quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Biografia do Prof. Paulino Watt Longo

 

A partir de texto do Prof. Octavio Lemmi

 

     Paulino Longo nasceu em São Paulo no dia 7 de junho de 1903. Após bacharelar-se em Ciências e Letras pelo Ginásio do Estado, ingressou na então assim chamada Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, em fevereiro de 1920, diplomando-se em 1926, quando apresentou tese inaugural que versou sobre “Contribuição ao Estudo da Esclerose Lateral Amiotrófica”. Esse seria o marco inicial de sua trajetória de neurologista, destinada a inexcedível brilho.

     Logo colaborou como voluntário nos trabalhos assistenciais e didáticos da então Clínica Neurológica e Psiquiátrica, dirigida pelo mestre Enjolras Vampré – o criador da Escola Neurológica Paulista –, tendo sido nomeado assistente já em 1928, cargo que exerceu com assiduidade e dedicação exemplares durante dez anos. Nesse período, realizou intensa atividade clínica e publicou mais de trinta trabalhos sobre a especialidade.

     Em 1938, com o falecimento de Fausto Guerner, professor e chefe da Clínica Neurológica da Escola Paulista de Medicina, foi Paulino Longo convidado para reger interinamente essa Cátedra, a qual seria por ele conquistada um ano após, em memorável concurso de títulos e provas.

     Desde logo surgiriam as múltiplas facetas de sua personalidade. Pelo seu magnetismo pessoal, traduzido em bondade, simplicidade constante bom humor e cordialidade, viu se agregarem em torno de si inúmeros jovens sequiosos de aprender a especialidade, os quais, com o decorrer dos anos, deveriam formar a sua escola neurológica. A eles transmitiu aulas e ensinamentos preciosos, caracterizados por objetividade e pelo seu espírito prático, baseados em cultura neurológica, profunda experiência e na preocupação constante de aliviar a dor e a angústia de seus pacientes.

     A todos os seus discípulos e companheiros dedicou incondicional amizade. Exultava com seus sucessos, mesmo os mais simples, e sentia-se feliz, nessas ocasiões, em poder reunir seus colaboradores, do mais credenciado ao mais jovem, em um restaurante simples, onde, num ambiente de alegria e animação, dirigia-lhes palavras de elogio e estímulo. Da mesma forma, compartilhava de seus problemas e angústias, e procurava ajudar sempre que possível. Quantas vezes aproximava-se de algum companheiro para cuidadosamente perguntar: “Você anda triste, o que está acontecendo? Você está doente? Precisa de dinheiro?”.

     Seus assistentes o homenagearam em seu 50º aniversário, em sua casa de Campos de Jordão, presenteando-o com uma série de trabalhos que viriam a ser publicados nos Arquivos de Neuro-Psiquiatria em dois números especiais. Seu colega e amigo Oswaldo Lange, professor de Neurologia e editor dessa revista disse que “melhor homenagem não poderia esperar quem vem, há longos anos, orientando grupo coeso de neurologistas, ao qual se deve, sem a menor dúvida, boa parte do progresso da Neurologia em nosso país”.

     Prof. Lemmi dizia que Paulino Longo sempre se colocava pronto a ajudar, mesmo em ocasiões em que sofresse algum prejuízo, ou que tivesse sido incompreendido. Prof. José Geraldo de Camargo Lima disse que, certa vez, ainda jovem neurologista, quando foi para Congresso em Buenos Aires de ônibus, surpreendeu-se com a presença do Prof. Longo que lhe deu um abraço. Depois no ônibus descobriu que Longo colocou dinheiro em seu bolso.

     Paulino Longo foi também um líder. Como afirmou no dia de sua morte seu amigo Prof. Deolindo Couto: “ele foi um líder da Neurologia paulista e brasileira, ligado que estava a todos os momentos da especialidade, graças a seu desprendimento, à sua inteligência, ao seu espírito gregário que unia e sensibilizava, e principalmente graças a seu amor ao trabalho”.

     Participou na fundação e nas atividades de sua sociedade médica e na criação de revistas especializadas. Publicou mais de 250 artigos. Participou na organização de diversos congressos médicos nacionais e internacionais. Participou de várias bancas, inclusive de 14 professores catedráticos em neurologia e 31 livre-docentes. Recebeu a Ordem do Mérito Médico concedida por decreto do Presidente da República, e o título de Professor Emérito concedido pela Congregação da Escola Paulista de Medicina.

     Em 1966 aposentou-se dizendo que devia dar lugar aos mais novos, tendo mantido frequência nas atividades acadêmicas. Em 15 de setembro de 1967 faleceu de um quadro cardíaco agudo. Seus discípulos fizeram-lhe um busto que fica á frente da Enfermaria da Neurologia do Hospital São Paulo. 

 

Fontes bibliográficas:

Lemmi, O – Paulino Watt Longo in A Escola Paulista de Medicina – dados comemorativos de seu 40º aniversário (1933-1973) e anotações recentes. Organizado por José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, páginas 208-211.

Depoimento pessoal do Prof. Dr. José Geraldo de Camargo Lima.    

domingo, 13 de dezembro de 2020

Biografia de Osório César

 

     Antes de Nise da Silveira (1905-1999) ter trabalhado com Arte e Psiquiatria (e fez certamente trabalho importante), houve Osório César (1895-1986).

     Osório Thaumaturgo César nasceu em 1895, em João Pessoa, Paraíba. Chegou em São Paulo com 17 anos de idade (1912), onde estudou Odontologia. Na ocasião, para se sustentar, deu aulas de violino. Começou a estudar Medicina em 1918 no Curso de Medicina ministrado junto à Escola de Farmácia, que fazia parte da então chamada Universidade de São Paulo (que não era a mesma que a atual, era privada; a atual foi fundada em 1934). Com a extinção dessa primeira Universidade de São Paulo, ele transferiu-se para a Faculdade de Medicina da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, em 1920. Formou-se em 1925, aos trinta anos de idade, fixando-se na área de Anatomia Patológica. Antes disso, a partir de 1923, frequentava o Hospital do Juquery como estudante interno. Nesse local, acabou sendo oficialmente contratado como médico, permanecendo trabalhando lá por quarenta anos.

     Em 1919, Osório César lançou o livro “Doutrinas Biológicas” (portanto, ainda como estudante), dedicado ao estudioso argentino Ingegnieros e prefaciado pelo médico Ulysses Paranhos. Em 1922 lançou os trabalhos “A Química da Vida” e “Dois Ensaios”. Neste último fez correlações entre reações proteícas e funções psíquicas.

