sábado, 12 de setembro de 2026

Primórdios do Hospital São Paulo – Parte 1

       

          O processo de fundação do Hospital São Paulo teve etapas, de modo que também pode ser considerada uma “fundação ampliada”. Em uma primeira etapa a colocação da primeira estaca em 30 de setembro de 1936. Depois, em uma segunda etapa, houve, em 15 de maio de 1937, a fundação do Ambulatório de Oftalmologia, no centro da cidade, provavelmente o primeiro setor a entrar em funcionamento. Em uma terceira fase a fundação do Pavilhão Maria Thereza de Azevedo, em 19 de junho de 1937. Numa quarta etapa, começou o uso efetivo do edifício do hospital, em 4 de outubro de 1940, com seus primeiros cinco andares. Não estamos levando em consideração aqui o uso do Hospital Humberto Primo para aulas de Semiologia, já que se tratava de um outro serviço médico.

          De início, os professores fundadores organizaram todo um movimento em torno da ideia de construir um grande hospital público, ou filantrópico, que pudesse servir a população e o ensino da EPM. Desse modo, mobilizaram a sociedade e os jornais, sendo, por sua vez, eles mesmos engajados nesse movimento com aspectos de “civismo paulista”. Foram diversas as publicações de notícias sobre as mobilizações e atividades realizadas em torno do objetivo de construir um grande hospital na cidade de São Paulo, para atender os menos favorecidos economicamente, que só podiam dispor de serviço gratuito.

          O jornal Correio Paulistano, em 20 de agosto de 1935, publicou a seguinte nota:

Hospital São Paulo

A utilidade irrefutável da “Campanha do Café”, promovida pela Escola Paulista de Medicina, para construção do Hospital São Paulo, merece todos os encômios.

Ela será seguramente bem recebida pela lavoura e pelo povo em geral.

São Paulo, cidade com mais de um milhão de habitantes, tem real necessidade, não de mais um, mas de muito mais hospitais de caridade. Os que temos não bastam para a população pobre.

É bastante dar-se uma vista d’olhos na Santa Casa. Essa benemérita instituição vive numa imensa dificuldade para receber doentes, visto estar o seu hospital superlotado.

As camas, ali, espalham-se por todos os cantos e novos doentes chegam todos os dias em grande número, tendo muitos que ser recusados.

Há ainda outros hospitais que abrigam e tratam gratuitamente os doentes pobres. Mas não chegam.     

Por isso, a iniciativa da Escola Paulista de Medicina é altamente oportuna e muito simpática.

E o povo não deixará de a apoiar.

É de se esperar que dentro em breve a nossa cidade tenha como realidade o grande Hospital São Paulo, e que nossos pobres possam alimentar a certeza de que, numa doença, não lhe faltarão os necessários socorros.

          No texto acima, o que foi chamado de Campanha do Café visava donativos por parte das pessoas do interior do estado de São Paulo, então grande território cafeeiro, já que grande parte dos pacientes que afluíam para a Santa Casa da capital eram provenientes dessa região.

          Em 1 de novembro de 1935, o Correio Paulistano anunciou a realização de baile no dia 9, com a finalidade de beneficiar a construção do Hospital São Paulo. Em 6 de novembro essa notícia foi reforçada com a publicação de centenas de nomes da sociedade paulista que estariam apoiando a iniciativa.

          Em 22 de dezembro de 1935, o jornal Correio Paulistano publicou texto que acentuou a sobrecarga de pacientes na Santa Casa de São Paulo e a necessidade de ampliar vagas em hospitais públicos/filantrópicos:

O problema hospitalar em São Paulo

Já tivemos ocasião de focalizar nestas colunas alguns dos aspectos sob que se apresenta o problema de assistência hospitalar em São Paulo. Mencionamos, por exemplo, a grande proporção de doentes com que concorre o interior do nosso Estado, para serem hospitalizados na Capital e fizemos ver quão suplantada tem sempre ficado a capacidade receptiva dos nossos poucos estabelecimentos hospitalares, cujas possibilidades de atender aos numerosíssimos pedidos, provenientes de todas as localidades, permanecem muito aquém das crescentes necessidades que se apresentam.

