primeiro, quais os estudantes que seriam admitidos para constituir a primeira turma: aproveitar o exame já realizado na antiga faculdade, ou fazer novo exame, abrindo-se logo inscrição para os candidatos. Foi escolhida a segunda dessas opções e inscreveram-se 96 candidatos, dos quais 88 foram aprovados e 85 matricularam-se. Os exames foram realizados nas instalações do Liceu Nacional Rio Branco, cujo diretor, professor Almeida Junior, era um dos fundadores da nova escola.

          Uma vez os alunos matriculados, alguns problemas surgiram. As atividades da Escola seriam iniciadas no meio do ano; resolveu-se então que esse problema seria contornado eliminando-se as férias de fim de ano, de modo que os alunos aprovados passariam da 1ª para a 2ª série sem interrupção das aulas. Além disso, ocorreu uma relativa hostilidade com que a Escola Paulista de Medicina foi recebida pela então Faculdade de Medicina e Cirurgia, hoje Faculdade de Medicina da USP. Essa hostilidade, pondo de parte o lado social, se traduziu na negativa de auxílio econômico do Governo do Estado e da recusa da Santa Casa de Misericórdia de fornecer cadáveres para o estudo de anatomia conforme carta firmada pelo então diretor clínico da benemérita fundação hospitalar, Dr. Sinésio Rangel Pestana. Esse impasse foi solucionado. A anatomia teve seu necrotério apropriado. Os cadáveres da Escola provinham do Hospital de Alienados do Juqueri, graças a seu eminente diretor, Dr. A. C. Pacheco e Silva, professor de Psiquiatria; do Hospital de Tuberculosos do Jaçanã e dos Leprosários. Por sua vez, o Gabinete Médico-Legal (hoje Instituto Médico Legal) enviava corpos de acidentados mortos e recolhidos pela Assistência Pública. Sem essas valiosas colaborações a vida da Escola teria sido praticamente inexequível.

          E, por fim, um problema urgente e nada fácil de solucionar: a nova faculdade necessitava arranjar recursos para a sua instalação e diversas despesas, inclusive contratação imediata de alguns funcionários indispensáveis.

          Resolveram seus fundadores contribuir financeiramente de modo a constituir um fundo que atendesse às primeiras necessidades. Em uma reunião realizada a 5 de junho de 1933, propôs Pedro de Alcântara que cada fundador contribuísse com dois contos de réis, em prestações de 500 mil réis, até perfazer dois contos. Marcos Lindenberg discordou e propôs que chegassem a 5 contos cada um, de qualquer maneira. Seria assim: 500 mil réis no ato inicial, 500 mil réis dentro de trinta dias e o restante a 1 conto de réis por ano, pagável em março de cada ano, até 1937. Essa proposta foi aprovada.

          Outros problemas urgentes: arranjar local onde a escola pudesse instalar-se provisoriamente e contratar alguns funcionários indispensáveis para o início das atividades.

          Os próprios alunos procuraram contribuir e encontraram uma propriedade que estava para ser alugada e que servia para a instalação inicial, localizada no bairro do Paraíso, na esquina das ruas Oscar Porto e Abílio Soares.

          Foram contratados logo os seguintes funcionários: Francisco de Assis e Almeida, para secretário geral; Ida Paulini para os serviços burocráticos; J. Duarte Barbosa, para tesoureiro; Alfredo Fragoso Pereira para almoxarife.

          O professor Octavio de Carvalho agiu rapidamente. Conseguiu reunir um grupo de professores de alto nível e contratar o aluguel do imóvel citado, adaptando-o para o início das aulas. A primeiro de junho era lançado o manifesto de criação da Escola Paulista de Medicina, já citado anteriormente. Nem todos que assinaram o manifesto inicial dedicaram-se às atividades didáticas, assim como alguns que não chegaram a assiná-lo aderiram logo ao grupo formado.

          No dia 15 de julho de 1933... [a continuar na parte 3]

 

Fonte bibliográfica:

Autores indeterminados in Escola Paulista de Medicina – 60 anos de História. Do livro com o mesmo título, 1993. Omni Produções Editoriais. Gráfica Poolprint. 1993, páginas 8-9.