     Em 1927, em parceria com J. Penido Monteiro, escreveu “Contribuição ao Estudo do Simbolismo Místico nos Alienados: um Caso de Demência Precoce Paranoide num Antigo Escultor”; segundo alguns essa obra foi traduzida para o Francês e o Alemão.

     Em 1929, lançou o livro “A Expressão Artística nos Alienados: Contribuição para o Estudo dos Símbolos na Arte”.

     Nesses anos frequentou o meio intelectual paulista e círculos interessados em psicanálise.

     Nos anos 1930, Osório César estudou em Paris, além de Alemanha, Itália e União Soviética, tendo participado de um Congresso de Psiquiatria sob a presidência de Pavlov. Na ocasião, foi acompanhado pela famosa pintora Tarsila do Amaral, então sua companheira. César teve grande afinidade com o Marxismo, sendo que, em 1933, publicou dois livros sobre “Estado Proletário” no Brasil, um ano depois de retornar da União Soviética. Por isso, foi preso pelo governo de Getúlio Vargas.

     Em 1933, participou da exposição organizada por Flávio de Carvalho no Clube dos Artistas Modernos, chamada “Semana dos Loucos e das Crianças”, onde fez a palestra intitulada “Estudo Comparativo entre a Arte de Vanguarda e a Arte dos Alienados”.

     Em 1948, organizou a “Primeira Exposição de Arte do Hospital do Juquery” no Museu de Arte de São Paulo, com obras dos pacientes.

     Em 1949, criou a Seção de Pintura do Juquery. Essa Seção e a Associação de Assistência aos Psicopatas de São Paulo promoveram exposições na Capital e no interior.

     Em 1950, apresentou sua coleção de obras em Paris, na “Exposição de Arte Psicopatológica” do Primeiro Congresso Internacional de Psiquiatria. Nessa ocasião, apresentou o texto “Contribuição ao Estudo da Arte entre os Alienados”.

     Em 1952, foi convidado pela Maison National de Chareton para ir a Paris estudar Psiquiatria Social, onde ministrou a palestra “Arte em Psicopatologia” na Sociedade Médico-Psicológica.

     Osório César promovia reuniões em sua residência com músicos e pintores. Nessa seções, a partir da música, os pintores faziam certas produções. Desse ambiente participavam Walter Levy, Aldo Bonadei, Mário Zanini, Carlos Scliar, Gastão Worms, Durval Serra, entre outros. A música ouvida era principalmente de Beethoven, Prokoffief e Stravinsky.     

     Em 1986, Osório César morreu em São Paulo.

     Em 2020, após 16 anos fechado, o Museu de Arte Osório César reabriu suas portas em nova instalação, após reforma desde 2017 da antiga residência de Franco da Rocha, que fica na entrada do Complexo Hospitalar do Juquery e que foi também obra do engenheiro e arquiteto Ramos de Azevedo.

Bibliografia:

Neves, A.C. – O Emergir do Corpo Neurológico. Editora Companhia Ilimitada, 2010.

Andriolo, A.A. – A Psicologia da Arte no olhar de Osório César: leituras e escritos. Psicologia, Ciência e Profissão, 23 (4): 74-81, 2003.

https://revistaforum.com.br/cultura/depois-de-16-anos-museu-osorio-cesar-reabre-suas-portas-em-franco-da-rocha/  

  

    

 

 

sábado, 14 de novembro de 2020

Biografia de Franco da Rocha


 

     Francisco Franco da Rocha nasceu em Amparo, na então Província de São Paulo, em 23 de agosto de 1864. Conforme citação bibliográfica antiga “era filho único de um homem pobre, mas de família antiga e conceituada daquela cidade e aprendeu as primeiras letras num colégio dali”. Por um tempo ajudou os pais na lavoura, com a finalidade de custear seus estudos na Capital de São Paulo, onde estudou no Colégio Morton, juntamente com Arnaldo Vieira de Carvalho, Vicente de Carvalho, Carlos de Campos e Paulo de Moraes Barros. Aos 17 anos iniciou os então chamados “preparatórios”, terminando-os no Rio de Janeiro em 1885, entrando, a seguir, no Curso Médico. Em dezembro de 1890, recebeu o diploma de Medicina. Durante o curso, interessou-se pelo campo psiquiátrico. Foi nomeado interno da Clínica de Moléstias Mentais da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e, no sexto ano, interno da Casa de Saúde do Dr. Eiras.

     Em virtude de sua intenção de trabalhar em São Paulo, recusou convites do Professor Teixeira Brandão, o primeiro psiquiatra do Brasil, para ficar no Rio, onde seria designado substituto na Faculdade. Recusou também a oferta de Carlos Eiras para trabalhar na Casa de Saúde. Após chegar a São Paulo, começou a escrever no jornal Correio Paulistano e no jornal O Estado de São Paulo, onde propôs a organização do serviço público de assistência aos pacientes alienados, de acordo com os então chamados “modernos métodos” de tratamento psiquiátrico, que incluíam laborterapia. No governo de Cerqueira Cesar, foi nomeado médico do Hospício de São Paulo, quando começou seus trabalhos em torno da criação do Juquery.

     Para aprofundar-se no conhecimento de sua especialidade, Franco da Rocha estudou Inglês e Alemão, além do então habitual Francês, fazendo também citações de textos científicos no original em Italiano e Espanhol, em seus escritos. Isso o manteve sempre a par e passo com as novidades científicas, conforme se observa em seus artigos e livros. Escreveu para os Archivos de Psychiatria de Buenos Aires, a pedido do famoso psiquiatra Ingenieros. Escreveu para os Annales Medico-psychiatriques de Paris, órgão da Sociedade Médica Psicológica Francesa, da qual se tornou membro. Escreveu para o Algemeine Zeitschrift de Berlim. Contribuiu para o Tratado Internacional de Psicopatologia, publicado antes da Primeira Guerra Mundial.

     Em 1918, foi contratado para ser o primeiro professor a reger a Cadeira de Clínica Psiquiátrica e Moléstias Nervosas da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. Exerceu esse cargo até 22 de outubro de 1923, quando se aposentou do Serviço Público. Em 1927 fundou a Sociedade Brasileira de Psicanálise, juntamente com Durval Marcondes e outros. Foi o primeiro no Brasil a escrever livro sobre a doutrina de Freud em 1919-1920, que atualizou em 1930. Nos últimos anos de vida estudou a obra de Carl Gustav Jung e escreveu sobre estudos em Ornitologia. Faleceu em 1933.

