domingo, 16 de setembro de 2018

Biografia de Flávio Oliveira Ribeiro da Fonseca


A partir de texto de Carlos da Silva Lacaz

     Flávio Fonseca nasceu na cidade do Rio de Janeiro, a 12 de setembro de 1900. Diplomou-se em 1923 pela Faculdade Nacional de Medicina, radicando-se em São Paulo desde 1926.
     Fez concurso (que foi anulado) de língua e literatura alemã do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, onde defendeu a tese – “Considerações de ordem lexicológica sobre o substantivo alemão”, em concurso para Catedrático. Formou-se pela Aliança Francesa e falava fluentemente o francês, o inglês e o alemão. Interessado em corresponder-se com colegas da União Soviética e da Holanda, aprendeu também o russo e o holandês.
     Dedicava-se também à caça, de onde trazia os ácaros necessários às suas pesquisas no Butantã.
     Especializou-se em Parasitologia e Zoologia Médica, trabalhando ativamente nos laboratórios do Instituto Oswaldo Cruz. Em 1925 percorreu, em viagens de estudos, os sertões de Mato Grosso e as florestas da Bolívia, como médico, durante as construções da Estrada de Ferro Transcontinental Brasil-Bolívia.
     Em 1926, veio substituir, na Faculdade de Medicina de São Paulo, o catedrático de Microbiologia e Imunologia e aí lecionou até 1931. Neste ano vinculou-se ao Instituto Butantã, chefiando a Seção de Parasitologia.
     A partir de 1933, ocupou a Cátedra de Parasitologia da Escola Paulista de Medicina, da qual foi um dos fundadores, nas primeiras reuniões realizadas à rua Oscar Porto, a 1 de junho de 1933.
     Na Escola Paulista de Medicina fez parte do Conselho Técnico Administrativo e paraninfou uma de suas turmas.
     Diretor do Instituto Butantã por sete vezes, tornou-se grande especialista em acarologia, descrevendo numerosos ácaros parasitas de vertebrados da América do Sul.
     Deixou no Instituto Butantã cerca de oitenta mil exemplares de ácaros, sendo, provavelmente, uma das maiores coleções do mundo. Além de inúmeros trabalhos versando sobre ácaros, publicou vários outros sobre protozoários, entomologia médica, riquetsioses, etc.
     Manteve correspondência com acarologistas das Américas e da Europa.
     Descreveu diversas espécies novas de protozoários, entre os quais o Plasmodium simium, de primatas. Eleva-se a 130 0 número de trabalhos que publicou, além de magnífica e importante monografia sobre “Animais Peçonhentos” (Butantã, 1949).
     Como Diretor do Instituto Butantã obteve bolsas para diversos pesquisadores brasileiros na Europa e Estados Unidos; e do exterior trouxe também pesquisadores para estágio e pesquisa.
     Fundador da Sociedade Brasileira de Entomologia, do Clube Zoológico e do Parque Zoológico de São Paulo, era membro da Royal Society of Entomology de Londres, bem como da Sociedade Brasileira de Biologia e do Comitê Internacional da Review of Acarology.
     Nos seus trabalhos sobre malária, confirmou a hipótese da importância exercida pelos anofelinos do gênero Kerteszia na transmissão daquela protozoose nas matas e serras, o que por mais de 40 anos fora posta em dúvida. Flávio da Fonseca colaborou, igualmente, na luta antimalárica, tendo chefiado o Serviço de Profilaxia da Malária de São Paulo, nele introduzindo em 1946 o emprego do DDT e de medicamentos sintéticos modernos.
     No Instituto Butantã, aperfeiçoou as técnicas de preparo do soro antitetânico e de outros produtos imunoterápicos.
     Na Revolução Constitucionalista de 1932 foi comissionado como oficial médico, inspecionando as frentes de batalha em companhia de seu sogro, Eloy Lessa, diretor médico do Serviço Sanitário da Secretaria da Saúde.
     Por ocasião da comemoração do Quarto Centenário da Cidade de São Paulo recebeu do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo a medalha da Imperatriz Leopoldina, por trabalho apresentado e então publicado em volume São Paulo em Quatro Séculos, contendo outros trabalhos sobre diversos ramos de atividade, de cientistas e historiadores.
     Membro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, apresentou em suas reuniões anuais diversos trabalhos científicos. Contribuiu em duas edições do livro “Atualização Terapêutica” com trabalhos de sua especialidade. Tomou parte em Bancas Examinadoras para o preenchimento de cátedras de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia.
     A medicina era tradição de sua família. Seu pai foi secretário perpétuo da Academia Nacional de Medicina, seu irmão, Olympio da Fonseca Filho (1895-1978) era parasitologista consagrado, tendo sido Diretor do Instituto Oswaldo Cruz, do Instituto de Pesquisa da Amazônia e da Faculdade de Medicina da Praia Vermelha.
     O Prof. Flávio da Fonseca faleceu em São Paulo, no dia 22 de maio de 1963, aos 62 anos. Ocupando numerosos cargos de relevo, foi grande técnico, professor e administrador, com trabalhos científicos de repercussão internacional.

