terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Descrição do Mural “Medicina Experimental” da EPM


      Reproduzimos aqui o texto do Prof. Dr. Ribeiro do Valle, publicado no “O Bíceps” de 1962, nº 27, pgs. 40-41, que foi publicado pelo Prof. Dr. Durval Rosa Borges em seu livro “Foi isso que eu quis viver: 50 anos de formatura da turma de 1967 da EPM”.

     Assim escreve o Prof. Ribeiro do Valle:

     As cadeiras de Farmacologia e de Bioquímica da Escola Paulista de Medicina funcionam em edifício próprio sito à rua Botucatu, 862, em Vila Clementino, na cidade de São Paulo. No saguão de entrada do prédio existe um mural de seis metros de comprimento por quatro metros de altura, de autoria de Pietro Nerici, pintor italiano radicado no Brasil faz dez anos. Executados conforme a velha técnica dos afrescos em que se empregam óxidos metálicos coloridos de mistura com pó de mármore e argamassa, o mural é bastante sugestivo.
     Começaremos a nossa descrição pelo canto inferior esquerdo, onde três figuras de primeira grandeza da medicina brasileira – Osvaldo Cruz, Adolfo Lutz e Gaspar Viana – surgem de Manguinhos, reconhecível pela sua cúpula mourisca. Ao lado, outro instituto de linhas modernas revela ao observador a influência indutora da célula mater, responsável pela maioria dos centros de pesquisa biológica existentes no nosso país.
     O papel desempenhado pelo Instituto Osvaldo Cruz no terreno da saúde pública é calcado na cena de crianças brincando ao ar livre. Aquela vilazinha pendurada no morro lembra a origem de muitos que aqui trabalham e que na sua infância, sem preconceitos de cor, brincaram com arco, jogaram bola de panos ou empinaram papagaio.
     À esquerda, em cima, Lacerda e Couty estudam efeitos de plantas. João Baptista de Lacerda (1846-1915) foi o fundador do primeiro laboratório de fisiologia existente no Brasil, e Louis Couty (1854-1884), aluno de Vulpian, um dos primeiros a estudar, entre nós, os efeitos do café. Ambos acompanham o registro gráfico da pressão arterial do cão. Foi escolhido de propósito o assunto, dada a natureza dos trabalhos experimentais aqui realizados. De um lado, aspectos microscópicos do rim e de lesões renais encontradas, por exemplo, na hipertensão arterial experimental hormonal e, de outro lado, numa lembrança histórica, Stephen Hales (1677-1761) determinando pela primeira vez, experimentalmente, a pressão arterial carotidiana num equídeo.
     À direita, em cima, Lavoisier (1743-1794), assistido pela esposa a redigir o protocolo das observações, estuda as trocas respiratórias, numa antevisão do que significam hoje para a clínica médica e a semiologia as modernas técnicas da bioquímica. Mais à direita, cortes e desenhos mostram a importância da endocrinologia. No alto, a representação esquemática da adeno-hipófise com seus três tipos celulares, a secreção de gonadotropinas, o endométrio, as gônadas, a genitália, a lactação e a gestação. Mais à direita, o aparelho tiroparatiroidiano e, à esquerda, o galo normal e o capão dentro do ovoide testicular. Inferiormente, o timoneiro lembra o ciclo dos navegantes portugueses, o perigo do escorbuto e o alcance da vitaminologia. As nossas frutas ricas em ácido ascórbico, o pombo com beribéri e a representação de cristais de tiamina chamam de novo a atenção para o papel das vitaminas. Terminando a volta do painel, como se tivéssemos seguido a marcha dos ponteiros de um relógio, a obtenção do curare pelos índios do Amazonas e o consequente emprego dos bloqueadores ganglionares em cirurgia a reviver a senda da farmacologia desde o uso primitivo até o emprego racional e científico de novos medicamentos.
     O estudo das plantas, inclusive medicinais, feito pelos naturalistas que correram os nossos sertões e que tantas lições nos legaram, vem lembrado na figura de Barbosa Rodrigues (1842-1909) e de sua esposa quando, em missão do governo imperial, exploraram o vale do Amazonas. Junto às palmeiras, o ramo de café e dentro do hexágono a esquematização da tecnologia industrial, sugestivos da potência e das realizações paulistas. No centro do mural o hexágono do benzeno – símbolo da química dos organismos – reúne todos esses episódios das ciências fisiológicas e da nossa medicina. Finalmente, a dominar todo o painel, a figura austera de Claude Bernard (1813-1878), lídimo representante do espírito latino e fundador da medicina experimental. A seu lado, a esquematização da fórmula da glicose, do glicogênio no fígado e do ciclo de aproveitamento energético dos hidratos de carbono.
     A proposta para execução de um mural no saguão do novo edifício dos Laboratórios de Farmacologia e Bioquímica foi aprovada pelo Conselho Técnico Administrativo da Escola Paulista de Medicina na reunião ordinária de 20 de junho de 1956, presidida pelo sr. Diretor Prof. Dr. José Maria de Freitas, secretariada por dona Ida Paulini e com a presença dos conselheiros: profs. Drs. Felício Cintra do Prado, Jairo de Almeida Ramos, João Moreira da Rocha, Walter Pereira Leser e Marcos Lindenberg.
     Aprovada a ideia de um mural que aduzisse episódios da história da medicina mais ligados a nós latinos e brasileiros, passamos, Paiva, Nerici e eu, a imaginar as cenas e consultar livros e monografias. Além da pura criação artística, algumas cenas eram calcadas de figuras conhecidas. Assim, a que representa Hales medindo a pressão arterial carotidiana da égua foi sugerida de uma gravura do livro de Bettmann e Hench (O. L. Bettmann e P. S. Hench, A Pictorial History of Medicine, Springfield, Charles C. Thomas, 1956, p. 199) e a de Lavoisier e sua esposa, da gravura do livro de Holmyard (E. J. Holmyard, Chemistry to the Time of Dalton, Londres, Oxford University Press, 1925, p. 107). Na época em que foi pintado o mural ainda não conhecíamos o retrato de Couty que aparece sem a barba nazarena. O pintor não deixou de se representar como Osvaldo Cruz; a figura do cirurgião é a de um dos nossos assistentes, entre as crianças vêm-se representados filhos dos professores de farmacologia e de bioquímica. Barbosa Rodrigues, Lavoisier e as respectivas esposas podem ser tomados ainda como alusão ao fato de que vários casais trabalham nestes Laboratórios.
     Durante quatro meses, Pietro Nerici trabalhou com dedicação e entusiasmo na execução desse mural. Isto constituiu para todos nós exemplo de que vale colocar a alma inteira na concretização de um plano fiel e pacientemente elaborado. Diz o pintor que o mural durará enquanto subsistirem as paredes deste edifício.
     Enquanto sobreviver a Escola Paulista de Medicina, terão os nossos alunos nesse mural a oportunidade de gravarem noções que, ligadas ao passado, traduzem no campo da medicina o anseio de progresso inadiável do Brasil no concerto das nações civilizadas.

