terça-feira, 20 de novembro de 2018

“Semiologia Clínica”, pelo Prof. Carlos da Silva Lacaz


O Prof. Carlos da Silva Lacaz (1915-2002) publicou diversos textos no jornal Folha de São Paulo, por vários anos. Ele formou-se em 1940 pela FMUSP. Foi Professor Catedrático de Microbiologia e Imunologia da FMUSP, Professor Titular do Departamento de Medicina Tropical e Dermatologia da FMUSP. Fundador e Diretor do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, além de outros tantos títulos. Também se dedicou à Historiografia Médica.
Em 1976, por ocasião da publicação do livro “Semiotécnica da Observação Clínica”, da autoria do Prof. José Ramos Junior, o Prof. Carlos da Silva Lacaz publicou o texto a seguir no jornal Folha de São Paulo, com algumas características próprias da época e outras que têm atualidade. 

     Francisco de Castro, o grande clínico brasileiro, que escreveu também as mais belas páginas de filosofia médica, advertia no seu Tratado de Propedêutica do “modus faciendi” do exame do doente, referindo que nessa exploração, executada segundo regras idôneas, residia o segredo do seu êxito e a condição da sua prestabilidade.
     Mediante a observação dos processos investigativos, dos seus requisitos essenciais, das suas formalidades impreteríveis, amiúde alcança o clínico ver o invisível e palpar o insondável. É certo que entra nessa operação analítica, um pouco de aptidão ingênita do observador, um pouco desse produto do inconsciente que todos trazemos com a mais sólida camada da nossa organização psicológica. Numa época da nossa profissão em que o exame cuidadoso do doente está sendo relegado para um plano secundário, absorvidos os médicos de hoje com dezenas de exames laboratoriais, alguns de interpretação ainda discutida, é suavemente bom e agradável a leitura de um grande livro de Semiótica e que acaba de ser publicado pelo Prof. José Ramos Junior. Conheci o ilustre colega quando ainda acadêmico, na velha Santa Casa de São Paulo, orientado pelo seu mestre Prof. Jairo Ramos, no Serviço do Prof. Rubião Meira, de saudosa memória. Naquela época, o exame do doente era praticado com cuidados extremos, contando o médico com os poucos recursos laboratoriais da época. Mas, assim mesmo, a Medicina Paulista conheceu e viveu um período de real esplendor e progresso. A arte de examinar o doente foi sempre coisa sagrada na velha enfermaria do Prof. Rubião Meira. E, por isso, daquele Serviço saíram grandes expressões da nossa medicina, homens de trabalho e de disciplina, que se projetaram de modo definitivo no cenário da nossa profissão.
     José Ramos Junior tem sido, entre nós, um dos grandes cultores da observação clínica, mostrando que todo e qualquer exame subsidiário, ou seja, aquele que decorre da chamada propedêutica armada, é o será sempre, orientado e solicitado pelo raciocínio resultante da análise dos elementos propedêuticos fornecidos pela interpretação fisiopatológica dos sintomas e dos sinais. É lógico que essa análise interpretativa depende dos conhecimentos de fisiopatologia e de semiotécnica rigorosamente bem executada e que, quanto mais completa e minuciosa, maiores serão os elementos para os diagnósticos funcionais, anatômicos e etiopatológicos, bem como para o prognóstico e, principalmente para a conduta terapêutica adequada, formulada em bases científicas e seguras.
     Com a responsabilidade de professor, José Ramos Junior destacou no prefácio de seu belo trabalho – dois volumes publicados graças à benemerência do Fundo Editorial Procienx – os erros e os vícios que se vêm cometendo principalmente nos chamados institutos de previdência e outros semelhantes, onde muitas vezes os pacientes são tratados por números, não se estabelecendo como seria altamente recomendado um elo de simpatia entre o médico e o doente, elemento fundamental para o reatar de novas esperanças.
     Assim, as anamneses são compostas em estilo telegráfico, muitas vezes com um exame físico sumário e falho, porque o que se deseja nesses institutos é o número de consultas e não a sua qualidade.
     A massificação da assistência médica está transformando as observações clínicas em prontuários frios e inexpressivos, sem uma sequência inteligente dos seus acontecimentos, dos seus sintomas, do reconhecimento e da personalidade dos pacientes. Por sua vez, muitos colegas se impacientam com este tipo de atividade, tratando os seus doentes sem a merecida e necessária afetividade. Destaca ainda o Prof. José Ramos Junior, nesse verdadeiro Tratado de Propedêutica, ricamente ilustrado e nascido à beira do leito do enfermo, os erros do profissional quando examina um paciente, traduzidos muitas vezes pela ostentação, pelo desprezo e até pela falta de caridade, ou seja, com a crueldade dos prognósticos infaustos ditos face a face, revelando a ostentação de quem quer demonstrar a sua “sabedoria” ou superioridade.
     Este é um livro rico de ensinamentos que deverá estar na cabeceira de todo o estudante de Medicina que precisa aprender sua profissão no sentido integral e assim exercê-la.
     A observação clínica bem realizada, adequadamente composta pela semiotécnica, é a base fundamental dos diagnósticos anatômicos, funcionais e etiológicos e, consequentemente, de um racional e científico planejamento terapêutico.
     Bem haja o Prof. José Ramos Júnior pela publicação desse oportuno livro que irá exercer fecunda influência em todo o jovem que se prepara para cumprir a mais bela e mais humana de todas as profissões. O trabalho em foco demonstra que, muitas vezes, um exame clínico cuidadoso, sem qualquer exame laboratorial, possibilita ao clínico ver o invisível e palpar o insondável, na expressão do consagrado Francisco de Castro. A Medicina brasileira está de parabéns.

