Do livro “Escola Paulista de Medicina – 60 anos de História – 1933-1993”
Nos primeiros
anos da década de trinta, São Paulo viveu um período de grande insatisfação. Instalado
o chamado governo provisório de Getúlio Vargas, São Paulo trabalhava para a
volta ao governo constitucional, e como não havia sinais de que esse desejo
fosse concretizado, a insatisfação aumentava dia a dia, até que, em 1932 estourava
com a revolução constitucionalista, iniciada a nove de julho.
Havia em São
Paulo, nesse tempo, apenas uma Faculdade de Medicina e esta limitava a admissão
a sessenta alunos anuais. A procura por vagas nos cursos médicos era grande e,
sendo pequena a oferta, grande número de estudantes se deslocava para outros
estados, principalmente Rio de Janeiro, Bahia e Paraná. Calcula-se que, nesse
período, cerca de 1500 estudantes paulistas faziam seus cursos em outros
estados. A maioria deles retornava a São Paulo, terminado o curso, sendo poucos
aqueles que acabavam se fixando nos estados para onde haviam se dirigido. Além
disso, eram poucas as oportunidades que tinham aqueles que desejavam seguir
carreira universitária, fazendo e defendendo suas teses de doutoramento e
concurso para obter o título de livre-docente.
[esses títulos eram diferentes do que depois se tornaram; até
1937 todos que se formavam em medicina tinham que apresentar ‘tese de
doutoramento’ que era mais um ‘trabalho de conclusão de curso’].
Não sabemos
até que ponto essa insatisfação dos paulistas colaborou para a fundação da nova
escola em São Paulo, mas parece fora de dúvida que tenha tido influência. No
discurso que deu início às atividades da escola e no manifesto lançado por seus
fundadores, sente-se que havia sentimentos feridos e São Paulo, como principal
estado da Nação, não aceitava com tranquilidade a situação criada.
No manifesto
lê-se o seguinte: “A anormalidade da vida espiritual e material que há longos anos
vem assolando a humanidade e que tão intensamente tem repercutido em nossa Pátria,
não teve o dom de prostrar o povo paulista. A vitalidade espiritual de São
Paulo tem o vigor das forças naturais incoercíveis, a que o homem pode dar uma direção,
mas nunca opor um obstáculo eficaz”.
E o discurso
proferido por Octavio de Carvalho, já então escolhido como seu primeiro
diretor, a 15 de julho de 1933, começava assim: “Qual as nascentes cabeceiras,
que, uma a uma, afluem e se confluem para formar o Amazonas, o Nilo e as
catadupas do Niagara, arrastando barreiras, lutando contra obstáculos intransponíveis,
porém avançando sempre, nasceu a Escola Paulista de Medicina, oriunda, por sua
vez, de acontecimentos sociais inelutáveis”.
E, mais
adiante, encontramos o seguinte trecho: “A Escola Paulista de Medicina não é
aventura, nem leviandade daqueles que assumiram a responsabilidade de sua ereção.
Ela se ergue pobre na simplicidade de suas instalações, porém suficientes; modesta
na parcimônia justa de seus instrumentários, porém soberba na majestade de seu
idealismo desinteressado”.
Vislumbra-se
nessas palavras o orgulho ferido pelos acontecimentos do ano anterior.
No começo de
1933 foi realizado o vestibular para a Faculdade de Medicina já existente.
Preenchidas as sessenta vagas oferecidas, sobrou um grande número de estudantes
que, embora obtendo notas suficientes para serem admitidos, não conseguiram a
matrícula desejada. Nessas condições estavam mais de cem estudantes. Começaram,
então, a reunir-se tentando modificar a situação.
Essas
reuniões se realizavam na antiga sede da Faculdade de Medicina, na rua
Brigadeiro Tobias. A faculdade existente já havia sido transferida para a nova
sede, em Pinheiros, e no antigo prédio se instalara um ginásio particular, o
Ginásio Guilherme de Almeida. Seu proprietário e diretor era pai de um dos
estudantes excedentes e daí o fato de terem suas instalações abertas ara
facilitar as reuniões.
O que se
discutia nessas reuniões era a possibilidade de se conseguir que o curso já existente
fosse desdobrado em duas turmas, de modo que seriam absorvidos pelo menos mais
sessenta alunos. Isso era o que se pleiteava, mas sabia-se que a possibilidade
de ser conseguido era muito remota.
Nessa
ocasião, Octavio de Carvalho já tinha ideia de provocar a instalação de nova
faculdade de medicina em São Paulo. Já iniciara contato com alguns elementos,
em geral jovens e de grande possibilidade. Achou, então, que a ocasião era
oportuna para concretizar sua ideia. Em uma das reuniões realizadas pelos
excedentes, compareceu um senhor que ninguém conhecia. As reuniões se
realizavam num grande anfiteatro existente nos fundos da antiga faculdade.
Ninguém sabia quem era o novo personagem até que ele pediu a palavra,
identificou-se [Octavio de Carvalho] e contou que estavam sendo
dados os primeiros passos para a fundação de nova faculdade de medicina em São
Paulo.
Suas palavras
empolgaram os presentes e, não se sabe se por considerarem a causa pleiteada de
difícil aceitação, ou se sua postura e exposição foram realmente convincentes,
houve logo certo grau de aceitação de sua proposta e a maioria dos estudantes achou
que essa seria a melhor solução para o problema existente.
Foi logo
marcada nova reunião, esta no Trianon, na Avenida Paulista, e já dessa vez
compareceram alguns dos professores engajados na empreitada. O que mais se
destacou foi aquele que seria o primeiro a dar um curso na nova faculdade, o
Prof. João Moreira da Rocha. Estava lançada a ideia, agora com o apoio de
grande número de estudantes.
Fonte bibliográfica:
Autores indeterminados in Escola Paulista de
Medicina – 60 anos de História. Do livro com o mesmo título, 1993. Omni Produções
Editoriais. Gráfica Poolprint. 1993, páginas 6-8.
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