quinta-feira, 16 de maio de 2019

Biografia de Otto Guilherme Bier


A partir de texto de Reynaldo Schwindt Furlanetto e de texto de Helio Begliomini

     Otto Bier nasceu em 26 de março de 1906, na cidade do Rio de Janeiro, onde cursou o Colégio Pedro II. Diplomou-se em 1928 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Ainda como estudante, manifestou sua vocação para Microbiologia. Em 1925 fez o Curso de Aperfeiçoamento em Bacteriologia e Imunologia do Instituto Oswaldo Cruz, com Antônio Cardoso Fontes.
     Para manter-se durante o curso, tocava violino juntamente com seu irmão, que tocava piano, acompanhando os filmes mudos nos Cine-Theatros da então Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, na Cinelândia, bem como na Tijuca e em Copacabana. Esse trabalho lhe garantia em torno de dois mil réis por mês. Nesse ambiente, conviveu com músicos e compositores que viriam a ser famosos, como “Pixinguinha”, cujo nome era Alfredo da Rocha Vianna e seu irmão Otávio Vianna, conhecido como “China”. Também Benedito Lacerda, Cândido Pereira da Silva, o “Candinho”. Anacleto de Medeiros, Catulo da Paixão Cearense, Joaquim Antônio Calado e Ernesto Nazareth.
     Refere o Dr. Begliomini que Otto Bier disse, anos mais tarde, ao Prof. Osvaldo Augusto Sant’Anna, pesquisador do Butantã, que considerava Pixinguinha um gênio e o choro representava o sentimento brasileiro.
     Quando de sua passagem pelo Instituto Oswaldo Cruz, Bier conviveu com Carlos Chagas, Henrique Aragão, Thales Martins e Evandro Chagas. Recebeu grande influência de Henrique da Rocha Lima que, em 1928, veio de Manguinhos para São Paulo para chefiar a Divisão de Biologia Animal do Instituto Biológico. Nessa época, o diretor do Instituto Biológico era o Dr. Arthur Neiva, entomologista do Instituto Oswaldo Cruz que já estava há anos em São Paulo, onde dirigiu o Serviço Sanitário.
     Otto Bier veio trabalhar no Instituto Biológico de São Paulo, juntamente com Adolfo Martins Penha, Celso Rodrigues e José Reis, a convite de Genésio Pacheco, seu antigo professor, que veio organizar a Secção de Bacteriologia. Em 1934, Bier passou a dirigir o Serviço de Sorologia, que mais tarde se tornou Secção de Imunologia.
     Aperfeiçoou-se em Microbiologia e Imunologia na Alemanha, no Instituto Robert Koch, em Berlim, e no Instituto Ehrlich, em Frankfurt, e nos Estados Unidos, no College of Physicians and Surgeons da Universidade de Columbia, com o Prof. M. Heidelberger (Imunologia Quantitativa), na qualidade de Fellow da Fundação Guggenheim (1941-1942 e 1946-1947). Publicou cerca de duzentos trabalhos no campo da Bacteriologia e da Imunologia, inclusive um livro texto que sem encontrava na 15ª edição, quando da escrita do texto biográfico do Dr. Furlanetto, na década de 1970.
     Ocupou os cargos de Chefe da Secção de Imunologia do Instituto Biológico da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo (1948-1955), de Diretor do Instituto Butantã (1944-1947) e de Professor Catedrático de Microbiologia e Imunologia da Escola Paulista de Medicina (1933-1968), da qual foi fundador e na qual exerceu o cargo de Vice-Diretor. Na EPM foi paraninfo da turma de 1955.
     Otto Bier foi um dos membros fundadores da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em 8 de novembro de 1948, constando como um dos conselheiros já da primeira gestão, tendo Jorge Americano como presidente e Maurício Rocha e Silva como Vice-Presidente. A SBPC nasceu da liderança de cientistas paulistas com a finalidade de proteger instituições de pesquisa da intervenção estatal.
      Em 1951, esteve com o Prof. Pierre Grabar no Instituto Pasteur, em Paris. Fez estudos sobre complemento e anafilaxia cutânea. Em 10 de agosto de 1957, juntamente com outros pesquisadores, fundou a Sociedade Brasileira de Fisiologia. Foi autor de importantes contribuições no estudo da reação antígeno-anticorpo, mais especificamente no estudo da fixação de complemento como método de diagnóstico de doenças infecciosas. Tinha grande percepção da importância que a Imunologia viria a ter em Ciências Biológicas.
     Comforme Begliomini, o Prof. Bier, juntamente com Ivan Mota, contribuiu para a formação das primeiras gerações de imunologistas brasileiros, com projetos, teses, cursos, e estágios no exterior. Com recursos obtidos da Capes e da Fundação Ford desenvolveu o primeiro curso de treinamento em Imunologia do Departamento de Microbiologia e Imunologia da Escola Paulista de Medicina, onde buscavam preparar seis novos imunologistas por ano e pesquisas básicas em Imunologia. A partir daí, estabeleceu-se o Centro de Imunologia da Organização Mundial de Saúde sediado na EPM. O “WHO Immunology Research and Training Centre” foi estabelecido em 1965. Com a integração da Organização Pan-Americana de Saúde, em 1967, passou a ser chamado “Pan American Health Organization (PAHO) / World Health Organization (WHO) Immunology Research and Training Centre in Brazil”.   
     Após a aposentadoria de Otto Bier na EPM, em 1969, esse curso foi transferido para o Instituto Butantã, instalado no prédio Lemos Monteiro até o encerramento das suas atividades em 1983.