Fonte bibliográfica:
Ribeiro do Valle, José – Descrição do Mural “Introdução Pictórica à Medicina Experimental no Brasil” em “O Bíceps”, nº 27, pp. 40-41, 1962 in “Foi isso que eu quis viver: 50 anos de formatura da turma de 1967 da EPM”, de autoria de Durval Rosa Borges, Kato Editorial, 2017, São Paulo, páginas 34-37.
Observação: livro gentilmente cedido pelo Prof. Dr. Durval Rosa Borges.       
      

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

"Medicina Experimental" - Mural da Escola Paulista de Medicina

Medicina Experimental - Mural de Pietro Nerici no Saguão do 
Departamento de Bioquímica e Farmacologia da Escola Paulista de Medicina (1956).

Pietro Nerici
     Pintor, desenhista, gravador, muralista, professor. Nascido em 1918 na cidade de Lucca, Itália.
     No início de sua carreira foi influenciado pelo expressionismo e depois pelo abstracionismo informal. Fez seu aprendizado artístico básico no Instituto de Arte de Lucca. Depois aperfeiçoou-se em Florença e Roma, onde fez cursos superiores de escultura e pintura.
1939 – Ganhou o primeiro prêmio de pintura em mostra realizada em Florença.
1941 – Conquistou o terceiro prêmio na Exposição Nacional de Trieste, Itália.
1947 – Obteve o primeiro prêmio para afresco em Bolonha, Itália. Fez estágios em Veneza e Florença, onde trabalhou em decorações no Convento dos Carmelitas e no Colégio das Freiras Canossianas.
1949 – Transferiu-se para o Brasil, indo residir em São Paulo, SP.
1960 – Concorreu ao Prêmio Leirner de Arte Contemporânea, em São Paulo.
Foi professor na Faculdade de Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo.
Realizou alguns murais em edifícios de São Paulo, como o Instituto de Farmacologia da Escola de Medicina, o edifício dos Elevadores Atlas, o Hotel Flórida e a Companhia Paulista de Seguros Gerais, e também em Belo Horizonte, MG, e Rio de Janeiro, RJ.
Realizou, entre outras, as seguintes exposições individuais:
1960 – Galeria das Folhas, São Paulo.
1965 – Museu de Arte de São Paulo, São Paulo; Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, MG.
Tomou parte de diversas mostras coletivas, entre as quais as seguintes:
1961-63 – Salão Paulista de Arte Moderna, São Paulo (medalha de prata na edição de 1961 e prêmio de aquisição nas edições de 1962 e 1963).
1961-65 – Salão Nacional de Arte Moderna, Rio de Janeiro.
1963 e 1965 – Bienal de São Paulo, São Paulo.


