quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Biografia do Prof. José Maria de Freitas

 

A partir de texto de Bindo Guida Filho

 

          Descendente de tradicionais famílias pernambucanas, baianas, mineiras e fluminenses, nasceu José Maria de Freitas aos 21 de março de 1903, em São Paulo. Filho de Sebastião Maria de Albuquerque Freitas e Augusta Monteiro Barros Freitas, era neto de dois médicos dos quais provavelmente herdou pendores para a profissão.

          Seus primeiros estudos foram feitos no Externato Freitas da educadora Cecília M. de Albuquerque Freitas, sua tia e madrinha. O Curso Ginasial no Ginásio do Estado. Estudou também no Colégio São Bento de São Paulo e no Colégio Anchieta de Friburgo. Ingressou na então Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo em 1921.

          Estudante ainda, tomou parte no socorro e atendimento dos feridos na Revolução de 1924, na Santa Casa de Misericórdia, onde permaneceu durante todo o período desse episódio, inclusive com serviços externos. Depois disso, foi nomeado “estudante interno”, único naquele tempo, pelo Dr. Diogo de Faria, Diretor Clínico daquele hospital. Freitas fez plantões noturnos até sua formatura, auxiliando os médicos que se revezavam cada noite, em todos os casos de cirurgia. Nessa época, trabalhou também com Floriano Bayma, auxiliando as primeiras transfusões de sangue realizadas em São Paulo. Diplomou-se pela mesma Faculdade em 1927, defendendo a tese “Contribuição ao estudo da calculose urinária na infância”, aprovada com distinção.   

        Logo depois de formado, foi convidado para ser cirurgião da Misericórdia Botucatuense, tendo passado a residir em Botucatu. Como gostava de ensinar, mudou-se para São Paulo em 1931, aceitando convite de Alfonso Bovero para ser assistente da Cadeira de Anatomia da Faculdade de Medicina. Na revolução de 1932, trabalhou como cirurgião no Hospital de Emergências instalado no Parque da Água Branca e, posteriormente, se fixou na chamada “Ambulância Itália” sediada em Gramadinho, a cinco quilômetros da linha de frente. Deixou seu posto somente três dias após o término da Guerra, julgando de seu dever organizar a retirada do pessoal e a coleta de material médico para entrega na Capital.

          Algum tempo depois, convidado por Benedito Montenegro, passa a exercer suas atividades na Cadeira de Técnica Operatória da mesma Faculdade, até a transferência de Montenegro para a 3ª Cadeira de Clínica Cirúrgica para a qual Freitas também se transferiu, tendo prestado concurso para Livre-Docente dessa mesma cadeira, em 1941. Neste concurso, defendeu a tese “Anestesia Peridural”, aprovada com distinção.

          Em 1945, na mesma Faculdade de Medicina, conquistou o título de Docente Livre de Técnica Cirúrgica, em concurso realizado para o provimento da Cátedra. Após 30 anos de efetivo serviço, aposentou-se da referida Faculdade, em dezembro de 1960.

          Em 1933, ele uniu-se ao grupo de idealistas que fundou a Escola Paulista de Medicina, tendo sido Catedrático de Técnica Operatória e Cirurgia Experimental na mesma. Ainda na EPM, por várias vezes fez parte do Conselho Técnico Administrativo, foi Diretor da Escola no período 1954-59, quando se conseguiu a federalização da EPM, tendo sido ele um dos adeptos a essa causa. Reconduzido ao cargo, exerceu a diretoria no período 1964-68, quando encerrou suas atividades no magistério.   

           Ele também participou na organização da Faculdade de Medicina de Sorocaba, tendo sido professor da 3ª cadeira de Clínica Cirúrgica, onde permaneceu em efetivo exercício, preparando os seus substitutos. Foi fundador da Escola de Enfermagem São Francisco e o seu primeiro diretor. Esta Escola foi posteriormente agregada à faculdade de Medicina de Sorocaba.

          Cooperou com a Associação dos Sanatórios de Campos do Jordão (Sanatorinhos), onde organizou o Serviço de Cirurgia e operou gratuitamente durante o período 1939-1941. Deu sua colaboração no ambulatório Jin Kai, que ficou sob sua responsabilidade, até o funcionamento do Hospital Santa Cruz, do qual foi cirurgião-chefe, e depois Diretor Clínico e Administrativo, de 1942 a 1970. Ensinou aos seus assistentes e seguidores, conforme seu biógrafo, não somente a técnica operatória segura e elegante, como também a sobriedade nas palavras e atitudes e a conduta rigidamente ética no exercício da profissão.

          Era, portanto, Diretor da EPM, quando do I Congresso Brasileiro de Médicos Residentes em 1966. Aparentemente, pelo que consta, era um tanto conservador no que diz respeito a inovações nos modelos de aprendizado e treinamento. Teve um contratempo com os residentes que permaneciam no alojamento por tempo além do estipulado, expulsando-os do hospital. Não aceitou a prorrogação de docentes ao aposentarem; eles poderiam permanecer até os 70 anos, se assim quisessem, embora devessem se aposentar aos 65. Mas Freitas obrigou a todos se aposentarem aos 65 anos. Com isso, o Prof. Jairo Ramos teve que deixar seus cargos, embora estivesse com energia para continuar. No entanto, Jairo Ramos continuou frequentando a EPM até falecer em 1972. Pelo seu conservadorismo, é provável que o Dr. Freitas estivesse entre os docentes que nos anos 1950 relutaram em aceitar a novidade da Residência Médica. Na época em que era diretor no período 1964-68 enfrentou solicitações dos alunos de graduação para que saísse do cargo. Também alguns professores dessa época questionaram a qualidade do desempenho de Freitas como diretor da EPM. De qualquer forma, ao deixar o cargo, ele deixou sua função de professor.   

     Prof. José Maria de Freitas faleceu em 30 de dezembro de 1990, aos 87 anos.


Fonte Bibliográfica: Livro Comemorativo dos 40 anos da Escola Paulista de Medicina compilado pelo Prof. Ribeiro do Vale, publicado em 1977. 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Biografia do Prof. Dr. Humberto Delboni Filho

 


     Humberto Delboni Filho nasceu em 22 de janeiro de 1934, na cidade de São José do Rio Preto, então chamada apenas de Rio Preto, no estado de São Paulo.

