O processo de
fundação do Hospital São Paulo teve etapas, de modo que também pode ser
considerada uma “fundação ampliada”. Em uma primeira etapa a colocação da
primeira estaca em 30 de setembro de 1936. Depois, em uma segunda etapa, houve,
em 15 de maio de 1937, a fundação do Ambulatório de Oftalmologia, no centro da
cidade, provavelmente o primeiro setor a entrar em funcionamento. Em uma
terceira fase a fundação do Pavilhão Maria Thereza de Azevedo, em 19 de junho
de 1937. Numa quarta etapa, começou o uso efetivo do edifício do hospital, em 4
de outubro de 1940, com seus primeiros cinco andares. Não estamos levando em
consideração aqui o uso do Hospital Humberto Primo para aulas de Semiologia, já
que se tratava de um outro serviço médico.
De início, os
professores fundadores organizaram todo um movimento em torno da ideia de
construir um grande hospital público, ou filantrópico, que pudesse servir a população
e o ensino da EPM. Desse modo, mobilizaram a sociedade e os jornais, sendo, por
sua vez, eles mesmos engajados nesse movimento com aspectos de “civismo
paulista”. Foram diversas as publicações de notícias sobre as mobilizações e
atividades realizadas em torno do objetivo de construir um grande hospital na
cidade de São Paulo, para atender os menos favorecidos economicamente, que só
podiam dispor de serviço gratuito.
O jornal Correio
Paulistano, em 20 de agosto de 1935, publicou a seguinte nota:
Hospital São Paulo
A utilidade irrefutável da “Campanha do Café”, promovida pela
Escola Paulista de Medicina, para construção do Hospital São Paulo, merece
todos os encômios.
Ela será seguramente bem recebida pela lavoura e pelo povo em
geral.
São Paulo, cidade com mais de um milhão de habitantes, tem
real necessidade, não de mais um, mas de muito mais hospitais de caridade. Os
que temos não bastam para a população pobre.
É bastante dar-se uma vista d’olhos na Santa Casa. Essa
benemérita instituição vive numa imensa dificuldade para receber doentes, visto
estar o seu hospital superlotado.
As camas, ali, espalham-se por todos os cantos e novos
doentes chegam todos os dias em grande número, tendo muitos que ser recusados.
Há ainda outros hospitais que abrigam e tratam gratuitamente
os doentes pobres. Mas não chegam.
Por isso, a iniciativa da Escola Paulista de Medicina é
altamente oportuna e muito simpática.
E o povo não deixará de a apoiar.
É de se esperar que dentro em breve a nossa cidade tenha como
realidade o grande Hospital São Paulo, e que nossos pobres possam alimentar a
certeza de que, numa doença, não lhe faltarão os necessários socorros.
No texto
acima, o que foi chamado de Campanha do Café visava donativos por parte das
pessoas do interior do estado de São Paulo, então grande território cafeeiro,
já que grande parte dos pacientes que afluíam para a Santa Casa da capital eram
provenientes dessa região.
Em 1 de novembro
de 1935, o Correio Paulistano anunciou a realização de baile no dia 9,
com a finalidade de beneficiar a construção do Hospital São Paulo. Em 6 de novembro
essa notícia foi reforçada com a publicação de centenas de nomes da sociedade
paulista que estariam apoiando a iniciativa.
Em 22 de
dezembro de 1935, o jornal Correio Paulistano publicou texto que
acentuou a sobrecarga de pacientes na Santa Casa de São Paulo e a necessidade
de ampliar vagas em hospitais públicos/filantrópicos:
O problema hospitalar em São Paulo
Já tivemos ocasião de focalizar nestas colunas alguns dos
aspectos sob que se apresenta o problema de assistência hospitalar em São
Paulo. Mencionamos, por exemplo, a grande proporção de doentes com que concorre
o interior do nosso Estado, para serem hospitalizados na Capital e fizemos ver
quão suplantada tem sempre ficado a capacidade receptiva dos nossos poucos
estabelecimentos hospitalares, cujas possibilidades de atender aos numerosíssimos
pedidos, provenientes de todas as localidades, permanecem muito aquém das
crescentes necessidades que se apresentam.