Observação: esses autores preferiram ficar sem identificação pessoal. Estavam presentes ex-alunos da primeira turma da EPM e outros.

 

  

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Escola Paulista de Medicina “60 anos de História” – Parte 1 (1993)

 

Do livro “Escola Paulista de Medicina – 60 anos de História – 1933-1993”

 

          Nos primeiros anos da década de trinta, São Paulo viveu um período de grande insatisfação. Instalado o chamado governo provisório de Getúlio Vargas, São Paulo trabalhava para a volta ao governo constitucional, e como não havia sinais de que esse desejo fosse concretizado, a insatisfação aumentava dia a dia, até que, em 1932 estourava com a revolução constitucionalista, iniciada a nove de julho.

          Havia em São Paulo, nesse tempo, apenas uma Faculdade de Medicina e esta limitava a admissão a sessenta alunos anuais. A procura por vagas nos cursos médicos era grande e, sendo pequena a oferta, grande número de estudantes se deslocava para outros estados, principalmente Rio de Janeiro, Bahia e Paraná. Calcula-se que, nesse período, cerca de 1500 estudantes paulistas faziam seus cursos em outros estados. A maioria deles retornava a São Paulo, terminado o curso, sendo poucos aqueles que acabavam se fixando nos estados para onde haviam se dirigido. Além disso, eram poucas as oportunidades que tinham aqueles que desejavam seguir carreira universitária, fazendo e defendendo suas teses de doutoramento e concurso para obter o título de livre-docente.

[esses títulos eram diferentes do que depois se tornaram; até 1937 todos que se formavam em medicina tinham que apresentar ‘tese de doutoramento’ que era mais um ‘trabalho de conclusão de curso’].

          Não sabemos até que ponto essa insatisfação dos paulistas colaborou para a fundação da nova escola em São Paulo, mas parece fora de dúvida que tenha tido influência. No discurso que deu início às atividades da escola e no manifesto lançado por seus fundadores, sente-se que havia sentimentos feridos e São Paulo, como principal estado da Nação, não aceitava com tranquilidade a situação criada.

          No manifesto lê-se o seguinte: “A anormalidade da vida espiritual e material que há longos anos vem assolando a humanidade e que tão intensamente tem repercutido em nossa Pátria, não teve o dom de prostrar o povo paulista. A vitalidade espiritual de São Paulo tem o vigor das forças naturais incoercíveis, a que o homem pode dar uma direção, mas nunca opor um obstáculo eficaz”.

          E o discurso proferido por Octavio de Carvalho, já então escolhido como seu primeiro diretor, a 15 de julho de 1933, começava assim: “Qual as nascentes cabeceiras, que, uma a uma, afluem e se confluem para formar o Amazonas, o Nilo e as catadupas do Niagara, arrastando barreiras, lutando contra obstáculos intransponíveis, porém avançando sempre, nasceu a Escola Paulista de Medicina, oriunda, por sua vez, de acontecimentos sociais inelutáveis”.

          E, mais adiante, encontramos o seguinte trecho: “A Escola Paulista de Medicina não é aventura, nem leviandade daqueles que assumiram a responsabilidade de sua ereção. Ela se ergue pobre na simplicidade de suas instalações, porém suficientes; modesta na parcimônia justa de seus instrumentários, porém soberba na majestade de seu idealismo desinteressado”.

          Vislumbra-se nessas palavras o orgulho ferido pelos acontecimentos do ano anterior.

          No começo de 1933 foi realizado o vestibular para a Faculdade de Medicina já existente. Preenchidas as sessenta vagas oferecidas, sobrou um grande número de estudantes que, embora obtendo notas suficientes para serem admitidos, não conseguiram a matrícula desejada. Nessas condições estavam mais de cem estudantes. Começaram, então, a reunir-se tentando modificar a situação.

          Essas reuniões se realizavam na antiga sede da Faculdade de Medicina, na rua Brigadeiro Tobias. A faculdade existente já havia sido transferida para a nova sede, em Pinheiros, e no antigo prédio se instalara um ginásio particular, o Ginásio Guilherme de Almeida. Seu proprietário e diretor era pai de um dos estudantes excedentes e daí o fato de terem suas instalações abertas ara facilitar as reuniões.