Se analisarmos ligeiramente os dados estatísticos apresentados pela Diretoria da Santa Casa de Misericórdia da Capital, veremos que mais da metade dos doentes internados naquele estabelecimento em 1933 procedeu do interior. Cidades como Araçatuba, Marília, Presidente Prudente, Rio Preto, Santos e São Bernardo concorreram para esse total com mais de duzentos doentes cada uma, sendo inúmeras as que enviaram número superior a uma centena. O certo é que todas figuram na relação, umas em maior, outras em menor proporção, mas todas recorrendo aos poucos meios existentes em nossa Capital.

Ora, essa observação nos autoriza a concluir que nada será mais justo do que lançar um apelo aos diversos núcleos que constituem a população do Interior, no sentido de cooperarem, por intermédio dos seus órgãos representativos, que nesse caso seriam as respectivas prefeituras, para que seja levada avante a ideia de se construir um grande hospital em São Paulo, que, de certo modo, pudesse resolver momentaneamente o grave problema que nos assoberba.

Os elementos que estão à testa desse nobre empreendimento, já autorizados para isso, iniciaram a remessa de ofícios aos srs. Prefeitos, sugerindo a aplicação de determinada porcentagem da arrecadação municipal nessa obra.

A evidente oportunidade da ideia e, mais do que tudo, a sua indisfarçável finalidade, asseguram, ao lado da proverbial boa vontade que caracteriza a mentalidade paulista, o mais completo êxito para a iniciativa ora em foco.

          Em sua edição de 12 de janeiro de 1936, o jornal O Estado de São Paulo trouxe o seguinte informe:

Pró-Hospital São Paulo

Ganha terreno a ideia de construção de um grande hospital

Já tivemos ocasião de focalizar nestas colunas alguns dos aspectos sob que se apresenta o problema da assistência hospitalar em São Paulo[1].

Esses aspectos levam-nos a concluir que nada seria mais justo do que lançar um apelo aos diversos núcleos que constituem a população do interior, no sentido de cooperarem, por intermédio de seus órgãos representativos, que nesse caso, seriam as respectivas Prefeituras, para que seja levada adiante a ideia de construir-se um grande hospital em São Paulo, que, de certo, pudesse resolver momentaneamente o grave problema que nos assoberba.

E foi o que se fez. Os elementos que se acham à testa desse nobre empreendimento, já autorizados para isso, remeteram a todos os prefeitos do interior ofícios sugerindo a aplicação de determinada porcentagem da arrecadação municipal em benefício dessa obra.

A evidente oportunidade da ideia e, mais do que isso, os seus fins, fazem antever o mais completo êxito para a obra planejada. Já numerosas respostas têm chegado e continuam a chegar diariamente ao escritório onde se acha instalada a secretaria da Campanha Pró-Hospital São Paulo, revelando o apoio que se esperava das municipalidades paulistas.

É grande a atividade entre os promotores dessa campanha. Aprestam-se os preparativos de organização de várias caravanas que irão cruzar em todos os sentidos o território paulista, a fim de trazer, concretizado em recursos materiais, o apoio do povo paulista para esse grande empreendimento.

          Em 2 de fevereiro de 1936, o jornal O Estado de São Paulo publicou artigo intitulado “Hospital São Paulo”, com uma grande foto do projeto do hospital sobre a qual está escrito: “Com grande animação prossegue a campanha em favor do Hospital São Paulo”. Seguiu-se o seguinte texto:

É grande o interesse que vem despertando o prosseguimento da campanha iniciada em favor da construção do Hospital São Paulo.

Dada a notória deficiência de nossa organização hospitalar, não poderia ser mais oportuna a iniciativa de se dotar a nossa capital de mais um grande hospital, a fim de atender especialmente os indigentes[2], mormente do interior do Estado. Este hospital disporá de cerca de 700 leitos e seu caráter eminentemente popular atrai sobre ele as simpatias de todos os que não desconhecem a grave lacuna existente em nosso meio nesse particular.