Fontes bibliográficas:
Lacaz, C.S. – Flávio Oliveira Ribeiro da Fonseca (1900-1963) in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Organizado por José Ribeiro do Valle. Editora Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, págs. 82-85.
Entrevista com Olympio da Fonseca Filho acessado em
http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/historia-oral/entrevista
tematica/olympio-da-fonseca

domingo, 2 de setembro de 2018

Biografia de Felipe Figliolini


Baseado no texto de Edgard Braga: Retrato de um Médico.

     Felipe Figliolini nasceu em São Paulo a 3 de setembro de 1896, filho de José e Rosa Figliolini, ambos nascidos na Itália e naturalizados brasileiros. O pai, arquiteto, executou de vulto na cidade de São Paulo, inclusive como colaborador de Ramos de Azevedo. Felipe Figliolini casou-se em 1919 com Ada Franzoi. O filho mais velho, Felipe José Figliolini também é médico e segue sua especialidade.
     Felipe Figliolini fez parte de um grupo de estudantes que iniciou o Curso Médico na primeira, assim chamada, Universidade de São Paulo (também conhecida na história como “uspinha”), que existiu entre os anos de 1911 e 1917, e era uma Universidade privada. Com o fechamento dessa Universidade, esse grupo a que pertencia Figliolini foi aceito pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Consta que ele, antes disso, era bacharel em Ciências e Letras, tendo recebido uma medalha de prata do Ginásio Ítalo-Brasileiro em 1911, por seu desempenho nessa área.
     Em 1920, por concurso, passou em primeiro lugar para ser Interno de Clínica Propedêutica, cadeira essa dirigida pelo Prof. J. Rocha Vaz. Nesse Internato teve como colegas: Carlos Büller Souto, Couto e Silva, Lourenço Jorge, os irmãos Burgos, J. Ferreira de Andrade, Berardinelli e Capriglione, entre outros. Nesse período Felipe Figliolini foi assistente da Cadeira de Higiene, na Escola Superior de Agricultura e frequentou o Instituto Oswaldo Cruz, em Manguinhos. Em 1921, publicou no Brasil Médico trabalho intitulado “Abscesso Amebiano do Fígado”.
     Em 1922, Felipe Figliolini formou-se com a tese de doutoramento sobre “Semiótica das Icterícias”, aprovada com distinção. Não era muito o que se sabia sobre o contágio e a evolução da moléstia, apontada por clínicos como “afecção catarral” a partir de mestres franceses, com localização obstrutiva na vesícula biliar. A tese colaborou na abordagem semiológica hepática, especialmente em diagnósticos diferenciais. A partir daí, Felipe Figliolini interessou-se pelas moléstias do campo que era designado como “Aparelho Digestivo e Nutrição”.