          O que se discutia nessas reuniões era a possibilidade de se conseguir que o curso já existente fosse desdobrado em duas turmas, de modo que seriam absorvidos pelo menos mais sessenta alunos. Isso era o que se pleiteava, mas sabia-se que a possibilidade de ser conseguido era muito remota.

          Nessa ocasião, Octavio de Carvalho já tinha ideia de provocar a instalação de nova faculdade de medicina em São Paulo. Já iniciara contato com alguns elementos, em geral jovens e de grande possibilidade. Achou, então, que a ocasião era oportuna para concretizar sua ideia. Em uma das reuniões realizadas pelos excedentes, compareceu um senhor que ninguém conhecia. As reuniões se realizavam num grande anfiteatro existente nos fundos da antiga faculdade. Ninguém sabia quem era o novo personagem até que ele pediu a palavra, identificou-se [Octavio de Carvalho] e contou que estavam sendo dados os primeiros passos para a fundação de nova faculdade de medicina em São Paulo.

          Suas palavras empolgaram os presentes e, não se sabe se por considerarem a causa pleiteada de difícil aceitação, ou se sua postura e exposição foram realmente convincentes, houve logo certo grau de aceitação de sua proposta e a maioria dos estudantes achou que essa seria a melhor solução para o problema existente.

          Foi logo marcada nova reunião, esta no Trianon, na Avenida Paulista, e já dessa vez compareceram alguns dos professores engajados na empreitada. O que mais se destacou foi aquele que seria o primeiro a dar um curso na nova faculdade, o Prof. João Moreira da Rocha. Estava lançada a ideia, agora com o apoio de grande número de estudantes.

Fonte bibliográfica:

Autores indeterminados in Escola Paulista de Medicina – 60 anos de História. Do livro com o mesmo título, 1993. Omni Produções Editoriais. Gráfica Poolprint. 1993, páginas 6-8.

 

         

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Um texto dos 60 anos da EPM em 1993

 

Residência Médica do Hospital São Paulo – Escola Paulista de Medicina

Texto do livro “Escola Paulista de Medicina – 60 anos de História”, de 1993.

 

          A Residência Médica no Hospital São Paulo/Escola Paulista de Medicina iniciou-se oficialmente em 1960, seguindo a mesma concepção dos programas criados no começo do século nos Estados Unidos, sob a inspiração de Osler, e nos anos 50 no Brasil, onde foram pioneiros o Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro e o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

          Uma tentativa fracassada de instalação da Residência Médica na Escola Paulista de Medicina, de muito curta duração, aconteceu na década de 50.

          Um grupo de bolsistas da Escola, nos Estados Unidos, impressionou-se com a importância desse tipo de treinamento profissional, chegando mesmo a elaborar, em um frio inverno de 1953-54, na Filadélfia, um regimento para sua implantação.

          Regressando, contando com o apoio decidido do Departamento de Medicina, deram início à obra, que não vingou, devido à tenaz oposição de alguns professores, catedráticos que eram, que não aceitaram a ideia de receber em seus Serviços, profissionais que não fossem da sua escolha.

          Assim, a Residência Médica surge no Hospital São Paulo em princípios da década de 60. Era uma estrutura incipiente, mas suficientemente organizada, para se chamar Residência Médica. Era composta de dois ciclos básicos: o clínico e o cirúrgico, onde se distribuíam os seus vinte médicos, 10 clínicos e 10 cirurgiões. A especialidade só era permitida no 3º ano da Residência Médica.

          Nos 3 primeiros anos de sua fundação, fruto da grande eficiência desse tipo de ensino, houve uma rápida organização do sistema. A hierarquia era rígida, a disciplina levada a sério e a dedicação ao doente era total. O Chefe dos Residentes era o “senhor todo poderoso”. O regime de trabalho era de dedicação exclusiva. Na seleção dos médicos residentes, as mulheres eram “preteridas” aos homens e os “casados” dificilmente eram escolhidos. Havia necessidade de morar na Residência. Não existia horário de trabalho (eram as 24 horas) e os residentes que se ausentassem do HSP teriam que voltar antes das 22 horas. O quarto do Chefe dos Residentes era o primeiro, na entrada da Residência, situado no 1º andar onde hoje se localiza a Diretoria do HSP. Daí ele controlava facilmente a entrada e saída dos seus comandados.

