segunda-feira, 1 de maio de 2023

Turma de 1949 da Escola Paulista de Medicina, com alguns destaques.




Turma formada em 1949 na Escola Paulista de Medicina em foto enviada por familiares do Prof. Dr. José Raposo do Amaral, da Gastrocirurgia. 
A primeira foto foi feita no antigo pátio da Escola Paulista de Medicina, onde depois foi construido o prédio que abriga o Banco do Brasil e o Refeitório.
A segunda foto é um destaque da primeira onde observam-se da direita para a esquerda os professores: Nylceo Marques de Castro; um desconhecido; Marcos Lindemberg; João Moreira da Rocha; José Maria de Freitas; um desconhecido (prof. Antonio Gebara?).
A terceira foto apresenta o Prof. Dr. José Raposo do Amaral, que é o primeiro em pé à esquerda na primeira foto. 




 

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Biografia do Prof. Dr. José Ramos Junior

 

A partir de texto do Prof. Dr. José Carlos Ramos de Oliveira

 

          José Ramos de Oliveira Júnior, que se tornou mais conhecido como José Ramos Junior, nasceu na cidade de Cachoeira Paulista, no estado de São Paulo, no dia 5 de novembro de 1911. Filho de José Ramos de Oliveira e de Dona Noêmia Macedo Ramos de Oliveira, passou sua primeira infância em sua cidade natal, e depois mudou-se com os pais para a capital do estado, vindo a morar no bairro do Brás.

          José Ramos teve uma irmã e dois irmãos, sendo que o mais novo também estudou medicina, tornando-se cirurgião e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o Prof. Dr. Mário Ramos de Oliveira, que, além disso, chegou a ser Diretor dessa mesma Faculdade.

          O professor José Ramos Júnior, como era conhecido no meio acadêmico e profissional, fez seus estudos secundários no “Gymnasio do Estado de São Paulo”, onde ingressou em 1924 e bacharelou-se no ano de 1929, conforme se designava então essa formatura algo equivalente a um segundo grau, guardadas as devidas diferenças.

          Após um ano de preparação, ele ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, graduando-se médico na turma de 1936. Durante o curso de medicina, José Ramos Junior dava aulas particulares a alunos interessados em prestar exames para o ingresso na Faculdade de Medicina, de modo que, com isso, desenvolveu sua aptidão para ser professor.

          Ele fez estágios em Clínica Médica no serviço do Prof. Rubião Meira na Santa Casa de São Paulo e no serviço do Prof. Jairo Ramos na Escola Paulista de Medicina, onde, além da assistência aos pacientes, ministrava ensinamentos a graduandos de medicina e médicos recém-formados. Inclusive, ele foi citado pelo Prof. Dr. José Reynaldo Marcondes no livro sobre os 40 anos da Escola Paulista de Medicina, a respeito do ensino prático a partir de 1936, conforme vemos no texto a seguir (grifo nosso):

“Éramos todos da 2ª Enfermaria da Santa Casa, serviço do Prof. Rubião Meira, recrutados pelo Jairo para iniciar o ensino de Clínica Propedêutica Médica na EPM. O método da Escola Lemos Torres – o ensino objetivo, o exame integral acurado do doente e sua técnica, o ensino individual, a valorização dos fatos concretos, o método de raciocínio que leva ao diagnóstico, afastadas as ideias preconcebidas e desmoralizada a intuição clínica – ia ser semeado na nova escola por aquele que melhor aprendera os seus princípios, Jairo Ramos. A EPM não tinha hospital nem ambulatório, aventuraram um à Rua Tabatinguera. Octavio de Carvalho conseguiu que a direção do Hospital Matarazzo cedesse uma enfermaria vazia, sem leitos e sem doentes. Comprou camas, colchões e iniciamos o ensino. As aulas começavam a uma hora da tarde. Eu chegava antes e convidava os doentes que estavam repousando no jardim do hospital a virem se deitar nas camas a fim de que, em seus corpos, se ensinasse a propedêutica física – inspeção, palpação, percussão e ausculta. Vieram no início por curiosidade e a dois mil réis. Depois era preciso que eu os trouxesse pelo braço e com palavras de persuasão. Em seguida foi preciso aumentar o preço: cinco mil réis e muita lábia. Mas ensinávamos. Cada assistente – Sabino, Tranchese, Lotufo, Ignácio, José Ramos, Macedo, João Grieco, Reynaldo – ensinava – ensinava a turmas de 6 a 8 estudantes. Após esta aula prática havia outra teórica, quase sempre ministrada pelo Jairo, que chegava mais tarde. Foi uma luta, principalmente por parte dos que tinham que acomodar os doentes, cada vez menos dispostos a colaborar. Mas só isto não bastava. Mais de uma vez eu levei em meu automóvel um doente e sua observação clínica, da 2ª Enfermaria. Eu almoçava em casa e seguia para a aula do Jairo, depois de nossa aula prática, desta vez com um caso clínico mesmo.”

           Podemos ver, então, que o Prof. Dr. José Ramos Junior recebeu sua formação nessa assim chamada “Escola Lemos Torres” que caracterizava toda uma inovação na maneira de abordar o paciente e de formular as hipóteses diagnósticas. O sucessor do Prof. Dr. Lemos Torres foi o Prof. Dr. Jairo Ramos, ambos entre os fundadores da Escola Paulista de Medicina em 1933 e influenciadores de José Ramos.