     Deixou como sucessores: Enjolras Vampré, fundador da Neurologia paulista; Antonio Carlos Pacheco e Silva, seu sucessor no Juquery, depois Catedrático de Psiquiatria; Durval Marcondes, pioneiro na Psicanálise no Brasil; indiretamente, Osório César, pioneiro no estudo da Arte e Psiquiatria no Brasil.

     Quando Franco da Rocha fundou o Juquery, ele era uma instituição modelo, onde se empregava laborterapia e arteterapia. O Juquery ficou tornou-se mal falado principalmente após 1937, com a instalação da ditadura getulista, quando dobrou subitamente o número de internados nessa instituição.


Fonte bibliográfica:

Neves, AC – O Emergir do Corpo Neurológico no Corpo Paulista: Neurologia, Psiquiatria e Psicologia em São Paulo a partir dos periódicos médicos paulistas (1889-1936). Editora Livraria Companhia Ilimitada, 2010.    

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Biografia de Walter Sidney Pereira Leser



 A partir de texto de Magid Yunes

     Walter Leser nasceu em São Paulo aos 15 de novembro de 1909. Cursou o Ginásio do Estado da Capital e a Faculdade de Medicina de São Paulo, pela qual se formou em 1933 com a tese “Contribuição para um estudo dos métodos estatísticos aplicáveis à medicina e à higiene”. Desde cedo se interessou por problemas de Saúde Pública e Estatística. Logo após a formatura foi designado assistente de Estatística da Escola de Sociologia e Política (1933-1946) e em 1940, após concursos de títulos e de provas, foi nomeado Professor Catedrático de Higiene da Escola Paulista de Medicina e, depois, em 1946, da Faculdade de Farmácia e Odontologia da Universidade de São Paulo. Aposentado em ambos os cargos continuou a trabalhar ativamente. Foi Secretário de Saúde no Governo Abreu Sodré (1967-1970) e voltou a ocupar esse cargo na década de 1970.
     Em mais de 40 anos de atividades Leser atingiu objetivos em benefício da coletividade. Foi laureado com o prêmio Antenor Consoni, pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Foi considerado um professor universitário estudioso e culto. Acreditava no valor da ciência e da cultura como instrumentos de desenvolvimento e bem-estar da sociedade.
     Foi um dos pioneiros na introdução da Medicina Preventiva nas escolas médicas do Brasil. Em 1955, no Seminário de Viña del Mar, patrocinado pela Organização Pan-Americana de Saúde, apresentou relatório reformulando o Curso Médico e sugerindo a transformação da antiga Cadeira de Higiene em Departamento de Medicina Preventiva. Seu relatório, nessa reunião internacional sobre ensino médico, foi amplamente aprovado e trouxe como resultado a introdução de novos conceitos no campo do ensino médico.
     Para desenvolver um programa pioneiro de trabalho que obedecesse às diretrizes fixadas no Seminário de Viña del Mar, foi imediatamente criado na Escola Paulista de Medicina o Departamento e Instituto de Medicina Preventiva (IMPEP), do qual foi diretor desde sua instalação, em 1956.
     O principal objetivo dessa então nova estrutura curricular foi educar o futuro médico não só para uma medicina curativa, mas também para a medicina preventiva. Essa atividade de ensino médico era realizada junto ao paciente e seu domicílio. Desta forma, o estudante entrava em contato com problemas médicos e sanitários que afetavam a pessoa, sua família e sua comunidade.
     Leser participou ainda do Grupo de Estudos em Educação Médica que delineou novo modelo educacional para a Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília, então uma nova Universidade em uma nova cidade.
     A formação do Centro de Seleção de Candidatos a Escolas Superiores (CESCEM) e a organização da Fundação Carlos Chagas, em 1964, estiveram intimamente ligadas ao nome do Prof. Leser, que foi um de seus fundadores. Para essa nova organização, trouxe, além de seu esforço pessoal, as ideias e a experiência adquirida em atividades precursoras na EPM. A nova metodologia de seleção através de provas objetivas e a nova concepção das funções do exame vestibular já vinham sendo por ele empregadas na EPM.
     Dessa tarefa surgiu a Fundação Carlos Chagas, que daí ampliou sua ação a outros setores, bem como influenciou a origem de outras estruturas similares.
     Ao assumir, em 1967, pela primeira vez, a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, o Prof. Leser encontrou uma organização extremamente defeituosa, resultante da simples reunião de órgãos que, em 1947, foram destacados da antiga Secretaria da Educação e Saúde Pública, com grande carência de técnicos. Com a colaboração de pessoas de reconhecida capacidade, recuperou, em muitos setores, o atraso da Saúde Pública em nosso estado, enquanto, em outros, estabelecia bases firmes para o avanço técnico e científico e a adoção de medidas então modernas e inovadoras.
     Ao lado da implantação da reforma administrativa, estabeleceu critérios para preenchimento de cargos de chefia e criou a carreira de Sanitarista, aguardada há mais de quarenta anos. Atividades até então subestimadas, como a formação e adestramento de pessoal, tiveram novo alento com a reaproximação que exigiu e realizou com os estabelecimentos de Ensino Superior, especialmente com a Faculdade de Saúde Pública.
     Instituiu a “Caderneta de Vacinações”, desde então em pleno uso, e as “Normas ´para o Programa de Vacinações”. Criou condições para estabelecer um registro sistemático dessa atividade, capazes de fornecer elementos essenciais para finalidades educacionais, bem como para orientar, tecnicamente, a aplicação de cada vacina.
     Introduziu experimentalmente, em fins de 1967, a vacinação contra o sarampo – então uma endemia responsável pelo maior número de mortes de crianças paulistas, colocando a vacina nos trabalhos rotineiros da Unidades Sanitárias em 1969.
     Outras tantas providências vindas de sua atuação poderiam ser citadas. Convênios com a Faculdade de Saúde Pública e com a Fundação Getúlio Vargas, para a realização de cursos regulares de formação do pessoal da Secretaria da Saúde. Padronização de medicamentos. Critérios para internação e alta em hospitais. Normas técnicas para coleta e registro de dados epidemiológicos. Normas para imunização. Normas para tratamento de tuberculose e hanseníase.
     Entre seus trabalhos, alguns podem ser destacados. “Contribuição para o estudo dos métodos estatísticos aplicáveis à medicina e à higiene”, Tese, São Paulo, 1933. “Metodologia Estatística”, em colaboração com Dr. Pedro Egídio de Carvalho, 2 volumes, São Paulo, 1936 e 1938, Edição do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo. “Sobre o emprego dos testes de escolaridade na Escola Paulista de Medicina”, Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, 8:53, 1946 (em colaboração com o Dr. Hélio Lourenço de Oliveira). “Modificação do sistema dos exames de admissão às escolas superiores”, Revista da Associação Médica Brasileira, 2: 422-433, 1956. “Considerações gerais sobre a seleção de candidatos à Matrícula nas Escolas Médicas”, Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, 37: 54, 1962. “Exame conjunto para seleção de candidatos a escolas de currículo biológico”, Ciência e Cultura, 16: 354, 1964. “Considerações sobre a vacinação contra o sarampo”, Medicina e Cultura, São Paulo, 26: 69-73, 1971. “Relacionamento de certas características populacionais com a mortalidade no Município de São Paulo de 1950 a 1970”, Problemas Brasileiros, 109: 17-33, 1972.
     Para completar esta biografia recorremos ao artigo “Um Sanitarista chamado Walter Leser” de Mello e Bonfim, de 2015, publicado em Ciência e Saúde Coletiva, do qual vamos mencionar alguns aspectos.
     Conforme os autores, Leser foi influenciado em sua carreira pelo fato de, em 1928, no vestibular para a Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, ter sido aprovado por ter usado de estratagemas retóricos, pois em algumas questões não se sentia muito preparado. Na verdade, além da deficiência do método, deve-se reconhecer que ele foi um hábil e inteligente candidato em seu desempenho nessa prova.  
     Sendo pessoa com aptidão e formação para entrar na Escola Politécnica, ele mesmo não soube explicar como acabou escolhendo medicina. Percebendo que não podia lidar com a incerteza diagnóstica na Clínica de então, inicialmente dedicou-se à Cirurgia. Mas, a necessidade de dedicar-se a mais tempo de preparação e certa dificuldade financeira, fizeram-no afastar-se dessa possibilidade. Ao necessitar de tese de doutoramento, para se formar, procurou Geraldo de Paula Souza, no Instituto de Hygiene de São Paulo. Foi então sugerido que escrevesse sobre “Estatística Médica”, um campo então praticamente inexistente no Brasil. Aí começou a ser forjado o “Leser autodidata”. O seu orientador chegou a lhe dizer: “na dúvida, deite, reze e pense”. No fim, acabou dando certo e foi feita a marcante tese, em 1933, “Contribuição para o estudo dos métodos estatísticos aplicáveis à medicina e à higiene”.