     Em 7 de julho de 1972, juntamente com Ivan Mota, Wilmar Dias da Silva, Nelson Monteiro Vaz e outros dezesseis imunologistas, durante o XXIV Congresso da SBPC, fundou a Sociedade Brasileira de Imunologia, evento ocorrido na FAU-USP. O Prof. Bier presidiu essa Sociedade nas duas primeiras gestões (1972-1977 e 1978-1980).    
     O Prof. Reynaldo S. Furlanetto refere ter sido seu aluno na Escola Paulista de Medicina em 1936, quando teve seu interesse despertado por Imunologia e Microbiologia a partir das aulas e da didática do Prof. Bier. Ambos voltaram a se encontrar em 1944 no Instituto Butantã. Desde então, o Prof. Furlanetto foi seu Assistente na Escola Paulista de Medicina e depois no Instituto Biológico, totalizando um convívio de quatorze anos. A partir dessa convivência, Prof. Furlanetto diz que o Prof. Bier era de saber eclético, sempre destacado nos cenários científicos nacional e internacional e ainda tinha tempo para ouvir música erudita, sendo que era excelente violinista, além de refinado “gourmet”.
     O Prof. Bier parecia austero ao primeiro contato, mas depois mostrava-se alegre, contador de histórias de variado repertório. Recorda o Prof. Furlanetto que, certa vez, no fim de um dia de trabalho, eles tiveram uma divergência no laboratório e o Prof. Bier o tratou de forma áspera. Na manhã seguinte, bem cedo, O Prof. Bier foi à casa do Prof. Furlanetto e lhe pediu desculpas, dizendo achar primordial preservar as velhas amizades, e lhe presenteou com um livro de Ramon y Cajal intitulado “Charlas de Café”, com a seguinte dedicatória: “Que este livrinho, com as boas palavras que o acompanham, sirva para que esqueça as más palavras que ouviu de um amigo neurastênico, que muito o preza e o admira”. O capítulo inicial desse livro traz pensamentos sobre a amizade.
     Em serviço, o Prof. Bier era extremamente exigente. Não aceitava resultados de laboratório que não fossem concordantes em quadruplicata, de modo que seguia com o trabalho noite adentro. Exigia originalidade e honestidade nas pesquisas e não suportava “franco atiradores sem gabarito”. Sua grande preocupação era elevar o padrão científico de nosso meio. Em sua direção no Butantã obteve várias bolsas de estudo para pesquisadores fora do Brasil e trouxe cientistas de renome internacional para que aqui formassem escola. Alguns deles criaram laboratórios de elevado padrão em especialidades ainda não existentes no país.
     Integrou o núcleo inicial de Conselheiros do Conselho Nacional de Pesquisas, CNPq, (1951-1955) e foi Membro desse Conselho, de 1958 a 1967. Exerceu a função de Assessor Na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Foi membro do Conselho Científico da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Presidente da Sociedade Brasileira de Biologia. Presidente da Sociedade de Microbiologia. Vice-Presidente da Academia Brasileira de Ciências.
     Foi membro de várias sociedades estrangeiras, como a Sociedade Americana de Imunologistas, Sociedade Britânica de Imunologia, Academia de Ciências de Nova York, Sociedade de Bacteriologistas Americanos, Academia Americana de Microbiologia, Sociedade Francesa de Microbiologia, Sociedade de Biologia Experimental e Medicina e outras.
     Participou de numerosos congressos e simpósios internacionais, tendo presidido algumas secções das áreas de Imunologia e Microbiologia, como no Rio de Janeiro e em Roma.
     Foi membro da Comissão de Elaboração do Anteprojeto de Reforma do Ensino Médico do Ministério da Educação e Cultura e da Comissão de Ensino Médico do mesmo Ministério.
     Na Organização Mundial de Saúde foi membro do Comitê de Peritos em Doenças Venéreas e Treponematoses e Peritos em Imunologia. Foi delegado do Brasil junto à Unesco e, de 1963 a 1966 ocupou o cargo de Membro do Comitê Consultivo do Centro Panamericano de Febre Aftosa (Rio de Janeiro) e do Centro Panamericano de Zoonoses (Buenos Aires), ambos da Organização Panamericana de Saúde, e a partir de 1966, o cargo de Diretor do Centro de Pesquisa e Formação em Imunologia”, no Instituto Butantã. Exerceu a função de Coordenador de Serviços Técnicos Especializados da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.
     Em 1955, o Prof. Furlanetto assumiu o cargo de Titular na Disciplina de Microbiologia e Imunologia da Faculdade de Medicina de Sorocaba, quando ambos passaram a trabalhar distantes.
     Ainda conforme Begliomini, em 1978, já aposentado, mas ainda trabalhando no Instituto Butantã, Otto Bier tomou posse na Academia de Ciências do Vaticano, apresentando o trabalho Immunological and Epidemiological Speculations on Leprosy, em coautoria com Osvaldo Augusto Sant’Anna, baseado no controle de imunorreceptores.
     Escreveu os livros “Bacteriologia e Imunologia – Suas Aplicações à Medicina e à Higiene” (1941), que teve 19 edições, todas revisadas por ele; “Noções Básicas de Imunoterapia e Quimioterapia” (1944); “Imunologia Básica e Aplicada” (desde 1963 em várias edições e com a colaboração de Ivan Mota, Wilmar Dias da Silva e Nelson Monteiro Vaz). Em 1979 esse livro foi editado em inglês e em alemão. Ainda como publicação post-mortem, em 1990, teve o livro “Microbiologia e Imunologia” em várias edições.  
     O Prof. Dr. Otto Guilherme Bier faleceu em 22 de novembro de 1985, aos 79 anos. A partir de 2008 seu nome está na Biblioteca Virtual Otto Bier da Sociedade Brasileira de Imunologia. É patrono da cadeira de nº 104 da Academia de Medicina de São Paulo.