           José Ramos Junior especializou-se em Clínica Médica e Cardiologia. Exerceu essas atividades em consultório privado, bem como sendo médico concursado junto ao antigo Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas (IAPETC), que era uma autarquia do Governo Federal, desde sua inauguração na capital paulista em 1938. Suas funções nessa instituição duraram até a extinção do IAPTEC em 1966, quando os diferentes IAPs fundiram-se no antigo INPS (Instituto Nacional de Previdência Social).

          No ano de 1940, José Ramos casou-se com a professora de ensino primário Maria Apparecida Amalfi, que adotou o nome de casada de Maria Apparecida Ramos de Oliveira. O casal teve quatro filhos, Maria Lúcia (secretária e agente de comércio exterior), José Carlos (também médico e professor de Medicina), José Eduardo (engenheiro) e Maria Cecília (professora de ensino fundamental).

          No ano de 1953, a convite do Professor Doutor Antônio Prudente, o Prof. José Ramos passou a exercer sua especialidade de clínico no recém-inaugurado Hospital do Câncer da Associação Paulista de Combate ao Câncer (APCC).  No ano seguinte, patrocinado pela APCC, ele fez estágio no Sloan Kettering Hospital, em Nova Iorque, onde obteve o título de Oncologista Clínico e aprendeu os fundamentos e a prática da quimioterapia para tratamento do câncer. Desde então, tornou-se Diretor do Departamento de Medicina Interna do Instituto Central da APCC até 1970.

          Na década de 1950, o Prof. Dr. José Ramos iniciou sua carreira como Professor Titular de Clínica Propedêutica Médica da Faculdade de Medicina de Sorocaba da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A partir de 1970, também se tornou Professor Titular de Oncologia Cínica da Faculdade de Medicina do Centro de Ciências Biológicas e Médicas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, que agregou também a antiga Faculdade de Medicina de Sorocaba.

          A convite do Diretor do Departamento de Câncer do Ministério da Saúde do Governo Federal, ministrou, com outros oncologistas, durante os anos de 1974 e 1975, Cursos Intensivos de Oncologia Clínica (CIOC) na maioria das capitais brasileiras. Tais cursos, de 40 horas, tiveram por objetivo difundir a necessidade de que as escolas de medicina ministrassem especificamente a disciplina de Oncologia Clínica em suas grades curriculares.

          Na década de 1960, recebeu o título de Fellow of the American College of Physicians (F.A.C.P.).

          O Prof. Dr. José Ramos Junior publicou vários artigos científicos, seja na observação clínica de pacientes, como também na pesquisa clínica. Ainda nos anos 60, recebeu o prêmio Pravaz-Recordati pelo trabalho experimental realizado em animais de laboratório que recebiam altas doses de corticosteroides, equivalentes ao que pacientes com câncer recebiam como tratamento, muitos apresentando morte súbita. Nesse trabalho mostrou que as altas doses de corticoides nos animais de experimentação, provocavam lesões necróticas no miocárdio.

               Em 1990, o Dr. Ramos Junior tornou-se Professor e Orientador contratado pela Disciplina de Clínica Médica e de Semiologia Clínica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Campinas (Unicamp), por convite do Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti, então Reitor dessa Universidade. 

          Além dos vários trabalhos científicos publicados, o Prof. Ramos Jr. publicou quatro livros, onde colocou toda sua vivência como clínico, cardiologista, oncologista e observador da alma humana.

          O primeiro livro, sem dúvida o de maior sucesso, pois ainda de uso prático até hoje, foi “Semiotécnica da Observação Clínica- Síndromes Clínico-Propedêuticas”. Publicado em junho de 1970, pela Editora Sarvier - Editora de Livros Médicos S.A. chegou a mais 3 edições, em 2 volumes. revisadas e atualizadas por ele, e depois em mais 2 edições, quando os dois volumes foram compostos em um único tomo pela equipe editorial. No prefácio de sua primeira edição, o Prof. José Ramos Júnior faz a síntese do livro com a afirmação de que a obra “mostra a prática médica do exame clínico, a síntese da fisiopatologia de cada sintoma e de cada sinal, para servir ao raciocínio e à compreensão das suas semiogêneses”. De certa forma, o Professor Dr. José Ramos Junior colocou em texto detalhado uma espécie de elaboração daquilo que começou como “Escola Lemos Torres”.

          O outro livro, “Oncologia Clínica”, foi publicado também pela editora Sarvier, alcançando 2 edições (1979 e 1984). Neste livro, o Prof. Ramos Jr., ao lado da descrição pormenorizada de tumores sólidos, leucemias e linfomas, sua oncogênese, classificação e tratamento cirúrgico, quimioterápico e radioterápico, avançou em conceitos da genética dos cânceres e das perspectivas futuras da imunoterapia para o tratamento do câncer. Comentou também das razões para a criação da disciplina de oncologia clínica nos cursos de medicina, o que também indica sua originalidade e criatividade ao propor inovações no curso médico nessa ocasião. 

            Em 1990, o Prof. Ramos Junior publicou o livro "Disritmia Encefálica Paroxística Primária", pela Editora Sarvier. Nessa obra ele colocou como objetivo "firmar conceitos fisiopatológicos, anatomopatológicos, e pirncipalmente clínicos e da semiotécnica da Anamnese... o propósito é tornar a descrição clínica mais completa... para que a assistência ao paciente seja a mais adequada". Não vem ao caso aqui um eventual julgamento neurológico desse conceito. Trata-se antes, como ele frisou, ainda de uma abordagem clínica adequada ao paciente, dentro dos moldes da época dessa produção.  