     Em 1923, em São Paulo, passou a ser assistente voluntário da Cadeira de Clínica Médica comandada por Ovídio Pires de Campos até 1930. Figliolini publicou, juntamente com Felício Cintra do Prado, o trabalho “Síndrome de Brown-Sequard”. Publicou também trabalhos tidos como pioneiros em nosso meio: “Tratamento de Hemorroidas por injeções esclerosantes”, “Considerações sobre o tratamento médico das hemorroidas”, “Dois casos de icterícia dissociada na litíase biliar”. Publicou ainda mais 25 estudos médicos, muitos em parceria com Felício Cintra do Prado, alguns em língua alemã, além de conferências e palestras nas sociedades científicas e na Escola Paulista de Medicina, onde era catedrático.
     Conforme Edgard Braga, a década de 1920 foi de grande abertura médica para assistência e pesquisa, com grande combate à tuberculose, à hanseníase e mais pesquisas sobre a doença de Chagas. Com esse movimento, Felipe Figliolini também foi assistente voluntário na Policlínica de São Paulo.  
     Em 1933, Octavio de Carvalho, ao criar a Escola Paulista de Medicina, buscou Felipe Figliolini para comandar a Cátedra de “Moléstias do Aparelho Digestivo e Nutrição”.
     Figliolini publicou ainda vários trabalhos em colaboração com Felício Cintra do Prado e Evaldo Foz, em torno de pré-câncer gástrico, sífilis, colites ulcerativas, entre outros. Foi Vice-Presidente da Associação Paulista de Medicina e, por duas vezes, Vice-Diretor da Escola Paulista de Medicina, tendo também pertencido ao seu Conselho Técnico Administrativo.
     Conforme o texto de Edgard Braga, redigido entre 1973 e 1977, Felipe Figliolini estava aposentado dedicando-se à pecuária no Pantanal do Mato Grosso.
     Felipe Figliolini faleceu em São Paulo em julho de 1977, aos 81 anos de idade. Foi sepultado no cemitério do Araçá. Existe rua em Santo Amaro, São Paulo, com o seu nome.
     Acrescentamos interessante texto de Edgard Braga em sua biografia de Felipe Figliolini, dos anos 1970, onde ele procura reforçar Figliolini como Mestre:
     “A palavra mestre vem sofrendo contínuo desgaste, principalmente hoje, sobretudo no setor educacional, onde o estudante, acomodado à balbúrdia que há no aprendizado e ensino, prescinde do explicador, do professor, isto é, do mestre. Caminha o mundo para se transformar, através dos veículos de massa média, numa aldeia global, segundo insinua MacLuhan. O ensino é transmitido em testes de quadrinhos; assim também as provas de exame, e os ‘mestres de hoje’ vão às aulas munidos de apontamentos copiados dos tratadistas, muita vez sem qualquer relação com o assunto em foco. São os chamados ‘ficheiros ambulantes’, frios e incomunicantes... O Mestre, porém, (M maiúsculo) era, e creio ainda é, a figura ungida de gravidade e que sabe transmitir a matéria aprendida há longos anos em porfioso labor. É um título humanístico que o distingue dos demais homens, oriundo nas democracias, como disse Condorcet, do aprimoramento educacional”.

Fontes bibliográficas:

Braga, E. - Felipe Figliolini - Retrato de um Médico in A Escola Paulista de Medicina - Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, pags. 76-81. 

Dicionário de Ruas de São Paulo. Acessado em
https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/arquivo_historico/noticias/?p=9808