Fonte bibliográfica:
Lacaz, Carlos da Silva – Temas de Medicina – Biografias, Doenças e Problemas Sociais. Lemos Editorial, 1997, págs. 242-243.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Biografia do Prof. Dr. José Ignácio Lobo



A partir de texto de Gustavo Friozzi

     José Ignácio Lobo nasceu em São Paulo em 14 de fevereiro de 1900, filho de Jerônimo Álvares Lobo e Maria Eliza de Azevedo Lobo. Matriculou-se em 1912 no Colégio Arquidiocesano de São Paulo, onde fez o então Curso Ginasial, que concluiu em 1916.
     Após prestar exames em lugares como o Ginásio do Estado da Capital e a Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, decidiu-se por cursar esta última, onde graduou-se em 1923.
    A partir do fim do terceiro ano do Curso Médico, começou a frequentar, na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, o Serviço de Clínica da Segunda Enfermaria de Mulheres, da qual era chefe o Dr. Ribeiro Almeida, tendo aí trabalhado sob a orientação do então assistente Dr. Raul Margarido. Ainda como aluno trabalhou nos postos de Profilaxia da Sífilis. No último ano do curso foi Interno do Hospital de Isolamento de São Paulo (depois Hospital Emílio Ribas). Foi presidente do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz. Em seu doutoramento defendeu tese sobre “Menstruação e Corpo Lúteo”, sendo aprovado com distinção.
     Exerceu a Clínica inicialmente na cidade de Ourinhos, onde ficou até 1925. Nessa época ingressou no Serviço do Professor Rubião Meira, na Segunda Enfermaria de Homens da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Dessa forma, foi indicado pelo Prof. Meira para Assistente Extraordinário da Terceira Cadeira de Clínica Médica da Faculdade de Medicina, indicação essa renovada anualmente, sendo a última das quais em março de 1936, conforme o título da nomeação.
     Em julho de 1932, foi nomeado adjunto do Hospital São Luiz Gonzaga, em Jaçanã. Esse cargo foi logo interrompido, em virtude da Revolução Constitucionalista. Durante esta, não pode prestar serviços médicos nem no Hospital Central da Santa Casa, nem em outro hospital, por ter-se incorporado às forças paulistas em operação no Setor Sul. De regresso, reassumiu suas funções na Santa Casa e no Hospital São Luiz Gonzaga.
     Em 1933, José Ignácio Lobo participou da fundação da Escola Paulista de Medicina, onde tornou-se Professor Catedrático de Clínica Médica.
     Em maio de 1936, foi aprovado em concurso para Livre Docente de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de São Paulo. Continuou a auxiliar o curso prático da Terceira Cadeira de Clínica Médica, e trabalhando na Segunda Enfermaria de Medicina de Homens da Santa Casa de São Paulo até outubro de 1938. Na ocasião, a convite do Prof. Ribeiro de Almeida, passou a trabalhar na Segunda Enfermaria de Medicina de Mulheres da Santa Casa, onde permaneceu até meados de 1944.
     Em 1943, teve revalidado seu título de Livre Docente de Clínica Médica pela Congregação da Faculdade de Medicina de São Paulo, mediante novo concurso de títulos, conforme ordenava a Lei.
     Em novembro de 1945, foi transferido do cargo de adjunto efetivo do Hospital São Luiz Gonzaga para cargo similar na Santa Casa. Em maio de 1946, foi promovido a Chefe de Clínica da Segunda Enfermaria de Medicina de Homens da Santa Casa. Exerceu essa Chefia até 1953, quando solicitou exoneração do cargo. A Mesa Administrativa da Irmandade conferiu-lhe, em maio de 1955, o título de Médico Emérito, em reconhecimento a serviços prestados.
     O Prof. Lobo foi pioneiro e precursor de estudos endocrinológicos em São Paulo, juntamente com Thales Martins. Com a supressão do serviço de Endocrinologia do Instituto Butantã, houve a transferência do pessoal e do arquivo de casos para a Escola Paulista de Medicina, concomitantemente à criação da Disciplina de Endocrinologia no recém-criado Departamento de Medicina pelo Prof. Jairo Ramos, que indicou, e foi aprovado pela Congregação, o Dr. Lobo. Conforme Gustavo Friozzi, concomitantemente foi criada a Disciplina de Moléstias Infecciosas. O Prof. Lobo aposentou-se na EPM em 1968.