Fontes bibliográficas conforme o site de onde essas informações foram obtidas:
CAVALCANTI e AYALA. Dicionário Brasileiro de Artistas Plásticos. MEC/INL, 1973-77.
LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. p. 351, Artlivre, Rio de Janeiro, 1988.
PONTUAL, Roberto. Dicionário das artes plásticas no Brasil. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, 1969.

Disponível em http://www.brasilartesenciclopedias.com.br/nacional/nerici_pietro.htm
 


terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Biografia de Nicolau Maria Rossetti (1894-1956)


A partir de texto de Antônio Defina

     Nicolau Maria Rossetti nasceu em Mococa, Estado de São Paulo, a 17 de abril de 1894. Após os estudos básicos na Capital, cursou a Real Universidade de Nápoles (Itália), onde se diplomou em Medicina em 17 de julho de 1917, com distinção e louvor.
     Retornou à Europa em 1921, para prosseguir os estudos de especialização, frequentando a Escola Dermatológica do Hopital Saint Louis (Paris), a Charité Krankenhaus (Berlim) e a Universidade de Viena.
     Regressando ao Brasil, fixou-se em São Paulo, participando como Assistente dos trabalhos da Clínica Dermatológica da Faculdade de Medicina de São Paulo, na Santa Casa de Misericórdia, Serviço do Prof. A. Lindenberg, onde estabeleceu convivência com outros dermatologistas.
     Membro fundador da Escola Paulista de Medicina, foi professor catedrático de Clínica Dermatológica e Sifilográfica desde 1936, quando se iniciou o curso dessa cadeira no quarto ano do curso médico, até seu falecimento em 1956.
     No ensino da Dermatologia, pôs em realce a importância dos detalhes morfológicos das lesões na sua totalidade, o que o levava a um apuro no exame do paciente, que entendia dever abranger todo o tegumento. Realçando sempre o valor do exame dermatológico cuidadoso e integral, discorria sobre as diferentes dermopatias, a partir da apresentação do paciente, fazendo-o de maneira bastante expressiva.
     Conhecedor profundo de patologia humana, completava o exame da pele com constatações outras de ordem clínica pertinentes a cada caso. Estudioso pertinaz, acompanhava através da literatura o desenvolver da patologia médica, dominando seis línguas, fichando, grifando e anotando às margens dos livros e revistas os pontos principais, o que causava grande desespero aos bibliotecários.
     De caráter firme e marcante, impunha-se pelo saber e pela personalidade tanto na vida profissional, como docente. Essa retidão de caráter, que o compelia a fazer tudo pelo melhor e a exigir a perfeição na prática profissional, causava certo constrangimento ao primeiro contato. Com a convivência, todavia, granjeava amigos entre seus auxiliares e na vida profissional, pois os que dele se aproximavam sentiam o calor e o amparo que dispensava a todos.
     O Prof. Rossetti exerceu vários cargos na Inspetoria de Profilaxia da Lepra e como Assistente no Instituto de Higiene, onde organizou o Serviço de Dermatologia e o Laboratório de Micologia Dermatológica. Transferindo-se para o Instituto Adolpho Lutz, da Secretaria da Saúde, criou ali a seção de Micologia, onde realizou inquérito sobre as tinhas de São Paulo, que constitui monografia completa sobre o assunto. Organizou o serviço de sífilis para gestantes da Clínica Obstétrica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Serviço do Prof. Raul Briquet). Além de outras funções oficiais no campo da lepra e das moléstias venéreas. Fez parte da Comissão para estudar a fusão dos Institutos Bacteriológico, Butantã e de Higiene.
     Participou de várias Bancas Examinadoras em concursos para Catedráticos e Livre-Docentes na especialidade, em diversas Faculdades do país, bem como de comissões julgadoras de prêmios científicos.
     Em 1938, na Escola Paulista de Medicina, em colaboração com o Centro Acadêmico Pereira Barreto, organizou o Centro de Higiene Social, do qual foi Diretor Clínico. Esse Centro funcionava à noite em instalações próximas ao centro da cidade, e aí os alunos do quarto ano aprendiam a aplicar injeções intramusculares e endovenosas e a fazer pequenos curativos, familiarizando-se com os esquemas de tratamento de sífilis, então com arsenicais e bismuto e, posteriormente, com penicilina. Nesse local de trabalho muitos alunos e médicos encontraram também agradável ambiente de confraternização e amizade.
     Pertenceu Nicolau Maria Rossetti a inúmeras sociedades científicas nacionais e internacionais. Publicou vários trabalhos na sua especialidade, cumprindo destacar, entre outros, os estudos sobre livedo racemoso, acidentes arsenicais, epidermólise bolhosa hereditária, moléstia de Darier, vitaminas e moléstias da pele, lucites por sensibilizadores vegetais, dermatomiosite, um novo problema sanitário em São Paulo (primeiros resultados de um inquérito sobre tinhas). Colaborou com cursos de especialização, de divulgação e atualização dando ênfase aos temas sobre sífilis, micoses da pele e dos pelos e dermatoses alérgicas.
     Muitos foram os que iniciaram ou aperfeiçoaram seu tirocínio clínico-dermatológico segundo a rigorosa metodologia propedêutica praticada e defendida por Rossetti, cumprindo lembrar os nomes de Antônio Defina, Vicente Grieco, Benedito Mendes de Castro, Álvaro Alberto Cunha e Cyro C. Aranha Pereira.
     O Prof. Rossetti faleceu em 11 de junho de 1956. Seu nome foi dado a uma rua no Jardim Império, na Zona Sul do município de São Paulo.

