quinta-feira, 13 de julho de 2023
Um fundador da Escola Paulista de Medicina na Segunda Guerra Mundial: Prof. Dr. Alípio Correia Neto.
segunda-feira, 5 de junho de 2023
90 anos da Escola Paulista de Medicina - Famílias Epemistas
É comum designar-se a “Comunidade Epemista” também como uma “Família
Epemista”, e isso serve tanto para o sentido simbólico como para o sentido
literal do termo, pois diversos foram os familiares que acabaram fazendo parte
da Escola Paulista de Medicina (EPM), tanto como estudantes, como professores,
médicos e outras categorias profissionais.
Uma dessas famílias foi a Raposo do Amaral e seus descendentes. Como aqui
já foi mencionado o Prof. Dr. José Raposo do Amaral (1923-2006) formou-se na
EPM em 1949 (foto 1). Por sua vez, seu sobrinho, Dr. Júlio Raposo do Amaral
(1933-2016) formou-se na EPM em 1959 (foto 2), uma turma que depois teve vários
professores da Escola, como Benjamin Kopelman, Kalil Farhat, José Kerbauy, Luiz
Kulay, Fernando Braga, entre outros.
Fotos
1 e 2
Além
disso, a Sra. Consuelo Bordini, cunhada do Prof. José Raposo, foi secretária e
técnica de laboratório no Departamento de Patologia, tendo começado seu
trabalho na EPM muito jovem, em 1953. Iniciou na Patologia Geral com o Prof.
Marcos Lindemberg. Depois trabalhou na Anatomia Patológica com o Prof.
Pasqualucci e depois com o Prof. Michalany. Após isso, trabalhou também na
Patologia Clínica com o Prof. Sílvio Carvalhal e depois com o Prof. Saad. Em
1990, aposentou-se (foto 3).
A mesma família Raposo do Amaral tem proximidades com os familiares dos
antigos proprietários do terreno em que se instalou a EPM. Eles têm contatos
com o Sr. Luiz Antonio Paiga, neto do psiquiatra Dr. Joaquim Basílio Pennino;
este, por sua vez, era genro do antigo proprietário da futura área da EPM, Sr. Schiffini.
Dessa forma podemos aqui
apresentar a foto do Sr. Luigi Schiffini, proprietário da Chácara Thereza Schiffini,
nome de sua filha (esposa do Dr. Pennino), onde depois ficaram as instalações
da EPM e do Hospital São Paulo (HSP) (foto 4).
Também temos a foto da Residência do Dr. Joaquim B. Pennino, dentro dessa
mesma área, que em 1937 foi transformada no Pavilhão Maria Thereza (por doações
da Sra. Maria Thereza Azevedo). Tal local foi o primeiro espaço da internação
de pacientes da EPM e HSP (foto 5).
Apresentamos,
a seguir, a foto do Dr. Joaquim B. Pennino, acompanhado de sua esposa, Sra.
Thereza Schiffini Pennino, filha do Sr. Luigi Schiffini (foto 6).
O Dr. Pennino era psiquiatra e desenvolveu
terapia baseada em estudos de Carl Gustav Jung. Nessa linha, o estabelecimento
que antecedeu a EPM era uma espécie de escola de pessoas “excepcionais”,
conforme a terminologia de então, que procurava integrá-los à sociedade. A
esposa do Dr. Pennino, Thereza, conhecia a língua alemã e ficava lendo os
livros de Jung para seu marido. Segundo informam, existe até uma carta do Dr.
Jung dizendo que a terapia do Dr. Pennino estava certa.
No intuito de integrar os pacientes à sociedade, a Sra. Thereza levava
grupos de até oito alunos/pacientes dessa escola ao restaurante Fasano, então
no centro da cidade, para tomarem chá.
Podemos ver
abaixo a casa que ficava na esquina da Rua Botucatu com a Pedro de Toledo por
outro ângulo em uma foto com o Sr. Luigi Schiffini, sua esposa Antonia Salerno
Schiffini e sua filha Thereza (foto 7).
Conforme informações do Sr.
Paiga, bisneto do Sr. Schiffini, todo o quarteirão pertencia à propriedade do
Sr. Schiffini e, por sua vez, a instituição era organizada pelo Dr. Pennino. O
endereço de então correspondia à Rua Botucatu, número 90, conforme podemos ler
na informação do Dr. Octavio de Carvalho em sua História da EPM, à página 7. Esse
endereço levou a certa confusão com uma outra instituição, o Colégio Ypiranga,
que usava dois endereços, na Rua Domingos de Moraes, nº76 e na Rua Botucatu, 90
(hoje, número 720). Na verdade, conforme o Sr. Paiga, esse duplo endereço pode
ter sido usado quando o próprio Sr. Schiffini foi também dono desse referido
colégio.