     Participou várias vezes do antigo Conselho Técnico Administrativo da EPM, mesmo após se aposentar. Assim também do Conselho Deliberativo da Sociedade Paulista para o Desenvolvimento da Medicina, mantenedora do Hospital São Paulo.
     Foi membro de várias bancas examinadoras em concursos de professores e docentes. Publicou mais de 200 trabalhos, entre teses, monografias e artigos científicos. Mesmo após aposentado exerceu, em comissão, o cargo de Assistente Técnico da Coordenadoria dos Serviços Técnicos Especializados da Secretaria da Saúde.
     Nas palavras de Gustavo Friozzi:
     “Durante o tempo que trabalhamos com o Dr. Lobo, pudemos verificar a vivacidade de sua inteligência e a profundeza de sua cultura. Chegava à Enfermaria lá pelas dez horas e passava em revista todos os leitos (33), orientando a terapêutica ou ajudando a esclarecer o diagnóstico. Tendo sido convidado a dirigir o Departamento Científico da Laborterápica, teria podido, como o fazem muitos, aparecer de vez em quando na Enfermaria e manter-se chefe titular. Mas o caráter de José Ignácio Lobo não permitia tal rasgo à sua concepção do dever. Não podendo dar, como queria, a assistência e a atenção que seu cargo requeria, preferiu demitir-se, a manter-se como titular figurativo. Foi uma pena. Perdeu a Santa Casa um grande clínico e eu um grande mestre e amigo”.
     Continua Gustavo Friozzi:
     “Novamente a Enfermaria foi posta em concurso, vencendo-o o Dr. Ulysses Lemos Torres, digno substituto de Ignácio Lobo e continuador da grande obra de seu pai, o falecido Prof. Lemos Torres, introdutor da semiótica médica em nosso meio, que muito contribuiu para formar grandes clínicos como: Jairo Ramos, L. Decourt, J. Lobo, Ulhôa Cintra, B. Tranchesi e outros”.
     Sobre o Prof. Lobo, diz ainda Gustavo Friozzi, em publicação de 1977:
     “De estatura mediana, esguio, com farta cabeleira grisalha, sempre elegantemente trajado, o Dr. Lobo lembra a figura dos médicos ingleses descritos por Cronin. Patriarca “ancien stile”, é o pai de 10 filhos”.   
     No jornal O Estado de São Paulo de  7 de fevereiro de 1994 lê-se nota de falecimento do Prof. José Ignácio Lobo, com 94 anos. o jornal acrescenta que, em setembro de 1963, na sessão solene da congregação da Escola Paulista de Medicina, comemorativa dos 30 anos de fundação da Escola, pronunciou longa oração, quando destacou: “tem sido de fato uma constante desta Escola, a preocupação com os métodos de ensino, com a técnica do ensino, com a ciência do ensino”. E aos alunos disse: “para usar uma linguagem estudantil, dir-vos-ei agora, nesta festa trintenária, que a 'escolinha' dos vossos antecessores se tornou a 'Paulista' de nossos dias, guardai bem e defendei melhor, este nome, assim no que ele exprime de transmutação dos conceitos, como no que ele significa de tradição gentílica. Guardai-o com a alegria da mocidade, com a altivez de homens livres e com a dignidade que a Providência Divina, a quem rendemos graças, imprimiu em cada um de nós”.
     Continuando a notícia, o Prof. José Ignácio Lobo era filho do Sr. Gerônimo Alves Lobo e de d. Maria Elisa Lobo, falecidos. Era casado com d. Maria Rita Lobo. Deixa os filhos, Marcelo Lobo, casado com d. Lucila Figueiredo Lobo; Guilherme Lobo, casado com d. Elisabeth Lobo; Maria Claúdia Lobo; Maria Ercília Lobo; Maria Gilda Lobo; d. Elisabeth Lobo Brennan, casada com Laurence Brennan; d. Heloisa Lobo Teixeira da Silva, casada com o sr. Luiz Teixeira da Silva; Jorge Garcez Lobo, casado com d. Regina Lobo; Flávia Lobo, solteira, e Rogério Lobo, solteiro. Deixa ainda netos e bisnetos. O enterro realizou-se no dia 5, às 12 horas, no Cemitério Gethsemani.   

Fonte bibliográficas: 
Friozzi, Gustavo – José Ignácio Lobo in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, págs. 104-107.
Acervo do jornal O Estado de São Paulo. 

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Biografia de José Bonifácio Medina


A partir de texto de Octaviano Alves de Lima Filho e de texto Carlos Alberto Salvatore.