     A partir daí, o Dr. Leser desenvolveu sua carreira em três áreas: laboratório de análises clínicas; ensino; gestão em saúde.
     Indicado por Paula Souza, foi contratado como assistente do Departamento de Química Biológica da Faculdade de Medicina, onde trabalhou com padrões de bioquímica sanguínea, iniciando publicações. No ano seguinte foi convidado pelo Dr. Gastão Fleury para se associar ao laboratório de análises clínicas.
     Em 1955, participou da criação do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (CREMESP), onde se inscreveu com o número 0004. Convidado por Flamínio Fávero, participou da chapa vencedora da primeira eleição para esse conselho.
     Sobre sua carreira docente, inicia-se em 1934. Paula Souza, que tinha participado da fundação da Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, o indicou para dar aula para a primeira turma como professor substituto de estatística, sendo logo efetivado.
     Em 1936, escreveu com seu colega Pedro Egydio de Carvalho (neurologista que ele indicou para assumir a vaga de estatística no Instituto de Hygiene) um livro de estatística e dois volumes, editado pelo Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo.
     Em 1946, deixou a Escola de Sociologia e Política para dedicar-se à EPM e à USP.
     No início da década de 1940, Paula Souza o indicou para a Cadeira de Higiene da EPM. A aprovação definitiva exigiu grande preparação por dois anos, quando fez tese sobre a presença de vitamina C na banana. Em sua banca estavam: Geraldo de Paula Souza, Francisco Borges Vieira, Samuel Pessoa, Marcos Lindenberg, Pedro de Alcântara Machado. Em 1942, tomou posse como catedrático de Higiene na EPM.
     Em 1946, foi convidado por professores, entre eles Zeferino Vaz, para prestar concurso na Faculdade de Farmácia e Odontologia da USP, onde se esperava que ele ajudasse a modificar a conflitante estrutura acadêmica da faculdade. Foi aprovado com tese sobre a vitamina A.
     Na EPM, além da Estatística e da Epidemiologia, ele esteve à frente do novo currículo para a graduação. De seus estudos epidemiológicos, causou impacto a relação entre a mortalidade infantil em São Paulo, o poder aquisitivo, e o abastecimento de água entre 1950 e 1970. Editou um livro de Epidemiologia embasado em duas apostilas de Estatística de 1973.
     Em relação à EPM mais especificamente, seus dois principais trabalhos foram a criação do Departamento de Medicina Preventiva e suas propostas para modificação dos vestibulares.
     O Departamento de Medicina Preventiva surgiu em 1955, de uma Conferência da Organização Panamericana de Saúde (OPAS), em Viña del Mar, no Chile. Apenas dois cursos enviaram estudos solicitados sobre o campo de higiene, o que colocou o estudo de Walter Leser, Jairo Ramos e Felício do Prado no centro do debate. As novas premissas da OPAS para o ensino em medicina que foram colocados parecem ainda muito atuais: o ensino da medicina geral; o cuidado individual, familiar e comunitário; a introdução da visão de saúde no sistema de referências do médico, e orientação de atividades práticas comunitárias. A partir daí, o Departamento de Medicina Preventiva teve sua carga horária estendida para vários anos do currículo de graduação, com aulas, visitas, seminários com convidados, assistência em ambulatório geral dedicado ao ensino de prevenção clínica, discussões de história natural das doenças e sua multicausalidade.
     Em 1962, a Fundação Rockfeller levou o Prof. Leser a visitar vários centros de medicina preventiva dos Estados Unidos, incluindo Columbia, Harvard, Cornell. Ele gostou especialmente da Western Reserve University, com um “currículo integral vertical”, que ele havia defendido na EPM, na Associação Brasileira de Ensino Médico (ABEM), e como consultor do curso da Universidade de Brasília.
     Sempre com sua preocupação a respeito dos critérios de avaliação no vestibular, ele aceitou presidir a banca oral do vestibular de 1952 da EPM. Decepcionado com o modelo adotado, levou essa questão à Congregação, que autorizou a realização de um teste de inteligência no ano seguinte, sem que valesse nota. Feito o vestibular, a aplicação de um teste adaptado do exército americano, permitiu-lhe concluir que uma parcela dos aprovados não tinha grau de inteligência necessário para fazer o curso de medicina. A partir daí, houve completa remodelação do processo de admissão, que passou a ter testes específicos das disciplinas, teste de inteligência e redação.
     Em 1962, foi convidado por Isaías Raw para reestruturar o vestibular de medicina da USP. Com o aumento de cursos e de procura por vestibulares, levou-o a fundar o Centro de Seleção de Candidatos às Escolas Médicas (CESCEM), o que influenciou a criação do CESGRANRIO e depois da FUVEST. Com o CESCEM criou também a Fundação Carlos Chagas.
     Para a Secretaria de Saúde do Governo Abreu Sodré, foi indicado por Jairo Ramos, já que ainda era inexperiente em saúde pública. Seguidor da linha de Paula Souza, Leser não se alinhava a clientelismos políticos, e assumiu a Secretaria em tempos difíceis. Em 1947 acontecera o desmembramento da área da Saúde da Secretaria da Educação, sendo criada a Secretaria de Estado dos Negócios da Saúde Pública e Assistência Social, supostamente em busca de organização e eficiência. Mas, até que Leser assumisse na década de 1960, isso não ocorreu.
     Dessa forma, em 1967, houve um decreto para reforma da administração pública. Foi então feito do Centro de Saúde o eixo da organização sanitária e a carreira de médico sanitarista. Foi criado o Instituto de Saúde de São Paulo para auxiliar na assistência e avaliação de desempenho.
     A prevenção foi trazida para o primeiro plano. A erradicação da varíola proposta pela OMS levou à vacinação em massa de 90% da população do estado entre 1968 e 1970. Foi instituído o calendário vacinal, suas normas técnicas, a caderneta de vacinação. Houve a renovação do Código Sanitário que remontava a 1918. Foram construídas instalações, comprados medicamentos. Foi feita política de saúde mental, combate a endemias, criados centros de saúde. Em Igaraçu do Tietê combateu a febre tifoide, o que levou a ter nome de rua nessa cidade. Com seu colega de turma e professor da EPM, Abrahão Rotberg, fez o termo lepra ser substituído oficialmente por hanseníase.
     Mesmo sem ser pessoa com envolvimento político, defendeu o grupo de sanitaristas de sua secretaria frente ao governo militar, incluindo médicos com filiação à esquerda como David Capistrano da Costa Filho e Pedro Dimitrov.
     Em 1975, foi convidado pelo governador Paulo Egydio Martins para voltar à Secretaria da Saúde. Na primeira semana de trabalho, já enfrentou o hercúleo trabalho contra a epidemia de meningite, até então censurada pela ditadura. Conseguiu a marca impressionante de 10 milhões de pessoas vacinadas em 4 dias na Grande São Paulo, com 95% de cobertura vacinal no Estado de São Paulo. No mesmo ano, no litoral, teve que lidar com uma epidemia supostamente de uma forma de encefalite.
     Trabalhou com a melhora dos Centros de Saúde e a Revisão do Código Sanitário do Estado. Entre 1976 e 1978 conseguiu promover a efetivação de mais de 300 sanitaristas no estado que ainda estava carente desses cargos, por meio da dinamização do curso obrigatório para essa área. Carreira essa que foi extinta em 1987.
     Walter Leser faleceu em 2004, com 94 anos. Sua companheira, Dona Helena, faleceu com 100 anos. Seus passatempos eram xadrez e futebol. Alguns traços de sua personalidade que são lembrados: exigência, austeridade, sobriedade e inteligência. Ele foi uma pessoa moderna, ou como se costuma dizer, à frente de seu tempo. Acentuava o seu autodidatismo, dizendo ser apenas “um tocador de ouvido”. Era visto mais como o líder de um grupo do que realizava em conjunto, mais do que uma pessoa que tivesse apenas seu nome no que fazia. No fim das contas, seu nome foi dado à “Medalha de Honra e Mérito da Gestão Pública em Saúde” do governo paulista. Um nome que acabou adquirindo sua própria aura mítica em Saúde Pública, com respeito mesmo de seus adversários.