          Essa disciplina tão rígida não impedia que algumas vezes se disputassem partidas de boliche, onde o campo era o corredor, as bolas as laranjas do lanche e os pinos as garrafas de refrigerantes que sempre acompanhavam o tradicional lanche da meia-noite, que encerrava oficialmente o dia de labuta.

          Raras vezes, é verdade, mas não se tratando de extrema exceção, os pudicos olhares da legendária Madre Richarda eram agredidos por figuras passeando nos largos parapeitos das janelas do 1º andar em trajes menores.

º          Essa mescla de atitudes de extrema responsabilidade para com o doente e outras atitudes inusitadas caracterizaram os primeiros anos da nossa Residência. Baseado no seu intenso trabalho, eles tornaram-se tão necessários à Instituição, que adquiriram o poder de fazê-la.

          No transcorrer da década, a Residência foi-se institucionalizando: o pediatra não precisava mais passar 1 ano na Clínica Médica, o tocoginecologista necessitava fazer somente 1 ano de Cirurgia Geral. Essa estrutura caminhou para os ciclos de especialidade.

          Em 1966, realizou-se o 1º Congresso Brasileiro de Residentes na EPM e HSP, lançou-se a ideia da Associação Nacional dos Residentes.

          A Residência Médica, um sistema que demonstrou ser tão bom, quase se tornou vítima de sua própria eficiência. As boas instituições abusaram do poder de trabalho dos Residentes e as instituições ruins utilizaram-no como mão de obra barata.

          Destes dois fatores surgiu uma série de movimentos sociais, de greves praticamente anuais, que, de repente, colocaram em perigo a própria instituição da Residência.

          É bem verdade que foi o segmento da sociedade que conseguiu mais direitos sociais em curto espaço de tempo. Só para exemplificar, a licença paternidade é um direito dos residentes já há longos anos.

          A Residência Médica é, atualmente, a maior, mais testada e bem estruturada modalidade de formação profissional em qualquer área do conhecimento. Seu princípio básico é o treinamento em serviço, em tempo integral, sob supervisão de docente ou profissional qualificado. Desta maneira, o jovem profissional aprende o seu ofício exercendo plenamente a atividade médica, mas sob supervisão de um indivíduo mais treinado, num ambiente de ensino e pesquisa. Além disso, neste modelo, no sentido de desvincular o médico-residente de uma relação de dependência junto às unidades onde estagia, ele responde hierarquicamente a uma comissão central do hospital ou escola médica, que coordena suas atividades e lhe proporciona bolsa, alimentação e moradia.

          No HSP/EPM, algumas características peculiares da Residência Médica reforçam, ainda mais, a qualidade de formação do médico. Assim, o médico-residente tem a responsabilidade médica principal frente aos pacientes, participando de todas as atividades ligadas ao diagnóstico e tratamento; fato que lhe permite exercer intensamente a profissão e adquirir mais rapidamente a maturidade. Além disso, conceitualmente na nossa instituição, antes da especialização, é sempre necessário pelo menos 1 ano de trabalho em atividades gerais, o que proporciona a formação de especialistas com excelente visão geral de medicina. Ademais, os estágios são rotatórios entre as diversas disciplinas e unidades, o que favorece a exposição a professores com estilos e capacidades diferentes, fator estimulador do desenvolvimento de espírito crítico e independência, traços essenciais para formação do médico. Finalmente, além dos professores, os residentes mais velhos e pós-graduandos estão anexados sistematicamente ao programa de ensino, o que lhes desenvolve a capacidade de ensinar – característica importante na atividade médica, além de aumentar enormemente a capacidade didática da instituição.

          A Residência Médica no Brasil é regulamentada desde a década de 70, quando o Ministério da Educação criou a Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), órgão que autoriza o funcionamento de novos programas e fiscaliza aqueles em andamento a cada 5 anos. Além disso, a Residência Médica é pré-requisito nos Cursos de Pós-Graduação na área profissional.