     José Medina nasceu em São Paulo em 20 de abril de 1900. Graduou-se em Ciências e Letras pelo Ginásio de São Paulo. Formou-se pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo em 1923, com a tese “Levantar Precoce das Laparotomizadas”, aprovada com distinção.
     O seu pendor pela Ginecologia manifestou-se ainda nos bancos acadêmicos, quando cursava o quarto ano médico. Foi o memorável concurso de seu ilustre antecessor, o Professor  Nicolau de Moraes Barros, legítimo fundador da Escola Ginecológica Paulista, na renhida disputa da cátedra, em 1921, que tanto o fascinou e o fez enveredar pelo terreno da especialidade da qual  veio a tornar-se devotado cultor e lídimo representante em nosso meio.
     O seu ulterior com Moraes de Barros, na Faculdade de Medicina, primeiro como aluno, depois como assistente, fez crescer, dia após dia, a sua admiração pelos invulgares predicados de inteligência, cultura e caráter de seu mestre, ao mesmo tempo que o incentivava ao estudo da especialidade a que tem dedicado, com extrema devoção e infatigável carinho, toda a sua vida profissional.
     Após a colação de grau como assistente voluntário, assistente extranumerário, em seguida como segundo assistente e, finalmente, a partir de 1934, como primeiro assistente e chefe de Clínica da Cadeira de Clínica Ginecológica da Faculdade de Medicina de São Paulo, função que desempenhou, ininterruptamente, com reconhecida competência e admirável alento, durante dez anos, foi nomeado, em 1944, Professor Interino de Clínica Ginecológica, cargo no qual se manteve até prestar concurso, no ano seguinte, para a cátedra vaga com a compulsória do Professor Moraes Barros.
     Nesse espaço de 20 anos, soube José Medina amealhar sólidos conhecimentos em todos os setores da especialidade e não tardou em se firmar como valor dos mais expressivos e respeitados de nosso ambiente universitário. Tendo forjado toda a sua formação de especialista na escola de Moraes de Barros, deste mestre herdou os predicados de clareza na exposição de ideias e na transmissão de conhecimentos, um apurado senso clínico e grande destreza cirúrgica. Além disso, destacou-se sua capacidade, como professor, de formar escola, em ambiente de elevado valor científico e espírito de colaboração. Inúmeros foram os que contaram com sua orientação e estímulo na Faculdade de Medicina e na Escola Paulista de Medicina. Além disso, numerosos discípulos que não seguiram a carreira universitária levaram seus conhecimentos a rincões os mais variados.
     Tornou-se livre-docente em Ginecologia na Faculdade Nacional de Medicina do Rio de Janeiro, em 1938. Em 1945, Moraes de Barros atingiu a aposentadoria compulsória. Em concurso de títulos e provas, em maio do mesmo ano, José Medina conquistou a cátedra, com nota máxima em todas as provas e com a tese “Carcinoma do Corpo do Útero e Hiperplasia Basal do Endométrio”.
     Em 20 de outubro de 1948 instalou a Clínica Ginecológica do Hospital das Clínicas. Deu início a campanhas de prevenção do câncer de colo do útero pela colposcopia e citologia vaginal oncótica. Iniciou com seu assistente, Paulo Gorga, a laparoscopia. Com seu chefe de Clínica, José Galucci, montou os setores de Endocrinologia, Infanto-Puberal, Patologia Mamária, Urologia Ginecológica, Psicossomática em Ginecologia.
     Em 1961 foi criado o Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que José Medina dirigiu como catedrático, após concurso de títulos. Alcançado pela aposentadoria compulsória e, 1970, foi substituído na direção da Disciplina de Clínica Ginecológica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo pelo seu discípulo Carlos Alberto Salvatore, após concurso de títulos e provas.
