Residência Médica do Hospital São Paulo – Escola Paulista de
Medicina
Texto do livro “Escola Paulista de Medicina – 60 anos de
História”, de 1993.
A Residência
Médica no Hospital São Paulo/Escola Paulista de Medicina iniciou-se oficialmente
em 1960, seguindo a mesma concepção dos programas criados no começo do século
nos Estados Unidos, sob a inspiração de Osler, e nos anos 50 no Brasil, onde
foram pioneiros o Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro e o
Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Uma tentativa
fracassada de instalação da Residência Médica na Escola Paulista de Medicina,
de muito curta duração, aconteceu na década de 50.
Um grupo de
bolsistas da Escola, nos Estados Unidos, impressionou-se com a importância
desse tipo de treinamento profissional, chegando mesmo a elaborar, em um frio
inverno de 1953-54, na Filadélfia, um regimento para sua implantação.
Regressando,
contando com o apoio decidido do Departamento de Medicina, deram início à obra,
que não vingou, devido à tenaz oposição de alguns professores, catedráticos que
eram, que não aceitaram a ideia de receber em seus Serviços, profissionais que
não fossem da sua escolha.
Assim, a Residência
Médica surge no Hospital São Paulo em princípios da década de 60. Era uma
estrutura incipiente, mas suficientemente organizada, para se chamar Residência
Médica. Era composta de dois ciclos básicos: o clínico e o cirúrgico, onde se distribuíam
os seus vinte médicos, 10 clínicos e 10 cirurgiões. A especialidade só era
permitida no 3º ano da Residência Médica.
Nos 3
primeiros anos de sua fundação, fruto da grande eficiência desse tipo de
ensino, houve uma rápida organização do sistema. A hierarquia era rígida, a
disciplina levada a sério e a dedicação ao doente era total. O Chefe dos Residentes
era o “senhor todo poderoso”. O regime de trabalho era de dedicação exclusiva.
Na seleção dos médicos residentes, as mulheres eram “preteridas” aos homens e
os “casados” dificilmente eram escolhidos. Havia necessidade de morar na
Residência. Não existia horário de trabalho (eram as 24 horas) e os residentes
que se ausentassem do HSP teriam que voltar antes das 22 horas. O quarto do Chefe
dos Residentes era o primeiro, na entrada da Residência, situado no 1º andar
onde hoje se localiza a Diretoria do HSP. Daí ele controlava facilmente a
entrada e saída dos seus comandados.
Essa
disciplina tão rígida não impedia que algumas vezes se disputassem partidas de
boliche, onde o campo era o corredor, as bolas as laranjas do lanche e os pinos
as garrafas de refrigerantes que sempre acompanhavam o tradicional lanche da
meia-noite, que encerrava oficialmente o dia de labuta.
Raras vezes,
é verdade, mas não se tratando de extrema exceção, os pudicos olhares da
legendária Madre Richarda eram agredidos por figuras passeando nos largos parapeitos
das janelas do 1º andar em trajes menores.
º Essa mescla
de atitudes de extrema responsabilidade para com o doente e outras atitudes
inusitadas caracterizaram os primeiros anos da nossa Residência. Baseado no seu
intenso trabalho, eles tornaram-se tão necessários à Instituição, que adquiriram
o poder de fazê-la.
No
transcorrer da década, a Residência foi-se institucionalizando: o pediatra não
precisava mais passar 1 ano na Clínica Médica, o tocoginecologista necessitava
fazer somente 1 ano de Cirurgia Geral. Essa estrutura caminhou para os ciclos
de especialidade.
Em 1966, realizou-se
o 1º Congresso Brasileiro de Residentes na EPM e HSP, lançou-se a ideia da
Associação Nacional dos Residentes.
A Residência
Médica, um sistema que demonstrou ser tão bom, quase se tornou vítima de sua
própria eficiência. As boas instituições abusaram do poder de trabalho dos
Residentes e as instituições ruins utilizaram-no como mão de obra barata.
Destes dois
fatores surgiu uma série de movimentos sociais, de greves praticamente anuais,
que, de repente, colocaram em perigo a própria instituição da Residência.
É bem verdade
que foi o segmento da sociedade que conseguiu mais direitos sociais em curto
espaço de tempo. Só para exemplificar, a licença paternidade é um direito dos
residentes já há longos anos.
A Residência
Médica é, atualmente, a maior, mais testada e bem estruturada modalidade de
formação profissional em qualquer área do conhecimento. Seu princípio básico é
o treinamento em serviço, em tempo integral, sob supervisão de docente ou
profissional qualificado. Desta maneira, o jovem profissional aprende o seu
ofício exercendo plenamente a atividade médica, mas sob supervisão de um
indivíduo mais treinado, num ambiente de ensino e pesquisa. Além disso, neste
modelo, no sentido de desvincular o médico-residente de uma relação de
dependência junto às unidades onde estagia, ele responde hierarquicamente a uma
comissão central do hospital ou escola médica, que coordena suas atividades e
lhe proporciona bolsa, alimentação e moradia.