Na foto 8, pode ser observada uma
piscina que ficava dentro do quarteirão que era usada para as atividades de
apoio e terapêuticas do Dr. Pennino em sua instituição.
Seguindo
a tradição da família Amaral, a qual iniciou este texto, Ana Maria do Amaral
Antonio, sobrinha-neta do Prof. Dr. José Raposo e sobrinha do Dr. Júlio Raposo,
também se formou médica na EPM, em 1986 (turma 49), especializando-se em
Patologia, sendo que, posteriormente, cursou a pós-graduação também na
EPM-Unifesp (foto 9).
Fontes
bibliográficas:
Família Amaral.
Depoimentos e fotos.
Luiz Antonio
Paiga. Depoimentos e fotos.
Carvalho, Octavio.
História da Escola Paulista de Medicina – Curriculum Vitae. Editor Borsol, RJ,
1969.
sábado, 3 de junho de 2023
90 anos da Escola Paulista de Medicina - Os Fundadores
Existe certa polêmica a respeito de quantos e quais foram os fundadores da Escola Paulista de Medicina (EPM) em 1933, polêmica essa compreensível, em virtude de que o início e a instalação dessa instituição se deram no calor de acontecimentos vários na sociedade brasileira, bem como mais especificamente na sociedade paulista, tanto a respeito do momento político, quanto da necessidade da criação de mais uma escola médica em São Paulo.
No livro do Prof.
Dr. Durval Rosa Borges, intitulado “De quanto tal viagem pede e manda”, de
2019, às páginas 149 e 151, em trecho sobre a fundação da EPM, ele escreve:
“A ‘semente milagrosa’ foi lançada por 31 médicos com idade
variando de 26 a 54 anos (mediana de 34), sete dos quais solteiros na ocasião
(1933). Dois engenheiros haviam também subscrito o manifesto publicado a 1º de
junho de 1933 (Figura 7.3), mas não assinaram a escritura da fundação e
organização outorgada a 26 de junho de 1933. De fato, o parágrafo único do
artigo 7º dos Estatutos da Escola Paulista de Medicina (25 de junho de 1933,
figuras 7.4 e 7.5) de redação dos outorgantes estabelecia que “para ser sócio
fundador ou efetivo, é requisito essencial ser médico legalmente habilitado”.
Dos fundadores, vinte eram nascidos em São Paulo (catorze na capital) e onze em
outros locais (sete no Rio de Janeiro, dois na Itália). Formaram-se catorze na Faculdade
Nacional de Medicina no Rio de Janeiro, doze na Faculdade de Medicina e
Cirurgia de São Paulo e cinco em outras instituições. Dos 31 médicos fundadores
(mediana de 34 anos de idade), 25 (mediana de 33 anos de idade) vieram a efetivamente
atuar na EPM”.
Embora haja essa
informação de que nem todos os fundadores tivessem atuado efetivamente na EPM,
Borges informa que o patrimônio inicial da escola foi constituído por 31 cotas
de cinco contos de réis que cada fundador integralizou no período de cinco anos,
ou seja, de 1933 a 1937, totalizando a soma de 155 contos de réis.