sábado, 18 de agosto de 2018

Biografia de Fausto Guerner


A partir de texto de Arnaldo Calleiro Sandoval

     Fausto Guerner nasceu em 18 de abril de 1903, em São Paulo, filho de Alfredo Guerner e Idalga de Almeida. Desde menino distinguia-se pelo amor ao estudo e pendor pela Medicina. Terminado o curso de Humanidades, partiu para o Rio de Janeiro, vencendo facilmente a barreira do vestibular na tradicional Faculdade Nacional de Medicina, da Praia Vermelha. Fez o curso médico com distinção e louvor e, mais tarde, em 1935, defendeu com raro brilho tese versando sobre a pneumoencefalografia e o tratamento da epilepsia. Durante o período acadêmico frequentou o Serviço de Rocha Vaz, um dos precursores de estudos endocrinológicos no nosso meio, e, a seguir, ligou-se à Cadeira de Psiquiatria, sob a orientação de Henrique Roxo e, depois à Neurologia, então dominada pela figura inconfundível de Antônio Austregésilo, um dos grandes especialistas da época. Com tais mestres, inteiramente dedicado à psiconeurologia, depois aos estudos de histopatologia do sistema nervoso, alicerçou as bases para ulterior aproveitamento nos melhores centros da Europa dirigidos, por exemplo, por Claude Guillain, De Clerambault, Babinski e Bertrand, em Paris. De volta ao Brasil, fixa residência em São Paulo e se associa a Enjolras Vampré, considerado o líder da Neurologia Paulista e A. C. Pacheco e Silva, então diretor do Hospital do Juquery. Alienista da Assistência Geral a Psicopatas do Estado de São Paulo, Fausto Guerner desenvolve intensa atividade, quer como psiquiatra, quer como neurologista. Em 1933, assina o manifesto de fundação da Escola Paulista de Medicina, tendo sido escolhido para a regência da Cátedra de Clínica Neurológica.
     Fausto Guerner escreveu cerca de quarenta trabalhos em revistas médicas e participou ativamente de reuniões e congressos. Estava sempre acompanhando a Ciência de sua época e publicava, difundia e discutia novos conceitos de sua área. Fez estudos inovadores com André Teixeira Lima. Também estudou as alterações psíquicas ligadas ao hipertireodismo, chamando a atenção para o diagnóstico diferencial entre estes quadros e os de natureza psicogênica. Foi grande estudioso das manifestações psíquicas de quadros orgânicos. Assim também estudava epilepsia e suas nuances em relação a diagnósticos diferenciais, acentuando a necessidade do exame eletroencefalográfico.
     Estimulava seus companheiros e assistentes à pesquisa. Orientou as teses: Silvio Ribeiro de Souza, sobre a encefalite epidêmica; de Mário Yahn, sobre a sulfopiretoterapia na paralisia geral; de Edmur da Costa Pimentel, sobre a pneumoencefalografia; e de Edmur de Aguiar Whitaker. Todas aprovadas com distinção.
     Fausto Guerner faleceu aos 35 anos, em 1938. Foi casado com Maria de Lourdes Pedroso, também médica, e o casal não deixou descendentes. Mesmo adoentado, chegou a dar as primeiras aulas de Neurologia na Escola Paulista de Medicina, conforme foi registrado em fala de Pacheco e Silva e Thomé Alvarenga na Seção de Neuropsiquiatria da Associação Paulista de Medicina de 5 de maio de 1938, no mesmo dia de seu sepultamento.
     Por sugestão de Mário Yahn e de Paulo Pinto Pupo ao então diretor Lemos Torres, a chefia da Cátedra passou a Paulino Watt Longo, importante colaborador de Enjolras Vampré.

Fonte bibliográfica:
Sandoval, AC – Fausto Guerner (1903-1938) in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. JR do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, pgs. 68-70.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Biografia do Professor Eduardo Ribeiro da Costa


