segunda-feira, 20 de julho de 2026

Um texto dos 60 anos da EPM em 1993

 

Residência Médica do Hospital São Paulo – Escola Paulista de Medicina

Texto do livro “Escola Paulista de Medicina – 60 anos de História”, de 1993.

 

          A Residência Médica no Hospital São Paulo/Escola Paulista de Medicina iniciou-se oficialmente em 1960, seguindo a mesma concepção dos programas criados no começo do século nos Estados Unidos, sob a inspiração de Osler, e nos anos 50 no Brasil, onde foram pioneiros o Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro e o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

          Uma tentativa fracassada de instalação da Residência Médica na Escola Paulista de Medicina, de muito curta duração, aconteceu na década de 50.

          Um grupo de bolsistas da Escola, nos Estados Unidos, impressionou-se com a importância desse tipo de treinamento profissional, chegando mesmo a elaborar, em um frio inverno de 1953-54, na Filadélfia, um regimento para sua implantação.

          Regressando, contando com o apoio decidido do Departamento de Medicina, deram início à obra, que não vingou, devido à tenaz oposição de alguns professores, catedráticos que eram, que não aceitaram a ideia de receber em seus Serviços, profissionais que não fossem da sua escolha.

          Assim, a Residência Médica surge no Hospital São Paulo em princípios da década de 60. Era uma estrutura incipiente, mas suficientemente organizada, para se chamar Residência Médica. Era composta de dois ciclos básicos: o clínico e o cirúrgico, onde se distribuíam os seus vinte médicos, 10 clínicos e 10 cirurgiões. A especialidade só era permitida no 3º ano da Residência Médica.

          Nos 3 primeiros anos de sua fundação, fruto da grande eficiência desse tipo de ensino, houve uma rápida organização do sistema. A hierarquia era rígida, a disciplina levada a sério e a dedicação ao doente era total. O Chefe dos Residentes era o “senhor todo poderoso”. O regime de trabalho era de dedicação exclusiva. Na seleção dos médicos residentes, as mulheres eram “preteridas” aos homens e os “casados” dificilmente eram escolhidos. Havia necessidade de morar na Residência. Não existia horário de trabalho (eram as 24 horas) e os residentes que se ausentassem do HSP teriam que voltar antes das 22 horas. O quarto do Chefe dos Residentes era o primeiro, na entrada da Residência, situado no 1º andar onde hoje se localiza a Diretoria do HSP. Daí ele controlava facilmente a entrada e saída dos seus comandados.

          Essa disciplina tão rígida não impedia que algumas vezes se disputassem partidas de boliche, onde o campo era o corredor, as bolas as laranjas do lanche e os pinos as garrafas de refrigerantes que sempre acompanhavam o tradicional lanche da meia-noite, que encerrava oficialmente o dia de labuta.

          Raras vezes, é verdade, mas não se tratando de extrema exceção, os pudicos olhares da legendária Madre Richarda eram agredidos por figuras passeando nos largos parapeitos das janelas do 1º andar em trajes menores.

º          Essa mescla de atitudes de extrema responsabilidade para com o doente e outras atitudes inusitadas caracterizaram os primeiros anos da nossa Residência. Baseado no seu intenso trabalho, eles tornaram-se tão necessários à Instituição, que adquiriram o poder de fazê-la.

          No transcorrer da década, a Residência foi-se institucionalizando: o pediatra não precisava mais passar 1 ano na Clínica Médica, o tocoginecologista necessitava fazer somente 1 ano de Cirurgia Geral. Essa estrutura caminhou para os ciclos de especialidade.

          Em 1966, realizou-se o 1º Congresso Brasileiro de Residentes na EPM e HSP, lançou-se a ideia da Associação Nacional dos Residentes.

          A Residência Médica, um sistema que demonstrou ser tão bom, quase se tornou vítima de sua própria eficiência. As boas instituições abusaram do poder de trabalho dos Residentes e as instituições ruins utilizaram-no como mão de obra barata.

          Destes dois fatores surgiu uma série de movimentos sociais, de greves praticamente anuais, que, de repente, colocaram em perigo a própria instituição da Residência.

          É bem verdade que foi o segmento da sociedade que conseguiu mais direitos sociais em curto espaço de tempo. Só para exemplificar, a licença paternidade é um direito dos residentes já há longos anos.

          A Residência Médica é, atualmente, a maior, mais testada e bem estruturada modalidade de formação profissional em qualquer área do conhecimento. Seu princípio básico é o treinamento em serviço, em tempo integral, sob supervisão de docente ou profissional qualificado. Desta maneira, o jovem profissional aprende o seu ofício exercendo plenamente a atividade médica, mas sob supervisão de um indivíduo mais treinado, num ambiente de ensino e pesquisa. Além disso, neste modelo, no sentido de desvincular o médico-residente de uma relação de dependência junto às unidades onde estagia, ele responde hierarquicamente a uma comissão central do hospital ou escola médica, que coordena suas atividades e lhe proporciona bolsa, alimentação e moradia.