Do livro da
historiadora Márcia Regina Barros da Silva intitulado “Estratégias da Ciência:
A História da Escola Paulista de Medicina (1933-1956)”, publicado em 2003, correspondente
à tese de mestrado de semelhante título, defendida no Departamento de História
da Universidade de São Paulo, às páginas
34 e 35, extraímos os nomes dos 31 médicos e 2 engenheiros que subscreveram o
Manifesto de Fundação, que foi publicado nos jornais de 1º de junho de 1933,
conforme segue abaixo, em ordem pelo ano de formatura (esta contagem dá 15
formados no RJ e 11 em SP, uma diferença de 1 em relação ao Prof. Borges):
Nome
Formatura Faculdade
1 Henrique Rocha Lima 1901 FMRJ
2 Álvaro Lemos Torres 1907 FMRJ
3 Carlos Fernandes 1911 FMRJ
4 João Moreira da Rocha 1915 FMRJ
5 Octavio de Carvalho 1915 FMRJ
6 Afrânio do Amaral 1916 FMBa
7 Archimede Bussaca 1916
U. de Palermo
8 Domingos Define 1916 FMRJ
9 Nicolau Rossetti 1917
U. de Nápoles
10 Alípio Corrêa Neto 1918 FMSP
11 Antonio Prudente 1918 FMSP
12 Paulo Mangabeira Albernaz 1919 FMBa
13 Antonio Carlos Pacheco e Silva 1920 FMRJ
14 Antonio Almeida Junior 1921 FMSP
15 Olivério Mário de Oliveira Pinto 1921 FMBa
16 Felício Cintra do Prado 1922 FMSP
17 Felipe Figliolini 1922 FMRJ
18 Flávio da Fonseca 1923 FMRJ
19 Jairo Ramos 1923 FMSP
20 José Medina 1923 FMSP
21 Fausto Guerner 1924 FMRJ
22 José Ignácio Lobo 1924 FMSP
23 Marcos Lindenberg 1924 FMRJ
24 Pedro de Alcântara 1924 FMSP
25 Álvaro Guimarães Filho 1925 FMSP
26 Antonio Bernardes de Oliveira 1925 FMSP
27 Décio de Queiroz Telles 1925 FMRJ
28 José Maria de Freitas 1927 FMSP
29 Rodolpho de Freitas 1927 FMRJ
30 Otto Bier 1928 FMRJ
31 Dorival Macedo Cardoso 1930 FMRJ
Dois Engenheiros que assinaram o manifesto:
Eduardo Ribeiro da Costa 1916 Escola
de Minas de Ouro Preto
Luiz Cintra do Prado 1927 Escola Politécnica de S.P.
Fontes bibliográficas:
Borges, Durval Rosa. De Quanto Tal Viagem Pede e Manda. Volume
6 de Fragmentos de Memória (1969-1975). Kato Editorial, 2019.
Silva, Márcia Regina Barros. Estratégias da Ciência: A
História da Escola Paulista de Medicina (1933-1956). Série Ciência, Saúde e
Educação. CDAPH. Editora Universitária São Francisco, 2003.
segunda-feira, 1 de maio de 2023
Turma de 1949 da Escola Paulista de Medicina, com alguns destaques.
quarta-feira, 26 de abril de 2023
Biografia do Prof. Dr. José Ramos Junior
A
partir de texto do Prof. Dr. José Carlos Ramos de Oliveira
José Ramos de Oliveira Júnior, que se
tornou mais conhecido como José Ramos Junior, nasceu na cidade de Cachoeira
Paulista, no estado de São Paulo, no dia 5 de novembro de 1911. Filho de José
Ramos de Oliveira e de Dona Noêmia Macedo Ramos de Oliveira, passou sua
primeira infância em sua cidade natal, e depois mudou-se com os pais para a
capital do estado, vindo a morar no bairro do Brás.
José Ramos teve uma irmã e dois
irmãos, sendo que o mais novo também estudou medicina, tornando-se cirurgião e
professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o Prof. Dr.
Mário Ramos de Oliveira, que, além disso, chegou a ser Diretor dessa mesma
Faculdade.
O professor José Ramos Júnior, como
era conhecido no meio acadêmico e profissional, fez seus estudos secundários no
“Gymnasio do Estado de São Paulo”, onde ingressou em 1924 e bacharelou-se
no ano de 1929, conforme se designava então essa formatura algo equivalente a
um segundo grau, guardadas as devidas diferenças.
Após um ano de preparação, ele ingressou
na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, graduando-se médico na
turma de 1936. Durante o curso de medicina, José Ramos Junior dava aulas
particulares a alunos interessados em prestar exames para o ingresso na
Faculdade de Medicina, de modo que, com isso, desenvolveu sua aptidão para ser
professor.
Ele fez estágios em Clínica Médica no
serviço do Prof. Rubião Meira na Santa Casa de São Paulo e no serviço do Prof.