     Na Escola Paulista de Medicina seu nome está inscrito entre os fundadores. Catedrático de Clínica Ginecológica, dirigiu com proficiência e dignidade o ensino e as atividades da disciplina de 1938 a 1966, quando teve de afastar-se por força da compulsória. Esta, em obediência às leis federais de então, ocorria cinco anos antes da então idade da aposentadoria compulsória, que era de setenta anos. Por isso, pareceu a seus discípulos uma regra drástica e cruel, pois apanhou o mestre em pleno fulgor de sua capacidade intelectual.
     Octaviano Alves de Lima Filho conta que o curso de Ginecologia da primeira turma, em 1938, era ministrado no subsolo de velha mansão situada na Rua Conde de Pinhal, onde funcionavam, temporariamente, os serviços de ambulatório. Com a posterior construção do Hospital São Paulo, as várias disciplinas foram instalando suas enfermarias no mesmo. As atividades da Ginecologia, no entanto, continuaram no ambulatório “acanhado”, “de impressionante pobreza”, conforme o autor. Mas o Prof. Medina fez uso de proventos próprios, além da ajuda de entidades civis e estatais, de modo que conseguiu instalar, em 1941, no terceiro andar do Hospital São Paulo, a Enfermaria de Ginecologia com 12 leitos. Todo o material foi praticamente de doação do Prof. Medina, conforme afirmou o Prof. Octaviano. Este veio a substituir o Prof. Medina em 1966, inicialmente como livre-docente e em 1968 como Professor Titular.
     O Prof. José Medina publicou mais de uma centena de trabalhos. Conquistou o Prêmio Alvarenga da Academia Nacional de Medicina, em 1933, com o trabalho “Metropatia Hemorrágica Ovariana” e o Prêmio Arnaldo Vieira de Carvalho, da Associação Paulista de Medicina, em 1940, com o trabalho “Fisiopatologia Menstrual”. Além de artigos em revistas nacionais e estrangeiras, publicou diversos livros sobre a especialidade, como “Propedêutica Ginecológica” (1933 e 1954), “Como Tratar Anexites” (1935), “Patologia do Colo Uterino” (1945), “Hiperplasia da Camada Basal do Endométrio, Endometriose Interna e Carcinoma do Corpo do Útero” (1945), “Fisiopatologia Menstrual” (1969).
     Participou de oito bancas examinadoras de concursos para catedrático em Ginecologia e em Obstetrícia, nas principais escolas médicas do Brasil, além de integrar mais de cinquenta comissões julgadoras de concursos de livre-docência e defesas de tese de doutorado.
     Foi grande incentivador dos cursos de especialização e atualização em Ginecologia e Obstetrícia. Promovia-os anualmente com afluência de profissionais de todo o país.
    Membro das principais sociedades tocoginecológicas nacionais e internacionais, foi ativo participante de conclaves científicos da especialidade, tendo presidido congressos brasileiros de Ginecologia e Obstetrícia em São Paulo, em 1954 e 1969. Foi condecorado com a “Ordem do Mérito Médico”, na classe Grã-Cruz, conferida pelo Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira.
     O Prof. José Medina herdou de Moraes Barros a filosofia ginecológica alemã, de mod que dificilmente concordava com outras escolas. Preparou excelentes assistentes na Faculdade de Medicina: José Galucci, René Mendes de Oliveira, Paulo Gorga, Franz Muller, Armando Bozzini, Mário Nóbrega, Cosme Guarnieri Neto, Álvaro Cunha Bastos, José Roberto Azevedo, Hans Halbe, Carlos Alberto Salvatore. Na Escola Paulista de Medicina foi sucedido pelo Prof. Octaviano Alves de Lima Filho.
    Na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o Prof. José Medina aposentou em 20 de abril de 1970. Faleceu em 31 de março de 1993, com quase 93 anos de idade.