Fontes bibliográficas:

“Walter Sidney Pereira Leser”, por Magid Yunes in “A Escola Paulista de Medicina – dados comemorativos de seu 40º aniversário (1933-1973) e anotações recentes”. Organizado por José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, pg. 229-232.

Mello, GA & Bonfim, JRA – Um sanitarista chamado Walter Leser. Ciência & Saúde Coletiva, vol. 20, n. 9, Sept. 2015.Acessível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232015000902749



segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Biografia do Prof. André Dreyfus


A partir de texto do Prof. Edgard Barroso do Amaral

     André Dreyfus nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, a 5 de julho de 1897. Fez cursos primário e secundário naquela cidade e pelos idos de 1912 mudou-se com a família para o Rio de Janeiro. Formou-se em 1919, pela Faculdade de Medicina da Praia Vermelha, onde logo passou a trabalhar como assistente de Histologia, e como analista do Laboratório da Colônia Juliano Moreira de pacientes psiquiátricos. Em 1923, instalou curso particular de Biologia e Embriologia pelo qual passaram muitos alunos até 1927. Nesse ano, foi insistentemente convidado pelo Prof. Pedro Dias da Silva, então Diretor da Faculdade de Medicina de São Paulo, para onde se transferiu e iniciou atividades didáticas como assistente de Carmo Lordy, catedrático de Histologia, em tempo integral. Permaneceu na Faculdade de Medicina até 1933, dando cursos extraordinários, iniciando suas célebres conferências sobre Hereditariedade e Genética, não só para alunos e médicos, mas também para intelectuais e cientistas. A partir de 1934 passa a professor catedrático de Histologia da Faculdade de Farmácia e Odontologia, acumulando, no mesmo ano, a regência da Cadeira de Histologia e Embriologia Geral da Escola Paulista de Medicina. Permaneceu na Escola Paulista até fevereiro de 1938, quando, após brilhante concurso, foi efetivado como professor em tempo integral, de Biologia Geral da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Consolidou-se então o seu nome como professor atuante e conferencista de mérito excepcional. O seu crescente prestígio conduziu-o contra a sua vontade, em 1943, por insistência do então Reitor Jorge Americano à direção da Faculdade de Filosofia. Marcou fundo a sua passagem no cargo pela reforma fundamental e de grande amplitude dos cursos; pelo contrato de professores estrangeiros de mérito e pelas iniciativas visando o avanço da ciência e da cultura também em outras faculdades de Filosofia do país. Dele escreveu Zeferino Vaz, um de seus melhores amigos: “Já descrevi certa vez o entusiasmo juvenil que se notava em Dreyfus com a presença de Dobzhansky em seu laboratório, ensinando a ele e a seus assistentes as mais recentes técnicas de pesquisa citogenética e todos os segredos de captura, identificação, cultura e cruzamento de Drosófilas. Era a primeira vez que ele encontrava um orientador, ele que tudo teve que fazer por si, sentindo quanto pode um mestre abreviar o caminho da ciência... Em verdade, nada havia no Brasil em matéria de Genética antes de Dreyfus. Nem sequer se conhecia o nome de Mendel e todavia, em contraste envaidecedor, quando morreu, e graças a ele, passamos a constituir o maior centro de genética animal da América Latina, e um dos mais respeitados do mundo... André Dreyfus foi sempre extremamente sensível à produção artística. A música, a pintura, a escultura e a literatura o empolgavam e a seu culto dedicava todas as horas que conseguia roubar à ciência... A sua obra científica era exposta oralmente ou por escrito com clareza e em estilo puro, empolgante e persuasivo... Escreveu certa vez que a Ciência, por divertida, poderosa, útil e bela que seja, não é tudo, porque o homem não pode viver apenas da razão. Só a generosidade, o altruísmo e o desprendimento tornam a vida digna de ser vivida e a mais caracteristicamente humana das qualidades é a amizade. Certamente poucos homens terão praticado um culto tão elevado da amizade quanto André Dreyfus. Aos discípulos prestava carinhosa assistência afetiva, procurando auxiliá-los na solução dos mais íntimos problemas pessoais, além de inexcedível dedicação, contínuos ensinamentos e estímulos ao trabalho científico”.
     Conforme o Prof. Amaral, até sua morte por acidente vascular cerebral em São Paulo, em 15 de fevereiro de 1952, André Dreyfus foi incansável no cumprimento de sua tarefa e de sua missão como mestre e formador de discípulos.  