Jairo Ramos na Escola Paulista de Medicina, onde, além da assistência aos
pacientes, ministrava ensinamentos a graduandos de medicina e médicos
recém-formados. Inclusive, ele foi citado pelo Prof. Dr. José Reynaldo
Marcondes no livro sobre os 40 anos da Escola Paulista de Medicina, a respeito
do ensino prático a partir de 1936, conforme vemos no texto a seguir (grifo
nosso):
“Éramos
todos da 2ª Enfermaria da Santa Casa, serviço do Prof. Rubião Meira, recrutados
pelo Jairo para iniciar o ensino de Clínica Propedêutica Médica na EPM. O
método da Escola Lemos Torres – o ensino objetivo, o exame integral acurado do
doente e sua técnica, o ensino individual, a valorização dos fatos concretos, o
método de raciocínio que leva ao diagnóstico, afastadas as ideias preconcebidas
e desmoralizada a intuição clínica – ia ser semeado na nova escola por aquele
que melhor aprendera os seus princípios, Jairo Ramos. A EPM não tinha hospital
nem ambulatório, aventuraram um à Rua Tabatinguera. Octavio de Carvalho
conseguiu que a direção do Hospital Matarazzo cedesse uma enfermaria vazia, sem
leitos e sem doentes. Comprou camas, colchões e iniciamos o ensino. As aulas
começavam a uma hora da tarde. Eu chegava antes e convidava os doentes que
estavam repousando no jardim do hospital a virem se deitar nas camas a fim de
que, em seus corpos, se ensinasse a propedêutica física – inspeção, palpação,
percussão e ausculta. Vieram no início por curiosidade e a dois mil réis.
Depois era preciso que eu os trouxesse pelo braço e com palavras de persuasão.
Em seguida foi preciso aumentar o preço: cinco mil réis e muita lábia. Mas
ensinávamos. Cada assistente – Sabino, Tranchese, Lotufo, Ignácio, José
Ramos, Macedo, João Grieco, Reynaldo – ensinava – ensinava a turmas de 6 a
8 estudantes. Após esta aula prática havia outra teórica, quase sempre ministrada
pelo Jairo, que chegava mais tarde. Foi uma luta, principalmente por parte dos
que tinham que acomodar os doentes, cada vez menos dispostos a colaborar. Mas
só isto não bastava. Mais de uma vez eu levei em meu automóvel um doente e sua
observação clínica, da 2ª Enfermaria. Eu almoçava em casa e seguia para a aula
do Jairo, depois de nossa aula prática, desta vez com um caso clínico mesmo.”
Podemos ver, então, que o Prof. Dr.
José Ramos Junior recebeu sua formação nessa assim chamada “Escola Lemos Torres”
que caracterizava toda uma inovação na maneira de abordar o paciente e de
formular as hipóteses diagnósticas. O sucessor do Prof. Dr. Lemos Torres foi o
Prof. Dr. Jairo Ramos, ambos entre os fundadores da Escola Paulista de Medicina
em 1933 e influenciadores de José Ramos.
José Ramos Junior especializou-se em Clínica Médica e Cardiologia. Exerceu
essas atividades em consultório privado, bem como sendo médico concursado junto
ao antigo Instituto de Aposentadoria e
Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas (IAPETC), que era uma autarquia
do Governo Federal, desde sua inauguração na capital paulista em 1938. Suas
funções nessa instituição duraram até a extinção do IAPTEC em 1966, quando os
diferentes IAPs fundiram-se no antigo INPS (Instituto Nacional de Previdência
Social).
No ano de 1940, José Ramos casou-se
com a professora de ensino primário Maria Apparecida Amalfi, que adotou o nome
de casada de Maria Apparecida Ramos de Oliveira. O casal teve quatro filhos,
Maria Lúcia (secretária e agente de comércio exterior), José Carlos (também
médico e professor de Medicina), José Eduardo (engenheiro) e Maria Cecília
(professora de ensino fundamental).
No ano de 1953, a convite do
Professor Doutor Antônio Prudente, o Prof. José Ramos passou a exercer sua especialidade
de clínico no recém-inaugurado Hospital do Câncer da Associação Paulista de
Combate ao Câncer (APCC). No ano
seguinte, patrocinado pela APCC, ele fez estágio no Sloan Kettering Hospital,
em Nova Iorque, onde obteve o título de Oncologista Clínico e aprendeu os
fundamentos e a prática da quimioterapia para tratamento do câncer. Desde então,
tornou-se Diretor do Departamento de Medicina Interna do Instituto Central da
APCC até 1970.
Na década de 1950, o Prof. Dr. José
Ramos iniciou sua carreira como Professor Titular de Clínica Propedêutica
Médica da Faculdade de Medicina de Sorocaba da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo. A partir de 1970, também se tornou Professor Titular de Oncologia
Cínica da Faculdade de Medicina do Centro de Ciências Biológicas e Médicas da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, que agregou também a antiga Faculdade de Medicina
de Sorocaba.