     Informou o Prof. Delboni, em relato feito ao CeHFi (Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde da EPM-Unifesp) que faz parte de uma terceira geração de imigrantes italianos. Seu pai era um farmacêutico formado em 1911 pela Escola de Farmácia, Odontologia e Obstetrícia de São Paulo. Lembrou que seu pai tinha cultura e boa reputação, e, naquela época, eventualmente substituía o médico. Aos dez anos de idade, Delboni já fazia uma espécie de papel de “secretário” de seu pai. Tinham uma pequena biblioteca, da qual ele, mais especificamente, destacou e conservou o “Formulário e Guia Médico”, de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, 18ª edição, de 1908.

     Este livro, que também era chamado por alguns de “Chernovitz”, foi citado por autores literários dos séculos XIX e XX e era uma espécie de Manual Geral de medicina, do qual se serviam médicos e outros profissionais, com um caráter, até certo ponto, um tanto mítico, até mesmo com estudos sobre o seu papel na sociedade de então.

     O pai do Dr. Delboni sempre o fazia consultar o Chernoviz para saber coisas as mais variadas. Seu irmão, Valyrio Luiz Delboni, que se formou pela Escola Paulista de Medicina EPM} em 1950, serviu de estímulo para cursar a medicina.

     Em 1952, Delboni ingressou na EPM.  No segundo ano, o Chefe do Laboratório Central do Hospital São Paulo (HSP) era o Prof. João Marques de Castro. Ele oferecia estágio aos alunos do segundo ano no Laboratório. Tratava-se de um estágio que não conflitava com o horário curricular. O número de vagas era limitado e o Prof. Castro dava preferência aos alunos que não tivessem ficado de segunda época no ano anterior, embora comentasse que esse critério teria suas limitações.

     O Prof. Delboni acentuou que o estágio era muito rigoroso, usando a palavra “germânico” para frisar seu rigor. Havia horários a serem cumpridos mesmo às cinco da tarde de sábado. O Prof. João ia para o anfiteatro do segundo andar cinco minutos antes das dezessete horas, acompanhado do assistente mais graduado. Eventualmente, um grupo de alunos no corredor decidia descer para tomar “um cafezinho”. Às dezessete horas o Prof. João pedia ao assistente que fechasse a porta. Os alunos que voltavam do café ficavam do lado de fora, olhando no visor da porta, e acabavam ficando sem o estágio.

     Um professor que tinha atitude com semelhante rigor em relação a horário e o fechamento da porta nas aulas era o Prof. Afiz Sadi, chefe da Disciplina de Urologia.

     No final do estágio do Laboratório, o Dr. João (como era chamado pelos alunos) convidava a todos os 28 alunos  para uma foto no pátio da EPM. No dia da foto do grupo de Delboni, este esqueceu desse compromisso e foi ao cinema. Depois contou esse fato ao Dr. João, que, de qualquer forma, o convidou para iniciar um trabalho de Monitor. Portanto, no início do terceiro ano, Delboni foi nomeado pela Congregação da EPM como Monitor do Laboratório Central do HSP. O trabalho era rigoroso. O Laboratório pertencia à Primeira Cadeira de Clínica Médica chefiada pelo Prof. Jairo Ramos.

     Lembrou, então, o Dr. Delboni que Jairo Ramos deu impulso à Clínica Médica, de modo que ela se tornou padrão de referência na América Latina. Muitos se espantavam que Delboni conseguia trabalhar com o Dr. João, homem de poucas palavras e temperamento de difícil trato. Delboni guardou na memória quanto ganhava na época como Monitor, o equivalente ao preço de um disco “long play” de 12 polegadas, que mal dava para um sanduíche diário.

     Em 1957, Delboni se formou e continuou no Laboratório Central. Quando Dr. João faleceu, em 1960, Delboni era o segundo na hierarquia, de modo que assumiu a chefia e assim seguiu, até se aposentar em 1986 como professor da EPM.

     Ele relatou, então, toda sua labuta nos vários anos de transformação da medicina, do HSP e do Laboratório, com dificuldades diversas, por vezes dando plantões, ou ajudando algum professor a resolver algum caso específico.

     Deu aulas de Patologia, referente ao Laboratório, para alunos do terceiro ano. Saudou com muita alegria a expansão da EPM. Ressalve-se o bom humor do Prof. Delboni, sempre presente, e carregando no bolso superior do avental canetas de várias cores, característica essa sempre lembrada por seus ex-alunos.

     Referiu ele que o Dr. João era a pessoa com mais cultura enciclopédica e humanística que conheceu, e que era alguém que não tinha vida fácil, pois conviveu com uma nefrostomia bilateral dos 23 aos 46 anos. O Dr. Delboni tornou-se chefe do Laboratório Central com 26 ou 27 anos, de modo que era considerado “o menino do colegiado”, convivendo com professores nas chefias com mais de 50 anos de idade.

     O Prof. Delboni acentuou que sempre procurou ser ponderado, respeitoso e humano, sem ser condescendente com coisas erradas. Sempre foi grato à Escola Paulista de Medicina.

     Prof. Dr. Humberto Delboni Filho faleceu em 8 de outubro de 2019, aos 85 anos.  

 

Fontes bibliográficas:

Acervo de Histórias de Vida (História Oral) do CeHFi – Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde da EPM-Unifesp. Acessível em https://cehfi.unifesp.br

Acervo do jornal Folha de São Paulo. Acessível em

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/11/mortes-medico-transformou-a-patologia-em-sonho-realizado.shtml?origin=folha

A Mística do Parentesco. Acessível em https://parentesco.com.br

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Do livro de Paulo Fraletti “Vocação Hipocrática” (discurso de formatura) Homenagem aos 30 anos da existência da Escola Paulista de Medicina.

 

Este livro de Paulo Fraletti, escrito em 1963, em comemoração aos 30 anos de fundação da EPM, tem como escopo principal o discurso de formatura de dezembro de 1947 escrito e lido pelo próprio Paulo Fraletti. O livro tem três partes: como primeira parte uma espécie de “Introdução” que é nomeada como “Justificação”; como segunda parte o próprio discurso intitulado “Vocação Hipocrática”; uma terceira parte, contendo apenas um trecho das palavras do paraninfo Prof. Dr. Flávio da Fonseca.

Aqui reproduzimos apenas a primeira e a terceira parte. A segunda parte, mais longa, fica para uma próxima ocasião.    

Embora a composição da obra seja datada de 1963, o livro foi impresso em 1966, e seu texto inicial reproduz o entusiasmo do autor com o crescimento da EPM no início da década de 1960.