A partir de texto de Leônidas de Toledo Piza

     Eduardo Ribeiro da Costa foi um dos signatários do Manifesto de Fundação da Escola Paulista de Medicina em 1933. Nasceu eu Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, em 16 de outubro de 1892, filho de Custódio Ribeiro Costa e Anália de Noronha Lage Costa. Fez o curso primário e secundário no então famoso Colégio Caraça e diplomou-se em Engenharia, em 1916, pela Escola de Minas e Metalurgia de Ouro Preto, como primeiro aluno de sua turma. Nos anos de 1917 e 1918 dirigiu a exploração de petróleo como técnico da Empresa Paulista de Petróleo, construindo, na época, uma das primeiras sondas empregadas no país. Contratado, em 1919, como professor de Química da Escola Politécnica de São Paulo, foi nomeado lente efetivo em 1922, após concurso de títulos e provas da Cadeira, então designada Química Orgânica Complementar de Química Inorgânica, Análise Qualitativa e Processos Gerais de Análise Quantitativa, Mineralogia e Geologia. Transferiu-se, em 1928, para o cargo de Professor Catedrático de Química Geral, Inorgânica e Orgânica. Secretário da Escola Politécnica, de 1929 a 1932, tomou parte na Revolução Constitucionalista, prestando serviço junto à Comissão Técnica Civil de Material Bélico, como Diretor do Departamento de Mineração e Metalurgia.
     Em 1933, regeu a Cadeira de Química do Curso Pré-Médico da Faculdade de Medicina e, em 1934, foi nomeado professor catedrático da Química do Colégio Universitário, anexo à Escola Politécnica. Participou ativamente de várias comissões de estudos de siderurgia e de pesquisas petrolíferas e, em 1952, foi designado Consultor Científico do Conselho Nacional de Pesquisas, participando, no mesmo ano, da Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai. Aposentou-se em 1955 no cargo de Professor Catedrático de Química Orgânica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, depois de mais de 37 anos de dedicação à carreira de professor. Pouco antes de falecer em São Paulo, aos 17 de outubro de 1962, foi-lhe outorgado o título de Professor Emérito.
     Eduardo Ribeiro da Costa realizou trabalhos técnicos em várias localidades, desempenhou várias vezes o mandato do Conselho Técnico Administrativo da Escola Politécnica, participando de inúmeras comissões examinadoras de concursos em São Paulo e outros Estados. Foi sócio do Instituto de Engenharia, fundador da Escola Paulista de Medicina, membro correspondente da Academia Brasileira de Ciências e sócio honorário do Instituto Paulista de Química.

Fonte bibliográfica: “Eduardo Ribeiro Costa – (1892-1962)” por Leônidas de Toledo Piza in “A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes” por José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, São Paulo, 1977, páginas 65-67.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Biografia do Prof. Dr. Dorival Macedo Cardoso