Se analisarmos ligeiramente os dados estatísticos
apresentados pela Diretoria da Santa Casa de Misericórdia da Capital, veremos
que mais da metade dos doentes internados naquele estabelecimento em 1933
procedeu do interior. Cidades como Araçatuba, Marília, Presidente Prudente, Rio
Preto, Santos e São Bernardo concorreram para esse total com mais de duzentos
doentes cada uma, sendo inúmeras as que enviaram número superior a uma centena.
O certo é que todas figuram na relação, umas em maior, outras em menor
proporção, mas todas recorrendo aos poucos meios existentes em nossa Capital.
Ora, essa observação nos autoriza a concluir que nada será
mais justo do que lançar um apelo aos diversos núcleos que constituem a
população do Interior, no sentido de cooperarem, por intermédio dos seus órgãos
representativos, que nesse caso seriam as respectivas prefeituras, para que
seja levada avante a ideia de se construir um grande hospital em São Paulo,
que, de certo modo, pudesse resolver momentaneamente o grave problema que nos
assoberba.
Os elementos que estão à testa desse nobre empreendimento, já
autorizados para isso, iniciaram a remessa de ofícios aos srs. Prefeitos,
sugerindo a aplicação de determinada porcentagem da arrecadação municipal nessa
obra.
A evidente oportunidade da ideia e, mais do que tudo, a sua indisfarçável
finalidade, asseguram, ao lado da proverbial boa vontade que caracteriza a
mentalidade paulista, o mais completo êxito para a iniciativa ora em foco.
Em sua edição
de 12 de janeiro de 1936, o jornal O Estado de São Paulo trouxe o seguinte
informe:
Pró-Hospital São Paulo
Ganha terreno a ideia de construção de um grande hospital
Já tivemos ocasião de focalizar nestas colunas alguns dos
aspectos sob que se apresenta o problema da assistência hospitalar em São Paulo[1].
Esses aspectos levam-nos a concluir que nada seria mais justo
do que lançar um apelo aos diversos núcleos que constituem a população do
interior, no sentido de cooperarem, por intermédio de seus órgãos
representativos, que nesse caso, seriam as respectivas Prefeituras, para que
seja levada adiante a ideia de construir-se um grande hospital em São Paulo,
que, de certo, pudesse resolver momentaneamente o grave problema que nos
assoberba.
E foi o que se fez. Os elementos que se acham à testa desse
nobre empreendimento, já autorizados para isso, remeteram a todos os prefeitos
do interior ofícios sugerindo a aplicação de determinada porcentagem da
arrecadação municipal em benefício dessa obra.
A evidente oportunidade da ideia e, mais do que isso, os seus
fins, fazem antever o mais completo êxito para a obra planejada. Já numerosas
respostas têm chegado e continuam a chegar diariamente ao escritório onde se
acha instalada a secretaria da Campanha Pró-Hospital São Paulo, revelando o
apoio que se esperava das municipalidades paulistas.
É grande a atividade entre os promotores dessa campanha.
Aprestam-se os preparativos de organização de várias caravanas que irão cruzar
em todos os sentidos o território paulista, a fim de trazer, concretizado em
recursos materiais, o apoio do povo paulista para esse grande empreendimento.
Em 2 de
fevereiro de 1936, o jornal O Estado de São Paulo publicou artigo intitulado “Hospital
São Paulo”, com uma grande foto do projeto do hospital sobre a qual está escrito:
“Com grande animação prossegue a campanha em favor do Hospital São Paulo”. Seguiu-se
o seguinte texto:
É grande o interesse que vem despertando o prosseguimento da
campanha iniciada em favor da construção do Hospital São Paulo.
Dada a notória deficiência de nossa organização hospitalar,
não poderia ser mais oportuna a iniciativa de se dotar a nossa capital de mais
um grande hospital, a fim de atender especialmente os indigentes[2],
mormente do interior do Estado. Este hospital disporá de cerca de 700 leitos e
seu caráter eminentemente popular atrai sobre ele as simpatias de todos os que não
desconhecem a grave lacuna existente em nosso meio nesse particular.
Lançada a ideia de se construir o Hospital São Paulo, foi o
próprio diretor do Departamento de Municipalidades, sr. Dr. Domício Pacheco e
Silva, um dos primeiros a dar a ela sua adesão, recomendando às prefeituras
municipais que colaborassem, na medida de suas possibilidades, nessa obra. Ao
apelo dessa autoridade não tardaram a ser dadas respostas favoráveis das
prefeituras do interior do Estado, dentre as quais se destacam: Presidente Venceslau,
Jacupiranga, Botucatu, Monte Alto, Potirendaba, Monte Mor, São Sebastião,
Guaratinguetá, Atibaia, Guararema, Jaboticabal, Novo Horizonte, Indaiatuba, São
José dos Campos.