 

[Primeira Parte]

Justificação [Introdução]

          Hoje, passados 16 anos de nossa formatura, este discurso talvez não desperte, ou melhor, ao certo não despertará a mesma reação emotiva, nem tampouco terá a mesma acolhida com a da data de sua recitação, pois faltará agora (já que se vai lê-lo, e não o ouvir), a presença do orador, que, com seu entusiasmo de moço, não poderá compensar com sua voz, as muitas deficiências existentes.

          Até 1947, a escolha do orador da turma era feita por eleição, à qual, geralmente, se candidatava o orador oficial do Centro Acadêmico Pereira Barreto, prerrogativa da qual não quisemos abusar, apesar de termos sido eleito para o cargo durante todo o curso. Como, porém, da nossa turma (10ª), vários candidatos iriam disputar a preferência dos colegas, propusemos a realização de um concurso, o que aconteceu pela primeira vez, se não nos enganamos, na Escola Paulista de Medicina.

          Fizeram parte da banca examinadora os professores Dr. Felício Cintra do Prado e Dr. Paulo Eneas Galvão, da Escola Paulista, e o Dr. Antonio Ferreira Cesarino Junior, professor da Faculdade de Direito de São Paulo e calouro de medicina àquele ano.

          Atividades do Centro Acadêmico, correrias de exames e tropel de festas tão comuns no 2º semestre da 6ª série, não permitiram que muitas passagens do discurso fossem melhor cuidadas. A sua publicação, àquela época, em “O Bíceps” (jornal dos alunos editado pelo C.A. Pereira Barreto), dado os pedidos insistentes que nos eram dirigidos, saiu sem que pudéssemos ter-lhe dado feição definitiva, o que agravou as imperfeições já existentes, pois foi entregue à tipografia em manuscrito e com “letra de médico”, sendo que, para piorar tudo, não nos foram cedidas provas para revisão.

          A publicação definitiva, destinada a familiares, colegas de turma e amigos, conforme prometemos ao sair da Escola, cobrada frequentemente, foi sendo adiada de ano para ano, uma vez que as obrigações da vida e da profissão, em correria afanosa, vêm se sucedendo e aumentando à medida que os dias passam.

          Não quisemos, porém, deixar passar a oportunidade apresentada neste ano de 1963, quando transcorre o 30º aniversário de fundação da Escola Paulista de Medicina, juntando às grandes comemorações que lhe serão prestadas, a da nossa modesta oração.

          Que não se julgue, pois, o nosso discurso, feito em época de formação intelectual e profissional, pelo homem de meia idade de hoje! Que seja lido como trabalho de um moço, em plena posse de todos os seus ideais, sonhos e aspirações, inclusive de suas veleidades poéticas, escrito com o entusiasmo de alma e vibração emocional próprios da idade.

          É o pagamento de uma dívida afetiva, por isso mesmo dedicado aos familiares, colegas de turma, amigos e à Escola Paulista de Medicina que, no seu 30º ano de existência, já não mais é a Escolinha da década dos anos 30, nem apenas a Escola do nosso tempo (década dos anos 40), mas a grande Escola de hoje [1963], não só pela majestade do conjunto de instalações que vai rebentando como planta no chão da Vila Clementino, mas também pela soberba trajetória histórica que vem traçando – verdadeira marcha ufana dos vencedores de 1933.

                                                     São Paulo, 1 de junho de 1963

                                                                     P. Fraletti  

 

[Terceira Parte]

Palavras do Paraninfo

(trecho do discurso do Prof. Dr. Flávio Ribeiro Oliveira da Fonseca)

 

          Ao orador brilhante que em formosa oração interpretou os sentimentos da turma em relação a Escola Paulista de Medicina, eu quero agradecer em nome desta, as palavras que pronunciou, penhor de sua gratidão à Escola de que se despede. No trecho em que se dirige à minha pessoa, vejo apenas um símbolo, reconhecendo ser o paraninfo mero representante da Congregação, à qual se dirigia, portanto, o doutorando, ao saudar o seu patrono. As expressões de que se utilizou, ditadas pelo seu entusiasmo estuante de moço e de poeta, bem o dizem: tais ditirambos somente podem ser dirigidos a uma corporação e nunca a um homem; e não creio que haja algum, por mais vaidoso, que não receasse ser esmagado ao suportar sozinho o peso de elogios de tal quilate. Transmito-os, pois, integralmente, aos meus nobres colegas do corpo docente da Escola Paulista de Medicina, que, estes sim, são dignos deles, pela obra social e educacional que desprendidamente e com o maior sucesso, vêm realizando há três lustros em São Paulo.

 

Fonte bibliográfica:

Fraletti, Paulo – Vocação Hipocrática (discurso de formatura). Homenagem aos trinta anos de existência da Escola Paulista de Medicina. Gráfica e Editora Edigraf, São Paulo, 1966.

 

terça-feira, 19 de julho de 2022

A Semana de Arte Moderna, Jairo Ramos, Propedêutica e “Parnasianismo Médico”

 

     O jornal “O Estado de São Paulo” publicou em 13 de novembro de 1954, um artigo intitulado “Jubileu Profissional do Prof. Jairo Ramos” com um texto referente ao discurso do Dr. Paulo Almeida de Toledo (1909-1990), médico formado na Faculdade de Medicina de São Paulo em 1932[1].

    Ele inicia comentando que há 25 anos (1929), quando começou contato com a Clínica, a influência da Literatura sobre a Medicina era grande. Havia grande preocupação artística e com a oratória, de modo que as aulas eram cheias de floreios, adornadas de imagens, eventualmente chegando mesmo a certo grau de fantasia. Cita então Francisco de Castro, Miguel Pereira, Aloysio de Castro, Pereira Barretto, como médicos e professores de grande cultura geral, literatos, que, assim como seus discípulos, teriam “exagerado no acessório e esquecido do essencial”. Por outro lado, ele se refere, e cita, certo texto de Torres Homem, considerado, segundo ele, o maior clínico brasileiro de todos os tempos, texto esse sem floreios, que teria sido anterior ao período desses professores. Torres Homem descreveu minuciosamente o desenvolvimento de determinada patologia do esôfago, sem apelativos outros de linguagem.

     Toledo aponta então uma grande influência da linguagem médica francesa no fim do século XIX na maneira de se expressar. Considera que Francisco de Castro, em suas grandes obras médicas, tenha tido certo equilíbrio, mas com pendor para a preocupação literária. Cita então esse professor como o maior escritor médico “do passado” (obras da última década do século XIX). Assim ele apresenta outros exemplos de linguagem mais floreada, considerando como ponto culminante o médico Prado Valladares (Antonio), segundo Toledo, em torno de 1917, quando a Faculdade de Medicina de São Paulo estava no início e ainda faltava um ano para formar sua primeira turma. Em 1919, Jairo Ramos entraria na Faculdade.