Baseada em texto de José Leal Prado

Dorival Cardoso nasceu em 14 de julho de 1907 em São Paulo. Formou-se em Medicina em 1930, pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Lá, foi influenciado pelo Instituto de Manguinhos (Curso de Química) e dos irmãos Ozório de Almeida. Pouco depois de sua graduação, iniciou carreira científica no Instituto Biológico de São Paulo. Nesse local desenvolveu uma série de trabalhos, alguns dos quais sob a inspiração de Paulo Enéas Galvão. Estes trabalhos, cerca de dezessete, versaram sobre permeabilidade muscular, vitaminas A, B e C, avitaminoses e endocrinologia experimental, e ocorreram num período aproximado de 20 anos (1930-1950).
Em 1934, Dorival Cardoso tornou-se o primeiro professor de Química Fisiológica da Escola Paulista de Medicina e, com exceção do ano de 1940, em que o curso foi ministrado por J. Papaterra Limongi, o Prof. Cardoso ministrou regularmente a maioria das aulas teóricas desta disciplina do curso médico até 1942.
Em 1943, quando o Dr. José Leal Prado foi convidado por Cardoso e por Ribeiro do Valle para ser Assistente de Química Fisiológica, essa disciplina estava aos cuidados de João Pereira Junior, então colaborador do Prof. Galvão em seus trabalhos experimentais no Instituto Biológico de São Paulo. Em 1944, Dorival Cardoso voltou a ministrar algumas aulas teóricas, mas já estava mais interessado em desenvolver nova etapa na vida profissional ligada à indústria farmacêutica. Suas aulas teóricas eram curtas, conforme testemunho do Prof. Leal Prado, e a ele pareciam refletir alguém voltado para outras preocupações.
O curso prático de Química Fisiológica consistia em algumas demonstrações para grupos de alunos, em sala acanhada, o que contrastava com a intensidade dos exercícios práticos individuais a que o Prof. Leal Prado estava acostumado no curso da Faculdade de Minas Gerais.
Conforme Leal Prado, apesar das qualidades e conhecimentos do Prof. Cardoso, ele não pode desenvolver satisfatoriamente a disciplina de Química Fisiológica na EPM, por ser uma escola privada que lutava com dificuldades financeiras. Mas o Prof. Cardoso demonstrou desprendimento em sua posição de professor, porque não constituiu obstáculo a novas condições que viriam a lançar as bases para as atividades científicas se tornassem permanentes nas disciplinas básicas do ensino médico.
Ainda conforme Leal Prado, no transcorrer de quarenta anos a EPM transformou-se de escola profissional pura em um centro médico misto, onde também se cria conhecimento novo. No entender do Prof. Prado, em 1977, ao escrever o texto base para esta biografia, o sucessor de Dorival Cardoso, na disciplina que passou a ser chamada de Bioquímica é que veria a transformação da EPM em um pleno centro médico-biológico de pesquisa e ensino. Este parecia já ser um sonho dos fundadores da EPM, já que convidaram para as disciplinas básicas pesquisadores promissores ou já realizados.
A partir de 1944, o espírito pragmático de Dorival Cardoso levou-o a desempenhar importante papel  no desenvolvimento de uma indústria brasileira de antibióticos e de outros produtos farmacêuticos, a Indústria Brasileira de Produtos Químicos S.A., em São Paulo, da qual foi diretor científico. Para dedicar-se a esse cargo, deixou sua ligação com o Instituto Biológico de São Paulo. Em sua própria indústria dedicou-se à investigação científica. Por exemplo, verificou que a redução do azul de metileno pode ser empregada na padronização do BCG (D.M. Cardoso e W.F. Almeida. Revista Brasileira de Tuberculose, 18:633, 1950); posteriormente descreveu um método bioquímico simples e rápido para padronização do BCG, baseado na capacidade redutora dos bacilos vivos sobre um sal de tetrazolio: ficou demonstrada uma relação linear entre quantidades de BCG vivos e o formazan obtido, de cor vermelha (D.M. Cardoso; G. Nazario; J. P. Amaral e W. F. Almeida, Revista Brasileira de Tuberculose, 20: 583-592, 1952). Artigo de 1960 registrou que em seminário internacional sobre tuberculose foi aceita a correlação entre redução do tetrazólio, contagem de bacilos e reações intradérmicas.
Em 1958, voltando a seu interesse pelas vitaminas, Cardoso observou que o teor da vitaminas B12 das fezes e rúmen varia com as condições varia com as condições alimentares dos bovinos, demonstrando correlação entre número de ciliados no rúmen e sua riqueza em vitamina B12.
Seu último trabalho versou sobre o tratamento do choque anafilático provocado pela injeção de soro equino na cobaia; foram apresentadas evidências da eficácia da associação de um anti-histamínico, de um corticoide e da adrenalina na prevenção desse tipo de choque experimental.
O Prof. Cardoso também se envolveu na administração da Associação Médica Brasileira durante 10 anos (1951-1961). A 15 de fevereiro de 1966 faleceu na cidade de São Paulo aos 59 anos de idade. A 21 do mesmo mês o Jornal da Associação Médica Brasileira publicou sua vida profissional e a lista de 27 trabalhos.

Fonte bibliográfica:
Prado, J. L. – Dorival Macedo Cardoso in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes, de José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, pags. 61-64.

sábado, 26 de maio de 2018

Biografia do Prof. Dr. Costábile Gallucci



Baseada em texto de Helio Begliomini, da Academia de Medicina de São Paulo.