Fonte bibliográfica:
Edgard Barroso do Amaral - André Dreyfus (1897-1952) in A Escola Paulista de Medicina - dados comemorativos de seu 40º aniversário (1933-1973) e anotações recentes. Organizado por Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, pgs. 156-158. 


sábado, 7 de setembro de 2019

Biografia do Prof. Abrahão Rotberg


A partir de texto de Raymundo Martins de Castro

     Abrahão Rotberg nasceu em Odessa, em 12 de janeiro de 1912, e ainda criança emigrou com seus pais para o Brasil. Fez as primeiras letras no Rio de Janeiro e o curso secundário no tradicional Colégio Pedro II dessa cidade.
     Ingressou na então Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo em 1928. Formou-se em 1933. Desde a vida acadêmica, interessou-se pelo Mal de Hansen. Nas enfermarias do então Sanatório São Bento, coletou o material para sua tese de doutorado: “Intradermorreação de Mitsuda-Hayashi”. Essa tese marcou época, pois eram confusos os conhecimentos sobre formas graves e formas benignas do Mal de Hansen. Sua tese foi um dos elementos que possibilitaram a F. E. Rabelo e J. M. Fernandez imporem perante a ciência mundial a classificação sul-americana do Mal de Hansen.
     Rotberg formou-se em época um tanto peculiar para a Dermatologia paulista, na década de 1930. A esse tempo, o antigo Departamento de Profilaxia da Lepra, dirigido por (conforme Raymundo M. de Castro) personalidade “doublé” de cirurgião e sanitarista, possibilitou a Rotberg e vários outros, entre os quais dois colegas de sua turma, Luís Marino Beccheli e Luís Baptista, meios para se aperfeiçoarem em Leprologia e Dermatologia. Foi esta uma espécie da fase áurea da Leprologia paulista e São Paulo tornou-se um tipo de “Meca da Leprologia mundial”.
     Rotberg complementou sua formação dermatológica como assistente de Dermatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, na cátedra então regida pelo Prof. João de Aguiar Pupo. Aí, pouco permaneceu como assistente. A Constituição de 1937 proibia a acumulação de cargos públicos e Rotberg optou pelo Departamento de Lepra, tal era o prestígio dessa instituição nessa época.
     Em estágio nos Estados Unidos aperfeiçoou-se em Alergia, tendo sido um dos pioneiros nesse assunto no Brasil. Em 1939, apresentou trabalho em Congresso de Ciência do Pacífico em S. Francisco, e de lá rumou para o Skin Cancer Hospital em Nova York.
     Com a instalação da Clínica Dermatológica do Hospital das Clínicas, Aguiar Pupo convidou Rotberg para integrar o quadro de médicos auxiliares. Cumprindo exemplarmente suas funções de ensino, pesquisa e assistência em 1951, obteve a Venia Docendi, em brilhante concurso no qual defendeu tese sobre intradermorreação de Montenegro.
     Após a prematura morte de Nicolau Rossetti e o curto tempo que Newton Guimarães regeu a cátedra na Escola Paulista de Medicina (1957), Rotberg assumiu a regência da cátedra, em 1958, nela permanecendo até 1970.
     Implantou novos métodos de ensino e, sobretudo, possibilitou diálogo franco e leal entre professor e aluno. Desse diálogo resultou ser homenageado por quase todas as turmas que lecionou.
     É coautor, juntamente com Luiz Marino Becchelli, de um compêndio de Leprologia. Essa obra, publicada em 1956, foi importante texto para os dermatologistas e os então leprologistas.
     Foi diretor do Departamento de Profilaxia da Lepra e, após a reforma administrativa da Secretaria da Saúde, com a criação da Coordenadoria de Serviços Técnicos Especializados, passou a exercer o cargo de Coordenador.
     Ao tempo da escrita do texto sobre ele, de Raymundo Martins de Castro, nos anos 1970, ele continuava sua renhida campanha para a adoção do nome “hanseníase” em substituição a lepra, visando atenuar o estigma sobre a doença. Nessa sua luta, já contava com apoio de especialistas nacionais e estrangeiros, de escolas médicas, de sociedades médicas, de governos estaduais e também do governo federal.
     Em 1971 tornou-se o supervisor científico da publicação “Hanseníase”, órgão oficial da Divisão de Hansenologia e Dermatologia Sanitária da Secretaria da Saúde.
     Quando na direção do Departamento Nacional de Profilaxia da Lepra, em 1967, propôs abolir o isolamento compulsório, bem como lançou a ideia de usar-se o nome “hanseníase”. Em 1975, esse termo foi adotado oficialmente pelo Ministério da Saúde do Brasil. Rotberg foi fundamental para criação do termo, sua substituição e para o fim das colônias de isolamento da moléstia.   
     Trabalhou em seu consultório até 2003, com 91 anos. Faleceu no dia 1 de novembro de 2006 em São Paulo.