A convite do Diretor do Departamento
de Câncer do Ministério da Saúde do Governo Federal, ministrou, com outros
oncologistas, durante os anos de 1974 e 1975, Cursos Intensivos de Oncologia
Clínica (CIOC) na maioria das capitais brasileiras. Tais cursos, de 40 horas,
tiveram por objetivo difundir a necessidade de que as escolas de medicina
ministrassem especificamente a disciplina de Oncologia Clínica em suas grades
curriculares.
Na década de 1960, recebeu o título
de Fellow of the American College of Physicians (F.A.C.P.).
O Prof. Dr. José Ramos Junior publicou vários artigos científicos, seja na
observação clínica de pacientes, como também na pesquisa clínica. Ainda nos
anos 60, recebeu o prêmio Pravaz-Recordati pelo trabalho experimental realizado
em animais de laboratório que recebiam altas doses de corticosteroides,
equivalentes ao que pacientes com câncer recebiam como tratamento, muitos
apresentando morte súbita. Nesse trabalho mostrou que as altas doses de
corticoides nos animais de experimentação, provocavam lesões necróticas no
miocárdio.
Em 1990, o Dr. Ramos Junior tornou-se Professor e Orientador contratado pela Disciplina de Clínica Médica e de Semiologia Clínica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Campinas (Unicamp), por convite do Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti, então Reitor dessa Universidade.
Além dos vários trabalhos científicos
publicados, o Prof. Ramos Jr. publicou quatro livros, onde colocou toda sua
vivência como clínico, cardiologista, oncologista e observador da alma humana.
O primeiro livro, sem dúvida o de
maior sucesso, pois ainda de uso prático até hoje, foi “Semiotécnica da
Observação Clínica- Síndromes Clínico-Propedêuticas”. Publicado em junho de
1970, pela Editora Sarvier - Editora de Livros Médicos S.A. chegou a mais 3
edições, em 2 volumes. revisadas e atualizadas por ele, e depois em mais 2 edições,
quando os dois volumes foram compostos em um único tomo pela equipe editorial. No
prefácio de sua primeira edição, o Prof. José Ramos Júnior faz a síntese do
livro com a afirmação de que a obra “mostra a prática médica do exame
clínico, a síntese da fisiopatologia de cada sintoma e de cada sinal, para
servir ao raciocínio e à compreensão das suas semiogêneses”. De certa forma,
o Professor Dr. José Ramos Junior colocou em texto detalhado uma espécie de
elaboração daquilo que começou como “Escola Lemos Torres”.
O outro livro, “Oncologia Clínica”, foi publicado também pela editora Sarvier, alcançando 2 edições (1979 e 1984). Neste livro, o Prof. Ramos Jr., ao lado da descrição pormenorizada de tumores sólidos, leucemias e linfomas, sua oncogênese, classificação e tratamento cirúrgico, quimioterápico e radioterápico, avançou em conceitos da genética dos cânceres e das perspectivas futuras da imunoterapia para o tratamento do câncer. Comentou também das razões para a criação da disciplina de oncologia clínica nos cursos de medicina, o que também indica sua originalidade e criatividade ao propor inovações no curso médico nessa ocasião.
Em 1990, o Prof. Ramos Junior publicou o livro "Disritmia Encefálica Paroxística Primária", pela Editora Sarvier. Nessa obra ele colocou como objetivo "firmar conceitos fisiopatológicos, anatomopatológicos, e pirncipalmente clínicos e da semiotécnica da Anamnese... o propósito é tornar a descrição clínica mais completa... para que a assistência ao paciente seja a mais adequada". Não vem ao caso aqui um eventual julgamento neurológico desse conceito. Trata-se antes, como ele frisou, ainda de uma abordagem clínica adequada ao paciente, dentro dos moldes da época dessa produção.
Já o médico observador da alma humana
apareceu na monografia “Personalidade”, publicada pela Editora Sarvier
em 1991. Neste trabalho, publicado no ano que antecedeu seu falecimento, o
autor colocou sua experiência como arguto observador dos tipos de personalidade
que enriqueceram sua longa vida de médico e professor. No prefácio enfatizou: “Toda
a dissertação contida nos capítulos teve a insistente preocupação didática em
reunir e sintetizar os conhecimentos científicos sobre os tipos de
personalidade...com o propósito de ser útil para o estudante de medicina, para
os médicos, para o sociólogo, para o professor, para o advogado, para o
psicólogo”.