Fontes Bibliográficas:
Begliomini, H. – Otto Bier. Academia de Medicina de São Paulo.
Acessível em https://www.academiamedicinasaopaulo.org.br/biografias/109/BIOGRAFIA-OTTO-GUILHERME-BIER.pdf
Furlanetto, RS – Otto Guilherme Bier in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Organizado por José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, páginas 134 a 137.

domingo, 24 de março de 2019

Biografia de Olivério Mário de Oliveira Pinto


     Nasceu na cidade de Jaú, aos 11 de março de 1896. Filho do Dr. Estevam de Oliveira Pinto, médico clínico da referida cidade, e de Dona Eudóxia Costa de Oliveira Pinto, ambos naturais da Bahia.
     Com a mudança da família, em 1905, para a cidade de Salvador, ali concluiu o curso de primeiras letras, matriculando-se, depois, no então Ginásio da Bahia, onde, em 1912, obteve o diploma de Bacharel em Ciências e Letras. A partir de então, dedicou-se ao ensino particular da História Natural e ciências correlatas, de conformidade com sua inclinação, muito cedo revelada, por esses estudos, pois, desde o período ginasial, num pequeno jornal estudantil intitulado “A Luz”, publicou seus primeiros ensaios no campo das letras, com diversos artigos sobre assuntos de sua predileção.
     Como na Bahia, na época, não havia curso voltado para a História Natural, ou algo similar, matriculou-se em 1916 na Faculdade de Medicina da Bahia, vindo a formar-se em 1921. Na ocasião, o formando deveria desenvolver uma tese para ser doutor em medicina. Sua tese teve o título “Sobre o valor do líquido cefalorraquiano no diagnóstico da sífilis nervosa”; assunto esse relacionado com a cadeira em que por dois anos se havia exercitado como interno no Hospital Santa Isabel.
     Ao concluir o curso médico, pretendia candidatar-se a uma das cátedras da Faculdade de Medicina da Bahia, prestes a vagar-se. Mas, por motivo de saúde, mudou-se para o Estado de São Paulo. No noroeste paulista fez curtos estágios em diferentes localidades. Em 1922, em Araraquara, passou a exercer a atividade de médico interno da Santa Casa da cidade e professor de Ciências Naturais na Escola de Odontologia e Farmácia, que acabava de ser fundada nesse local. Como Araraquara ainda não possuísse laboratório de Análises Clínicas, conseguiu a instalação de um desses serviços em anexo à Santa Casa, assumindo sua responsabilidade.
     Em 1924 casou-se com Alice Alves de Camargo.
     Em começos de 1928, transferiu sua residência para a cidade de São Paulo, pensando em abandonar a medicina clínica e dedicar-se ao laboratório ou à investigação científica em algum campo das ciências biológicas. Desse modo, exerceu, por alguns meses, o cargo de desenhista técnico no Instituto Butantã. Em 1929, ingressou no Museu Paulista como Assistente da Secção de Zoologia, cargo que a princípio exerceu interinamente, em substituição ao seu titular efetivo, Dr. Afrânio do Amaral, então comissionado nos Estados Unidos.
     Nesse contexto, tomou parte na fundação da Escola Paulista de Medicina, na qual, durante vários anos, teve a seu cargo a cadeira de Zoologia do curso pré-médico.
     No Museu Paulista, então dirigido por Afonso Taunay, ocupou-se, de início, com os Mamíferos, contribuindo com um estudo monográfico sobre os Sciuridas (esquilos) brasileiros, que foi publicada no tomo XVII da Revista dessa instituição. Pouco depois, voltou-se para a Ornitologia, com o projeto de completar a exploração metódica das diferentes regiões do Brasil a esse respeito. Dessa forma, excursionou em sertões de diversos estados brasileiros: São Paulo (1931), Goiás (1934), Mato Grosso (1931), Bahia (1932-33) e Pernambuco (1939). Sua efetivação no cargo de Assistente ocorreu em 1936, depois de concurso público de títulos e provas.
     Em janeiro de 1939, com a emancipação da Seção de Zoologia do Museu Paulista, que passara a denominar-se Departamento de Zoologia da Secretaria da Agricultura, foi chamado a exercer, em caráter efetivo, o cargo de Chefe da Divisão de Aves, em cuja qualidade foi pouco depois comissionado Diretor interino da nova instituição. Efetivado no cargo em 1941, prosseguiu seus trabalhos zoológicos, com novas excursões, coletando novos materiais, constando seus trabalhos em publicações dos “Arquivos de Zoologia” e em “Papéis Avulsos”, periódicos editados por essa instituição, criados e editados por ele.
     Além desses e outros trabalhos, até sua aposentadoria, em 1956, publicou, com ilustrações, um “Catálogo de Aves do Brasil”. Também tem entre seus trabalhos: “Estudo Crítico e Catálogo Remissivo das Aves do Território de Roraima”, a tradução comentada de “Reise nach Brasilien”, do Príncipe Maximiliano de Wied Neuwied, a versão dos estudos de M. H. Lichtenstein sobre a parte zoológica da Historia Naturalis Brasiliae, de Marcgrave e Piso, acrescida de minuciosa biografia do autor, e o histórico das expedições de coleta realizadas durante “Cinquenta Anos de Investigação Ornitológica”, no volume IV dos Arquivos de Zoologia.
     Quando do texto escrito por Afrânio do Amaral sobre Olivério, na década de 1970, estava em curso a publicação de um tratado sucinto e ilustrado de “Ornitologia Brasiliense”, cujo primeiro volume já estava publicado sob o patrocínio de Paulo E. Vanzolini, então diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo.
     Além disso, Olivério contribuiu para “As Ciências no Brasil”, de Fernando de Azevedo, com o capítulo de “Zoologia no Brasil” e com dois capítulos na “História Geral da Civilização Brasileira”, publicada sob a direção de Sérgio Buarque de Holanda. Também tem alguns trabalhos em colaboração com seu assistente Eurico A. de Camargo.
     Entre seus títulos e distinções foi: Membro Honorário da American Ornithologists Union e da Linnean Society de New York, Membro Estrangeiro da British Ornithologists Union, Membro Correspondente da Academie Internationale d’Histoire des Sciences, da Academy of Natural Sciences of Philadelphia, do American Museum of Natural History e da Sociedade Ornitológica del Plata.
     Olivério Mário de Oliveira Pinto é considerado o “pai da ornitologia brasileira”. Sua obra superou a de todos os outros que estudaram aves no Brasil. Em 1931 descreveu um caso de albinismo em perdiz. Sua obra “Catálogo das Aves do Brasil tinha 1226 páginas em dois volumes, um verdadeiro marco. Em 1950 resdescobriu a arara-azul-de-Lear entre Pernambuco e Bahia e em 1952 redescobriu o mutum-de-Alagoas. Descreveu dezenas de novas espécies e 62 novas subespécies de aves.
     Além de tudo isso, escrevia a maioria de seus trabalhos à mão e conhecia a Língua Portuguesa e o Latim profundamente.
     Em 1979 publicou seu último livro “A Ornitologia através das Idades (século XVI a século XIX)”. Nesse ano contraiu uma virose que prejudicou sua visão, de modo que interrompeu sua produção científica.
     Aos 85 anos, em viagem ao interior de São Paulo, ficou doente e foi internado em Piracicaba, onde faleceu em 13 de junho de 1981.
     Sua biografia, uma lista de todas as suas publicações, uma relação das espécies e subespécies por ele descritas, foi feita por H. Nomura em Ciência e Cultura, 36 (7): 1235-42, 1994.