         Já o médico observador da alma humana apareceu na monografia “Personalidade”, publicada pela Editora Sarvier em 1991. Neste trabalho, publicado no ano que antecedeu seu falecimento, o autor colocou sua experiência como arguto observador dos tipos de personalidade que enriqueceram sua longa vida de médico e professor. No prefácio enfatizou: “Toda a dissertação contida nos capítulos teve a insistente preocupação didática em reunir e sintetizar os conhecimentos científicos sobre os tipos de personalidade...com o propósito de ser útil para o estudante de medicina, para os médicos, para o sociólogo, para o professor, para o advogado, para o psicólogo”.

          Após ter sofrido um Acidente Vascular Cerebral Isquêmico em novembro de 1991, que limitou sua prática clínica e suas atividades docentes, o Prof. José Ramos de Oliveira Júnior faleceu no Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, em 07 de outubro de 1992, por parada cardiorrespiratória consequente a um infarto agudo do miocárdio.

 

Fontes Bibliográficas:

 

Oliveira, J.C.R. Dados Biográficos sobre o Prof. Dr. José Ramos Junior, 2023.

 

Valle, J. R. – A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e anotações recentes. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977.

 

terça-feira, 21 de março de 2023

Biografia de Ulysses Lemos Torres

 





          Ulysses Lemos Torres nasceu em 20.10.1911 em Avaré, interior de São Paulo. Filho do professor Álvaro de Lemos Torres e Dona Maria Amélia Jardim de Lemos Torres. Ficou conhecido como médico, professor, historiador, escritor, poeta. Escreveu livros filosóficos sobre medicina e arte, inclusive com textos que foram publicados em jornais diários, além de periódicos médicos. 

          Ele fez seus estudos secundários no Colégio São Joaquim de Lorena. Entrou na Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, na então Capital Federal, onde se diplomou em 1935.

            A respeito de Ulysses Lemos Torres obtivemos diversas informações em documentos variados que vão relatados a seguir. 

          No jornal "O Estado de São Paulo", em edições do final de 1937 e início de 1938, seu nome aparece em anúncio do Laboratório do Hospital São Paulo, Escola Paulista de Medicina, conforme o seguinte texto abaixo:

Laboratório de Análises do Hospital São Paulo

Sob a direção dos professores da Escola Paulista de Medicina,

Anatomia Patológica – Prof. Walter Bungeler e Dr. Fernando L. Alayon.

Bacteriologia e Sorologia – Prof. Otto Bier.

Exames Parasitológicos -  Prof. Flávio da Fonseca.

Hormodiagnóstico e Metabolismo Basal – Dr. José Ribeiro do Valle e Dr. Ulysses Lemos Torres.

Análises clínicas e citodiagnóstico -  Dr. Mário Mesquita e Dr. Antonio Cintra.

Rua Boa Vista, 175, 7º andar, telefone 21623. Das 8 às 18 horas.

          Em outro artigo do jornal "O Estado de São Paulo", de 20 de fevereiro de 1940, consta que Ulysses Lemos Torres foi um dos concludentes do Curso de Aperfeiçoamento em Tisiologia do Hospital São Luiz Gonzaga. O Curso durou seis semanas e foi o terceiro ocorrido nesse hospital.

          Ainda no mesmo periódico, "O Estado de São Paulo", de 7 de março de 1940, consta o seguinte informe sobre reunião de médicos no Hospital São Paulo, Escola Paulista de Medicina, conforme segue abaixo:  

Sociedade dos Médicos do Hospital São Paulo da Escola Paulista de Medicina

Hoje às 20:30 horas, no Anfiteatro da Escola Paulista de Medicina à Rua Botucatu, 720, sob a presidência do prof. Dr. Álvaro de Lemos Torres, realizar-se-á a 10ª reunião da Sociedade dos Médicos Internos do Hospital São Paulo, na qual serão apresentados os seguintes casos:

1 – Metabolismo basal na Hipertensão. Dr. Ulysses Lemos Torres

2 – Flegmão Lenhoso do Pescoço. Dr. Fuad Ferreira

3 – Organização do Ambulatório de Hipertensão. Dr. Ulysses Lemos Torres e Dr. João B. Credidio.

4 – Sobre uma crise aguda de hipertireodismo no pós-operatório de uma tireoidectomia total. Dr. Carlos Amadeu de Arruda Botelho Filho.

Em relação ao informe anterior, note-se que os assim chamados "médicos internos" não eram alunos, e sim já formados, sendo que esse "interno" seria algo equivalente a um "médico residente", com cargo instituido em 1939 por Álvaro de Lemos Torres, então diretor da Escola Paulista de Medicina, o que demonstra um pouco da então considerada "modernidade" do Lemos Torres pai.

          Em sua vida, o Prof. Dr. Ulysses Lemos Torres exerceu os seguintes cargos e obteve os seguintes prêmios abaixo referidos:

          Em 1938, Inspetor Federal do Ensino Secundário do Estado de São Paulo, mais especificamente da Escola Normal Padre Anchieta.

          Foi Chefe da Clínica Endocrinológica do Hospital Municipal de São Paulo por vários anos, onde comandou o Centro de Estudos que nomeou com o nome de seu pai, Álvaro Lemos Torres.  

         Em 18 de março de 1944 foi empossado como membro da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo.

         Em 30 de agosto de 1954 participou da fundação da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, sob coordenação de José Afonso de Mesquita Sampaio, Waldemar Berardinelli, Antonio Barros de Ulhoa Cintra, contando também com os médicos Arnaldo C. Sandoval, Luciano Decourt, Eugênio Chiorbolli e outros.