Após ter sofrido um Acidente Vascular Cerebral Isquêmico em novembro de
1991, que limitou sua prática clínica e suas atividades docentes, o Prof. José
Ramos de Oliveira Júnior faleceu no Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, em 07
de outubro de 1992, por parada cardiorrespiratória consequente a um infarto
agudo do miocárdio.
Fontes
Bibliográficas:
Oliveira,
J.C.R. Dados Biográficos sobre o Prof. Dr. José Ramos Junior, 2023.
Valle,
J. R. – A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário
(1933-1973) e anotações recentes. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977.
terça-feira, 21 de março de 2023
Biografia de Ulysses Lemos Torres
Ulysses Lemos
Torres nasceu em 20.10.1911 em Avaré, interior de São Paulo. Filho do professor
Álvaro de Lemos Torres e Dona Maria Amélia Jardim de Lemos Torres. Ficou
conhecido como médico, professor, historiador, escritor, poeta. Escreveu livros filosóficos sobre medicina e arte, inclusive com textos que foram publicados em jornais diários, além de periódicos médicos.
Ele fez seus
estudos secundários no Colégio São Joaquim de Lorena. Entrou na Faculdade de Medicina da
Universidade do Brasil, na então Capital Federal, onde se diplomou em 1935.
A respeito de Ulysses Lemos Torres obtivemos diversas informações em documentos variados que vão relatados a seguir.
No jornal "O Estado de São Paulo", em edições do final de 1937 e início de 1938, seu nome
aparece em anúncio do Laboratório do Hospital São Paulo, Escola Paulista de
Medicina, conforme o seguinte texto abaixo:
Laboratório de Análises do Hospital São Paulo
Sob a direção dos professores da Escola Paulista de Medicina,
Anatomia Patológica – Prof. Walter Bungeler e Dr. Fernando L.
Alayon.
Bacteriologia e Sorologia – Prof. Otto Bier.
Exames Parasitológicos - Prof. Flávio da Fonseca.
Hormodiagnóstico e Metabolismo Basal – Dr. José Ribeiro do Valle
e Dr. Ulysses Lemos Torres.
Análises clínicas e citodiagnóstico - Dr. Mário Mesquita e Dr.
Antonio Cintra.
Rua Boa Vista, 175, 7º andar, telefone 21623. Das 8 às 18
horas.
Em outro artigo do jornal "O Estado de São Paulo", de 20 de fevereiro
de 1940, consta que Ulysses Lemos Torres foi um dos concludentes do Curso de
Aperfeiçoamento em Tisiologia do Hospital São Luiz Gonzaga. O Curso durou seis
semanas e foi o terceiro ocorrido nesse hospital.
Ainda no mesmo periódico, "O Estado
de São Paulo", de 7 de março de 1940, consta o seguinte informe sobre reunião de médicos
no Hospital São Paulo, Escola Paulista de Medicina, conforme segue abaixo:
Sociedade dos Médicos do Hospital São Paulo da Escola
Paulista de Medicina
Hoje às 20:30 horas, no Anfiteatro da Escola Paulista de
Medicina à Rua Botucatu, 720, sob a presidência do prof. Dr. Álvaro de Lemos
Torres, realizar-se-á a 10ª reunião da Sociedade dos Médicos Internos do
Hospital São Paulo, na qual serão apresentados os seguintes casos:
1 – Metabolismo basal na Hipertensão. Dr. Ulysses Lemos
Torres
2 – Flegmão Lenhoso do Pescoço. Dr. Fuad Ferreira
3 – Organização do Ambulatório de Hipertensão. Dr. Ulysses Lemos
Torres e Dr. João B. Credidio.
4 – Sobre uma crise aguda de hipertireodismo no pós-operatório
de uma tireoidectomia total. Dr. Carlos Amadeu de Arruda Botelho Filho.
Em relação ao informe anterior, note-se que os assim chamados "médicos internos" não eram alunos, e sim já formados, sendo que esse "interno" seria algo equivalente a um "médico residente", com cargo instituido em 1939 por Álvaro de Lemos Torres, então diretor da Escola Paulista de Medicina, o que demonstra um pouco da então considerada "modernidade" do Lemos Torres pai.