Fontes bibliográficas:

1 – Amaral, Afrânio – Olivério Mário de Oliveira Pinto in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Por José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, páginas 130-133.

2 - Alvarenga, Herculano M. F. – 1896-1996 – Centenário de Olivério Pinto: “O Pai da Ornitologia Brasileira” in Atualidades Ornitológicas (74) 11.
Acessado em http://www.ao.com.br/ao74_11.htm
    

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Descrição do Mural “Medicina Experimental” da EPM


      Reproduzimos aqui o texto do Prof. Dr. Ribeiro do Valle, publicado no “O Bíceps” de 1962, nº 27, pgs. 40-41, que foi publicado pelo Prof. Dr. Durval Rosa Borges em seu livro “Foi isso que eu quis viver: 50 anos de formatura da turma de 1967 da EPM”.

     Assim escreve o Prof. Ribeiro do Valle:

     As cadeiras de Farmacologia e de Bioquímica da Escola Paulista de Medicina funcionam em edifício próprio sito à rua Botucatu, 862, em Vila Clementino, na cidade de São Paulo. No saguão de entrada do prédio existe um mural de seis metros de comprimento por quatro metros de altura, de autoria de Pietro Nerici, pintor italiano radicado no Brasil faz dez anos. Executados conforme a velha técnica dos afrescos em que se empregam óxidos metálicos coloridos de mistura com pó de mármore e argamassa, o mural é bastante sugestivo.
     Começaremos a nossa descrição pelo canto inferior esquerdo, onde três figuras de primeira grandeza da medicina brasileira – Osvaldo Cruz, Adolfo Lutz e Gaspar Viana – surgem de Manguinhos, reconhecível pela sua cúpula mourisca. Ao lado, outro instituto de linhas modernas revela ao observador a influência indutora da célula mater, responsável pela maioria dos centros de pesquisa biológica existentes no nosso país.
     O papel desempenhado pelo Instituto Osvaldo Cruz no terreno da saúde pública é calcado na cena de crianças brincando ao ar livre. Aquela vilazinha pendurada no morro lembra a origem de muitos que aqui trabalham e que na sua infância, sem preconceitos de cor, brincaram com arco, jogaram bola de panos ou empinaram papagaio.
     À esquerda, em cima, Lacerda e Couty estudam efeitos de plantas. João Baptista de Lacerda (1846-1915) foi o fundador do primeiro laboratório de fisiologia existente no Brasil, e Louis Couty (1854-1884), aluno de Vulpian, um dos primeiros a estudar, entre nós, os efeitos do café. Ambos acompanham o registro gráfico da pressão arterial do cão. Foi escolhido de propósito o assunto, dada a natureza dos trabalhos experimentais aqui realizados. De um lado, aspectos microscópicos do rim e de lesões renais encontradas, por exemplo, na hipertensão arterial experimental hormonal e, de outro lado, numa lembrança histórica, Stephen Hales (1677-1761) determinando pela primeira vez, experimentalmente, a pressão arterial carotidiana num equídeo.
     À direita, em cima, Lavoisier (1743-1794), assistido pela esposa a redigir o protocolo das observações, estuda as trocas respiratórias, numa antevisão do que significam hoje para a clínica médica e a semiologia as modernas técnicas da bioquímica. Mais à direita, cortes e desenhos mostram a importância da endocrinologia. No alto, a representação esquemática da adeno-hipófise com seus três tipos celulares, a secreção de gonadotropinas, o endométrio, as gônadas, a genitália, a lactação e a gestação. Mais à direita, o aparelho tiroparatiroidiano e, à esquerda, o galo normal e o capão dentro do ovoide testicular. Inferiormente, o timoneiro lembra o ciclo dos navegantes portugueses, o perigo do escorbuto e o alcance da vitaminologia. As nossas frutas ricas em ácido ascórbico, o pombo com beribéri e a representação de cristais de tiamina chamam de novo a atenção para o papel das vitaminas. Terminando a volta do painel, como se tivéssemos seguido a marcha dos ponteiros de um relógio, a obtenção do curare pelos índios do Amazonas e o consequente emprego dos bloqueadores ganglionares em cirurgia a reviver a senda da farmacologia desde o uso primitivo até o emprego racional e científico de novos medicamentos.
     O estudo das plantas, inclusive medicinais, feito pelos naturalistas que correram os nossos sertões e que tantas lições nos legaram, vem lembrado na figura de Barbosa Rodrigues (1842-1909) e de sua esposa quando, em missão do governo imperial, exploraram o vale do Amazonas. Junto às palmeiras, o ramo de café e dentro do hexágono a esquematização da tecnologia industrial, sugestivos da potência e das realizações paulistas. No centro do mural o hexágono do benzeno – símbolo da química dos organismos – reúne todos esses episódios das ciências fisiológicas e da nossa medicina. Finalmente, a dominar todo o painel, a figura austera de Claude Bernard (1813-1878), lídimo representante do espírito latino e fundador da medicina experimental. A seu lado, a esquematização da fórmula da glicose, do glicogênio no fígado e do ciclo de aproveitamento energético dos hidratos de carbono.
     A proposta para execução de um mural no saguão do novo edifício dos Laboratórios de Farmacologia e Bioquímica foi aprovada pelo Conselho Técnico Administrativo da Escola Paulista de Medicina na reunião ordinária de 20 de junho de 1956, presidida pelo sr. Diretor Prof. Dr. José Maria de Freitas, secretariada por dona Ida Paulini e com a presença dos conselheiros: profs. Drs. Felício Cintra do Prado, Jairo de Almeida Ramos, João Moreira da Rocha, Walter Pereira Leser e Marcos Lindenberg.
     Aprovada a ideia de um mural que aduzisse episódios da história da medicina mais ligados a nós latinos e brasileiros, passamos, Paiva, Nerici e eu, a imaginar as cenas e consultar livros e monografias. Além da pura criação artística, algumas cenas eram calcadas de figuras conhecidas. Assim, a que representa Hales medindo a pressão arterial carotidiana da égua foi sugerida de uma gravura do livro de Bettmann e Hench (O. L. Bettmann e P. S. Hench, A Pictorial History of Medicine, Springfield, Charles C. Thomas, 1956, p. 199) e a de Lavoisier e sua esposa, da gravura do livro de Holmyard (E. J. Holmyard, Chemistry to the Time of Dalton, Londres, Oxford University Press, 1925, p. 107). Na época em que foi pintado o mural ainda não conhecíamos o retrato de Couty que aparece sem a barba nazarena. O pintor não deixou de se representar como Osvaldo Cruz; a figura do cirurgião é a de um dos nossos assistentes, entre as crianças vêm-se representados filhos dos professores de farmacologia e de bioquímica. Barbosa Rodrigues, Lavoisier e as respectivas esposas podem ser tomados ainda como alusão ao fato de que vários casais trabalham nestes Laboratórios.
     Durante quatro meses, Pietro Nerici trabalhou com dedicação e entusiasmo na execução desse mural. Isto constituiu para todos nós exemplo de que vale colocar a alma inteira na concretização de um plano fiel e pacientemente elaborado. Diz o pintor que o mural durará enquanto subsistirem as paredes deste edifício.
     Enquanto sobreviver a Escola Paulista de Medicina, terão os nossos alunos nesse mural a oportunidade de gravarem noções que, ligadas ao passado, traduzem no campo da medicina o anseio de progresso inadiável do Brasil no concerto das nações civilizadas.