    Ainda conforme o discursante, “o espírito positivo e empreendedor dos homens de São Paulo não se ajeitava bem à falsa literatura e à meia ciência ‘dourada pelos galões de eloquência’, exigia ciência objetiva”.

     Essa ênfase de Toledo pode ter sido, em parte, contagiada pelo memorável espírito do Quarto Centenário da fundação da cidade de São Paulo que ocorreu nesse mesmo ano de 1954. Por outro lado, tendo ele entrado na Faculdade de Medicina em 1927, foi testemunha do que acontecia ao seu redor.

     Toledo frisa então que Arnaldo Vieira de Carvalho foi buscar no estrangeiro professores de formação europeia que trouxessem a objetividade científica buscada. Entre os tais teria se destacado Alfonso Bovero. O discursante chama então de “espírito boveriano” um rigor que impregnou inicialmente as cadeiras básicas do curso médico, depois se estendendo a clínicos e cirurgiões. Esse espírito se caracterizava por exatidão, um cuidado minucioso e uma nova linguagem, segundo Toledo, “descarnada e seca”, mas objetiva. Ainda sobre Bovero relata que ele era um tanto impaciente, eventualmente respondendo de forma grosseira. De qualquer forma o rigor e a objetividade chegaram à Clínica. Desse modo, teria se instalado um clima propício ao estudo da Propedêutica Médica. Até então, com todo o floreio de linguagem valorizado, o exame do paciente era tarefa considerada secundária que ficava legada a assistentes dos catedráticos. Isso acontecia de maneira que as aulas magistrais eram magníficas sob o aspecto doutrinário, mas pouco tinham a ver com o que se tinha encontrado no doente.

     Por outro caminho, o espírito de observação de Laennec teria, de certa forma, passado a Torres Homem e deste ao Prof. Rocha Faria, que teria formado verdadeira “escola”. Seguidor de seus preceitos, em 1910, teria chegado à cidade de Avaré, no interior de São Paulo, conforme diz Toledo, “um jovem médico de atitudes arrogantes, afirmativo e irreverente que se chamava Álvaro de Lemos Torres”. Em 1913, ele transferiu-se para São Paulo e passou a ser assistente do Prof. Bovero, tendo clara preocupação com exatidão anatômica no exercício da clínica médica.

     Quando foram criadas as cadeiras de Clínica no Curso Médico, Lemos Torres começou a trabalhar na assim chamada “Segunda Medicina de Homens, na Santa Casa, participando do ensino de Propedêutica sob a chefia de Rubião Meira. Nesse ambiente, Lemos Torres fez ressurgir a escola de Laennec focada em história e exame físico minuciosos. Toledo ouviu Lemos Torres referir-se a “examinar sem juízo preconcebido, fria e minuciosamente, sem permitir que a primeira impressão perturbasse o espírito crítico. O diagnóstico deve vir depois, como resultado de uma propedêutica clínica imparcial e completa”.

     Conforme Toledo, Lemos Torres preferia errar, mas tendo feito um exame clínico acurado, do que acertar o diagnóstico a partir de uma primeira impressão. O triunfo de sua escola veio de sua propedêutica e de suas convicções, pois não tinha facilidade expositiva e nem era um grande escritor. Dessa forma, juntaram-se em torno dele os estudantes chamados por Toledo de “ratos de enfermaria”, entusiasmados com a Propedêutica, de modo que a melhor escola médica se tornou o leito de enfermaria.

     Nesta altura do discurso, Toledo diz que, por essa época, se sentia um “sopro de renovação literária em São Paulo e as velhas formas de literatura se tornaram insuficientes para exprimir as aspirações dos moços”. Assim, ele citou Mário de Andrade, Alcântara Machado e Oswald de Andrade como tendo levantado a bandeira da emancipação do pensamento e da linguagem com destruição das velhas formas consagradas. Essa tendência libertadora se fez sentir no meio médico.

     Entre os que rodeavam Lemos Torres, com sua obsessão propedêutica, ganhou destaque Jairo Ramos. Nas palavras de Toledo: “Áspero e irreverente, sem nenhum respeito pelas opiniões clássicas, com um ímpeto de iconoclasta e uma fé ardente de neófito, Jairo, pelo vigor da sua personalidade começou a se impor desde logo, conquistando, ainda recém-formado, um círculo de admiração e de respeito pela força de suas afirmações”.

      No entender de Toledo, essa irreverência de Jairo, de certa forma impregnada pelo ambiente dos modernistas, teria sido sua força inicial propulsora de tudo que veio a seguir. No início, Jairo Ramos não teria nem grande oratória e nem primorosa escrita, mas sua força estava em suas convicções voltadas para a Propedêutica Médica. Com o passar dos anos, ele teria desenvolvido uma cultura médica, bem como uma cultura geral, moderando sua aspereza. Lembra Toledo que Jairo Ramos tornou-se professor no mesmo momento em que se formou, ainda muito jovem.

     Jairo Ramos teria então passado a seus discípulos o grande interesse pela Propedêutica sem se aterem a floreios de linguagem ou elocubrações fantasiosas. Nessa linha, ele desenvolveu vários cursos extra de propedêutica por sistemas, bem como discussões de casos na enfermaria dos quais Toledo se lembra bem.

     Além da correlação de Jairo Ramos com os modernistas, Toledo também comparou obras da juventude e da maturidade do escritor Eça de Queiroz, com as obras médicas escritas por Jairo, bem como suas palestras, dizendo que ele aprimorou sua forma de escrever e de se expressar com o passar dos anos.


Fonte bibliográfica consultada: Acervo do jornal O Estado de São Paulo. 

 

 

 

 

 

    



[1] Paulo Almeida de Toledo foi médico da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, onde, além de atender pacientes, deu cursos de Patologia. Publicou artigos em jornais sobre assuntos médicos e de Cultura Geral. Em 1966 assumiu a cadeira de Radiologia na FMUSP e reestruturou esse Departamento. Foi Diretor dessa Faculdade quando criou o Velório e o Prédio de Administração do Hospital das Clínicas. Estruturou a Pós-graduação e projetou a criação de laboratórios de pesquisa médica.

Acessado em http://www.pesquisadores.museu.fm.usp.br/index.php/paulo-de-almeida-toledo;isaar às 11 horas de 19/07/2022.  