Fontes bibliográficas:

1 – “José Medina” escrito por Carlos Alberto Salvatore, com adaptações de Hélio Begliomini no site da Academia de Medicina de São Paulo, acessado em
https://www.academiamedicinasaopaulo.org.br/biografias/157/BIOGRAFIA-JOSE-MEDINA.pdf

º2 – “José Bonifácio Medina” por Octaviano Alves de Lima in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Organizado por José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, págs. 99-103.

domingo, 16 de setembro de 2018

Biografia de Flávio Oliveira Ribeiro da Fonseca


A partir de texto de Carlos da Silva Lacaz

     Flávio Fonseca nasceu na cidade do Rio de Janeiro, a 12 de setembro de 1900. Diplomou-se em 1923 pela Faculdade Nacional de Medicina, radicando-se em São Paulo desde 1926.
     Fez concurso (que foi anulado) de língua e literatura alemã do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, onde defendeu a tese – “Considerações de ordem lexicológica sobre o substantivo alemão”, em concurso para Catedrático. Formou-se pela Aliança Francesa e falava fluentemente o francês, o inglês e o alemão. Interessado em corresponder-se com colegas da União Soviética e da Holanda, aprendeu também o russo e o holandês.
     Dedicava-se também à caça, de onde trazia os ácaros necessários às suas pesquisas no Butantã.
     Especializou-se em Parasitologia e Zoologia Médica, trabalhando ativamente nos laboratórios do Instituto Oswaldo Cruz. Em 1925 percorreu, em viagens de estudos, os sertões de Mato Grosso e as florestas da Bolívia, como médico, durante as construções da Estrada de Ferro Transcontinental Brasil-Bolívia.
     Em 1926, veio substituir, na Faculdade de Medicina de São Paulo, o catedrático de Microbiologia e Imunologia e aí lecionou até 1931. Neste ano vinculou-se ao Instituto Butantã, chefiando a Seção de Parasitologia.
     A partir de 1933, ocupou a Cátedra de Parasitologia da Escola Paulista de Medicina, da qual foi um dos fundadores, nas primeiras reuniões realizadas à rua Oscar Porto, a 1 de junho de 1933.
     Na Escola Paulista de Medicina fez parte do Conselho Técnico Administrativo e paraninfou uma de suas turmas.
     Diretor do Instituto Butantã por sete vezes, tornou-se grande especialista em acarologia, descrevendo numerosos ácaros parasitas de vertebrados da América do Sul.
     Deixou no Instituto Butantã cerca de oitenta mil exemplares de ácaros, sendo, provavelmente, uma das maiores coleções do mundo. Além de inúmeros trabalhos versando sobre ácaros, publicou vários outros sobre protozoários, entomologia médica, riquetsioses, etc.
     Manteve correspondência com acarologistas das Américas e da Europa.
     Descreveu diversas espécies novas de protozoários, entre os quais o Plasmodium simium, de primatas. Eleva-se a 130 0 número de trabalhos que publicou, além de magnífica e importante monografia sobre “Animais Peçonhentos” (Butantã, 1949).
     Como Diretor do Instituto Butantã obteve bolsas para diversos pesquisadores brasileiros na Europa e Estados Unidos; e do exterior trouxe também pesquisadores para estágio e pesquisa.
     Fundador da Sociedade Brasileira de Entomologia, do Clube Zoológico e do Parque Zoológico de São Paulo, era membro da Royal Society of Entomology de Londres, bem como da Sociedade Brasileira de Biologia e do Comitê Internacional da Review of Acarology.
     Nos seus trabalhos sobre malária, confirmou a hipótese da importância exercida pelos anofelinos do gênero Kerteszia na transmissão daquela protozoose nas matas e serras, o que por mais de 40 anos fora posta em dúvida. Flávio da Fonseca colaborou, igualmente, na luta antimalárica, tendo chefiado o Serviço de Profilaxia da Malária de São Paulo, nele introduzindo em 1946 o emprego do DDT e de medicamentos sintéticos modernos.
     No Instituto Butantã, aperfeiçoou as técnicas de preparo do soro antitetânico e de outros produtos imunoterápicos.
     Na Revolução Constitucionalista de 1932 foi comissionado como oficial médico, inspecionando as frentes de batalha em companhia de seu sogro, Eloy Lessa, diretor médico do Serviço Sanitário da Secretaria da Saúde.
     Por ocasião da comemoração do Quarto Centenário da Cidade de São Paulo recebeu do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo a medalha da Imperatriz Leopoldina, por trabalho apresentado e então publicado em volume São Paulo em Quatro Séculos, contendo outros trabalhos sobre diversos ramos de atividade, de cientistas e historiadores.
     Membro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, apresentou em suas reuniões anuais diversos trabalhos científicos. Contribuiu em duas edições do livro “Atualização Terapêutica” com trabalhos de sua especialidade. Tomou parte em Bancas Examinadoras para o preenchimento de cátedras de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia.
     A medicina era tradição de sua família. Seu pai foi secretário perpétuo da Academia Nacional de Medicina, seu irmão, Olympio da Fonseca Filho (1895-1978) era parasitologista consagrado, tendo sido Diretor do Instituto Oswaldo Cruz, do Instituto de Pesquisa da Amazônia e da Faculdade de Medicina da Praia Vermelha.
     O Prof. Flávio da Fonseca faleceu em São Paulo, no dia 22 de maio de 1963, aos 62 anos. Ocupando numerosos cargos de relevo, foi grande técnico, professor e administrador, com trabalhos científicos de repercussão internacional.