Fonte bibliográfica:
Ribeiro do Valle, José – Descrição do Mural “Introdução Pictórica à Medicina Experimental no Brasil” em “O Bíceps”, nº 27, pp. 40-41, 1962 in “Foi isso que eu quis viver: 50 anos de formatura da turma de 1967 da EPM”, de autoria de Durval Rosa Borges, Kato Editorial, 2017, São Paulo, páginas 34-37.
Observação: livro gentilmente cedido pelo Prof. Dr. Durval Rosa Borges.       
      

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

"Medicina Experimental" - Mural da Escola Paulista de Medicina

Medicina Experimental - Mural de Pietro Nerici no Saguão do 
Departamento de Bioquímica e Farmacologia da Escola Paulista de Medicina (1956).

Pietro Nerici
     Pintor, desenhista, gravador, muralista, professor. Nascido em 1918 na cidade de Lucca, Itália.
     No início de sua carreira foi influenciado pelo expressionismo e depois pelo abstracionismo informal. Fez seu aprendizado artístico básico no Instituto de Arte de Lucca. Depois aperfeiçoou-se em Florença e Roma, onde fez cursos superiores de escultura e pintura.
1939 – Ganhou o primeiro prêmio de pintura em mostra realizada em Florença.
1941 – Conquistou o terceiro prêmio na Exposição Nacional de Trieste, Itália.
1947 – Obteve o primeiro prêmio para afresco em Bolonha, Itália. Fez estágios em Veneza e Florença, onde trabalhou em decorações no Convento dos Carmelitas e no Colégio das Freiras Canossianas.
1949 – Transferiu-se para o Brasil, indo residir em São Paulo, SP.
1960 – Concorreu ao Prêmio Leirner de Arte Contemporânea, em São Paulo.
Foi professor na Faculdade de Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo.
Realizou alguns murais em edifícios de São Paulo, como o Instituto de Farmacologia da Escola de Medicina, o edifício dos Elevadores Atlas, o Hotel Flórida e a Companhia Paulista de Seguros Gerais, e também em Belo Horizonte, MG, e Rio de Janeiro, RJ.
Realizou, entre outras, as seguintes exposições individuais:
1960 – Galeria das Folhas, São Paulo.
1965 – Museu de Arte de São Paulo, São Paulo; Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, MG.
Tomou parte de diversas mostras coletivas, entre as quais as seguintes:
1961-63 – Salão Paulista de Arte Moderna, São Paulo (medalha de prata na edição de 1961 e prêmio de aquisição nas edições de 1962 e 1963).
1961-65 – Salão Nacional de Arte Moderna, Rio de Janeiro.
1963 e 1965 – Bienal de São Paulo, São Paulo.


Fontes bibliográficas conforme o site de onde essas informações foram obtidas:
CAVALCANTI e AYALA. Dicionário Brasileiro de Artistas Plásticos. MEC/INL, 1973-77.
LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. p. 351, Artlivre, Rio de Janeiro, 1988.
PONTUAL, Roberto. Dicionário das artes plásticas no Brasil. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, 1969.

Disponível em http://www.brasilartesenciclopedias.com.br/nacional/nerici_pietro.htm
 


terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Biografia de Nicolau Maria Rossetti (1894-1956)