         Em 1955 venceu concurso e assumiu o cargo de Chefe da Segunda Clínica Médica de Homens da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.

          Em 1960 recebeu o prêmio de Cultura Geral “José de Almeida Camargo” da Associação Paulista de Medicina pela obra “Medicina: Ciência e Arte”.

          Em 30 de junho de 1966, tomou posse como membro da Academia Nacional de Medicina em sessão solene comemorativa de seu 137º aniversário.

           Foi Professor Titular de Clínica Médica da Faculdade de Medicina do ABC até 1975.

         Em 12 de maio de 1978 recebeu a medalha Euclides da Cunha do Governo do Estado de São Paulo por serviços prestados à Medicina e à Cultura.

           Foi Membro do Instituto Histórico e Geográfico.

          O Prof. Dr. Ulysses Lemos Torres faleceu em 2 de abril de 1982.  

      Foi dado seu nome a uma rua na cidade de São Paulo, por solicitação do Dr. Tufik Mattar, presidente da Associação Paulista de Geriatria e Gerontologia de São Paulo, solicitação essa feita ao então prefeito da cidade
de São Paulo, Dr. Antonio Salim Curiati, em 1982.


Fontes bibliográficas:

Acervo do jornal "O Estado de São Paulo".

Dicionário de Ruas do Município de São Paulo.

Homenagem ao Prof. Ulysses Lemos Torres, por ex-alunos e amigos. Irmãos Milesi Ltda, 1978.

Torres, U.L. Medicina: Ciência e Arte. 2a Edição. Gráfica São José, 1977 (1960). 

Torres, U. L. A Estética na Medicina. 2a Edição. Milesi Editora Ltda, 1979.

 

 

 

 

 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Biografia do Prof. José Maria de Freitas

 

A partir de texto de Bindo Guida Filho

 

          Descendente de tradicionais famílias pernambucanas, baianas, mineiras e fluminenses, nasceu José Maria de Freitas aos 21 de março de 1903, em São Paulo. Filho de Sebastião Maria de Albuquerque Freitas e Augusta Monteiro Barros Freitas, era neto de dois médicos dos quais provavelmente herdou pendores para a profissão.

          Seus primeiros estudos foram feitos no Externato Freitas da educadora Cecília M. de Albuquerque Freitas, sua tia e madrinha. O Curso Ginasial no Ginásio do Estado. Estudou também no Colégio São Bento de São Paulo e no Colégio Anchieta de Friburgo. Ingressou na então Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo em 1921.

          Estudante ainda, tomou parte no socorro e atendimento dos feridos na Revolução de 1924, na Santa Casa de Misericórdia, onde permaneceu durante todo o período desse episódio, inclusive com serviços externos. Depois disso, foi nomeado “estudante interno”, único naquele tempo, pelo Dr. Diogo de Faria, Diretor Clínico daquele hospital. Freitas fez plantões noturnos até sua formatura, auxiliando os médicos que se revezavam cada noite, em todos os casos de cirurgia. Nessa época, trabalhou também com Floriano Bayma, auxiliando as primeiras transfusões de sangue realizadas em São Paulo. Diplomou-se pela mesma Faculdade em 1927, defendendo a tese “Contribuição ao estudo da calculose urinária na infância”, aprovada com distinção.   

        Logo depois de formado, foi convidado para ser cirurgião da Misericórdia Botucatuense, tendo passado a residir em Botucatu. Como gostava de ensinar, mudou-se para São Paulo em 1931, aceitando convite de Alfonso Bovero para ser assistente da Cadeira de Anatomia da Faculdade de Medicina. Na revolução de 1932, trabalhou como cirurgião no Hospital de Emergências instalado no Parque da Água Branca e, posteriormente, se fixou na chamada “Ambulância Itália” sediada em Gramadinho, a cinco quilômetros da linha de frente. Deixou seu posto somente três dias após o término da Guerra, julgando de seu dever organizar a retirada do pessoal e a coleta de material médico para entrega na Capital.

          Algum tempo depois, convidado por Benedito Montenegro, passa a exercer suas atividades na Cadeira de Técnica Operatória da mesma Faculdade, até a transferência de Montenegro para a 3ª Cadeira de Clínica Cirúrgica para a qual Freitas também se transferiu, tendo prestado concurso para Livre-Docente dessa mesma cadeira, em 1941. Neste concurso, defendeu a tese “Anestesia Peridural”, aprovada com distinção.

          Em 1945, na mesma Faculdade de Medicina, conquistou o título de Docente Livre de Técnica Cirúrgica, em concurso realizado para o provimento da Cátedra. Após 30 anos de efetivo serviço, aposentou-se da referida Faculdade, em dezembro de 1960.

          Em 1933, ele uniu-se ao grupo de idealistas que fundou a Escola Paulista de Medicina, tendo sido Catedrático de Técnica Operatória e Cirurgia Experimental na mesma. Ainda na EPM, por várias vezes fez parte do Conselho Técnico Administrativo, foi Diretor da Escola no período 1954-59, quando se conseguiu a federalização da EPM, tendo sido ele um dos adeptos a essa causa. Reconduzido ao cargo, exerceu a diretoria no período 1964-68, quando encerrou suas atividades no magistério.   

           Ele também participou na organização da Faculdade de Medicina de Sorocaba, tendo sido professor da 3ª cadeira de Clínica Cirúrgica, onde permaneceu em efetivo exercício, preparando os seus substitutos. Foi fundador da Escola de Enfermagem São Francisco e o seu primeiro diretor. Esta Escola foi posteriormente agregada à faculdade de Medicina de Sorocaba.