Fonte Bibliográfica:
1 - Defina, Antônio – Nicolau Maria Rossetti (1894-1956) in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, págs. 121-124.
2 - https://dicionarioderuas.prefeitura.sp.gov.br/

terça-feira, 20 de novembro de 2018

“Semiologia Clínica”, pelo Prof. Carlos da Silva Lacaz


O Prof. Carlos da Silva Lacaz (1915-2002) publicou diversos textos no jornal Folha de São Paulo, por vários anos. Ele formou-se em 1940 pela FMUSP. Foi Professor Catedrático de Microbiologia e Imunologia da FMUSP, Professor Titular do Departamento de Medicina Tropical e Dermatologia da FMUSP. Fundador e Diretor do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, além de outros tantos títulos. Também se dedicou à Historiografia Médica.
Em 1976, por ocasião da publicação do livro “Semiotécnica da Observação Clínica”, da autoria do Prof. José Ramos Junior, o Prof. Carlos da Silva Lacaz publicou o texto a seguir no jornal Folha de São Paulo, com algumas características próprias da época e outras que têm atualidade. 

     Francisco de Castro, o grande clínico brasileiro, que escreveu também as mais belas páginas de filosofia médica, advertia no seu Tratado de Propedêutica do “modus faciendi” do exame do doente, referindo que nessa exploração, executada segundo regras idôneas, residia o segredo do seu êxito e a condição da sua prestabilidade.
     Mediante a observação dos processos investigativos, dos seus requisitos essenciais, das suas formalidades impreteríveis, amiúde alcança o clínico ver o invisível e palpar o insondável. É certo que entra nessa operação analítica, um pouco de aptidão ingênita do observador, um pouco desse produto do inconsciente que todos trazemos com a mais sólida camada da nossa organização psicológica. Numa época da nossa profissão em que o exame cuidadoso do doente está sendo relegado para um plano secundário, absorvidos os médicos de hoje com dezenas de exames laboratoriais, alguns de interpretação ainda discutida, é suavemente bom e agradável a leitura de um grande livro de Semiótica e que acaba de ser publicado pelo Prof. José Ramos Junior. Conheci o ilustre colega quando ainda acadêmico, na velha Santa Casa de São Paulo, orientado pelo seu mestre Prof. Jairo Ramos, no Serviço do Prof. Rubião Meira, de saudosa memória. Naquela época, o exame do doente era praticado com cuidados extremos, contando o médico com os poucos recursos laboratoriais da época. Mas, assim mesmo, a Medicina Paulista conheceu e viveu um período de real esplendor e progresso. A arte de examinar o doente foi sempre coisa sagrada na velha enfermaria do Prof. Rubião Meira. E, por isso, daquele Serviço saíram grandes expressões da nossa medicina, homens de trabalho e de disciplina, que se projetaram de modo definitivo no cenário da nossa profissão.
     José Ramos Junior tem sido, entre nós, um dos grandes cultores da observação clínica, mostrando que todo e qualquer exame subsidiário, ou seja, aquele que decorre da chamada propedêutica armada, é o será sempre, orientado e solicitado pelo raciocínio resultante da análise dos elementos propedêuticos fornecidos pela interpretação fisiopatológica dos sintomas e dos sinais. É lógico que essa análise interpretativa depende dos conhecimentos de fisiopatologia e de semiotécnica rigorosamente bem executada e que, quanto mais completa e minuciosa, maiores serão os elementos para os diagnósticos funcionais, anatômicos e etiopatológicos, bem como para o prognóstico e, principalmente para a conduta terapêutica adequada, formulada em bases científicas e seguras.
     Com a responsabilidade de professor, José Ramos Junior destacou no prefácio de seu belo trabalho – dois volumes publicados graças à benemerência do Fundo Editorial Procienx – os erros e os vícios que se vêm cometendo principalmente nos chamados institutos de previdência e outros semelhantes, onde muitas vezes os pacientes são tratados por números, não se estabelecendo como seria altamente recomendado um elo de simpatia entre o médico e o doente, elemento fundamental para o reatar de novas esperanças.
     Assim, as anamneses são compostas em estilo telegráfico, muitas vezes com um exame físico sumário e falho, porque o que se deseja nesses institutos é o número de consultas e não a sua qualidade.
     A massificação da assistência médica está transformando as observações clínicas em prontuários frios e inexpressivos, sem uma sequência inteligente dos seus acontecimentos, dos seus sintomas, do reconhecimento e da personalidade dos pacientes. Por sua vez, muitos colegas se impacientam com este tipo de atividade, tratando os seus doentes sem a merecida e necessária afetividade. Destaca ainda o Prof. José Ramos Junior, nesse verdadeiro Tratado de Propedêutica, ricamente ilustrado e nascido à beira do leito do enfermo, os erros do profissional quando examina um paciente, traduzidos muitas vezes pela ostentação, pelo desprezo e até pela falta de caridade, ou seja, com a crueldade dos prognósticos infaustos ditos face a face, revelando a ostentação de quem quer demonstrar a sua “sabedoria” ou superioridade.
     Este é um livro rico de ensinamentos que deverá estar na cabeceira de todo o estudante de Medicina que precisa aprender sua profissão no sentido integral e assim exercê-la.
     A observação clínica bem realizada, adequadamente composta pela semiotécnica, é a base fundamental dos diagnósticos anatômicos, funcionais e etiológicos e, consequentemente, de um racional e científico planejamento terapêutico.
     Bem haja o Prof. José Ramos Júnior pela publicação desse oportuno livro que irá exercer fecunda influência em todo o jovem que se prepara para cumprir a mais bela e mais humana de todas as profissões. O trabalho em foco demonstra que, muitas vezes, um exame clínico cuidadoso, sem qualquer exame laboratorial, possibilita ao clínico ver o invisível e palpar o insondável, na expressão do consagrado Francisco de Castro. A Medicina brasileira está de parabéns.