Em sua vida, o Prof. Dr. Ulysses Lemos Torres exerceu os seguintes cargos e obteve os seguintes prêmios abaixo referidos:
Em 1938, Inspetor
Federal do Ensino Secundário do Estado de São Paulo, mais especificamente da
Escola Normal Padre Anchieta.
Foi Chefe da
Clínica Endocrinológica do Hospital Municipal de São Paulo por vários anos,
onde comandou o Centro de Estudos que nomeou com o nome de seu pai, Álvaro Lemos Torres.
Em 18 de março de 1944 foi empossado
como membro da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo.
Em 30 de
agosto de 1954 participou da fundação da Sociedade Brasileira de Endocrinologia
e Metabologia, sob coordenação de José Afonso de Mesquita Sampaio, Waldemar
Berardinelli, Antonio Barros de Ulhoa Cintra, contando também com os médicos Arnaldo
C. Sandoval, Luciano Decourt, Eugênio Chiorbolli e outros.
Em 1955 venceu
concurso e assumiu o cargo de Chefe da Segunda Clínica Médica de Homens da Santa Casa de
Misericórdia de São Paulo.
Em 1960
recebeu o prêmio de Cultura Geral “José de Almeida Camargo” da Associação
Paulista de Medicina pela obra “Medicina: Ciência e Arte”.
Em 30 de
junho de 1966, tomou posse como membro da Academia Nacional de Medicina em
sessão solene comemorativa de seu 137º aniversário.
Foi Professor
Titular de Clínica Médica da Faculdade de Medicina do ABC até 1975.
Em 12 de maio
de 1978 recebeu a medalha Euclides da Cunha do Governo do Estado de São Paulo
por serviços prestados à Medicina e à Cultura.
Foi Membro do
Instituto Histórico e Geográfico.
O Prof. Dr.
Ulysses Lemos Torres faleceu em 2 de abril de 1982.
Foi dado seu
nome a uma rua na cidade de São Paulo, por solicitação do Dr. Tufik Mattar, presidente
da Associação Paulista de Geriatria e Gerontologia de São Paulo, solicitação essa feita ao então prefeito da cidade
de São Paulo, Dr. Antonio Salim Curiati, em 1982.
Fontes bibliográficas:
Acervo do jornal "O Estado de São Paulo".
Dicionário de Ruas do Município de São Paulo.
Homenagem ao Prof. Ulysses Lemos Torres, por ex-alunos e amigos. Irmãos Milesi Ltda, 1978.
Torres, U.L. Medicina: Ciência e Arte. 2a Edição. Gráfica São José, 1977 (1960).
Torres, U. L. A Estética na Medicina. 2a Edição. Milesi Editora Ltda, 1979.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023
Biografia do Prof. José Maria de Freitas
A partir de texto de Bindo Guida Filho
Descendente de tradicionais famílias
pernambucanas, baianas, mineiras e fluminenses, nasceu José Maria de Freitas
aos 21 de março de 1903, em São Paulo. Filho de Sebastião Maria de Albuquerque
Freitas e Augusta Monteiro Barros Freitas, era neto de dois médicos dos quais provavelmente
herdou pendores para a profissão.
Seus primeiros estudos foram feitos no
Externato Freitas da educadora Cecília M. de Albuquerque Freitas, sua tia e
madrinha. O Curso Ginasial no Ginásio do Estado. Estudou também no Colégio São
Bento de São Paulo e no Colégio Anchieta de Friburgo. Ingressou na então
Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo em 1921.
Estudante ainda, tomou parte no socorro e
atendimento dos feridos na Revolução de 1924, na Santa Casa de Misericórdia,
onde permaneceu durante todo o período desse episódio, inclusive com serviços
externos. Depois disso, foi nomeado “estudante interno”, único naquele tempo,
pelo Dr. Diogo de Faria, Diretor Clínico daquele hospital. Freitas fez plantões
noturnos até sua formatura, auxiliando os médicos que se revezavam cada noite,
em todos os casos de cirurgia. Nessa época, trabalhou também com Floriano
Bayma, auxiliando as primeiras transfusões de sangue realizadas em São Paulo.
Diplomou-se pela mesma Faculdade em 1927, defendendo a tese “Contribuição ao
estudo da calculose urinária na infância”, aprovada com distinção.