A partir de texto de Antônio Defina

     Nicolau Maria Rossetti nasceu em Mococa, Estado de São Paulo, a 17 de abril de 1894. Após os estudos básicos na Capital, cursou a Real Universidade de Nápoles (Itália), onde se diplomou em Medicina em 17 de julho de 1917, com distinção e louvor.
     Retornou à Europa em 1921, para prosseguir os estudos de especialização, frequentando a Escola Dermatológica do Hopital Saint Louis (Paris), a Charité Krankenhaus (Berlim) e a Universidade de Viena.
     Regressando ao Brasil, fixou-se em São Paulo, participando como Assistente dos trabalhos da Clínica Dermatológica da Faculdade de Medicina de São Paulo, na Santa Casa de Misericórdia, Serviço do Prof. A. Lindenberg, onde estabeleceu convivência com outros dermatologistas.
     Membro fundador da Escola Paulista de Medicina, foi professor catedrático de Clínica Dermatológica e Sifilográfica desde 1936, quando se iniciou o curso dessa cadeira no quarto ano do curso médico, até seu falecimento em 1956.
     No ensino da Dermatologia, pôs em realce a importância dos detalhes morfológicos das lesões na sua totalidade, o que o levava a um apuro no exame do paciente, que entendia dever abranger todo o tegumento. Realçando sempre o valor do exame dermatológico cuidadoso e integral, discorria sobre as diferentes dermopatias, a partir da apresentação do paciente, fazendo-o de maneira bastante expressiva.
     Conhecedor profundo de patologia humana, completava o exame da pele com constatações outras de ordem clínica pertinentes a cada caso. Estudioso pertinaz, acompanhava através da literatura o desenvolver da patologia médica, dominando seis línguas, fichando, grifando e anotando às margens dos livros e revistas os pontos principais, o que causava grande desespero aos bibliotecários.
     De caráter firme e marcante, impunha-se pelo saber e pela personalidade tanto na vida profissional, como docente. Essa retidão de caráter, que o compelia a fazer tudo pelo melhor e a exigir a perfeição na prática profissional, causava certo constrangimento ao primeiro contato. Com a convivência, todavia, granjeava amigos entre seus auxiliares e na vida profissional, pois os que dele se aproximavam sentiam o calor e o amparo que dispensava a todos.
     O Prof. Rossetti exerceu vários cargos na Inspetoria de Profilaxia da Lepra e como Assistente no Instituto de Higiene, onde organizou o Serviço de Dermatologia e o Laboratório de Micologia Dermatológica. Transferindo-se para o Instituto Adolpho Lutz, da Secretaria da Saúde, criou ali a seção de Micologia, onde realizou inquérito sobre as tinhas de São Paulo, que constitui monografia completa sobre o assunto. Organizou o serviço de sífilis para gestantes da Clínica Obstétrica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Serviço do Prof. Raul Briquet). Além de outras funções oficiais no campo da lepra e das moléstias venéreas. Fez parte da Comissão para estudar a fusão dos Institutos Bacteriológico, Butantã e de Higiene.
     Participou de várias Bancas Examinadoras em concursos para Catedráticos e Livre-Docentes na especialidade, em diversas Faculdades do país, bem como de comissões julgadoras de prêmios científicos.
     Em 1938, na Escola Paulista de Medicina, em colaboração com o Centro Acadêmico Pereira Barreto, organizou o Centro de Higiene Social, do qual foi Diretor Clínico. Esse Centro funcionava à noite em instalações próximas ao centro da cidade, e aí os alunos do quarto ano aprendiam a aplicar injeções intramusculares e endovenosas e a fazer pequenos curativos, familiarizando-se com os esquemas de tratamento de sífilis, então com arsenicais e bismuto e, posteriormente, com penicilina. Nesse local de trabalho muitos alunos e médicos encontraram também agradável ambiente de confraternização e amizade.
     Pertenceu Nicolau Maria Rossetti a inúmeras sociedades científicas nacionais e internacionais. Publicou vários trabalhos na sua especialidade, cumprindo destacar, entre outros, os estudos sobre livedo racemoso, acidentes arsenicais, epidermólise bolhosa hereditária, moléstia de Darier, vitaminas e moléstias da pele, lucites por sensibilizadores vegetais, dermatomiosite, um novo problema sanitário em São Paulo (primeiros resultados de um inquérito sobre tinhas). Colaborou com cursos de especialização, de divulgação e atualização dando ênfase aos temas sobre sífilis, micoses da pele e dos pelos e dermatoses alérgicas.
     Muitos foram os que iniciaram ou aperfeiçoaram seu tirocínio clínico-dermatológico segundo a rigorosa metodologia propedêutica praticada e defendida por Rossetti, cumprindo lembrar os nomes de Antônio Defina, Vicente Grieco, Benedito Mendes de Castro, Álvaro Alberto Cunha e Cyro C. Aranha Pereira.
     O Prof. Rossetti faleceu em 11 de junho de 1956. Seu nome foi dado a uma rua no Jardim Império, na Zona Sul do município de São Paulo.

Fonte Bibliográfica:
1 - Defina, Antônio – Nicolau Maria Rossetti (1894-1956) in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, págs. 121-124.
2 - https://dicionarioderuas.prefeitura.sp.gov.br/

terça-feira, 20 de novembro de 2018

“Semiologia Clínica”, pelo Prof. Carlos da Silva Lacaz


O Prof. Carlos da Silva Lacaz (1915-2002) publicou diversos textos no jornal Folha de São Paulo, por vários anos. Ele formou-se em 1940 pela FMUSP. Foi Professor Catedrático de Microbiologia e Imunologia da FMUSP, Professor Titular do Departamento de Medicina Tropical e Dermatologia da FMUSP. Fundador e Diretor do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, além de outros tantos títulos. Também se dedicou à Historiografia Médica.
Em 1976, por ocasião da publicação do livro “Semiotécnica da Observação Clínica”, da autoria do Prof. José Ramos Junior, o Prof. Carlos da Silva Lacaz publicou o texto a seguir no jornal Folha de São Paulo, com algumas características próprias da época e outras que têm atualidade. 