No HSP/EPM,
algumas características peculiares da Residência Médica reforçam, ainda mais, a
qualidade de formação do médico. Assim, o médico-residente tem a
responsabilidade médica principal frente aos pacientes, participando de todas
as atividades ligadas ao diagnóstico e tratamento; fato que lhe permite exercer
intensamente a profissão e adquirir mais rapidamente a maturidade. Além disso,
conceitualmente na nossa instituição, antes da especialização, é sempre
necessário pelo menos 1 ano de trabalho em atividades gerais, o que proporciona
a formação de especialistas com excelente visão geral de medicina. Ademais, os
estágios são rotatórios entre as diversas disciplinas e unidades, o que
favorece a exposição a professores com estilos e capacidades diferentes, fator
estimulador do desenvolvimento de espírito crítico e independência, traços essenciais
para formação do médico. Finalmente, além dos professores, os residentes mais
velhos e pós-graduandos estão anexados sistematicamente ao programa de ensino,
o que lhes desenvolve a capacidade de ensinar – característica importante na
atividade médica, além de aumentar enormemente a capacidade didática da
instituição.
A Residência
Médica no Brasil é regulamentada desde a década de 70, quando o Ministério da
Educação criou a Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), órgão que
autoriza o funcionamento de novos programas e fiscaliza aqueles em andamento a
cada 5 anos. Além disso, a Residência Médica é pré-requisito nos Cursos de
Pós-Graduação na área profissional.
No HSP/EPM a
Residência Médica é coordenada pela Comissão de Residência Médica e Estágio
(COREME), órgão ligado ao Conselho Departamental e à Diretoria da EPM, e constituída
por representantes de todos os departamentos onde existam programas
credenciados pela CNRM.
Temos atualmente
32 programas credenciados pela CNRM, implantados progressivamente desde 1960 até
1992, que incluem áreas de Anatomia Patológica, Anestesiologia, Cardiologia,
Cirurgia Gastroenterológica, Cirurgia Geral, Cirurgia Pediátrica, Cirurgia Plástica,
Cirurgia Torácica e Cardíaca, Cirurgia Vascular Periférica, Clínica Médica,
Dermatologia, Doenças Infecciosas e Parasitárias, Endocrinologia e Metabologia,
Fisiatria, Gastroenterologia, Ginecologia e Obstetrícia, Hematologia e
Hemoterapia, Medicina Preventiva e Social, Nefrologia, Neurocirurgia, Neurologia,
Neuropediatria, Oftalmologia, Ortopedia e Traumatologia, Otorrinolaringologia,
Pediatria, Pneumologia, Psiquiatria, Radiologia, Radioterapia, Reumatologia,
Urologia.
Estes programas
incluem 121 médicos no 1º ano, 121 no 2º ano, 76 no 3º ano e 15 no 4º ano,
totalizando 333 alunos.
A Residência
Médica do HSP/EPM formou, desde 1960, cerca de 3.000 profissionais,
provenientes de quase todas as faculdades de Medicina do Brasil, hoje em
atuação em diversos estados e universidades. Na nossa Instituição sua
importância é ainda mais realçada pelo fato de que 90% dos nossos professores
da área profissional, graduados depois de 1960, terem sido ex-residentes do
HSP/EPM.
A Residência,
portanto, é uma instituição estável e equilibrada e sem dúvida a melhor
experiência de ensino de Pós-Graduação “senso lato” para a profissão médica.
Comissão de Residência Médica e Estágio. Presidentes da COREME:
Até abril 1972 – Prof. Dr. Azarias de Andrade Carvalho
De maio 1972 a dezembro 1975 – Prof. Dr. Oswaldo Luiz Ramos
De janeiro 1976 a outubro 1979 – Prof. Dr. Antonio Rubino de
Azevedo
De novembro 1979 a novembro 1980 – Prof. Dr. Manuel Lopes dos
Santos
De dezembro de 1980 a abril 1983 – Prof. Dr. Ulysses Fagundes
Neto
De abril 1983 a agosto 1984 – Prof. Dr. Álvaro Nagib Atallah
De setembro 1984 a abril 1985 – Prof. Dr. Luc Louis Maurice
Weckx
De abril 1985 a abril 1987 – Prof. Dr. Luiz Antonio Nogueira
Martins
De maio 1987 a abril 1989 – Prof. Dr. Mauro Batista de Morais
De abril 1989 a abril 1991 – Prof. Dr. Ladislau Ruy Ungar
Glausiusz
De abril 1991 a março 1993 – Prof. Dr. Rui Monteiro de Barros
Maciel
Fonte bibliográfica:
“A Escola Paulista de Medicina – 60 anos de História”.
Gráfica Poolprint, 1993, páginas 237-240.
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