Lançada a ideia de se construir o Hospital São Paulo, foi o próprio diretor do Departamento de Municipalidades, sr. Dr. Domício Pacheco e Silva, um dos primeiros a dar a ela sua adesão, recomendando às prefeituras municipais que colaborassem, na medida de suas possibilidades, nessa obra. Ao apelo dessa autoridade não tardaram a ser dadas respostas favoráveis das prefeituras do interior do Estado, dentre as quais se destacam: Presidente Venceslau, Jacupiranga, Botucatu, Monte Alto, Potirendaba, Monte Mor, São Sebastião, Guaratinguetá, Atibaia, Guararema, Jaboticabal, Novo Horizonte, Indaiatuba, São José dos Campos.

No mesmo sentido, foi dirigido pelo sr. Celso Morato Leite um ofício a todos os maquinistas do benefício do algodão em nosso Estado.

Secundando o apelo dirigido pelo Dr. Domício Pacheco e Silva, diversos deputados estaduais dirigiram também ofícios às prefeituras do interior, pondo em relevo a utilidade da iniciativa. Apoiaram às autoridades municipais os seguintes deputados: Dr. Alarico Franco Caiuby, Dr. Benedito Montenegro, coronel Francisco Vieira, Dr. J. A. Souza e Silva, Dr. Elias Machado, Dr. Francisco Mesquita, Dr. J. Pinto Antunes, D. Maria Thereza Barros Camargo, Dr. Motta Filho, Sylvio de Andrade Coutinho, Dr. Thiago Masagão, Dr. Valentim Gentil, sr. Amaral Mello, Dr. Celso Junqueira, Dr. Cory Gomes Amorim, Dr. Dante Delmanto, Leonel Benevides de Rezende, Maciel de Castro, Renato Bucuri Netto, Dr. Toledo Artigas, Dr. Valdomiro Silveira, Dr. Bento Sampaio Vidal.

Atendendo ao apelo que lhes foi feito no sentido de facilitarem o trabalho das caravanas que deveriam percorrer o interior, algumas Companhias de Estradas de Ferro já se manifestaram favoravelmente.

A Partida das Caravanas

Conforme foi noticiado, partiram ontem as primeiras caravanas de professores e estudantes, a fim de pleitearem junto às populações do interior a sua colaboração na obra do Hospital São Paulo.

Ontem – Caravana n. 8 dividida em três etapas: de Campinas a Limeira, tendo como chefe o Prof. Dr. Paulo Mangabeira Albernaz. De Rio Claro a Pirassununga, chefiada pelo Prof. Dr. André Dreyfus. De Palmeiras a Descalvado, cujo chefe é o Prof. Dr. Antonio Bernardes de Oliveira. Fazem parte desta caravana os acadêmicos Favorino Rodrigues do Prado Junior e Isaac Prujansky.

Hoje – Caravana n. 2, em duas etapas: São Roque, Sorocaba, Tatuí, chefiada pelo Prof. Dr. Álvaro Guimarães Filho e Itapetininga, Faxina e Itararé, cujo chefe é o Prof. Dr. José Barbosa Correa. São componentes os acadêmicos Rubens Arantes de Moraes. Francisco Lascala de Moraes e Mário Junqueira Schmidt.

Caravana n.3: cuja primeira etapa compreende as cidades de Itu, Porto Feliz e Tietê, tendo como chefe o Prof. Dr. José Ignacio Lobo; na segunda etapa incluem-se as cidades de Capivari, Piracicaba e São Pedro. Fazem parte os acadêmicos Alberto M. Balthasar e Felício Del Nero.

Seguirá no dia 4 a Caravana n.7 – para Ribeirão Preto, Sertãozinho, Orlândia, São Joaquim, Ituverava, Igarapava, Batatais, Patrocínio, Sapucaí e Franca. Será chefe até São Joaquim o Prof. Dr. Otto Bier e de Ituverava a Franca o Prof. Dr. Felício Cintra do Prado. Os acadêmicos Mário Setzer e Carlos Ary Machado são os componentes desta caravana.

 

Fonte bibliográfica:

Neves, AC. História da Residência Médica na Escola Paulista de Medicina – Os Primórdios. Editora Companhia Ilimitada, 2016, pp. 69-75.



[1] Este texto de O Estado de São Paulo que tem similaridades com o texto do Correio Paulistano pode ter tido o mesmo jornalista como autor, que não assinou o artigo.

[2] O termo “indigente” perdurou até a criação do SUS. Era usado para designar paciente que não tivesse nenhuma afiliação a qualquer organização de saúde, como INAMPS, por exemplo.  

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