No mesmo sentido, foi dirigido pelo sr. Celso Morato Leite um
ofício a todos os maquinistas do benefício do algodão em nosso Estado.
Secundando o apelo dirigido pelo Dr. Domício Pacheco e Silva,
diversos deputados estaduais dirigiram também ofícios às prefeituras do
interior, pondo em relevo a utilidade da iniciativa. Apoiaram às autoridades
municipais os seguintes deputados: Dr. Alarico Franco Caiuby, Dr. Benedito
Montenegro, coronel Francisco Vieira, Dr. J. A. Souza e Silva, Dr. Elias Machado,
Dr. Francisco Mesquita, Dr. J. Pinto Antunes, D. Maria Thereza Barros Camargo,
Dr. Motta Filho, Sylvio de Andrade Coutinho, Dr. Thiago Masagão, Dr. Valentim
Gentil, sr. Amaral Mello, Dr. Celso Junqueira, Dr. Cory Gomes Amorim, Dr. Dante
Delmanto, Leonel Benevides de Rezende, Maciel de Castro, Renato Bucuri Netto,
Dr. Toledo Artigas, Dr. Valdomiro Silveira, Dr. Bento Sampaio Vidal.
Atendendo ao apelo que lhes foi feito no sentido de
facilitarem o trabalho das caravanas que deveriam percorrer o interior, algumas
Companhias de Estradas de Ferro já se manifestaram favoravelmente.
A Partida das Caravanas
Conforme foi noticiado, partiram ontem as primeiras caravanas
de professores e estudantes, a fim de pleitearem junto às populações do interior
a sua colaboração na obra do Hospital São Paulo.
Ontem – Caravana n. 8 dividida em três etapas: de Campinas a
Limeira, tendo como chefe o Prof. Dr. Paulo Mangabeira Albernaz. De Rio Claro a
Pirassununga, chefiada pelo Prof. Dr. André Dreyfus. De Palmeiras a Descalvado,
cujo chefe é o Prof. Dr. Antonio Bernardes de Oliveira. Fazem parte desta
caravana os acadêmicos Favorino Rodrigues do Prado Junior e Isaac Prujansky.
Hoje – Caravana n. 2, em duas etapas: São Roque, Sorocaba,
Tatuí, chefiada pelo Prof. Dr. Álvaro Guimarães Filho e Itapetininga, Faxina e
Itararé, cujo chefe é o Prof. Dr. José Barbosa Correa. São componentes os acadêmicos
Rubens Arantes de Moraes. Francisco Lascala de Moraes e Mário Junqueira Schmidt.
Caravana n.3: cuja primeira etapa compreende as cidades de
Itu, Porto Feliz e Tietê, tendo como chefe o Prof. Dr. José Ignacio Lobo; na
segunda etapa incluem-se as cidades de Capivari, Piracicaba e São Pedro. Fazem
parte os acadêmicos Alberto M. Balthasar e Felício Del Nero.
Seguirá no dia 4 a Caravana n.7 – para Ribeirão Preto, Sertãozinho,
Orlândia, São Joaquim, Ituverava, Igarapava, Batatais, Patrocínio, Sapucaí e
Franca. Será chefe até São Joaquim o Prof. Dr. Otto Bier e de Ituverava a
Franca o Prof. Dr. Felício Cintra do Prado. Os acadêmicos Mário Setzer e Carlos
Ary Machado são os componentes desta caravana.
Fonte bibliográfica:
Neves, AC. História da Residência Médica na Escola Paulista
de Medicina – Os Primórdios. Editora Companhia Ilimitada, 2016, pp. 69-75.
[1]
Este texto de O Estado de São Paulo que tem similaridades com o texto do Correio
Paulistano pode ter tido o mesmo jornalista como autor, que não assinou o
artigo.
[2]
O termo “indigente” perdurou até a criação do SUS. Era usado para designar
paciente que não tivesse nenhuma afiliação a qualquer organização de saúde,
como INAMPS, por exemplo.
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