Em 1921 nasce em São Paulo, Costábile Galluci.
Em 1941 ingressa na Escola Paulista de Medicina. Enquanto aluno, gostava muito de futebol e nas competições da Pauli-Poli jogava de ponta esquerda, sendo que tinha um chute muito forte, temido pelos goleiros.
Após formar-se em 1946, passou a acompanhar o Prof. Alípio Correa Netto que, de 1933 a 1953 foi o chefe da cirurgia de cabeça, pescoço, toráx e vascular. Após o término da chefia de Alípio Correa Netto, o Dr. Euryclides de Jesus Zerbini, que trabalhava junto com Gallucci nesse serviço, decidiu sair da Escola Paulista de Medicina. Assim, em 1953, Gallucci foi convidado por Jairo Ramos e Silvio Borges para chefiar a cirurgia do tórax, cargo que exerceu de março de 1953 a junho de 1956. Neste ano, Gallucci afastou-se da instituição para ajudar o pai na Casa Gallucci, loja de ferragens tradicional da rua Florêncio de Abreu, que tornou-se reduto dos fanáticos torcedores do Palestra. Gallucci chegou a ser presidente do Conselho do Palmeiras.
Em 1957, Gallucci volta à EPM, porque o chefe da cirurgia do tórax, Ruy Margutti, suicidou-se. Então, houve a divisão em duas disciplinas: cirurgia do tórax, com a chefia do Dr. Luciano Barbosa Prata e cirurgia cardíaca com Gallucci, convidado por Jairo Ramos.
Em 1962, Gallucci recebeu o título de livre-docente com o trabalho Tratamento Cirúrgico da Estenose Pulmonar Valvular (Valvulotomia Pulmonar sob visão direta, com Hipotermia).
Posteriormente, o Prof. Gallucci só assumiu o cargo de professor titular após concurso, que exigiu fazê-lo, mesmo podendo ser nomeado pelo governo, sem a necessidade de tal concurso. Isso fala da personalidade do Prof. Gallucci, que sempre foi tido por seus discípulos como exemplo de ética e correção, bem como de entusiasmo. Em sua mesa a frase “Cada um que cresce é parte de mim que cresce, portanto estou crescendo”, expressa sua visão.
Em 15 de dezembro de 1965 ingressou na Academia de Medicina de São Paulo.
Em 1967, com o falecimento do Dr. Luciano Barbosa Prata, chefe da cirurgia do tórax, houve novamente a fusão de cirurgia do tórax com a cirurgia cardíaca.
De 1977 a 1979 ele teve o cargo de vice-mestre do Capítulo de São Paulo do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.
Em 1981 acompanhou o primeiro concurso para título de especialista e primeiro congresso do Departamento de Cirurgia Torácica da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, hoje Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica.
Em certa ocasião em que sentiu-se mal, pegou um táxi e pediu para ir direto para o Hospital São Paulo, onde foi imediatamente atendido por seus discípulos que lhe colocaram um marca-passo cardíaco.
O Prof. Dr. Costábile Gallucci faleceu em 1990.
Sua disciplina passou a ser chefiada por Enio Buffolo até 29 de janeiro de 1992, quando o conselho do departamento e a congregação fizeram nova separação entre tórax e cardiovascular.
O Prof. Gallucci gostava de música clássica. Em 1984, ao adentrar a sala de aula, prontamente identificou uma música que era assobiada por uma aluna e disse “Tanhauser!”, sabendo-se tratar da obra de Wagner.
Na EPM foi vice-diretor, diretor clínico do HSP, chefe do Departamento de Cirurgia por 2 vezes.
Publicou os seguintes livros: Choque (1978); Traumatismos Torácicos (1982); Diagnóstico Diferencial das Massas do Mediastino.
Foi casado com Wally, teve 2 filhas: Cecília e Laura. Faleceu em 1990. Tem a cadeira nº 44 da Academia de Medicina de São Paulo. Dá nome a um edifício da EPM.

Fontes bibliográficas: 
https://academiamedicinasaopaulo.org.br/biografias/37/BIOGRAFIA-COSTABILE-GALLUCCI.pdf
Arquivo oral de História da EPM.