          Cooperou com a Associação dos Sanatórios de Campos do Jordão (Sanatorinhos), onde organizou o Serviço de Cirurgia e operou gratuitamente durante o período 1939-1941. Deu sua colaboração no ambulatório Jin Kai, que ficou sob sua responsabilidade, até o funcionamento do Hospital Santa Cruz, do qual foi cirurgião-chefe, e depois Diretor Clínico e Administrativo, de 1942 a 1970. Ensinou aos seus assistentes e seguidores, conforme seu biógrafo, não somente a técnica operatória segura e elegante, como também a sobriedade nas palavras e atitudes e a conduta rigidamente ética no exercício da profissão.

          Era, portanto, Diretor da EPM, quando do I Congresso Brasileiro de Médicos Residentes em 1966. Aparentemente, pelo que consta, era um tanto conservador no que diz respeito a inovações nos modelos de aprendizado e treinamento. Teve um contratempo com os residentes que permaneciam no alojamento por tempo além do estipulado, expulsando-os do hospital. Não aceitou a prorrogação de docentes ao aposentarem; eles poderiam permanecer até os 70 anos, se assim quisessem, embora devessem se aposentar aos 65. Mas Freitas obrigou a todos se aposentarem aos 65 anos. Com isso, o Prof. Jairo Ramos teve que deixar seus cargos, embora estivesse com energia para continuar. No entanto, Jairo Ramos continuou frequentando a EPM até falecer em 1972. Pelo seu conservadorismo, é provável que o Dr. Freitas estivesse entre os docentes que nos anos 1950 relutaram em aceitar a novidade da Residência Médica. Na época em que era diretor no período 1964-68 enfrentou solicitações dos alunos de graduação para que saísse do cargo. Também alguns professores dessa época questionaram a qualidade do desempenho de Freitas como diretor da EPM. De qualquer forma, ao deixar o cargo, ele deixou sua função de professor.   

     Prof. José Maria de Freitas faleceu em 30 de dezembro de 1990, aos 87 anos.


Fonte Bibliográfica: Livro Comemorativo dos 40 anos da Escola Paulista de Medicina compilado pelo Prof. Ribeiro do Vale, publicado em 1977. 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Biografia do Prof. Dr. Humberto Delboni Filho

 


     Humberto Delboni Filho nasceu em 22 de janeiro de 1934, na cidade de São José do Rio Preto, então chamada apenas de Rio Preto, no estado de São Paulo.

     Informou o Prof. Delboni, em relato feito ao CeHFi (Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde da EPM-Unifesp) que faz parte de uma terceira geração de imigrantes italianos. Seu pai era um farmacêutico formado em 1911 pela Escola de Farmácia, Odontologia e Obstetrícia de São Paulo. Lembrou que seu pai tinha cultura e boa reputação, e, naquela época, eventualmente substituía o médico. Aos dez anos de idade, Delboni já fazia uma espécie de papel de “secretário” de seu pai. Tinham uma pequena biblioteca, da qual ele, mais especificamente, destacou e conservou o “Formulário e Guia Médico”, de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, 18ª edição, de 1908.

     Este livro, que também era chamado por alguns de “Chernovitz”, foi citado por autores literários dos séculos XIX e XX e era uma espécie de Manual Geral de medicina, do qual se serviam médicos e outros profissionais, com um caráter, até certo ponto, um tanto mítico, até mesmo com estudos sobre o seu papel na sociedade de então.

     O pai do Dr. Delboni sempre o fazia consultar o Chernoviz para saber coisas as mais variadas. Seu irmão, Valyrio Luiz Delboni, que se formou pela Escola Paulista de Medicina EPM} em 1950, serviu de estímulo para cursar a medicina.

     Em 1952, Delboni ingressou na EPM.  No segundo ano, o Chefe do Laboratório Central do Hospital São Paulo (HSP) era o Prof. João Marques de Castro. Ele oferecia estágio aos alunos do segundo ano no Laboratório. Tratava-se de um estágio que não conflitava com o horário curricular. O número de vagas era limitado e o Prof. Castro dava preferência aos alunos que não tivessem ficado de segunda época no ano anterior, embora comentasse que esse critério teria suas limitações.

     O Prof. Delboni acentuou que o estágio era muito rigoroso, usando a palavra “germânico” para frisar seu rigor. Havia horários a serem cumpridos mesmo às cinco da tarde de sábado. O Prof. João ia para o anfiteatro do segundo andar cinco minutos antes das dezessete horas, acompanhado do assistente mais graduado. Eventualmente, um grupo de alunos no corredor decidia descer para tomar “um cafezinho”. Às dezessete horas o Prof. João pedia ao assistente que fechasse a porta. Os alunos que voltavam do café ficavam do lado de fora, olhando no visor da porta, e acabavam ficando sem o estágio.

     Um professor que tinha atitude com semelhante rigor em relação a horário e o fechamento da porta nas aulas era o Prof. Afiz Sadi, chefe da Disciplina de Urologia.

     No final do estágio do Laboratório, o Dr. João (como era chamado pelos alunos) convidava a todos os 28 alunos  para uma foto no pátio da EPM. No dia da foto do grupo de Delboni, este esqueceu desse compromisso e foi ao cinema. Depois contou esse fato ao Dr. João, que, de qualquer forma, o convidou para iniciar um trabalho de Monitor. Portanto, no início do terceiro ano, Delboni foi nomeado pela Congregação da EPM como Monitor do Laboratório Central do HSP. O trabalho era rigoroso. O Laboratório pertencia à Primeira Cadeira de Clínica Médica chefiada pelo Prof. Jairo Ramos.