Fontes bibliográficas:
Lacaz, C.S. – Flávio Oliveira Ribeiro da Fonseca (1900-1963) in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Organizado por José Ribeiro do Valle. Editora Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, págs. 82-85.
Entrevista com Olympio da Fonseca Filho acessado em
http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/historia-oral/entrevista
tematica/olympio-da-fonseca

domingo, 2 de setembro de 2018

Biografia de Felipe Figliolini


Baseado no texto de Edgard Braga: Retrato de um Médico.

     Felipe Figliolini nasceu em São Paulo a 3 de setembro de 1896, filho de José e Rosa Figliolini, ambos nascidos na Itália e naturalizados brasileiros. O pai, arquiteto, executou de vulto na cidade de São Paulo, inclusive como colaborador de Ramos de Azevedo. Felipe Figliolini casou-se em 1919 com Ada Franzoi. O filho mais velho, Felipe José Figliolini também é médico e segue sua especialidade.
     Felipe Figliolini fez parte de um grupo de estudantes que iniciou o Curso Médico na primeira, assim chamada, Universidade de São Paulo (também conhecida na história como “uspinha”), que existiu entre os anos de 1911 e 1917, e era uma Universidade privada. Com o fechamento dessa Universidade, esse grupo a que pertencia Figliolini foi aceito pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Consta que ele, antes disso, era bacharel em Ciências e Letras, tendo recebido uma medalha de prata do Ginásio Ítalo-Brasileiro em 1911, por seu desempenho nessa área.
     Em 1920, por concurso, passou em primeiro lugar para ser Interno de Clínica Propedêutica, cadeira essa dirigida pelo Prof. J. Rocha Vaz. Nesse Internato teve como colegas: Carlos Büller Souto, Couto e Silva, Lourenço Jorge, os irmãos Burgos, J. Ferreira de Andrade, Berardinelli e Capriglione, entre outros. Nesse período Felipe Figliolini foi assistente da Cadeira de Higiene, na Escola Superior de Agricultura e frequentou o Instituto Oswaldo Cruz, em Manguinhos. Em 1921, publicou no Brasil Médico trabalho intitulado “Abscesso Amebiano do Fígado”.
     Em 1922, Felipe Figliolini formou-se com a tese de doutoramento sobre “Semiótica das Icterícias”, aprovada com distinção. Não era muito o que se sabia sobre o contágio e a evolução da moléstia, apontada por clínicos como “afecção catarral” a partir de mestres franceses, com localização obstrutiva na vesícula biliar. A tese colaborou na abordagem semiológica hepática, especialmente em diagnósticos diferenciais. A partir daí, Felipe Figliolini interessou-se pelas moléstias do campo que era designado como “Aparelho Digestivo e Nutrição”.
     Em 1923, em São Paulo, passou a ser assistente voluntário da Cadeira de Clínica Médica comandada por Ovídio Pires de Campos até 1930. Figliolini publicou, juntamente com Felício Cintra do Prado, o trabalho “Síndrome de Brown-Sequard”. Publicou também trabalhos tidos como pioneiros em nosso meio: “Tratamento de Hemorroidas por injeções esclerosantes”, “Considerações sobre o tratamento médico das hemorroidas”, “Dois casos de icterícia dissociada na litíase biliar”. Publicou ainda mais 25 estudos médicos, muitos em parceria com Felício Cintra do Prado, alguns em língua alemã, além de conferências e palestras nas sociedades científicas e na Escola Paulista de Medicina, onde era catedrático.
     Conforme Edgard Braga, a década de 1920 foi de grande abertura médica para assistência e pesquisa, com grande combate à tuberculose, à hanseníase e mais pesquisas sobre a doença de Chagas. Com esse movimento, Felipe Figliolini também foi assistente voluntário na Policlínica de São Paulo.  
     Em 1933, Octavio de Carvalho, ao criar a Escola Paulista de Medicina, buscou Felipe Figliolini para comandar a Cátedra de “Moléstias do Aparelho Digestivo e Nutrição”.
     Figliolini publicou ainda vários trabalhos em colaboração com Felício Cintra do Prado e Evaldo Foz, em torno de pré-câncer gástrico, sífilis, colites ulcerativas, entre outros. Foi Vice-Presidente da Associação Paulista de Medicina e, por duas vezes, Vice-Diretor da Escola Paulista de Medicina, tendo também pertencido ao seu Conselho Técnico Administrativo.
     Conforme o texto de Edgard Braga, redigido entre 1973 e 1977, Felipe Figliolini estava aposentado dedicando-se à pecuária no Pantanal do Mato Grosso.
     Felipe Figliolini faleceu em São Paulo em julho de 1977, aos 81 anos de idade. Foi sepultado no cemitério do Araçá. Existe rua em Santo Amaro, São Paulo, com o seu nome.
     Acrescentamos interessante texto de Edgard Braga em sua biografia de Felipe Figliolini, dos anos 1970, onde ele procura reforçar Figliolini como Mestre:
     “A palavra mestre vem sofrendo contínuo desgaste, principalmente hoje, sobretudo no setor educacional, onde o estudante, acomodado à balbúrdia que há no aprendizado e ensino, prescinde do explicador, do professor, isto é, do mestre. Caminha o mundo para se transformar, através dos veículos de massa média, numa aldeia global, segundo insinua MacLuhan. O ensino é transmitido em testes de quadrinhos; assim também as provas de exame, e os ‘mestres de hoje’ vão às aulas munidos de apontamentos copiados dos tratadistas, muita vez sem qualquer relação com o assunto em foco. São os chamados ‘ficheiros ambulantes’, frios e incomunicantes... O Mestre, porém, (M maiúsculo) era, e creio ainda é, a figura ungida de gravidade e que sabe transmitir a matéria aprendida há longos anos em porfioso labor. É um título humanístico que o distingue dos demais homens, oriundo nas democracias, como disse Condorcet, do aprimoramento educacional”.

Fontes bibliográficas:

Braga, E. - Felipe Figliolini - Retrato de um Médico in A Escola Paulista de Medicina - Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, pags. 76-81. 

Dicionário de Ruas de São Paulo. Acessado em
https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/arquivo_historico/noticias/?p=9808