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Biografia do Prof. Dr. João Baptista dos Reis (1910-1997)

 

     O Dr. João Baptista dos Reis nasceu em 24 de maio de 1910 na cidade de Tietê, estado de São Paulo. Fez o Curso Primário nessa mesma cidade no Grupo Escolar Luiz Antunes. Cursou o Ginásio e o Curso Científico também em Tietê no Colégio Plínio Rodrigues de Morais. Adentrou à Faculdade de Medicina de São Paulo no ano de 1929. Formou-se pela 17ª Turma dessa Faculdade em 1934. Após ter se formado, passou a frequentar o Hospital do Juqueri em um caráter de Médico Interno, similar ao que depois foi designado como “Residência Médica”, pois esses médicos moravam no próprio local de trabalho. Nesse estabelecimento, juntamente com outros profissionais, desenvolveu o aprendizado em Neurologia e suas interconexões com a Psiquiatria, pois era uma instituição que se prestava à internação de alterações comportamentais no sentido amplo do termo.

     Em 1980, o Dr. Reis publicou o livro “O Líquido Cefalorraquiano”, juntamente com Antonio Bei, João Baptista dos Reis Filho e Jayme Nasser. Refere ter embasado esse livro em quarenta anos de trabalho com líquido cefalorraquiano (LCR) no Hospital do Juqueri e na Escola Paulista de Medicina. Deste livro, colocamos aqui um pequeno trecho histórico, para entender como o Dr. Reis se ligou aos primórdios do trabalho com LCR em São Paulo e no Brasil.  

     Conforme escreveu na Introdução, no Brasil, os primeiros estudos com LCR no Brasil foram feitos em 1897, por Miguel Couto, no Rio de Janeiro, ou seja, apenas seis anos após Quincke ter iniciado, no mundo, as punções metódicas e estudos sobre LCR. Nesse mesmo ano, Correa defendeu tese sobre o valor diagnóstico da punção lombar, também no Rio. Assim também nessa mesma então capital federal foram feitas outras três teses sobre LCR até 1922. Em 1923, apareceu a tese de Pondé, na Bahia. Em 1924 foram apresentadas outras três teses no Rio de Janeiro.

     Em 1926 foram feitas as primeiras punções suboccipitais no Brasil, respectivamente por Esponsel no Rio de Janeiro e por Enjolras Vampré em São Paulo. Desse modo, pode-se ver que em São Paulo o pioneirismo com estudos sobre LCR foi por conta de Vampré; mais um de seus pioneirismos sobre Neurologia em São Paulo.

     A partir daí, sucederam-se outros trabalhos em São Paulo. Em 1929, Amaral defendeu tese, nesta cidade, intitulada “A punção suboccipital” e nesse mesmo ano, também em São Paulo, houve a tese de Toledo, “O líquido cefalorraquiano em Neuropsiquiatria, estudo de 650 casos”. Em 1930, Ferreira apesentou em São Paulo a tese “Clororraquia. Sua importância em Neuropatologia”. Em 1932 e 1933, surgiram três trabalhos: com Benício e Gildo Neto em Recife, Oswaldo Lange em São Paulo e Sá Pires em Belo Horizonte. Vemos aqui a menção daquele que praticamente iniciou trabalhos com LCR em profundidade em São Paulo (depois dos primórdios com Vampré), que foi Oswaldo Lange (1903-1986), professor da Faculdade de Medicina de São Paulo (USP a partir de 1934) que vai criar toda uma escola a esse respeito em São Paulo e no Brasil.

     Desse modo, em 1937, apareceu a primeira obra sobre líquido cefalorraquiano publicada no Brasil por Oswaldo Lange. Conforme cita o Prof. Reis em seu livro, nessa ocasião, havia três centros de estudos sobre LCR no Brasil: Oswaldo Lange em São Paulo, Cerqueira Luz e W. Pires no Rio e A. Benício em Recife.

     No transcorrer da década de 1930, mais precisamente após 1934, o Prof. Reis fez o estágio supracitado no Hospital do Juqueri, onde aos poucos desenvolveu o seu trabalho com LCR.

     Em 1938, quando o Prof. Paulino Longo assumiu a Cátedra de Neurologia na Escola Paulista de Medicina, substituindo o recém-empossado e falecido Fausto Guerner, O Prof. João Baptista dos Reis junta-se a esse grupo, concomitantemente à manutenção de seu trabalho no Hospital do Juqueri ainda por alguns anos. É como professor da Escola Paulista de Medicina que ele assume a Chefia do Laboratório de LCR dessa instituição.

     Pelo que foi anteriormente mencionado, pode-se perceber a presença do Prof. Reis entre os pioneiros do LCR em São Paulo, após o marco inicial de Oswaldo Lange.

     O Dr. Reis falava fluentemente várias línguas, incluindo-se entre elas o tupi-guarani. Para aperfeiçoar seu conhecimento em LCR estagiou no Saint Jude Hospital, em Memphis. Também teve vários trabalhos publicados no exterior, inclusive em alemão, de modo que teve seu nome dado a uma síndrome liquórica, Síndrome de Reis, por cientistas alemães, em casos por ele descritos de quantidade normal de células no LCR, mas com presença de hemácias entre essas células, podendo caracterizar um sutil sinal de provável hemorragia.

     O Prof. Dr. João Baptista dos Reis faleceu em São Paulo no dia 4 de março de 1997, com 86 anos de idade.

 

Fontes bibliográficas:

J. B. Reis, A. Bei, J. B. Reis-Filho, J. Nasser. Líquido Cefalorraquiano. Editora Sarvier, São Paulo, 1980.

Dados coletados com familiares, amigos e a Disciplina de Neurologia da Escola Paulista de Medicina.    

 

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Biografia do Prof. Dr. Darcy de Mendonça Uchoa


A partir de texto de Cléo Lichtenstein Luz

 

     Darcy Uchoa nasceu a 2 de junho de 1907 no estado de Alagoas, Município de Camaragibe, filho do Dr. Alfredo de Mendonça Uchoa e Dona Idalina de Mendonça Uchoa.

     Fez seus primeiros estudos, primário e ginasial, em seu estado natal, no Liceu Alagoano, tendo concluído aos 14 anos. Foi para o Rio de Janeiro onde se matriculou na Faculdade de Medicina da Universidade da Praia Vermelha, mais tarde Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, onde veio a se formar em 1927, com apenas 20 anos de idade.