     Lembrou, então, o Dr. Delboni que Jairo Ramos deu impulso à Clínica Médica, de modo que ela se tornou padrão de referência na América Latina. Muitos se espantavam que Delboni conseguia trabalhar com o Dr. João, homem de poucas palavras e temperamento de difícil trato. Delboni guardou na memória quanto ganhava na época como Monitor, o equivalente ao preço de um disco “long play” de 12 polegadas, que mal dava para um sanduíche diário.

     Em 1957, Delboni se formou e continuou no Laboratório Central. Quando Dr. João faleceu, em 1960, Delboni era o segundo na hierarquia, de modo que assumiu a chefia e assim seguiu, até se aposentar em 1986 como professor da EPM.

     Ele relatou, então, toda sua labuta nos vários anos de transformação da medicina, do HSP e do Laboratório, com dificuldades diversas, por vezes dando plantões, ou ajudando algum professor a resolver algum caso específico.

     Deu aulas de Patologia, referente ao Laboratório, para alunos do terceiro ano. Saudou com muita alegria a expansão da EPM. Ressalve-se o bom humor do Prof. Delboni, sempre presente, e carregando no bolso superior do avental canetas de várias cores, característica essa sempre lembrada por seus ex-alunos.

     Referiu ele que o Dr. João era a pessoa com mais cultura enciclopédica e humanística que conheceu, e que era alguém que não tinha vida fácil, pois conviveu com uma nefrostomia bilateral dos 23 aos 46 anos. O Dr. Delboni tornou-se chefe do Laboratório Central com 26 ou 27 anos, de modo que era considerado “o menino do colegiado”, convivendo com professores nas chefias com mais de 50 anos de idade.

     O Prof. Delboni acentuou que sempre procurou ser ponderado, respeitoso e humano, sem ser condescendente com coisas erradas. Sempre foi grato à Escola Paulista de Medicina.

     Prof. Dr. Humberto Delboni Filho faleceu em 8 de outubro de 2019, aos 85 anos.  

 

Fontes bibliográficas:

Acervo de Histórias de Vida (História Oral) do CeHFi – Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde da EPM-Unifesp. Acessível em https://cehfi.unifesp.br

Acervo do jornal Folha de São Paulo. Acessível em

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/11/mortes-medico-transformou-a-patologia-em-sonho-realizado.shtml?origin=folha

A Mística do Parentesco. Acessível em https://parentesco.com.br

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Do livro de Paulo Fraletti “Vocação Hipocrática” (discurso de formatura) Homenagem aos 30 anos da existência da Escola Paulista de Medicina.

 

Este livro de Paulo Fraletti, escrito em 1963, em comemoração aos 30 anos de fundação da EPM, tem como escopo principal o discurso de formatura de dezembro de 1947 escrito e lido pelo próprio Paulo Fraletti. O livro tem três partes: como primeira parte uma espécie de “Introdução” que é nomeada como “Justificação”; como segunda parte o próprio discurso intitulado “Vocação Hipocrática”; uma terceira parte, contendo apenas um trecho das palavras do paraninfo Prof. Dr. Flávio da Fonseca.

Aqui reproduzimos apenas a primeira e a terceira parte. A segunda parte, mais longa, fica para uma próxima ocasião.    

Embora a composição da obra seja datada de 1963, o livro foi impresso em 1966, e seu texto inicial reproduz o entusiasmo do autor com o crescimento da EPM no início da década de 1960.

 

[Primeira Parte]

Justificação [Introdução]

          Hoje, passados 16 anos de nossa formatura, este discurso talvez não desperte, ou melhor, ao certo não despertará a mesma reação emotiva, nem tampouco terá a mesma acolhida com a da data de sua recitação, pois faltará agora (já que se vai lê-lo, e não o ouvir), a presença do orador, que, com seu entusiasmo de moço, não poderá compensar com sua voz, as muitas deficiências existentes.

          Até 1947, a escolha do orador da turma era feita por eleição, à qual, geralmente, se candidatava o orador oficial do Centro Acadêmico Pereira Barreto, prerrogativa da qual não quisemos abusar, apesar de termos sido eleito para o cargo durante todo o curso. Como, porém, da nossa turma (10ª), vários candidatos iriam disputar a preferência dos colegas, propusemos a realização de um concurso, o que aconteceu pela primeira vez, se não nos enganamos, na Escola Paulista de Medicina.

          Fizeram parte da banca examinadora os professores Dr. Felício Cintra do Prado e Dr. Paulo Eneas Galvão, da Escola Paulista, e o Dr. Antonio Ferreira Cesarino Junior, professor da Faculdade de Direito de São Paulo e calouro de medicina àquele ano.

          Atividades do Centro Acadêmico, correrias de exames e tropel de festas tão comuns no 2º semestre da 6ª série, não permitiram que muitas passagens do discurso fossem melhor cuidadas. A sua publicação, àquela época, em “O Bíceps” (jornal dos alunos editado pelo C.A. Pereira Barreto), dado os pedidos insistentes que nos eram dirigidos, saiu sem que pudéssemos ter-lhe dado feição definitiva, o que agravou as imperfeições já existentes, pois foi entregue à tipografia em manuscrito e com “letra de médico”, sendo que, para piorar tudo, não nos foram cedidas provas para revisão.

          A publicação definitiva, destinada a familiares, colegas de turma e amigos, conforme prometemos ao sair da Escola, cobrada frequentemente, foi sendo adiada de ano para ano, uma vez que as obrigações da vida e da profissão, em correria afanosa, vêm se sucedendo e aumentando à medida que os dias passam.