          No HSP/EPM a Residência Médica é coordenada pela Comissão de Residência Médica e Estágio (COREME), órgão ligado ao Conselho Departamental e à Diretoria da EPM, e constituída por representantes de todos os departamentos onde existam programas credenciados pela CNRM.

         Temos atualmente 32 programas credenciados pela CNRM, implantados progressivamente desde 1960 até 1992, que incluem áreas de Anatomia Patológica, Anestesiologia, Cardiologia, Cirurgia Gastroenterológica, Cirurgia Geral, Cirurgia Pediátrica, Cirurgia Plástica, Cirurgia Torácica e Cardíaca, Cirurgia Vascular Periférica, Clínica Médica, Dermatologia, Doenças Infecciosas e Parasitárias, Endocrinologia e Metabologia, Fisiatria, Gastroenterologia, Ginecologia e Obstetrícia, Hematologia e Hemoterapia, Medicina Preventiva e Social, Nefrologia, Neurocirurgia, Neurologia, Neuropediatria, Oftalmologia, Ortopedia e Traumatologia, Otorrinolaringologia, Pediatria, Pneumologia, Psiquiatria, Radiologia, Radioterapia, Reumatologia, Urologia.

         Estes programas incluem 121 médicos no 1º ano, 121 no 2º ano, 76 no 3º ano e 15 no 4º ano, totalizando 333 alunos.

        A Residência Médica do HSP/EPM formou, desde 1960, cerca de 3.000 profissionais, provenientes de quase todas as faculdades de Medicina do Brasil, hoje em atuação em diversos estados e universidades. Na nossa Instituição sua importância é ainda mais realçada pelo fato de que 90% dos nossos professores da área profissional, graduados depois de 1960, terem sido ex-residentes do HSP/EPM.

        A Residência, portanto, é uma instituição estável e equilibrada e sem dúvida a melhor experiência de ensino de Pós-Graduação “senso lato” para a profissão médica.

Comissão de Residência Médica e Estágio. Presidentes da COREME:

Até abril 1972 – Prof. Dr. Azarias de Andrade Carvalho

De maio 1972 a dezembro 1975 – Prof. Dr. Oswaldo Luiz Ramos

De janeiro 1976 a outubro 1979 – Prof. Dr. Antonio Rubino de Azevedo

De novembro 1979 a novembro 1980 – Prof. Dr. Manuel Lopes dos Santos

De dezembro de 1980 a abril 1983 – Prof. Dr. Ulysses Fagundes Neto

De abril 1983 a agosto 1984 – Prof. Dr. Álvaro Nagib Atallah

De setembro 1984 a abril 1985 – Prof. Dr. Luc Louis Maurice Weckx

De abril 1985 a abril 1987 – Prof. Dr. Luiz Antonio Nogueira Martins

De maio 1987 a abril 1989 – Prof. Dr. Mauro Batista de Morais

De abril 1989 a abril 1991 – Prof. Dr. Ladislau Ruy Ungar Glausiusz

De abril 1991 a março 1993 – Prof. Dr. Rui Monteiro de Barros Maciel

 

Fonte bibliográfica:

“A Escola Paulista de Medicina – 60 anos de História”. Gráfica Poolprint, 1993, páginas 237-240.  

            

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Biografia do Prof. Dr. Álvaro Guimarães Filho

 



Biografia do Prof. Dr. Álvaro Guimarães Filho

A partir de textos de Henrique A. Paraventi e Hélio Begliomini

 

          Nascido em São Paulo, a 29 de agosto de 1901, Álvaro Guimarães Filho estudou em São Paulo no Colégio São Bento e no Rio de Janeiro no Ginásio Oswaldo Cruz.

          Em 1925, graduou-se pela Faculdade de Medicina de São Paulo. Durante o curso médico foi interno da Segunda Enfermaria de Homens da Santa Casa de São Paulo, na Cátedra de Clínica Médica dirigida por Rubião Meira, onde foi supervisionado por Lemos Torres. Nessa ocasião, essa Segunda Enfermaria de Homens da Santa Casa já chamava a atenção e era um renomado centro de estudos médicos, de modo que daí sairiam vários professores da Escola Paulista de Medicina.