     Francisco de Castro, o grande clínico brasileiro, que escreveu também as mais belas páginas de filosofia médica, advertia no seu Tratado de Propedêutica do “modus faciendi” do exame do doente, referindo que nessa exploração, executada segundo regras idôneas, residia o segredo do seu êxito e a condição da sua prestabilidade.
     Mediante a observação dos processos investigativos, dos seus requisitos essenciais, das suas formalidades impreteríveis, amiúde alcança o clínico ver o invisível e palpar o insondável. É certo que entra nessa operação analítica, um pouco de aptidão ingênita do observador, um pouco desse produto do inconsciente que todos trazemos com a mais sólida camada da nossa organização psicológica. Numa época da nossa profissão em que o exame cuidadoso do doente está sendo relegado para um plano secundário, absorvidos os médicos de hoje com dezenas de exames laboratoriais, alguns de interpretação ainda discutida, é suavemente bom e agradável a leitura de um grande livro de Semiótica e que acaba de ser publicado pelo Prof. José Ramos Junior. Conheci o ilustre colega quando ainda acadêmico, na velha Santa Casa de São Paulo, orientado pelo seu mestre Prof. Jairo Ramos, no Serviço do Prof. Rubião Meira, de saudosa memória. Naquela época, o exame do doente era praticado com cuidados extremos, contando o médico com os poucos recursos laboratoriais da época. Mas, assim mesmo, a Medicina Paulista conheceu e viveu um período de real esplendor e progresso. A arte de examinar o doente foi sempre coisa sagrada na velha enfermaria do Prof. Rubião Meira. E, por isso, daquele Serviço saíram grandes expressões da nossa medicina, homens de trabalho e de disciplina, que se projetaram de modo definitivo no cenário da nossa profissão.
     José Ramos Junior tem sido, entre nós, um dos grandes cultores da observação clínica, mostrando que todo e qualquer exame subsidiário, ou seja, aquele que decorre da chamada propedêutica armada, é o será sempre, orientado e solicitado pelo raciocínio resultante da análise dos elementos propedêuticos fornecidos pela interpretação fisiopatológica dos sintomas e dos sinais. É lógico que essa análise interpretativa depende dos conhecimentos de fisiopatologia e de semiotécnica rigorosamente bem executada e que, quanto mais completa e minuciosa, maiores serão os elementos para os diagnósticos funcionais, anatômicos e etiopatológicos, bem como para o prognóstico e, principalmente para a conduta terapêutica adequada, formulada em bases científicas e seguras.
     Com a responsabilidade de professor, José Ramos Junior destacou no prefácio de seu belo trabalho – dois volumes publicados graças à benemerência do Fundo Editorial Procienx – os erros e os vícios que se vêm cometendo principalmente nos chamados institutos de previdência e outros semelhantes, onde muitas vezes os pacientes são tratados por números, não se estabelecendo como seria altamente recomendado um elo de simpatia entre o médico e o doente, elemento fundamental para o reatar de novas esperanças.
     Assim, as anamneses são compostas em estilo telegráfico, muitas vezes com um exame físico sumário e falho, porque o que se deseja nesses institutos é o número de consultas e não a sua qualidade.
     A massificação da assistência médica está transformando as observações clínicas em prontuários frios e inexpressivos, sem uma sequência inteligente dos seus acontecimentos, dos seus sintomas, do reconhecimento e da personalidade dos pacientes. Por sua vez, muitos colegas se impacientam com este tipo de atividade, tratando os seus doentes sem a merecida e necessária afetividade. Destaca ainda o Prof. José Ramos Junior, nesse verdadeiro Tratado de Propedêutica, ricamente ilustrado e nascido à beira do leito do enfermo, os erros do profissional quando examina um paciente, traduzidos muitas vezes pela ostentação, pelo desprezo e até pela falta de caridade, ou seja, com a crueldade dos prognósticos infaustos ditos face a face, revelando a ostentação de quem quer demonstrar a sua “sabedoria” ou superioridade.
     Este é um livro rico de ensinamentos que deverá estar na cabeceira de todo o estudante de Medicina que precisa aprender sua profissão no sentido integral e assim exercê-la.
     A observação clínica bem realizada, adequadamente composta pela semiotécnica, é a base fundamental dos diagnósticos anatômicos, funcionais e etiológicos e, consequentemente, de um racional e científico planejamento terapêutico.
     Bem haja o Prof. José Ramos Júnior pela publicação desse oportuno livro que irá exercer fecunda influência em todo o jovem que se prepara para cumprir a mais bela e mais humana de todas as profissões. O trabalho em foco demonstra que, muitas vezes, um exame clínico cuidadoso, sem qualquer exame laboratorial, possibilita ao clínico ver o invisível e palpar o insondável, na expressão do consagrado Francisco de Castro. A Medicina brasileira está de parabéns.

Fonte bibliográfica:
Lacaz, Carlos da Silva – Temas de Medicina – Biografias, Doenças e Problemas Sociais. Lemos Editorial, 1997, págs. 242-243.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Biografia do Prof. Dr. José Ignácio Lobo