          Não quisemos, porém, deixar passar a oportunidade apresentada neste ano de 1963, quando transcorre o 30º aniversário de fundação da Escola Paulista de Medicina, juntando às grandes comemorações que lhe serão prestadas, a da nossa modesta oração.

          Que não se julgue, pois, o nosso discurso, feito em época de formação intelectual e profissional, pelo homem de meia idade de hoje! Que seja lido como trabalho de um moço, em plena posse de todos os seus ideais, sonhos e aspirações, inclusive de suas veleidades poéticas, escrito com o entusiasmo de alma e vibração emocional próprios da idade.

          É o pagamento de uma dívida afetiva, por isso mesmo dedicado aos familiares, colegas de turma, amigos e à Escola Paulista de Medicina que, no seu 30º ano de existência, já não mais é a Escolinha da década dos anos 30, nem apenas a Escola do nosso tempo (década dos anos 40), mas a grande Escola de hoje [1963], não só pela majestade do conjunto de instalações que vai rebentando como planta no chão da Vila Clementino, mas também pela soberba trajetória histórica que vem traçando – verdadeira marcha ufana dos vencedores de 1933.

                                                     São Paulo, 1 de junho de 1963

                                                                     P. Fraletti  

 

[Terceira Parte]

Palavras do Paraninfo

(trecho do discurso do Prof. Dr. Flávio Ribeiro Oliveira da Fonseca)

 

          Ao orador brilhante que em formosa oração interpretou os sentimentos da turma em relação a Escola Paulista de Medicina, eu quero agradecer em nome desta, as palavras que pronunciou, penhor de sua gratidão à Escola de que se despede. No trecho em que se dirige à minha pessoa, vejo apenas um símbolo, reconhecendo ser o paraninfo mero representante da Congregação, à qual se dirigia, portanto, o doutorando, ao saudar o seu patrono. As expressões de que se utilizou, ditadas pelo seu entusiasmo estuante de moço e de poeta, bem o dizem: tais ditirambos somente podem ser dirigidos a uma corporação e nunca a um homem; e não creio que haja algum, por mais vaidoso, que não receasse ser esmagado ao suportar sozinho o peso de elogios de tal quilate. Transmito-os, pois, integralmente, aos meus nobres colegas do corpo docente da Escola Paulista de Medicina, que, estes sim, são dignos deles, pela obra social e educacional que desprendidamente e com o maior sucesso, vêm realizando há três lustros em São Paulo.

 

Fonte bibliográfica:

Fraletti, Paulo – Vocação Hipocrática (discurso de formatura). Homenagem aos trinta anos de existência da Escola Paulista de Medicina. Gráfica e Editora Edigraf, São Paulo, 1966.

 

terça-feira, 19 de julho de 2022

A Semana de Arte Moderna, Jairo Ramos, Propedêutica e “Parnasianismo Médico”

 

     O jornal “O Estado de São Paulo” publicou em 13 de novembro de 1954, um artigo intitulado “Jubileu Profissional do Prof. Jairo Ramos” com um texto referente ao discurso do Dr. Paulo Almeida de Toledo (1909-1990), médico formado na Faculdade de Medicina de São Paulo em 1932[1].

    Ele inicia comentando que há 25 anos (1929), quando começou contato com a Clínica, a influência da Literatura sobre a Medicina era grande. Havia grande preocupação artística e com a oratória, de modo que as aulas eram cheias de floreios, adornadas de imagens, eventualmente chegando mesmo a certo grau de fantasia. Cita então Francisco de Castro, Miguel Pereira, Aloysio de Castro, Pereira Barretto, como médicos e professores de grande cultura geral, literatos, que, assim como seus discípulos, teriam “exagerado no acessório e esquecido do essencial”. Por outro lado, ele se refere, e cita, certo texto de Torres Homem, considerado, segundo ele, o maior clínico brasileiro de todos os tempos, texto esse sem floreios, que teria sido anterior ao período desses professores. Torres Homem descreveu minuciosamente o desenvolvimento de determinada patologia do esôfago, sem apelativos outros de linguagem.

     Toledo aponta então uma grande influência da linguagem médica francesa no fim do século XIX na maneira de se expressar. Considera que Francisco de Castro, em suas grandes obras médicas, tenha tido certo equilíbrio, mas com pendor para a preocupação literária. Cita então esse professor como o maior escritor médico “do passado” (obras da última década do século XIX). Assim ele apresenta outros exemplos de linguagem mais floreada, considerando como ponto culminante o médico Prado Valladares (Antonio), segundo Toledo, em torno de 1917, quando a Faculdade de Medicina de São Paulo estava no início e ainda faltava um ano para formar sua primeira turma. Em 1919, Jairo Ramos entraria na Faculdade.

    Ainda conforme o discursante, “o espírito positivo e empreendedor dos homens de São Paulo não se ajeitava bem à falsa literatura e à meia ciência ‘dourada pelos galões de eloquência’, exigia ciência objetiva”.

     Essa ênfase de Toledo pode ter sido, em parte, contagiada pelo memorável espírito do Quarto Centenário da fundação da cidade de São Paulo que ocorreu nesse mesmo ano de 1954. Por outro lado, tendo ele entrado na Faculdade de Medicina em 1927, foi testemunha do que acontecia ao seu redor.