          No HSP/EPM, algumas características peculiares da Residência Médica reforçam, ainda mais, a qualidade de formação do médico. Assim, o médico-residente tem a responsabilidade médica principal frente aos pacientes, participando de todas as atividades ligadas ao diagnóstico e tratamento; fato que lhe permite exercer intensamente a profissão e adquirir mais rapidamente a maturidade. Além disso, conceitualmente na nossa instituição, antes da especialização, é sempre necessário pelo menos 1 ano de trabalho em atividades gerais, o que proporciona a formação de especialistas com excelente visão geral de medicina. Ademais, os estágios são rotatórios entre as diversas disciplinas e unidades, o que favorece a exposição a professores com estilos e capacidades diferentes, fator estimulador do desenvolvimento de espírito crítico e independência, traços essenciais para formação do médico. Finalmente, além dos professores, os residentes mais velhos e pós-graduandos estão anexados sistematicamente ao programa de ensino, o que lhes desenvolve a capacidade de ensinar – característica importante na atividade médica, além de aumentar enormemente a capacidade didática da instituição.

          A Residência Médica no Brasil é regulamentada desde a década de 70, quando o Ministério da Educação criou a Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), órgão que autoriza o funcionamento de novos programas e fiscaliza aqueles em andamento a cada 5 anos. Além disso, a Residência Médica é pré-requisito nos Cursos de Pós-Graduação na área profissional.

          No HSP/EPM a Residência Médica é coordenada pela Comissão de Residência Médica e Estágio (COREME), órgão ligado ao Conselho Departamental e à Diretoria da EPM, e constituída por representantes de todos os departamentos onde existam programas credenciados pela CNRM.

         Temos atualmente 32 programas credenciados pela CNRM, implantados progressivamente desde 1960 até 1992, que incluem áreas de Anatomia Patológica, Anestesiologia, Cardiologia, Cirurgia Gastroenterológica, Cirurgia Geral, Cirurgia Pediátrica, Cirurgia Plástica, Cirurgia Torácica e Cardíaca, Cirurgia Vascular Periférica, Clínica Médica, Dermatologia, Doenças Infecciosas e Parasitárias, Endocrinologia e Metabologia, Fisiatria, Gastroenterologia, Ginecologia e Obstetrícia, Hematologia e Hemoterapia, Medicina Preventiva e Social, Nefrologia, Neurocirurgia, Neurologia, Neuropediatria, Oftalmologia, Ortopedia e Traumatologia, Otorrinolaringologia, Pediatria, Pneumologia, Psiquiatria, Radiologia, Radioterapia, Reumatologia, Urologia.

         Estes programas incluem 121 médicos no 1º ano, 121 no 2º ano, 76 no 3º ano e 15 no 4º ano, totalizando 333 alunos.

        A Residência Médica do HSP/EPM formou, desde 1960, cerca de 3.000 profissionais, provenientes de quase todas as faculdades de Medicina do Brasil, hoje em atuação em diversos estados e universidades. Na nossa Instituição sua importância é ainda mais realçada pelo fato de que 90% dos nossos professores da área profissional, graduados depois de 1960, terem sido ex-residentes do HSP/EPM.

        A Residência, portanto, é uma instituição estável e equilibrada e sem dúvida a melhor experiência de ensino de Pós-Graduação “senso lato” para a profissão médica.

Comissão de Residência Médica e Estágio. Presidentes da COREME:

Até abril 1972 – Prof. Dr. Azarias de Andrade Carvalho

De maio 1972 a dezembro 1975 – Prof. Dr. Oswaldo Luiz Ramos

De janeiro 1976 a outubro 1979 – Prof. Dr. Antonio Rubino de Azevedo

De novembro 1979 a novembro 1980 – Prof. Dr. Manuel Lopes dos Santos

De dezembro de 1980 a abril 1983 – Prof. Dr. Ulysses Fagundes Neto

De abril 1983 a agosto 1984 – Prof. Dr. Álvaro Nagib Atallah

De setembro 1984 a abril 1985 – Prof. Dr. Luc Louis Maurice Weckx

De abril 1985 a abril 1987 – Prof. Dr. Luiz Antonio Nogueira Martins

De maio 1987 a abril 1989 – Prof. Dr. Mauro Batista de Morais

De abril 1989 a abril 1991 – Prof. Dr. Ladislau Ruy Ungar Glausiusz

De abril 1991 a março 1993 – Prof. Dr. Rui Monteiro de Barros Maciel

 

Fonte bibliográfica:

“A Escola Paulista de Medicina – 60 anos de História”. Gráfica Poolprint, 1993, páginas 237-240.  

            

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