Fonte bibliográfica:
Lacaz, Carlos da Silva – Temas de Medicina – Biografias, Doenças e Problemas Sociais. Lemos Editorial, 1997, págs. 242-243.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Biografia do Prof. Dr. José Ignácio Lobo



A partir de texto de Gustavo Friozzi

     José Ignácio Lobo nasceu em São Paulo em 14 de fevereiro de 1900, filho de Jerônimo Álvares Lobo e Maria Eliza de Azevedo Lobo. Matriculou-se em 1912 no Colégio Arquidiocesano de São Paulo, onde fez o então Curso Ginasial, que concluiu em 1916.
     Após prestar exames em lugares como o Ginásio do Estado da Capital e a Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, decidiu-se por cursar esta última, onde graduou-se em 1923.
    A partir do fim do terceiro ano do Curso Médico, começou a frequentar, na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, o Serviço de Clínica da Segunda Enfermaria de Mulheres, da qual era chefe o Dr. Ribeiro Almeida, tendo aí trabalhado sob a orientação do então assistente Dr. Raul Margarido. Ainda como aluno trabalhou nos postos de Profilaxia da Sífilis. No último ano do curso foi Interno do Hospital de Isolamento de São Paulo (depois Hospital Emílio Ribas). Foi presidente do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz. Em seu doutoramento defendeu tese sobre “Menstruação e Corpo Lúteo”, sendo aprovado com distinção.
     Exerceu a Clínica inicialmente na cidade de Ourinhos, onde ficou até 1925. Nessa época ingressou no Serviço do Professor Rubião Meira, na Segunda Enfermaria de Homens da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Dessa forma, foi indicado pelo Prof. Meira para Assistente Extraordinário da Terceira Cadeira de Clínica Médica da Faculdade de Medicina, indicação essa renovada anualmente, sendo a última das quais em março de 1936, conforme o título da nomeação.
     Em julho de 1932, foi nomeado adjunto do Hospital São Luiz Gonzaga, em Jaçanã. Esse cargo foi logo interrompido, em virtude da Revolução Constitucionalista. Durante esta, não pode prestar serviços médicos nem no Hospital Central da Santa Casa, nem em outro hospital, por ter-se incorporado às forças paulistas em operação no Setor Sul. De regresso, reassumiu suas funções na Santa Casa e no Hospital São Luiz Gonzaga.
     Em 1933, José Ignácio Lobo participou da fundação da Escola Paulista de Medicina, onde tornou-se Professor Catedrático de Clínica Médica.
     Em maio de 1936, foi aprovado em concurso para Livre Docente de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de São Paulo. Continuou a auxiliar o curso prático da Terceira Cadeira de Clínica Médica, e trabalhando na Segunda Enfermaria de Medicina de Homens da Santa Casa de São Paulo até outubro de 1938. Na ocasião, a convite do Prof. Ribeiro de Almeida, passou a trabalhar na Segunda Enfermaria de Medicina de Mulheres da Santa Casa, onde permaneceu até meados de 1944.
     Em 1943, teve revalidado seu título de Livre Docente de Clínica Médica pela Congregação da Faculdade de Medicina de São Paulo, mediante novo concurso de títulos, conforme ordenava a Lei.
     Em novembro de 1945, foi transferido do cargo de adjunto efetivo do Hospital São Luiz Gonzaga para cargo similar na Santa Casa. Em maio de 1946, foi promovido a Chefe de Clínica da Segunda Enfermaria de Medicina de Homens da Santa Casa. Exerceu essa Chefia até 1953, quando solicitou exoneração do cargo. A Mesa Administrativa da Irmandade conferiu-lhe, em maio de 1955, o título de Médico Emérito, em reconhecimento a serviços prestados.
     O Prof. Lobo foi pioneiro e precursor de estudos endocrinológicos em São Paulo, juntamente com Thales Martins. Com a supressão do serviço de Endocrinologia do Instituto Butantã, houve a transferência do pessoal e do arquivo de casos para a Escola Paulista de Medicina, concomitantemente à criação da Disciplina de Endocrinologia no recém-criado Departamento de Medicina pelo Prof. Jairo Ramos, que indicou, e foi aprovado pela Congregação, o Dr. Lobo. Conforme Gustavo Friozzi, concomitantemente foi criada a Disciplina de Moléstias Infecciosas. O Prof. Lobo aposentou-se na EPM em 1968.