     Após regressar ao estado de Alagoas, durante dois anos praticou clínica geral e cirurgia na Santa Casa de Maceió. Em 1929, veio para o estado de São Paulo. Por cinco anos, exerceu a medicina em Santana dos Olhos D’Água (Ipoã), Comarca de São Joaquim da Barra, onde também desenvolveu atividades jornalísticas e políticas, chegando a vice-prefeito. Era interessado em Ciências Humanas. Lia Psicologia e Filosofia. Interessou-se pela psiquiatria, por considerar se coadunar melhor aos seus pendores.

     Nesse sentido, procurou a Capital, onde passou a estagiar no antigo Departamento de Assistência a Psicopatas, que passou a se chamar Coordenadoria de Saúde Mental posteriormente. Em 3 de maio de 1936, foi nomeado médico desse Departamento, com funções no Manicômio Judiciário, onde ficou até 1941, trabalhando posteriormente no Hospital de Juquery (1941-43), Hospital Pinel e Ambulatório de Higiene Mental. Aposentou-se ao assumir a Cátedra de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina em 1964.

     Além da psiquiatria convencional, tinha interesse também em estudos de psicodinâmica, psicanálise e ciências correlatas. Foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Psicanálise em 1944, tendo se submetido a análise didática com a Dra. Adelheid Koch, médica psicanalista alemã que durante a Segunda Guerra Mundial foi atraída para o Brasil por jovens psiquiatras brasileiros sequiosos de formação.

     Em 1949, viajou para os Estados Unidos, onde ficou por cinco meses estagiando com Sandor Lorand no Instituto de Psicanálise de Nova York. Por um mês e meio acompanhou o trabalho de Frieda von Reichmann e colaboradores no Chestnut Lodge Sanatorium, Rockville. Também teve contato com Franz Alexander, Therese Bendek, Annie Reichmann e Edith Jacobson.

     Regressando ao Brasil, foi convidado para ser analista didata do Instituto de Psicanálise de São Paulo, exercendo essa função até a década de 1970. Foi presidente dessa sociedade em 1953-54, 1961-61, 1973-74, tendo propiciado a vinda de famosos psiquiatras de outros países.

     Obteve título de Livre-Docente pela Faculdade de Medicina da USP por concurso em 1947. Tornou-se também Livre-Docente pela Universidade do Brasil, tornando-se professor catedrático por concurso em 1958.

     Em março de 1964 prestou concurso para Professor Catedrático da Cadeira de Psiquiatria na Escola Paulista de Medicina. Como chefe do Departamento de Psiquiatria da EPM ampliou e inovou as diversas atividades. No início contava apenas com quatro médicos voluntários ou comissionados. Até os anos 1970 passou a contar com mais de setenta médicos. Por convênio entre a Secretaria da Saúde e a EPM, em 1972 conseguiu melhorar e ampliar as instalações do Departamento e aprimorar o pessoal especializado, criando a Residência em Psiquiatria da EPM.

     Em 1965 fundou o Centro de Estudos do Departamento, do qual foi o primeiro presidente. Em 1967 criou o Boletim de Psiquiatria. Criou os Simpósios de Psiquiatria, de ocorrência anual, desde 1971. Além disso promoveu diversos eventos, que contaram, além da psiquiatria, com a presença de Artes diversas. Participou de inúmeros congressos nacionais e estrangeiros. Publicou mais de 300 trabalhos científicos.

     Publicou cinco teses referentes aos seus concursos. Tese de Doutorado: “Psicopatologia do Incesto”. Concurso de Livre-Docência da USP: “A Estrutura Psicológica da Neurose Compulsiva”. Concurso para Catedrático da Universidade do Brasil: “Sobre a Psicopatologia da Despersonalização”. Concurso para Cátedra da EPM: “Sobre a Psicodinâmica da Depressão”. Concurso para Cátedra da USP: “Estrutura Psicológica do Delírio Esquizofrênico”.

     Publicou os livros: Psiquiatria e Psicanálise; Conceitos de Psiquiatria; Estudos de Psiquiatria Dinâmica; Psicologia Médica.

     Foi membro das seguintes associações: International Pychoanalytical Association, Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Associação Brasileira de Psicanálise, Associação Brasileira de Psiquiatria,  Departamento de Psiquiatria da Associação Paulista de Medicina, Sociedade de Medicina Legal e Criminologia de São Paulo, Centro de Estudos Franco da Rocha, Sociedade Paulista de Psicologia e Psicoterapia de Grupo, Associação Brasileira de Medicina Psicossomática, Associação Psiquiátrica de São Paulo, Colégio Internacional de Medicina Psicossomática, Academia de Medicina de São Paulo. Exerceu cargos diretivos em várias associações.

     Em 13 de junho de 1977, o Prof. Uchoa chegou à aposentadoria compulsória. O Professor faleceu em 2003.

 

Fonte bibliográfica:

Cleo Lichtenstein Luz, “Darcy de Mendonça Uchoa” in José Ribeiro do Valle, “A Escola Paulista de Medicina – Dados comemorativos de seu 40º aniversário (1933-1973) e anotações recentes”. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, pp. 162-166.      

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

O Asilo-Colônia de Alienados em Juquery (S. Paulo) – [por Juliano Moreira]

 

Artigo publicado em 1902, na Revista Medica de São Paulo, páginas 210 a 213, reproduzido da Gazeta Medica da Bahia.

Autor do artigo: Dr. Juliano Moreira.

Substituto de Psiquiatria e Neurologia na Faculdade da Bahia.

[Observações: buscamos atualizar a escrita, mas mantivemos “Estado” com E maiúscula, “Juquery” com “y” e os nomes das revistas sem o acento na palavra “medica”.]

 

     De há muito habituado a louvar os progressos sanitários do Estado de São Paulo, sinto hoje extraordinário júbilo em noticiar aos leitores da Gazeta Medica da Bahia, a inauguração de mais um pavilhão do magnífico asilo-colônia de Alienados daquele Estado. E já agora aproveito a oportunidade para publicar as boas impressões em meu espírito deixadas pela visita que fiz àquele magnífico estabelecimento.

     Pode-se aquilatar o grau de aperfeiçoamento moral de um povo pelos cuidados que ele saiba dispensar aos que têm o infortúnio de ensandecer. Terá este modo de pensar não somente quem houver percorrido o mundo culto, mas ainda quem tiver, mesmo por leitura, conhecimento dos desvelos com que tratam seus alienados os povos que evolvem. O Estado de S. Paulo, que de há muito tem sabido marchar à frente da propaganda pelo nosso progresso real, aderindo, pelo exemplo, a todas as ideias úteis em matéria de higiene, soube também dar aos outros Estados, mesmo os mais ricos, a lição sublime de levar a efeito a construção de um manicômio modelo. Pode por conseguinte aquele Estado brasonar-se com o merecido foral de povo culto e moralmente aperfeiçoado.

