A
partir de texto do Prof. Dr. José Carlos Ramos de Oliveira
José Ramos de Oliveira Júnior, que se
tornou mais conhecido como José Ramos Junior, nasceu na cidade de Cachoeira
Paulista, no estado de São Paulo, no dia 5 de novembro de 1911. Filho de José
Ramos de Oliveira e de Dona Noêmia Macedo Ramos de Oliveira, passou sua
primeira infância em sua cidade natal, e depois mudou-se com os pais para a
capital do estado, vindo a morar no bairro do Brás.
José Ramos teve uma irmã e dois
irmãos, sendo que o mais novo também estudou medicina, tornando-se cirurgião e
professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o Prof. Dr.
Mário Ramos de Oliveira, que, além disso, chegou a ser Diretor dessa mesma
Faculdade.
O professor José Ramos Júnior, como
era conhecido no meio acadêmico e profissional, fez seus estudos secundários no
“Gymnasio do Estado de São Paulo”, onde ingressou em 1924 e bacharelou-se
no ano de 1929, conforme se designava então essa formatura algo equivalente a
um segundo grau, guardadas as devidas diferenças.
Após um ano de preparação, ele ingressou
na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, graduando-se médico na
turma de 1936. Durante o curso de medicina, José Ramos Junior dava aulas
particulares a alunos interessados em prestar exames para o ingresso na
Faculdade de Medicina, de modo que, com isso, desenvolveu sua aptidão para ser
professor.
Ele fez estágios em Clínica Médica no
serviço do Prof. Rubião Meira na Santa Casa de São Paulo e no serviço do Prof.
Jairo Ramos na Escola Paulista de Medicina, onde, além da assistência aos
pacientes, ministrava ensinamentos a graduandos de medicina e médicos
recém-formados. Inclusive, ele foi citado pelo Prof. Dr. José Reynaldo
Marcondes no livro sobre os 40 anos da Escola Paulista de Medicina, a respeito
do ensino prático a partir de 1936, conforme vemos no texto a seguir (grifo
nosso):
“Éramos
todos da 2ª Enfermaria da Santa Casa, serviço do Prof. Rubião Meira, recrutados
pelo Jairo para iniciar o ensino de Clínica Propedêutica Médica na EPM. O
método da Escola Lemos Torres – o ensino objetivo, o exame integral acurado do
doente e sua técnica, o ensino individual, a valorização dos fatos concretos, o
método de raciocínio que leva ao diagnóstico, afastadas as ideias preconcebidas
e desmoralizada a intuição clínica – ia ser semeado na nova escola por aquele
que melhor aprendera os seus princípios, Jairo Ramos. A EPM não tinha hospital
nem ambulatório, aventuraram um à Rua Tabatinguera. Octavio de Carvalho
conseguiu que a direção do Hospital Matarazzo cedesse uma enfermaria vazia, sem
leitos e sem doentes. Comprou camas, colchões e iniciamos o ensino. As aulas
começavam a uma hora da tarde. Eu chegava antes e convidava os doentes que
estavam repousando no jardim do hospital a virem se deitar nas camas a fim de
que, em seus corpos, se ensinasse a propedêutica física – inspeção, palpação,
percussão e ausculta. Vieram no início por curiosidade e a dois mil réis.
Depois era preciso que eu os trouxesse pelo braço e com palavras de persuasão.
Em seguida foi preciso aumentar o preço: cinco mil réis e muita lábia. Mas
ensinávamos. Cada assistente – Sabino, Tranchese, Lotufo, Ignácio, José
Ramos, Macedo, João Grieco, Reynaldo – ensinava – ensinava a turmas de 6 a
8 estudantes. Após esta aula prática havia outra teórica, quase sempre ministrada
pelo Jairo, que chegava mais tarde. Foi uma luta, principalmente por parte dos
que tinham que acomodar os doentes, cada vez menos dispostos a colaborar. Mas
só isto não bastava. Mais de uma vez eu levei em meu automóvel um doente e sua
observação clínica, da 2ª Enfermaria. Eu almoçava em casa e seguia para a aula
do Jairo, depois de nossa aula prática, desta vez com um caso clínico mesmo.”
Podemos ver, então, que o Prof. Dr.
José Ramos Junior recebeu sua formação nessa assim chamada “Escola Lemos Torres”
que caracterizava toda uma inovação na maneira de abordar o paciente e de
formular as hipóteses diagnósticas. O sucessor do Prof. Dr. Lemos Torres foi o
Prof. Dr. Jairo Ramos, ambos entre os fundadores da Escola Paulista de Medicina
em 1933 e influenciadores de José Ramos.
José Ramos Junior especializou-se em Clínica Médica e Cardiologia. Exerceu
essas atividades em consultório privado, bem como sendo médico concursado junto
ao antigo Instituto de Aposentadoria e
Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas (IAPETC), que era uma autarquia
do Governo Federal, desde sua inauguração na capital paulista em 1938. Suas
funções nessa instituição duraram até a extinção do IAPTEC em 1966, quando os
diferentes IAPs fundiram-se no antigo INPS (Instituto Nacional de Previdência
Social).
No ano de 1940, José Ramos casou-se
com a professora de ensino primário Maria Apparecida Amalfi, que adotou o nome
de casada de Maria Apparecida Ramos de Oliveira. O casal teve quatro filhos,
Maria Lúcia (secretária e agente de comércio exterior), José Carlos (também
médico e professor de Medicina), José Eduardo (engenheiro) e Maria Cecília
(professora de ensino fundamental).