     Participou várias vezes do antigo Conselho Técnico Administrativo da EPM, mesmo após se aposentar. Assim também do Conselho Deliberativo da Sociedade Paulista para o Desenvolvimento da Medicina, mantenedora do Hospital São Paulo.
     Foi membro de várias bancas examinadoras em concursos de professores e docentes. Publicou mais de 200 trabalhos, entre teses, monografias e artigos científicos. Mesmo após aposentado exerceu, em comissão, o cargo de Assistente Técnico da Coordenadoria dos Serviços Técnicos Especializados da Secretaria da Saúde.
     Nas palavras de Gustavo Friozzi:
     “Durante o tempo que trabalhamos com o Dr. Lobo, pudemos verificar a vivacidade de sua inteligência e a profundeza de sua cultura. Chegava à Enfermaria lá pelas dez horas e passava em revista todos os leitos (33), orientando a terapêutica ou ajudando a esclarecer o diagnóstico. Tendo sido convidado a dirigir o Departamento Científico da Laborterápica, teria podido, como o fazem muitos, aparecer de vez em quando na Enfermaria e manter-se chefe titular. Mas o caráter de José Ignácio Lobo não permitia tal rasgo à sua concepção do dever. Não podendo dar, como queria, a assistência e a atenção que seu cargo requeria, preferiu demitir-se, a manter-se como titular figurativo. Foi uma pena. Perdeu a Santa Casa um grande clínico e eu um grande mestre e amigo”.
     Continua Gustavo Friozzi:
     “Novamente a Enfermaria foi posta em concurso, vencendo-o o Dr. Ulysses Lemos Torres, digno substituto de Ignácio Lobo e continuador da grande obra de seu pai, o falecido Prof. Lemos Torres, introdutor da semiótica médica em nosso meio, que muito contribuiu para formar grandes clínicos como: Jairo Ramos, L. Decourt, J. Lobo, Ulhôa Cintra, B. Tranchesi e outros”.
     Sobre o Prof. Lobo, diz ainda Gustavo Friozzi, em publicação de 1977:
     “De estatura mediana, esguio, com farta cabeleira grisalha, sempre elegantemente trajado, o Dr. Lobo lembra a figura dos médicos ingleses descritos por Cronin. Patriarca “ancien stile”, é o pai de 10 filhos”.   
     No jornal O Estado de São Paulo de  7 de fevereiro de 1994 lê-se nota de falecimento do Prof. José Ignácio Lobo, com 94 anos. o jornal acrescenta que, em setembro de 1963, na sessão solene da congregação da Escola Paulista de Medicina, comemorativa dos 30 anos de fundação da Escola, pronunciou longa oração, quando destacou: “tem sido de fato uma constante desta Escola, a preocupação com os métodos de ensino, com a técnica do ensino, com a ciência do ensino”. E aos alunos disse: “para usar uma linguagem estudantil, dir-vos-ei agora, nesta festa trintenária, que a 'escolinha' dos vossos antecessores se tornou a 'Paulista' de nossos dias, guardai bem e defendei melhor, este nome, assim no que ele exprime de transmutação dos conceitos, como no que ele significa de tradição gentílica. Guardai-o com a alegria da mocidade, com a altivez de homens livres e com a dignidade que a Providência Divina, a quem rendemos graças, imprimiu em cada um de nós”.
     Continuando a notícia, o Prof. José Ignácio Lobo era filho do Sr. Gerônimo Alves Lobo e de d. Maria Elisa Lobo, falecidos. Era casado com d. Maria Rita Lobo. Deixa os filhos, Marcelo Lobo, casado com d. Lucila Figueiredo Lobo; Guilherme Lobo, casado com d. Elisabeth Lobo; Maria Claúdia Lobo; Maria Ercília Lobo; Maria Gilda Lobo; d. Elisabeth Lobo Brennan, casada com Laurence Brennan; d. Heloisa Lobo Teixeira da Silva, casada com o sr. Luiz Teixeira da Silva; Jorge Garcez Lobo, casado com d. Regina Lobo; Flávia Lobo, solteira, e Rogério Lobo, solteiro. Deixa ainda netos e bisnetos. O enterro realizou-se no dia 5, às 12 horas, no Cemitério Gethsemani.   