     Tivessem muitos outros departamentos do território nacional sabido melhor aproveitar as sobras de seus fartos orçamentos em tempos mais prósperos e em vez de um Asilo-Colônia teríamos muitos; mas nem todos os nossos homens de governo têm sabido olhar as necessidades do país através do prisma pelo qual se têm orientado os patriotas paulistas.

     Ainda em 1894 o falecido Dr. Cesário Motta, a quem tanto deve o Estado de S. Paulo, em seu grande relatório escrevia: “A casa em que estão recolhidos os loucos torna-se dia a dia mais insuficiente e imprópria pelo acúmulo de doentes”.

     Depois transcrevia o ofício enviado ao Dr. Secretário da Agricultura com o fim de obter da respectiva repartição informações relativamente ao local mais apropriado à construção de um novo Asilo para o que uma lei do Congresso Estadual já havia dado autorização.

     Uma comissão composta de dois engenheiros e do Dr. Franco da Rocha já havia dado preferência, entre diversos terrenos oferecidos ao Governo, a dois deles, um na Moóca e outro em Juquery. O primeiro foi eliminado depois por não ter abundância de água. A compra de uma cachoeira fez retardar as negociações do Juquery. E então foi lembrado um outro local no Alto de Santana, perto da Serra da Cantareira.

     Foi depois de novo definitivamente preferido o terreno às margens do Juquery, que apresentava as seguintes vantagens: estava situado a 55 minutos da Capital, perto de uma estação de linha férrea por onde passam cerca de 14 trens diários, banhado pelo rio Juquery, cuja água é potável e tem, a cerca de 2 léguas, uma queda com força média de 100 cavalos para mover máquinas. Além disto, ao Estado oferecia gratuitamente um generoso particular 10 alqueires de terra, sendo fácil a aquisição dos terrenos circunvizinhos. Acrescendo a tudo isto a proximidade de Caieiras, onde havia cal e pedra em abundância para as obras, não pode haver dúvidas sobre a boa escolha dos terrenos em questão.

     Em 1895, o nosso distinto colega Dr. Franco da Rocha em seu “Ensaio de Estatística” do Hospício de São Paulo descrevia ainda “as péssimas condições do velho edifício em que se achavam os alienados”. O governo do Estado continuava com energia e boa vontade a envidar esforços para resolver a questão.

     Foram os beneméritos presidentes Drs. José Alves de Cerqueira César e Bernardino de Campos que, em boa hora, confiaram ao distinto alienista supracitado a escolha do sistema de hospício a adotar. Pela primeira vez neste país deu-se inteiramente ao médico alienista o direito de dizer quais princípios devem orientar a construção de um manicômio, e, o que é mais, foi-lhe dada a missão de ao lado do arquiteto pôr em prática estes princípios. E tão afortunada é aquela terra que pode dispor de um arquiteto inteligente, o Dr. Ramos de Azevedo, a quem o Dr. Franco da Rocha não poupa louvores pela alta competência que pôs em prática para efetuar os preceitos salutares da higiene hospitalar ao serviço de manicômios.

     Em obediência à decisão do Congresso Internacional dos Alienistas reunido em Paris em 1889, o Dr. Franco da Rocha desde 1892 envidou esforços para que fosse fundado em S. Paulo um Asilo-Colônia e não colônias agrícolas para alienados em pontos diversos e distantes do território do Estado.

     De fato, aquele Congresso tinha aconselhado como preferíveis os asilos médico-agrícolas compostos de um asilo central, cercado de estabelecimentos agrícolas sempre que as circunstâncias o permitirem. Desde que não era absolutamente aproveitável o velho hospício então existente, desde que a circunstância de não ter S. Paulo ainda uma Faculdade Médica, não impunha a necessidade da criação de uma clínica urbana, não vejo melhor alvitre que o aconselhado pelo Dr. Franco da Rocha.

     Somente em fins de 1895 começou a edificação do projetado estabelecimento, em terrenos para cuja escolha concorrera o alienista cujo nome tantas vezes tenho repetido.

     A maior parte das construções do hospício propriamente dito fizeram com que a colônia fosse concluída antes dele e inaugurada a 18 de maio de 1898. Demais o acúmulo de doentes no edifício do velho hospício impunha a inauguração da referida colônia.

     Falarei, portanto, primeiro da colônia, mesmo porque foi a parte que eu tive a fortuna de ver completa, em plena atividade.

     Ela está apenas a 1500 metros do hospício.

     Em redor de uma grande área central arborizada, de 100 metros sobre 70, agrupam-se 10 pavilhões de que se compõe a colônia. Eles são pequenos e elegantes ainda que singelamente construídos. Dispostos em duas filas de quatro pavilhões cada uma, estão destinados aos enfermos.

     Os dois restantes são destinados a administração e economia: isto é, um foi depois destinado ao médico auxiliar e outro à cozinha, dispensa, rouparia, etc.

     Cada um dos oito pavilhões tem uma sala de refeitório, 1 dormitório com 20 camas, 1 banheiro, 1 latrina e dois compartimentos ainda para um enfermeiro e um guarda.

     Nos 8 pavilhões destinados aos doentes pernoitavam 20 asilados em cada um deles, ao tempo da minha visita ao Juquery. Meu distinto colega Dr. Franco da Rocha informou-me, porém, que em caso de necessidade lá poderiam estar 25 pacientes, por isso que se lhes tinha dado o conveniente excesso de cubagem.

     Dentre os oito pavilhões em que se alojam os pacientes, dois eram então destinados aos inválidos por moléstias intercorrentes e, por isso, neles, em vez de um só enfermeiro como em outros pavilhões, havia ainda um ajudante.

     Dez empregados fariam então o serviço dos oito pavilhões. Hoje os enfermos que necessitam de um tratamento sério são mandados para o asilo de tratamento.

     Dois empregados cuidavam da rouparia, dispensa, feitura de barba, corte de cabelo, curativos de feridas, etc. Dois outros faziam o serviço da cozinha e uma geria o serviço das criações.

     Os empregados revezavam-se em turmas de 5 por semana para saírem com os que trabalham acompanhando-os no serviço.