Logo
depois de formado, foi convidado para ser cirurgião da Misericórdia
Botucatuense, tendo passado a residir em Botucatu. Como gostava de ensinar,
mudou-se para São Paulo em 1931, aceitando convite de Alfonso Bovero para ser
assistente da Cadeira de Anatomia da Faculdade de Medicina. Na revolução de
1932, trabalhou como cirurgião no Hospital de Emergências instalado no Parque
da Água Branca e, posteriormente, se fixou na chamada “Ambulância Itália”
sediada em Gramadinho, a cinco quilômetros da linha de frente. Deixou seu posto
somente três dias após o término da Guerra, julgando de seu dever organizar a
retirada do pessoal e a coleta de material médico para entrega na Capital.
Algum tempo depois, convidado por Benedito
Montenegro, passa a exercer suas atividades na Cadeira de Técnica Operatória da
mesma Faculdade, até a transferência de Montenegro para a 3ª Cadeira de Clínica
Cirúrgica para a qual Freitas também se transferiu, tendo prestado concurso
para Livre-Docente dessa mesma cadeira, em 1941. Neste concurso, defendeu a
tese “Anestesia Peridural”, aprovada com distinção.
Em 1945, na mesma Faculdade de Medicina,
conquistou o título de Docente Livre de Técnica Cirúrgica, em concurso
realizado para o provimento da Cátedra. Após 30 anos de efetivo serviço,
aposentou-se da referida Faculdade, em dezembro de 1960.
Em 1933, ele
uniu-se ao grupo de idealistas que fundou a Escola Paulista de Medicina, tendo
sido Catedrático de Técnica Operatória e Cirurgia Experimental na mesma. Ainda
na EPM, por várias vezes fez parte do Conselho Técnico Administrativo, foi Diretor
da Escola no período 1954-59, quando se conseguiu a federalização da EPM, tendo
sido ele um dos adeptos a essa causa. Reconduzido ao cargo, exerceu a diretoria
no período 1964-68, quando encerrou suas atividades no magistério.
Ele também participou na organização da
Faculdade de Medicina de Sorocaba, tendo sido professor da 3ª cadeira de
Clínica Cirúrgica, onde permaneceu em efetivo exercício, preparando os seus
substitutos. Foi fundador da Escola de Enfermagem São Francisco e o seu
primeiro diretor. Esta Escola foi posteriormente agregada à faculdade de
Medicina de Sorocaba.
Cooperou com a Associação dos Sanatórios
de Campos do Jordão (Sanatorinhos), onde organizou o Serviço de Cirurgia e
operou gratuitamente durante o período 1939-1941. Deu sua colaboração no
ambulatório Jin Kai, que ficou sob sua responsabilidade, até o funcionamento do
Hospital Santa Cruz, do qual foi cirurgião-chefe, e depois Diretor Clínico e Administrativo,
de 1942 a 1970. Ensinou aos seus assistentes e seguidores, conforme seu
biógrafo, não somente a técnica operatória segura e elegante, como também a
sobriedade nas palavras e atitudes e a conduta rigidamente ética no exercício
da profissão.
Era, portanto, Diretor da EPM, quando do I
Congresso Brasileiro de Médicos Residentes em 1966. Aparentemente, pelo que
consta, era um tanto conservador no que diz respeito a inovações nos modelos de
aprendizado e treinamento. Teve um contratempo com os residentes que
permaneciam no alojamento por tempo além do estipulado, expulsando-os do
hospital. Não aceitou a prorrogação de docentes ao aposentarem; eles poderiam
permanecer até os 70 anos, se assim quisessem, embora devessem se aposentar aos
65. Mas Freitas obrigou a todos se aposentarem aos 65 anos. Com isso, o Prof. Jairo
Ramos teve que deixar seus cargos, embora estivesse com energia para continuar.
No entanto, Jairo Ramos continuou frequentando a EPM até falecer em 1972. Pelo
seu conservadorismo, é provável que o Dr. Freitas estivesse entre os docentes
que nos anos 1950 relutaram em aceitar a novidade da Residência Médica. Na
época em que era diretor no período 1964-68 enfrentou solicitações dos alunos
de graduação para que saísse do cargo. Também alguns professores dessa época
questionaram a qualidade do desempenho de Freitas como diretor da EPM. De
qualquer forma, ao deixar o cargo, ele deixou sua função de professor.
Prof. José Maria
de Freitas faleceu em 30 de dezembro de 1990, aos 87 anos.
Fonte Bibliográfica: Livro Comemorativo dos 40 anos da Escola Paulista de Medicina compilado pelo Prof. Ribeiro do Vale, publicado em 1977.