Fonte bibliográficas: 
Friozzi, Gustavo – José Ignácio Lobo in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, págs. 104-107.
Acervo do jornal O Estado de São Paulo. 

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Biografia de José Bonifácio Medina


A partir de texto de Octaviano Alves de Lima Filho e de texto Carlos Alberto Salvatore.

     José Medina nasceu em São Paulo em 20 de abril de 1900. Graduou-se em Ciências e Letras pelo Ginásio de São Paulo. Formou-se pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo em 1923, com a tese “Levantar Precoce das Laparotomizadas”, aprovada com distinção.
     O seu pendor pela Ginecologia manifestou-se ainda nos bancos acadêmicos, quando cursava o quarto ano médico. Foi o memorável concurso de seu ilustre antecessor, o Professor  Nicolau de Moraes Barros, legítimo fundador da Escola Ginecológica Paulista, na renhida disputa da cátedra, em 1921, que tanto o fascinou e o fez enveredar pelo terreno da especialidade da qual  veio a tornar-se devotado cultor e lídimo representante em nosso meio.
     O seu ulterior com Moraes de Barros, na Faculdade de Medicina, primeiro como aluno, depois como assistente, fez crescer, dia após dia, a sua admiração pelos invulgares predicados de inteligência, cultura e caráter de seu mestre, ao mesmo tempo que o incentivava ao estudo da especialidade a que tem dedicado, com extrema devoção e infatigável carinho, toda a sua vida profissional.
     Após a colação de grau como assistente voluntário, assistente extranumerário, em seguida como segundo assistente e, finalmente, a partir de 1934, como primeiro assistente e chefe de Clínica da Cadeira de Clínica Ginecológica da Faculdade de Medicina de São Paulo, função que desempenhou, ininterruptamente, com reconhecida competência e admirável alento, durante dez anos, foi nomeado, em 1944, Professor Interino de Clínica Ginecológica, cargo no qual se manteve até prestar concurso, no ano seguinte, para a cátedra vaga com a compulsória do Professor Moraes Barros.
     Nesse espaço de 20 anos, soube José Medina amealhar sólidos conhecimentos em todos os setores da especialidade e não tardou em se firmar como valor dos mais expressivos e respeitados de nosso ambiente universitário. Tendo forjado toda a sua formação de especialista na escola de Moraes de Barros, deste mestre herdou os predicados de clareza na exposição de ideias e na transmissão de conhecimentos, um apurado senso clínico e grande destreza cirúrgica. Além disso, destacou-se sua capacidade, como professor, de formar escola, em ambiente de elevado valor científico e espírito de colaboração. Inúmeros foram os que contaram com sua orientação e estímulo na Faculdade de Medicina e na Escola Paulista de Medicina. Além disso, numerosos discípulos que não seguiram a carreira universitária levaram seus conhecimentos a rincões os mais variados.
     Tornou-se livre-docente em Ginecologia na Faculdade Nacional de Medicina do Rio de Janeiro, em 1938. Em 1945, Moraes de Barros atingiu a aposentadoria compulsória. Em concurso de títulos e provas, em maio do mesmo ano, José Medina conquistou a cátedra, com nota máxima em todas as provas e com a tese “Carcinoma do Corpo do Útero e Hiperplasia Basal do Endométrio”.
     Em 20 de outubro de 1948 instalou a Clínica Ginecológica do Hospital das Clínicas. Deu início a campanhas de prevenção do câncer de colo do útero pela colposcopia e citologia vaginal oncótica. Iniciou com seu assistente, Paulo Gorga, a laparoscopia. Com seu chefe de Clínica, José Galucci, montou os setores de Endocrinologia, Infanto-Puberal, Patologia Mamária, Urologia Ginecológica, Psicossomática em Ginecologia.
     Em 1961 foi criado o Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que José Medina dirigiu como catedrático, após concurso de títulos. Alcançado pela aposentadoria compulsória e, 1970, foi substituído na direção da Disciplina de Clínica Ginecológica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo pelo seu discípulo Carlos Alberto Salvatore, após concurso de títulos e provas.