          Durante o sexto ano do curso médico, Álvaro Guimarães Filho foi também interno efetivo da “Assistência Policial de São Paulo”, que é como se chamava o primeiro serviço de pronto socorro da cidade de São Paulo. Foi eleito vice-presidente e depois presidente do “Centro Acadêmico Oswaldo Cruz”. Nessa ocasião, ele chefiava a delegação de universitários médicos paulistas, de modo que levaram ao Primeiro Congresso Interestadual de Medicina o trabalho intitulado “Estudo Clínico do Carcinoma Primitivo do Esôfago”.

          Defendeu sua tese inaugural após sua formatura em 23 de março de 1926 com o título “Higiene Mental e sua importância em nosso meio”. Ainda em 1926 viajou à Europa, de modo que estagiou em Paris na Maternidade Baudelocque e no Hospital Broca, recebendo ensinamentos de Couvelaire e Faure. Em Berlim, fez cursos de aperfeiçoamento com Strassman, Straus e Kristeller. Ainda em Viena frequentou na Universidade a Segunda Enfermaria de Mulheres, sob a orientação de Kermauner.

          Após meses de permanência nesses centros médicos, retornou ao Brasil em 1927, onde foi admitido como assistente voluntário da Clínica Obstétrica da Faculdade de Medicina de São Paulo, sob a chefia de Raul C. Briquet. Ali organizou o serviço de Pré-Natal e a Seção de Urologia Feminina, bem como o Departamento de Radiodiagnóstico Obstétrico. Em 1933 foi alçado à chefia clinica dessa disciplina.

         Suas atividades didáticas começaram em 1931, quando foi nomeado professor de Enfermagem Cirúrgica, na Escola de Obstetrícia e Enfermagem Especializada de São Paulo, anexa à Clínica Obstétrica da Faculdade de Medicina.

          Em 1932, quando do Movimento Constitucionalista, exerceu a função de auxiliar médico da Superintendência dos Serviços Auxiliares de Saúde.

          Em 1933, Paula Souza o encarregou de organizar o Serviço de Higiene Pré-Natal, no Centro de Saúde, do então Instituto de Higiene de São Paulo, primeira organização desse gênero instalada no Brasil. Nesse mesmo ano foi designado como Professor Catedrático da Clínica Obstétrica da recém fundada Escola Paulista de Medicina. Essa designação viria a ser desempenhada na prática alguns anos depois, em 1938.

         Participou como sócio fundador da Associação Paulista de Medicina, onde exerceu a presidência do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia.

         Em 1935, foi laureado pela Academia Nacional de Medicina, juntamente com Lemos Torres e Jairo Ramos, com o prêmio e medalha de ouro “Madame Durocher”, pelo trabalho “Coração na Gravidez”, em que consignaram a conduta aplicada à gestante cardiopata.

         Em suas variadas atividades como professor deu grande realce aos métodos de proteção materna e infantil, preocupando-se com o problema da mortalidade e morbilidade maternas e perinatais. Foi grande cultor da semiologia obstétrica, da fisiologia da parturição e da orientação nutricional da gestante.

         Em 1937, tornou-se o primeiro a atingir a Livre Docência da Clínica Obstétrica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

         Com a criação da Faculdade de Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo, foi empossado como Professor Catedrático da Cadeira de Higiene Materna, onde permaneceu até a aposentadoria. Também foi Diretor da mesma faculdade. Integrou o órgão denominado Conselho Universitário de São Paulo. Nessa faculdade orientou variados profissionais de saúde.

          Por muitos anos dirigiu o periódico “Revista de Ginecologia e Obstetrícia de São Paulo”.

          Foi membro do Conselho Superior de Administração da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, por designação do então Cardeal Motta. Foi perito em questões matrimoniais do Tribunal Eclesiástico da Arquidiocese de São Paulo. Foi um dos organizadores da Pró-Matre Paulista.  