Fontes bibliográficas:
1 – Castro, R. M. – “Abrahão Rotberg” in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º aniversário (1933-1973) e anotações recentes. Organizado por José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, pg 153-155.
2 – Obituário de A. Rotberg. Anais Brasileiros de Dermatologia, vol. 81, nº 6, Rio de Janeiro, nov/dec, 2006.  

sábado, 3 de agosto de 2019

Biografia do Prof. Horácio Kneese de Mello



      Horácio Kneese de Mello nasceu em São Paulo em 3 de abril de 1914. Foi o sexto de sete filhos em sua família. Descreveu seu pai como um liberal de sua época, que entendia os problemas da então juventude, e que se casou já em idade madura. E que certas decisões na família eram tomadas pelo pai. Diz ele que, como não havia rádio ou televisão, cada filho tinha que aprender a tocar um instrumento. A ele coube o violino, que ele duramente manteve o estudo por quatro anos com o professor Zacarias Autuori, até que ele convenceu seu pai de que deveria parar.
     Horácio começou seus estudos com uma governanta alemã, Dona Angélica, que morava em sua casa. Quando decidiram levá-lo à escola, foi submetido a ligeiro exame na Escola Americana, que era o curso primário do Mackenzie, onde ele entrou já no terceiro ano. Nessa época, o curso primário regular tinha quatro anos. Nessa escola, especificamente, tinha sete anos. Após esse primário, seguiu o curso ginasial no mesmo local. Essa continuidade no Mackenzie era para quem fosse seguir Engenharia. Ou ainda o curso de Comércio viria logo a seguir ao dito primário. Como seu pai era quem decidia, o primeiro filho homem seguiu engenharia e tornou-se arquiteto. O segundo seguiu comércio, para trabalhar com o pai na casa J. Moreira e Companhia, atacadista de tecidos. O terceiro, que era ele, Horácio, deveria seguir Medicina. Se houvesse mais um filho homem, seguiria advocacia. Assim, Horácio foi transferido para o Liceu Rio Branco, na Rua Maria Antonia, para seguir um curso mais apropriado à Medicina. Por ele mesmo, Horácio teria seguido Engenharia para ser arquiteto, tal qual seu irmão mais velho.
     Desse modo, em 1933, entrou na primeira turma da Escola Paulista de Medicina. Durante o curso médico foi presidente do Centro Acadêmico Pereira Barreto em 1934-1935. Foi fundador e primeiro presidente da Associação dos Ex-Alunos da EPM.   
     Quando Horácio estava no quinto ano do curso médico, em 1937, a EPM se mudou definitivamente para a Vila Clementino. Ele morava na rua Bela Cintra e tinha que pegar dois bondes para chegar à escola, que nessa época ficava naquele “fim de mundo”. Pediu então a seu pai que lhe comprasse uma motocicleta. Em sua turma, só ele e um colega, Luiz Junqueira Lobato, usavam. Refere ter ganho muito tempo de estudo com esse transporte. Era uma moto alemã, DKW, pois não havia fabricação no Brasil.    
     Seu pai tinha uma fazenda no Estado do Rio, onde nasceu, cercada por fazendas de familiares. Nesse ambiente, as pessoas reuniam-se à noite para tocar e cantar. Foi aí que Horácio aprendeu a cantar e tocar violão e cavaquinho. Quando estudava Medicina, tinha um colega de turma, Ramiro de Araújo Filho, que era bom músico e tocava bem piano e violão. Horácio ia à sua casa e cantava acompanhado por piano. Nazaré, esposa de Ramiro, dizia que ele cantava bem e que iria encaminhá-lo a alguém. Na época, a editora de músicas Irmãos Vitale tinha um estúdio no Largo da Sé, onde uma pianista acompanhava e orientava possíveis futuros cantores. Ela chamava-se Naja. Aprovou Horácio como cantor. A partir daí, começou a frequentar esse estúdio semanalmente, onde encontrava três ou quatro rapazes, cantores como ele. Na época, havia em São Paulo apenas uma estação de Rádio, a Rádio Educadora. Aos sábados à tarde Naja fazia lá um programa de uma hora de duração, com a apresentação dos cantores. Ela fazia questão de que o cantor tivesse a letra escrita, para não esquecer. Horácio manteve guardado o caderno em que registrou as músicas: Meu Último Luar, Volta Para o Meu Amor, A Mulher que Ficou na Taça, Amores de Estudante, Serenata. Eles procuravam imitar os famosos, Francisco Alves, Orlando Silva e Sílvio Caldas. Em certa excursão a Belo Horizonte, ele cantou Amores de Estudante em um programa. Em São Paulo, foram surgindo novas estações de rádio. Os irmãos Fontoura, Olavo e Dirceu, fundaram uma na Rua Padre João Manoel, onde ele cantou. Certa vez, Paraguassu (assim, com dois s), cantor profissional, pediu a Naja que lhe enviasse algum de seus pupilos, e ele foi encaminhado à Rádio Cruzeiro do Sul para fazer um teste, onde ele cantou Serenata, de Sílvio Caldas. Ele não soube do resultado, mas também não gostava do modo de Paraguassu cantar. De todos esses cantores, um apenas se profissionalizou.
     Certa vez, Horácio resolveu fazer uma serenata para sua namorada, Lydia, que morava na rua Haddock Lobo, quase esquina com Estados Unidos. Ao lado dessa casa havia um terreno vazio, com algumas árvores. Ele pediu ao Ramiro que o acompanhasse com o violão e este levou junto um violinista, Chico, que tocava à noite em um café no centro da cidade. O pai de Lydia era tido como pessoa brava, antes que ele o conhecesse. Quando estava na segunda música, acenderam-se as luzes da casa e houve uma debandada geral. No dia seguinte Lydia contou-lhe que fizeram uma serenata. Ele revelou tratar-se dele mesmo.
     Com poucos anos de formado foi a Congresso de Cardiologia no Instituto de Cardiologia do México juntamente com Jairo Ramos, quando então seguiam a escola de Frank Wilson, segundo ele, divergente da escola de Louis Katz.
       Com a morte de Lemos Torres em 1942, o Prof. José Barbosa Correa passou a reger a chamada 2ª Clínica Médica. Com a morte de Correa em 1948, o Prof. Horácio de Kneese Mello o substituiu, sendo o primeiro ex-aluno da EPM a se tornar professor da Clínica Médica. Em 1951, com a criação do Departamento de Medicina pelo Prof. Jairo Ramos, foi também criada a Disciplina de Cardiologia, sob a chefia do Prof. Dr. Horácio K. Mello, que mais tarde tornou-se o seu Professor Titular. Ainda em 1951, o Prof. Jairo pediu ao Prof. Horácio que fizesse uma visita às faculdades americanas para trazer noções que pudessem ajudar no desenvolvimento desse departamento. Assim, Horácio e sua família viajaram pelos Estados Unidos em 1952 e 1953 para fazer essas observações. Cumpriu essa missão e retornou. Com a aposentadoria precoce do Prof. Jairo Ramos, em 1965, o Prof. Horácio foi eleito para o cargo de Chefe do Departamento de Medicina[1].   