sábado, 18 de agosto de 2018

Biografia de Fausto Guerner


A partir de texto de Arnaldo Calleiro Sandoval

     Fausto Guerner nasceu em 18 de abril de 1903, em São Paulo, filho de Alfredo Guerner e Idalga de Almeida. Desde menino distinguia-se pelo amor ao estudo e pendor pela Medicina. Terminado o curso de Humanidades, partiu para o Rio de Janeiro, vencendo facilmente a barreira do vestibular na tradicional Faculdade Nacional de Medicina, da Praia Vermelha. Fez o curso médico com distinção e louvor e, mais tarde, em 1935, defendeu com raro brilho tese versando sobre a pneumoencefalografia e o tratamento da epilepsia. Durante o período acadêmico frequentou o Serviço de Rocha Vaz, um dos precursores de estudos endocrinológicos no nosso meio, e, a seguir, ligou-se à Cadeira de Psiquiatria, sob a orientação de Henrique Roxo e, depois à Neurologia, então dominada pela figura inconfundível de Antônio Austregésilo, um dos grandes especialistas da época. Com tais mestres, inteiramente dedicado à psiconeurologia, depois aos estudos de histopatologia do sistema nervoso, alicerçou as bases para ulterior aproveitamento nos melhores centros da Europa dirigidos, por exemplo, por Claude Guillain, De Clerambault, Babinski e Bertrand, em Paris. De volta ao Brasil, fixa residência em São Paulo e se associa a Enjolras Vampré, considerado o líder da Neurologia Paulista e A. C. Pacheco e Silva, então diretor do Hospital do Juquery. Alienista da Assistência Geral a Psicopatas do Estado de São Paulo, Fausto Guerner desenvolve intensa atividade, quer como psiquiatra, quer como neurologista. Em 1933, assina o manifesto de fundação da Escola Paulista de Medicina, tendo sido escolhido para a regência da Cátedra de Clínica Neurológica.
     Fausto Guerner escreveu cerca de quarenta trabalhos em revistas médicas e participou ativamente de reuniões e congressos. Estava sempre acompanhando a Ciência de sua época e publicava, difundia e discutia novos conceitos de sua área. Fez estudos inovadores com André Teixeira Lima. Também estudou as alterações psíquicas ligadas ao hipertireodismo, chamando a atenção para o diagnóstico diferencial entre estes quadros e os de natureza psicogênica. Foi grande estudioso das manifestações psíquicas de quadros orgânicos. Assim também estudava epilepsia e suas nuances em relação a diagnósticos diferenciais, acentuando a necessidade do exame eletroencefalográfico.
     Estimulava seus companheiros e assistentes à pesquisa. Orientou as teses: Silvio Ribeiro de Souza, sobre a encefalite epidêmica; de Mário Yahn, sobre a sulfopiretoterapia na paralisia geral; de Edmur da Costa Pimentel, sobre a pneumoencefalografia; e de Edmur de Aguiar Whitaker. Todas aprovadas com distinção.
     Fausto Guerner faleceu aos 35 anos, em 1938. Foi casado com Maria de Lourdes Pedroso, também médica, e o casal não deixou descendentes. Mesmo adoentado, chegou a dar as primeiras aulas de Neurologia na Escola Paulista de Medicina, conforme foi registrado em fala de Pacheco e Silva e Thomé Alvarenga na Seção de Neuropsiquiatria da Associação Paulista de Medicina de 5 de maio de 1938, no mesmo dia de seu sepultamento.
     Por sugestão de Mário Yahn e de Paulo Pinto Pupo ao então diretor Lemos Torres, a chefia da Cátedra passou a Paulino Watt Longo, importante colaborador de Enjolras Vampré.

Fonte bibliográfica:
Sandoval, AC – Fausto Guerner (1903-1938) in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. JR do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, pgs. 68-70.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Biografia do Professor Eduardo Ribeiro da Costa


A partir de texto de Leônidas de Toledo Piza

     Eduardo Ribeiro da Costa foi um dos signatários do Manifesto de Fundação da Escola Paulista de Medicina em 1933. Nasceu eu Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, em 16 de outubro de 1892, filho de Custódio Ribeiro Costa e Anália de Noronha Lage Costa. Fez o curso primário e secundário no então famoso Colégio Caraça e diplomou-se em Engenharia, em 1916, pela Escola de Minas e Metalurgia de Ouro Preto, como primeiro aluno de sua turma. Nos anos de 1917 e 1918 dirigiu a exploração de petróleo como técnico da Empresa Paulista de Petróleo, construindo, na época, uma das primeiras sondas empregadas no país. Contratado, em 1919, como professor de Química da Escola Politécnica de São Paulo, foi nomeado lente efetivo em 1922, após concurso de títulos e provas da Cadeira, então designada Química Orgânica Complementar de Química Inorgânica, Análise Qualitativa e Processos Gerais de Análise Quantitativa, Mineralogia e Geologia. Transferiu-se, em 1928, para o cargo de Professor Catedrático de Química Geral, Inorgânica e Orgânica. Secretário da Escola Politécnica, de 1929 a 1932, tomou parte na Revolução Constitucionalista, prestando serviço junto à Comissão Técnica Civil de Material Bélico, como Diretor do Departamento de Mineração e Metalurgia.
     Em 1933, regeu a Cadeira de Química do Curso Pré-Médico da Faculdade de Medicina e, em 1934, foi nomeado professor catedrático da Química do Colégio Universitário, anexo à Escola Politécnica. Participou ativamente de várias comissões de estudos de siderurgia e de pesquisas petrolíferas e, em 1952, foi designado Consultor Científico do Conselho Nacional de Pesquisas, participando, no mesmo ano, da Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai. Aposentou-se em 1955 no cargo de Professor Catedrático de Química Orgânica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, depois de mais de 37 anos de dedicação à carreira de professor. Pouco antes de falecer em São Paulo, aos 17 de outubro de 1962, foi-lhe outorgado o título de Professor Emérito.
     Eduardo Ribeiro da Costa realizou trabalhos técnicos em várias localidades, desempenhou várias vezes o mandato do Conselho Técnico Administrativo da Escola Politécnica, participando de inúmeras comissões examinadoras de concursos em São Paulo e outros Estados. Foi sócio do Instituto de Engenharia, fundador da Escola Paulista de Medicina, membro correspondente da Academia Brasileira de Ciências e sócio honorário do Instituto Paulista de Química.

Fonte bibliográfica: “Eduardo Ribeiro Costa – (1892-1962)” por Leônidas de Toledo Piza in “A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes” por José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, São Paulo, 1977, páginas 65-67.