No ano de 1953, a convite do
Professor Doutor Antônio Prudente, o Prof. José Ramos passou a exercer sua especialidade
de clínico no recém-inaugurado Hospital do Câncer da Associação Paulista de
Combate ao Câncer (APCC). No ano
seguinte, patrocinado pela APCC, ele fez estágio no Sloan Kettering Hospital,
em Nova Iorque, onde obteve o título de Oncologista Clínico e aprendeu os
fundamentos e a prática da quimioterapia para tratamento do câncer. Desde então,
tornou-se Diretor do Departamento de Medicina Interna do Instituto Central da
APCC até 1970.
Na década de 1950, o Prof. Dr. José
Ramos iniciou sua carreira como Professor Titular de Clínica Propedêutica
Médica da Faculdade de Medicina de Sorocaba da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo. A partir de 1970, também se tornou Professor Titular de Oncologia
Cínica da Faculdade de Medicina do Centro de Ciências Biológicas e Médicas da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, que agregou também a antiga Faculdade de Medicina
de Sorocaba.
A convite do Diretor do Departamento
de Câncer do Ministério da Saúde do Governo Federal, ministrou, com outros
oncologistas, durante os anos de 1974 e 1975, Cursos Intensivos de Oncologia
Clínica (CIOC) na maioria das capitais brasileiras. Tais cursos, de 40 horas,
tiveram por objetivo difundir a necessidade de que as escolas de medicina
ministrassem especificamente a disciplina de Oncologia Clínica em suas grades
curriculares.
Na década de 1960, recebeu o título
de Fellow of the American College of Physicians (F.A.C.P.).
O Prof. Dr. José Ramos Junior publicou vários artigos científicos, seja na
observação clínica de pacientes, como também na pesquisa clínica. Ainda nos
anos 60, recebeu o prêmio Pravaz-Recordati pelo trabalho experimental realizado
em animais de laboratório que recebiam altas doses de corticosteroides,
equivalentes ao que pacientes com câncer recebiam como tratamento, muitos
apresentando morte súbita. Nesse trabalho mostrou que as altas doses de
corticoides nos animais de experimentação, provocavam lesões necróticas no
miocárdio.
Em 1990, o Dr. Ramos Junior tornou-se Professor e Orientador contratado pela Disciplina de Clínica Médica e de Semiologia Clínica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Campinas (Unicamp), por convite do Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti, então Reitor dessa Universidade.
Além dos vários trabalhos científicos
publicados, o Prof. Ramos Jr. publicou quatro livros, onde colocou toda sua
vivência como clínico, cardiologista, oncologista e observador da alma humana.
O primeiro livro, sem dúvida o de
maior sucesso, pois ainda de uso prático até hoje, foi “Semiotécnica da
Observação Clínica- Síndromes Clínico-Propedêuticas”. Publicado em junho de
1970, pela Editora Sarvier - Editora de Livros Médicos S.A. chegou a mais 3
edições, em 2 volumes. revisadas e atualizadas por ele, e depois em mais 2 edições,
quando os dois volumes foram compostos em um único tomo pela equipe editorial. No
prefácio de sua primeira edição, o Prof. José Ramos Júnior faz a síntese do
livro com a afirmação de que a obra “mostra a prática médica do exame
clínico, a síntese da fisiopatologia de cada sintoma e de cada sinal, para
servir ao raciocínio e à compreensão das suas semiogêneses”. De certa forma,
o Professor Dr. José Ramos Junior colocou em texto detalhado uma espécie de
elaboração daquilo que começou como “Escola Lemos Torres”.
O outro livro, “Oncologia Clínica”, foi publicado também pela editora Sarvier, alcançando 2 edições (1979 e 1984). Neste livro, o Prof. Ramos Jr., ao lado da descrição pormenorizada de tumores sólidos, leucemias e linfomas, sua oncogênese, classificação e tratamento cirúrgico, quimioterápico e radioterápico, avançou em conceitos da genética dos cânceres e das perspectivas futuras da imunoterapia para o tratamento do câncer. Comentou também das razões para a criação da disciplina de oncologia clínica nos cursos de medicina, o que também indica sua originalidade e criatividade ao propor inovações no curso médico nessa ocasião.
Em 1990, o Prof. Ramos Junior publicou o livro "Disritmia Encefálica Paroxística Primária", pela Editora Sarvier. Nessa obra ele colocou como objetivo "firmar conceitos fisiopatológicos, anatomopatológicos, e pirncipalmente clínicos e da semiotécnica da Anamnese... o propósito é tornar a descrição clínica mais completa... para que a assistência ao paciente seja a mais adequada". Não vem ao caso aqui um eventual julgamento neurológico desse conceito. Trata-se antes, como ele frisou, ainda de uma abordagem clínica adequada ao paciente, dentro dos moldes da época dessa produção.
Já o médico observador da alma humana
apareceu na monografia “Personalidade”, publicada pela Editora Sarvier
em 1991. Neste trabalho, publicado no ano que antecedeu seu falecimento, o
autor colocou sua experiência como arguto observador dos tipos de personalidade
que enriqueceram sua longa vida de médico e professor. No prefácio enfatizou: “Toda
a dissertação contida nos capítulos teve a insistente preocupação didática em
reunir e sintetizar os conhecimentos científicos sobre os tipos de
personalidade...com o propósito de ser útil para o estudante de medicina, para
os médicos, para o sociólogo, para o professor, para o advogado, para o
psicólogo”.
Após ter sofrido um Acidente Vascular Cerebral Isquêmico em novembro de
1991, que limitou sua prática clínica e suas atividades docentes, o Prof. José
Ramos de Oliveira Júnior faleceu no Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, em 07
de outubro de 1992, por parada cardiorrespiratória consequente a um infarto
agudo do miocárdio.
Fontes
Bibliográficas:
Oliveira,
J.C.R. Dados Biográficos sobre o Prof. Dr. José Ramos Junior, 2023.
Valle,
J. R. – A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário
(1933-1973) e anotações recentes. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977.