     Em 1964, Horácio lançou o livro Problemas de Cardiologia. Sobre esse livro, vai a seguir um texto que ele escreveu:
     “Em 1964 lancei, por intermédio do Fundo Editorial Procienx, um pequeno livro intitulado Problemas de Cardiologia. Nele expus ideias que amadureceram ao longo de vinte e cinco anos de exercício da medicina, em contato permanente com professores, estudantes e colegas em geral.”
     “O ponto que sempre enfatizei, inclusive nesse livro, foi a necessidade que tem o médico de encarar o doente como um todo, corpo e espírito. Cito autores que li, como, por exemplo, Carl Binger (The Doctor’s Job, WW Norton & Company, New York, 1945), que diz: ‘a medicina não é e provavelmente nunca será uma engenharia humana’. E mais: ‘É quase tão importante conhecer o tipo de doente que apresenta a doença, como o tipo de doença que o paciente tem’.”
     “Embora citando alguns autores com os quais estou de pleno acordo, procurei escrever um livro muito pessoal. Na sua introdução lê-se: ‘Não sabemos se o conseguimos, mas foi nossa intenção escrever um livro diferente’. E ainda: ‘É um depoimento. Nele procuramos discutir assuntos sobre os quais temos pensado longamente, e sobre os quais achamos ter ideia bem firmada, fruto de contato diário com doentes, estudantes e colegas’.”
     “Para ilustrar meus pontos de vista, descrevo vários casos clínicos. Sempre, naturalmente, por uma questão de ética, não citando nomes ou quaisquer outros elementos que permitissem identificar os pacientes”.
     “Passados alguns meses do lançamento do livro, recebi uma carta que foi para mim muito interessante e agradável, não só porque fazia elogio ao livro como, também, pelo pitoresco do seu final Aqui vai ela: ‘Caro Kneese, li o seu livro e posso responder sua dúvida na introdução. Você conseguiu seu objetivo, sim. Deu ao médico não especializado, que o vai ler, ideias seguras, honestas e simples sobre muita coisa confusa – anticoagulantes, corticosteroides, hipotensores, amigdalectomia, etc. Pôs o seu senso, o seu equilíbrio e experiência contra muita coisa desajustada que vai sendo imposta como ciência, sem mais exame. E, por fim, como ponto alto, lanço o apelo que, mais do que qualquer outro, precisa ser ouvido com urgência – para que o médico volte a ser humano e alcance, de novo, a condição humana de seu doente, e deixe de ser ‘o engenheiro’ em que dados técnicos o vão transformando. Um abraço saudoso e grato do Doente da página 68’.”      
     O Prof. Horácio K. Mello foi Diretor da EPM de 1970 a 1974 e foi eleito Presidente da Sociedade Paulista para o Desenvolvimento da Medicina no último ano de sua gestão como Diretor, tendo ficado até 1976. Também foi Presidente da Associação Brasileira de Escolas Médicas.
     O processo de tornar-se Diretor da escola foi complexo. Em 1970, o então Diretor da EPM era o Prof. Nylceo Marques de Castro, que faleceu por morte trágica. Foi interinamente substituído pelo Prof. Horácio K. de Mello. Atendendo às novas disposições legais, a lista tríplice de candidatos a diretor tornou-se lista sêxtupla, sendo que encabeçaram a lista como presidente e vice-presidente o Dr. Horácio K. de Mello e o Dr. Costabile Gallucci, respectivamente, cuja aprovação pelo governo demorou durante quase todo o ano de 1970. Essa fase de interinidade foi difícil e levada a contento pelo Prof. Horácio pela sua capacidade de negociação em alto nível, bem como por seu prestígio e amor ao trabalho, de modo que contornou os problemas com sabedoria e justiça.  
     Ainda em 1970, conforme informações do Dr. Adnan Neser: "foi graças à lucidez do Prof. Horácio que foi formada a primeira Comissão de Ensino e Residência Médica, na própria EPM, presidida pelo Prof. Azarias de Andrade Carvalho, auxiliado pelos Profs. Orestes Barini, Uanandy Andrade e por mim, Adan Neser, que fui designado como secretário da Comissão, com muita honra, como representante do Corpo de Residentes". 
     Em 1972 fez parte da delegação que a AMB enviou a Copenhague em um Congresso sobre Ensino Médico organizado pela Associação Médica Mundial.
      Também foi membro e coordenador da Comissão de Ensino Médico do Ministério da Educação, membro e presidente do Conselho da CAPES, assessor do CNPq, presidente da Associação Brasileira de Educação Médica.
     Aposentou-se em 1980, e, após isso, foi membro do Conselho Federal de Educação e do Comitê Editorial do CNPq. Foi membro da Academia de Medicina de São Paulo, da Academia Brasileira de Educação, membro honorário da Academia de Medicina do Chile e professor “honoris causa” da Escola Paulista de Enfermagem[2].
     Em 1985 fez uma exposição individual de pintura na Galeria Íbero-Americana de Arte.
     Em 1988 escreveu o livro “Histórias Acontecidas e Outras Histórias”. Nesse livro relata histórias pitorescas de sua vida em geral e profissional, além de contos e anedotas.
     Depreende-se, de um modo geral, que uma das virtudes centrais do Prof. Horácio em sua vida como professor foi a capacidade de encontrar o equilíbrio e a diplomacia entre diferentes grupos, com diferentes interesses, mesmo em situações de conflito.   
     Prof. Dr. Horácio Kneese de Mello faleceu no ano de 1999[3].



[1] Escola Paulista de Medicina – 60 anos de História. Organizado por O. R. Ratto, L. K. Matsumura, H. A. Rothschild. Gráfica Poolprint, 1993.
[2] Mello, H. K. – Histórias Acontecidas e Outras Histórias. Proposta Editorial, 1988.
[3] Nemi, A – Hospital São Paulo/SPDM: Atendimento à Saúde entre o Público e o Privado nos Anos 70 do Século XX in Medicina Saúde e História: Textos Escolhidos e Outros Ensaios. Coleção Medicina, Saúde e História. Organizado por A. Mota e MGSMC Marinho. Casa das Soluções Editora, 2014, pg. 118.