A partir de texto de Gustavo Friozzi

     José Ignácio Lobo nasceu em São Paulo em 14 de fevereiro de 1900, filho de Jerônimo Álvares Lobo e Maria Eliza de Azevedo Lobo. Matriculou-se em 1912 no Colégio Arquidiocesano de São Paulo, onde fez o então Curso Ginasial, que concluiu em 1916.
     Após prestar exames em lugares como o Ginásio do Estado da Capital e a Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, decidiu-se por cursar esta última, onde graduou-se em 1923.
    A partir do fim do terceiro ano do Curso Médico, começou a frequentar, na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, o Serviço de Clínica da Segunda Enfermaria de Mulheres, da qual era chefe o Dr. Ribeiro Almeida, tendo aí trabalhado sob a orientação do então assistente Dr. Raul Margarido. Ainda como aluno trabalhou nos postos de Profilaxia da Sífilis. No último ano do curso foi Interno do Hospital de Isolamento de São Paulo (depois Hospital Emílio Ribas). Foi presidente do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz. Em seu doutoramento defendeu tese sobre “Menstruação e Corpo Lúteo”, sendo aprovado com distinção.
     Exerceu a Clínica inicialmente na cidade de Ourinhos, onde ficou até 1925. Nessa época ingressou no Serviço do Professor Rubião Meira, na Segunda Enfermaria de Homens da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Dessa forma, foi indicado pelo Prof. Meira para Assistente Extraordinário da Terceira Cadeira de Clínica Médica da Faculdade de Medicina, indicação essa renovada anualmente, sendo a última das quais em março de 1936, conforme o título da nomeação.
     Em julho de 1932, foi nomeado adjunto do Hospital São Luiz Gonzaga, em Jaçanã. Esse cargo foi logo interrompido, em virtude da Revolução Constitucionalista. Durante esta, não pode prestar serviços médicos nem no Hospital Central da Santa Casa, nem em outro hospital, por ter-se incorporado às forças paulistas em operação no Setor Sul. De regresso, reassumiu suas funções na Santa Casa e no Hospital São Luiz Gonzaga.
     Em 1933, José Ignácio Lobo participou da fundação da Escola Paulista de Medicina, onde tornou-se Professor Catedrático de Clínica Médica.
     Em maio de 1936, foi aprovado em concurso para Livre Docente de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de São Paulo. Continuou a auxiliar o curso prático da Terceira Cadeira de Clínica Médica, e trabalhando na Segunda Enfermaria de Medicina de Homens da Santa Casa de São Paulo até outubro de 1938. Na ocasião, a convite do Prof. Ribeiro de Almeida, passou a trabalhar na Segunda Enfermaria de Medicina de Mulheres da Santa Casa, onde permaneceu até meados de 1944.
     Em 1943, teve revalidado seu título de Livre Docente de Clínica Médica pela Congregação da Faculdade de Medicina de São Paulo, mediante novo concurso de títulos, conforme ordenava a Lei.
     Em novembro de 1945, foi transferido do cargo de adjunto efetivo do Hospital São Luiz Gonzaga para cargo similar na Santa Casa. Em maio de 1946, foi promovido a Chefe de Clínica da Segunda Enfermaria de Medicina de Homens da Santa Casa. Exerceu essa Chefia até 1953, quando solicitou exoneração do cargo. A Mesa Administrativa da Irmandade conferiu-lhe, em maio de 1955, o título de Médico Emérito, em reconhecimento a serviços prestados.
     O Prof. Lobo foi pioneiro e precursor de estudos endocrinológicos em São Paulo, juntamente com Thales Martins. Com a supressão do serviço de Endocrinologia do Instituto Butantã, houve a transferência do pessoal e do arquivo de casos para a Escola Paulista de Medicina, concomitantemente à criação da Disciplina de Endocrinologia no recém-criado Departamento de Medicina pelo Prof. Jairo Ramos, que indicou, e foi aprovado pela Congregação, o Dr. Lobo. Conforme Gustavo Friozzi, concomitantemente foi criada a Disciplina de Moléstias Infecciosas. O Prof. Lobo aposentou-se na EPM em 1968.
     Participou várias vezes do antigo Conselho Técnico Administrativo da EPM, mesmo após se aposentar. Assim também do Conselho Deliberativo da Sociedade Paulista para o Desenvolvimento da Medicina, mantenedora do Hospital São Paulo.
     Foi membro de várias bancas examinadoras em concursos de professores e docentes. Publicou mais de 200 trabalhos, entre teses, monografias e artigos científicos. Mesmo após aposentado exerceu, em comissão, o cargo de Assistente Técnico da Coordenadoria dos Serviços Técnicos Especializados da Secretaria da Saúde.
     Nas palavras de Gustavo Friozzi:
     “Durante o tempo que trabalhamos com o Dr. Lobo, pudemos verificar a vivacidade de sua inteligência e a profundeza de sua cultura. Chegava à Enfermaria lá pelas dez horas e passava em revista todos os leitos (33), orientando a terapêutica ou ajudando a esclarecer o diagnóstico. Tendo sido convidado a dirigir o Departamento Científico da Laborterápica, teria podido, como o fazem muitos, aparecer de vez em quando na Enfermaria e manter-se chefe titular. Mas o caráter de José Ignácio Lobo não permitia tal rasgo à sua concepção do dever. Não podendo dar, como queria, a assistência e a atenção que seu cargo requeria, preferiu demitir-se, a manter-se como titular figurativo. Foi uma pena. Perdeu a Santa Casa um grande clínico e eu um grande mestre e amigo”.
     Continua Gustavo Friozzi:
     “Novamente a Enfermaria foi posta em concurso, vencendo-o o Dr. Ulysses Lemos Torres, digno substituto de Ignácio Lobo e continuador da grande obra de seu pai, o falecido Prof. Lemos Torres, introdutor da semiótica médica em nosso meio, que muito contribuiu para formar grandes clínicos como: Jairo Ramos, L. Decourt, J. Lobo, Ulhôa Cintra, B. Tranchesi e outros”.
     Sobre o Prof. Lobo, diz ainda Gustavo Friozzi, em publicação de 1977:
     “De estatura mediana, esguio, com farta cabeleira grisalha, sempre elegantemente trajado, o Dr. Lobo lembra a figura dos médicos ingleses descritos por Cronin. Patriarca “ancien stile”, é o pai de 10 filhos”.   
     No jornal O Estado de São Paulo de  7 de fevereiro de 1994 lê-se nota de falecimento do Prof. José Ignácio Lobo, com 94 anos. o jornal acrescenta que, em setembro de 1963, na sessão solene da congregação da Escola Paulista de Medicina, comemorativa dos 30 anos de fundação da Escola, pronunciou longa oração, quando destacou: “tem sido de fato uma constante desta Escola, a preocupação com os métodos de ensino, com a técnica do ensino, com a ciência do ensino”. E aos alunos disse: “para usar uma linguagem estudantil, dir-vos-ei agora, nesta festa trintenária, que a 'escolinha' dos vossos antecessores se tornou a 'Paulista' de nossos dias, guardai bem e defendei melhor, este nome, assim no que ele exprime de transmutação dos conceitos, como no que ele significa de tradição gentílica. Guardai-o com a alegria da mocidade, com a altivez de homens livres e com a dignidade que a Providência Divina, a quem rendemos graças, imprimiu em cada um de nós”.
     Continuando a notícia, o Prof. José Ignácio Lobo era filho do Sr. Gerônimo Alves Lobo e de d. Maria Elisa Lobo, falecidos. Era casado com d. Maria Rita Lobo. Deixa os filhos, Marcelo Lobo, casado com d. Lucila Figueiredo Lobo; Guilherme Lobo, casado com d. Elisabeth Lobo; Maria Claúdia Lobo; Maria Ercília Lobo; Maria Gilda Lobo; d. Elisabeth Lobo Brennan, casada com Laurence Brennan; d. Heloisa Lobo Teixeira da Silva, casada com o sr. Luiz Teixeira da Silva; Jorge Garcez Lobo, casado com d. Regina Lobo; Flávia Lobo, solteira, e Rogério Lobo, solteiro. Deixa ainda netos e bisnetos. O enterro realizou-se no dia 5, às 12 horas, no Cemitério Gethsemani.   

Fonte bibliográficas: 
Friozzi, Gustavo – José Ignácio Lobo in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, págs. 104-107.
Acervo do jornal O Estado de São Paulo.