          Por solicitação de Lemos Torres, fundou a “Escola de Enfermeiras de São Paulo” e, juntamente com um grupo de senhoras da sociedade paulista, fundou o Amparo Maternal.

         Com a súbita morte de Lemos Torres em 1942, foi eleito Diretor da Escola Paulista de Medicina. Durante quatorze anos manteve essa atividade em conjunto com seus afazeres docentes e de pesquisa. Participou de bancas examinadoras as mais variadas em todo o Brasil.

          Enquanto foi diretor da EPM ocorreram: a ampliação do prédio da escola e a conclusão do Hospital São Paulo, após árduas lutas e reivindicações junto ao Governo Federal para conseguir solucionar a dívida do Hospital com a Caixa Econômica Federal. Segundo a fonte consultada, em 1 de dezembro de 1949 ocorreu um ato público de doação do Hospital São Paulo à Escola Paulista de Medicina, através da Lei Federal 939, sancionada pelo Presidente da República Marechal Eurico Gaspar Dutra, sendo Ministro da Educação e Cultura o Prof. Dr. Clemente Mariani, tendo havido o apoio para esse intento do Deputado Federal paulista Dr. Horácio Lafer. Ainda sob essa gestão foi construído o pavilhão de Patologia nomeado como Edifício Lemos Torres.

          Em 1966, ao atingir a idade limite, foi jubilado pela Escola Paulista de Medicina. Após isso, continuou á frente da direção do Amparo Maternal, onde foi diretor por 37 anos. Foi incompreendido, caluniado, mas também aplaudido e amado.

          Sua sucessora na direção do Amparo Maternal, irmã Anita, dizia que ele era enérgico, mas bem-humorado, frequentemente dizendo a frase: “Entrei pelos canos e saí canonizado”. Disse ela que ele ajudou inúmeras mães e crianças que compareceram a seu sepultamento e disseram: “perdemos nosso pai”.

          Álvaro Guimarães Filho faleceu em São Paulo em 12 de setembro de 1981, aos 80 anos. Seu nome é dado ao patrono da cadeira 61 da Academia de Medicina de São Paulo. Também é nome de rua em São Paulo na Vila Império e nome de anfiteatro na Escola Paulista de Medicina.

Fontes bibliográficas:

Paraventi, H. A. Álvaro Guimarães Filho in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Organizado por José Ribeiro do Valle, 1977, pp. 24-28.

Begliomini, H. Biografia de Álvaro Guimarães Filho. Site da Academia de Medicina de São Paulo. 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Roque de Mingo, escultor do busto de Lemos Torres

          Roque de Mingo (1890-1972) é uma personalidade principalmente da primeira metade do século XX em São Paulo, que tem sido descoberto mais recentemente. Foi escultor e fundidor, que se inseriu no campo artístico a partir de ser fundidor artístico. Galgou posições até se tornar presença frequente na comissão de jurados da seção de  escultura do Salão Paulista de Belas Artes. Filho de imigrantes italianos, nasceu em São Paulo. Seu trabalho em fundição de bronze foi a forma que achou para iniciar seu trabalho em escultura, já que sua família não tinha condições de financiar a ele a Escola de Belas Artes no Rio de Janeiro. Assim, acabou trabalhando e estudando no ateliê do escultor italiano Paschoal de Chirico. Depois ele trabalhou na oficina de fundição do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, chefiada pelo escultor Amadeu Zani. Em 1913, Roque tornou-se chefe dessa oficina. A partir daí, participou de vários concursos para obras, às vezes ganhando, outras vezes perdendo. Por vezes fazia a fundição de obras de outros autores. Foi premiado em vários concursos. Em 1942 realizou o busto de Lemos Torres que fica na entrada da Escola Paulista de Medicina. Faleceu em São Paulo em 1972.  









Roque de Mingo



Fontes bibliográficas:

Scarelli, R. D. (2024). Arte e ofício: a trajetória do escultor e fundidor Roque de Mingo em São Paulo na primeira metade do século XX. Revista Do Instituto De Estudos Brasileiros1(88), 1-34. https://doi.org/10.11606/issn.2316-901X.88.2024.229335

Roque de Mingo. Wikipedia.