     Toledo frisa então que Arnaldo Vieira de Carvalho foi buscar no estrangeiro professores de formação europeia que trouxessem a objetividade científica buscada. Entre os tais teria se destacado Alfonso Bovero. O discursante chama então de “espírito boveriano” um rigor que impregnou inicialmente as cadeiras básicas do curso médico, depois se estendendo a clínicos e cirurgiões. Esse espírito se caracterizava por exatidão, um cuidado minucioso e uma nova linguagem, segundo Toledo, “descarnada e seca”, mas objetiva. Ainda sobre Bovero relata que ele era um tanto impaciente, eventualmente respondendo de forma grosseira. De qualquer forma o rigor e a objetividade chegaram à Clínica. Desse modo, teria se instalado um clima propício ao estudo da Propedêutica Médica. Até então, com todo o floreio de linguagem valorizado, o exame do paciente era tarefa considerada secundária que ficava legada a assistentes dos catedráticos. Isso acontecia de maneira que as aulas magistrais eram magníficas sob o aspecto doutrinário, mas pouco tinham a ver com o que se tinha encontrado no doente.

     Por outro caminho, o espírito de observação de Laennec teria, de certa forma, passado a Torres Homem e deste ao Prof. Rocha Faria, que teria formado verdadeira “escola”. Seguidor de seus preceitos, em 1910, teria chegado à cidade de Avaré, no interior de São Paulo, conforme diz Toledo, “um jovem médico de atitudes arrogantes, afirmativo e irreverente que se chamava Álvaro de Lemos Torres”. Em 1913, ele transferiu-se para São Paulo e passou a ser assistente do Prof. Bovero, tendo clara preocupação com exatidão anatômica no exercício da clínica médica.

     Quando foram criadas as cadeiras de Clínica no Curso Médico, Lemos Torres começou a trabalhar na assim chamada “Segunda Medicina de Homens, na Santa Casa, participando do ensino de Propedêutica sob a chefia de Rubião Meira. Nesse ambiente, Lemos Torres fez ressurgir a escola de Laennec focada em história e exame físico minuciosos. Toledo ouviu Lemos Torres referir-se a “examinar sem juízo preconcebido, fria e minuciosamente, sem permitir que a primeira impressão perturbasse o espírito crítico. O diagnóstico deve vir depois, como resultado de uma propedêutica clínica imparcial e completa”.

     Conforme Toledo, Lemos Torres preferia errar, mas tendo feito um exame clínico acurado, do que acertar o diagnóstico a partir de uma primeira impressão. O triunfo de sua escola veio de sua propedêutica e de suas convicções, pois não tinha facilidade expositiva e nem era um grande escritor. Dessa forma, juntaram-se em torno dele os estudantes chamados por Toledo de “ratos de enfermaria”, entusiasmados com a Propedêutica, de modo que a melhor escola médica se tornou o leito de enfermaria.

     Nesta altura do discurso, Toledo diz que, por essa época, se sentia um “sopro de renovação literária em São Paulo e as velhas formas de literatura se tornaram insuficientes para exprimir as aspirações dos moços”. Assim, ele citou Mário de Andrade, Alcântara Machado e Oswald de Andrade como tendo levantado a bandeira da emancipação do pensamento e da linguagem com destruição das velhas formas consagradas. Essa tendência libertadora se fez sentir no meio médico.

     Entre os que rodeavam Lemos Torres, com sua obsessão propedêutica, ganhou destaque Jairo Ramos. Nas palavras de Toledo: “Áspero e irreverente, sem nenhum respeito pelas opiniões clássicas, com um ímpeto de iconoclasta e uma fé ardente de neófito, Jairo, pelo vigor da sua personalidade começou a se impor desde logo, conquistando, ainda recém-formado, um círculo de admiração e de respeito pela força de suas afirmações”.

      No entender de Toledo, essa irreverência de Jairo, de certa forma impregnada pelo ambiente dos modernistas, teria sido sua força inicial propulsora de tudo que veio a seguir. No início, Jairo Ramos não teria nem grande oratória e nem primorosa escrita, mas sua força estava em suas convicções voltadas para a Propedêutica Médica. Com o passar dos anos, ele teria desenvolvido uma cultura médica, bem como uma cultura geral, moderando sua aspereza. Lembra Toledo que Jairo Ramos tornou-se professor no mesmo momento em que se formou, ainda muito jovem.

     Jairo Ramos teria então passado a seus discípulos o grande interesse pela Propedêutica sem se aterem a floreios de linguagem ou elocubrações fantasiosas. Nessa linha, ele desenvolveu vários cursos extra de propedêutica por sistemas, bem como discussões de casos na enfermaria dos quais Toledo se lembra bem.

     Além da correlação de Jairo Ramos com os modernistas, Toledo também comparou obras da juventude e da maturidade do escritor Eça de Queiroz, com as obras médicas escritas por Jairo, bem como suas palestras, dizendo que ele aprimorou sua forma de escrever e de se expressar com o passar dos anos.


Fonte bibliográfica consultada: Acervo do jornal O Estado de São Paulo. 

 

 

 

 

 

    



[1] Paulo Almeida de Toledo foi médico da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, onde, além de atender pacientes, deu cursos de Patologia. Publicou artigos em jornais sobre assuntos médicos e de Cultura Geral. Em 1966 assumiu a cadeira de Radiologia na FMUSP e reestruturou esse Departamento. Foi Diretor dessa Faculdade quando criou o Velório e o Prédio de Administração do Hospital das Clínicas. Estruturou a Pós-graduação e projetou a criação de laboratórios de pesquisa médica.

Acessado em http://www.pesquisadores.museu.fm.usp.br/index.php/paulo-de-almeida-toledo;isaar às 11 horas de 19/07/2022.