domingo, 20 de maio de 2018

Biografia do Prof. Domingos Define



A partir de texto de Marino Lazzareschi

     Entre os subescritores do manifesto de fundação da Escola Paulista de Medicina figura o Professor Domingos Define como responsável pela Cátedra de Ortopedia e Cirurgia Infantil, que regeu até 1966, ano de sua aposentadoria compulsória.
     Mais um idealista juntava-se aos Fundadores da nova escola médica e enriquecer o seu corpo docente.
     Natural da Capital do Estado de São Paulo, onde nasceu aos 30 de dezembro de 1895, fez seus estudos primários no Colégio do Carmo, concluídos em 1910, ingressando a seguir na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1911.
     Em 1916 formou-se médico, defendendo tese de Doutoramento sob o título “Apendicite Amébica”, aprovada com distinção e louvor.
     Desde o período acadêmico, demonstrou seus pendores para a cirurgia e após longo aprendizado e treinamento de Anatomia, sob a orientação do Prof. Alfonso Bovero e na Técnica Cirúrgica da então Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, orientou-se para a Ortopedia que, entre nós, esboçava seus primeiros passos. Visando especializar-se, partiu em 1923 para a Alemanha, Áustria e Itália, tidas como berço da Ortopedia moderna. Deste modo conviveu e especializou-se nos serviços de Lorenz, Hoffa, Lange e Covilla, então substituído, por motivos de saúde, pelo não menos notável Victorio Putti.
     À sua personalidade moderada e pesquisadora aliou-se rica bagagem ortopédica adquirida nos contatos tidos e vividos na Europa. Voltando ao Brasil, já com a experiência de magistério que exercera na Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, integrou-se no serviço de Ortopedia e Cirurgia Infantil da Santa Casa de Misericórdia, em dezembro de 1924, na Enfermaria chefiada pelo Prof. Luiz Resende Puech.
     Por ocasião da inauguração do Pavilhão Fernandinho Simonsen, primeiro Hospital de Ortopedia do Brasil, foi encarregado de ministrar os cursos de semiótica ortopédica, acumulando, com a responsabilidade de Chefe de Clínica e 1º Assistente, cargos que já vinha exercendo com competência e dedicação há alguns anos.
       Em 1938, por motivo de doença, Puech se afastou da chefia da Cátedra de Ortopedia e do Pavilhão Fernandinho, indicando Domingos Define para substituí-lo. Nessa época já tinha conquistado brilhantemente a livre docência em Ortopedia com a tese intitulada “Etiopatogenia da Coxa Plana – estudo experimental”.
     Em 25 de julho de 1938 deu início ao curso de Ortopedia na Escola Paulista de Medicina para a primeira turma que se formava naquele ano.
     Durante 27 anos foi o elo que uniu a Escola Paulista de Medicina ao Pavilhão Fernandinho Simonsen, ministrando até 1953 os cursos nas enfermarias do referido Pavilhão, cuja chefia assumira em 1939, por motivo de falecimento do Prof. Puech. Assim pode, em que pesassem dificuldades naturais, ministrar cursos básicos ortopédicos para a formação de especialistas.
     Suas atividades não se restringiram apenas ao setor do ensino, mas também à divulgação e incremento da especialidade no país e fora dele. Foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, Membro efetivo de inúmeras Sociedades Internacionais e da SICOT Sociedade Internacional de Cirurgia de Ortopedia e Traumatologia, onde, em 1960, no Congresso de Nova York foi declarado Delegado Brasileiro, que gentilmente recusou a favor do Prof. Barros Lima, de Recife.
     Participou de inúmeros eventos ortopédicos, organizando Jornadas e Cursos e por duas vezes presidiu o Congresso Nacional de Ortopedia.
     Projetou a Ortopedia Brasileira no campo do ensino e da ciência. Publicou numerosos trabalhos no Brasil e no Exterior, culminando na apresentação de uma variação técnica na transposição da fíbula pró-tíbia em pseudoartrose da tíbia, congênita ou adquirida em crianças e outro trabalho propondo a transposição da ulna para o rádio nas agenesias congênitas do rádio. Estas apresentações tiveram repercussão nos Congressos da SICOT, em Nova York em 1960 e em Viena, em 1963.
     Em 1970, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados à medicina brasileira foi agraciado com a Ordem do Mérito Nacional concedida pelo Presidente da República.
     Continuador emérito da obra de Puech, enriqueceu-a com sua personalidade e idealismo, formando vários professores.
     Em sua aposentadoria foi substituído, em 1966, pelo saudoso prof. Dr. Ivo Define Frascá.
     Em 1977 (ocasião do texto base desta bibliografia) seus ex-assistentes o Professor Titular Dr. Marino Lazzareschi, os professores adjuntos Isaac Sobelmann, além de Samuel Atlas, titular da Faculdade de Medicina de Taubaté. Nessa ocasião (1977) o Prof Define prestava colaboração como Consultor e Presidente Honorário do “Centro de Estudos Domingos Define”, instituído pela Ortopedia da EPM em 1971.

Fonte bibliográfica:
Lazzareschi, M – Domingos Define in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Empresa Gráfica Revista dos Tribunais, 1977, páginas 57-60.