     Por ocasião de minha visita, a colônia tinha 160 asilados crônicos, dos quais muitos válidos trabalhavam e auxiliavam o serviço sem que ninguém precisasse fiscalizá-los.

     Alguns saem a passeio completamente livres; voltam à hora da refeição e do recolher sem dar incômodo ao pessoal.

     A colônia colocada sobre uma colina está rodeada de 170 hectares de terra que foram divididos em duas partes: uma para criação de vacas leiteiras, galinhas, porcos, etc. A outra destinada à agricultura, é regada pelo rio Juquery.

     Tendo em vista as condições do terreno, o Dr. F. da Rocha mandou plantar primeiro o que podia dar mais pronto resultado: milho, aipim, batata, fumo, cana, etc.

     Todos os detritos do estabelecimento são aproveitados para a fertilização do solo destinado a ser cultivado.

     Ao tempo de minha visita já ali havia uma roça com três alqueires de milho, um pomar com 480 árvores frutíferas, uma boa plantação de mandioca, e uma boa horta que provia regularmente a cozinha do estabelecimento.

     Os asilados em serviço estão agrupados por turmas e são acompanhados por um dos empregados segundo o número deles. Os empregados trabalham também, e não exercem pressão sobre os enfermos, que só trabalham quando querem: jamais são obrigados a isso.

     O trabalho deles é de 6 a 7 horas intervaladas pelas de descanso.

     Uma turma trabalha na conservação da via térrea que serve ao asilo e à colônia; outra cuida do estábulo, outra cultiva os cereais, outra cultiva o fumo e fabrica charutos para os outros asilados, e assim por diante. O grupo que se ocupa da horticultura vive em pavilhão separado dos outros e onde os enfermos gozam da mais absoluta liberdade.

     Os que trabalham, logo que se erguem às 6 horas da manhã no verão tomam café simples e seguem para o serviço; voltam às 8 para uma refeição ligeira composta de 200 gramas de pão e uma caneca de 400 gramas de café.

     Saem de novo às 9:30 h para o serviço e voltam ao meio-dia, quando recebem carne, arroz, feijão, farinha, batatas, verduras.

     Às 2 horas voltam ao serviço. Às 4, mesmo no serviço, tomam uma ligeira refeição, composta de aipim cozido ou batata doce, etc. Às 5:30 tomam chá com roscas de farinha de trigo.

     A maior parte dos doentes asilados em Juquery, é provinda da classe de trabalhadores agrícolas. Não pode haver dúvida que a ocupação preferível para eles era o trabalho no campo, mesmo por ser o que exige menos esforço intelectual da parte do enfermo. Quem quer que tenha visto os bons efeitos do trabalho em certa classe de alienados, não poderá deixar de louvar a orientação que o Dr. F. da Rocha tem sabido dar à colônia anexa ao Asilo de Juquery.

     Ao tempo da minha visita à magnífica fundação de meu distinto colega Dr. F. da Rocha, ainda não estava inaugurado o Asilo de tratamento. Mas em companhia dele pude fazer um juízo sobre a orientação científica que aquele estudioso alienista tinha dado à construção da parte hospitalar do manicômio do Juquery.

     Segundo as últimas notícias dali recebidas, funcionam o pavilhão da administração, o da dispensa, três pavilhões da seção de homens, uma enfermaria para moléstias intercorrentes e um pavilhão destinado à hidroterapia.

     Os pavilhões para doentes que eu tive ocasião de ver em via de acabamento, eram divididos do seguinte modo: um salão para refeitório, uma sala de conversação e recreio, 10 quartos para um ou dois enfermos, 2 dormitórios para 30 camas, quartos para enfermeiros e um pátio onde passeiam os doentes.

     Terminados os trabalhos de construção, o excelente estabelecimento de S. Paulo constará de 12 pavilhões para doentes, sendo 8 para doentes comuns, 2 para isolamento e 2 para os atingidos por moléstias intercorrentes; 1 pavilhão para administração, 1 para dispensa, 2 para hidroterapia e 1 para lavanderia.

     Comportará então o hospício 800 doentes e unido à colônia atingirá a 1000 o número de asilados no Juquery.

     Não sendo possível fazer logo no Asilo-Colônia de Juquery uma instalação elétrica, faz-se a iluminação a acetileno. Mais tarde, por certo far-se-á a referida instalação.

     A distância entre a estação da Estrada Inglesa e as várias dependências do Asilo-Colônia é vencida por um pequeno ferro-carril de bitola estreita. Mais ou menos a meio trajeto entre a referida estação e o hospício central está o elegante chalet morada do diretor.

     Malgrado minha pouca simpatia pelos sistemas de construção de asilos em que os pavilhões são grandes e para muitos doentes, assim como por aqueles em que os pavilhões são iguais, por isso que ai resulta uma certa monotonia que não é sem inconvenientes para certos espíritos, tenho a extraordinária satisfação de assinalar aqui a magnífica impressão em mim causada pelo Asilo-Colônia de Juquery.

     A economia resultante do sistema ali posto em prática, explica o tê-lo preferido o seu distinto Diretor; de mais tive ocasião de vê-lo adotado em outras cidades dispondo talvez de mais larguezas orçamentárias.

     Terminada a construção do hospício, se meu distinto colega Dr. Franco da Rocha lhe anexar um laboratório anatomopatológico, um pequeno bacteriológico e um bioquímico, dando-lhe o respectivo pessoal idôneo, se ainda se instalar ali um gabinete de psicofisiologia, terá elevado o esplêndido estabelecimento que soube fundar à altura dos mais perfeitos da Alemanha e da América do Norte.

     Até hoje está muito acima dos três toleráveis existentes em todo o vasto território nacional.

     Faço votos muito sinceros para que o Estado de S. Paulo saiba sempre avaliar devidamente o enorme serviço que lhe prestou o distinto alienista que planejou e executou o excelente Asilo-Colônia de Juquery.

     Com o sábio alienista francês Ritti e comigo, o Estado de S. Paulo deve estar convencido que “sous la Direction de notre savant confrère, ce bel etablissement, dont il est le créateur, rendra des services éminents et à la science et à l’humanité”.  

     Que os outros Estados saibam colher no modo de proceder de S. Paulo o exemplo fecundo do que se pode chamar servir bem a causa pública.

    Antes de terminar sou obrigado a agradecer ao meu distinto colega Dr. Franco da Rocha o acolhimento afetuoso que me dispensou nas visitas que fiz ao velho e ao novo hospício de S. Paulo.