     Na Escola Paulista de Medicina seu nome está inscrito entre os fundadores. Catedrático de Clínica Ginecológica, dirigiu com proficiência e dignidade o ensino e as atividades da disciplina de 1938 a 1966, quando teve de afastar-se por força da compulsória. Esta, em obediência às leis federais de então, ocorria cinco anos antes da então idade da aposentadoria compulsória, que era de setenta anos. Por isso, pareceu a seus discípulos uma regra drástica e cruel, pois apanhou o mestre em pleno fulgor de sua capacidade intelectual.
     Octaviano Alves de Lima Filho conta que o curso de Ginecologia da primeira turma, em 1938, era ministrado no subsolo de velha mansão situada na Rua Conde de Pinhal, onde funcionavam, temporariamente, os serviços de ambulatório. Com a posterior construção do Hospital São Paulo, as várias disciplinas foram instalando suas enfermarias no mesmo. As atividades da Ginecologia, no entanto, continuaram no ambulatório “acanhado”, “de impressionante pobreza”, conforme o autor. Mas o Prof. Medina fez uso de proventos próprios, além da ajuda de entidades civis e estatais, de modo que conseguiu instalar, em 1941, no terceiro andar do Hospital São Paulo, a Enfermaria de Ginecologia com 12 leitos. Todo o material foi praticamente de doação do Prof. Medina, conforme afirmou o Prof. Octaviano. Este veio a substituir o Prof. Medina em 1966, inicialmente como livre-docente e em 1968 como Professor Titular.
     O Prof. José Medina publicou mais de uma centena de trabalhos. Conquistou o Prêmio Alvarenga da Academia Nacional de Medicina, em 1933, com o trabalho “Metropatia Hemorrágica Ovariana” e o Prêmio Arnaldo Vieira de Carvalho, da Associação Paulista de Medicina, em 1940, com o trabalho “Fisiopatologia Menstrual”. Além de artigos em revistas nacionais e estrangeiras, publicou diversos livros sobre a especialidade, como “Propedêutica Ginecológica” (1933 e 1954), “Como Tratar Anexites” (1935), “Patologia do Colo Uterino” (1945), “Hiperplasia da Camada Basal do Endométrio, Endometriose Interna e Carcinoma do Corpo do Útero” (1945), “Fisiopatologia Menstrual” (1969).
     Participou de oito bancas examinadoras de concursos para catedrático em Ginecologia e em Obstetrícia, nas principais escolas médicas do Brasil, além de integrar mais de cinquenta comissões julgadoras de concursos de livre-docência e defesas de tese de doutorado.
     Foi grande incentivador dos cursos de especialização e atualização em Ginecologia e Obstetrícia. Promovia-os anualmente com afluência de profissionais de todo o país.
    Membro das principais sociedades tocoginecológicas nacionais e internacionais, foi ativo participante de conclaves científicos da especialidade, tendo presidido congressos brasileiros de Ginecologia e Obstetrícia em São Paulo, em 1954 e 1969. Foi condecorado com a “Ordem do Mérito Médico”, na classe Grã-Cruz, conferida pelo Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira.
     O Prof. José Medina herdou de Moraes Barros a filosofia ginecológica alemã, de mod que dificilmente concordava com outras escolas. Preparou excelentes assistentes na Faculdade de Medicina: José Galucci, René Mendes de Oliveira, Paulo Gorga, Franz Muller, Armando Bozzini, Mário Nóbrega, Cosme Guarnieri Neto, Álvaro Cunha Bastos, José Roberto Azevedo, Hans Halbe, Carlos Alberto Salvatore. Na Escola Paulista de Medicina foi sucedido pelo Prof. Octaviano Alves de Lima Filho.
    Na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o Prof. José Medina aposentou em 20 de abril de 1970. Faleceu em 31 de março de 1993, com quase 93 anos de idade.

Fontes bibliográficas:

1 – “José Medina” escrito por Carlos Alberto Salvatore, com adaptações de Hélio Begliomini no site da Academia de Medicina de São Paulo, acessado em
https://www.academiamedicinasaopaulo.org.br/biografias/157/BIOGRAFIA-JOSE-MEDINA.pdf

º2 – “José Bonifácio Medina” por Octaviano Alves de Lima in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Organizado por José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, págs. 99-103.

domingo, 16 de setembro de 2018

Biografia de Flávio Oliveira Ribeiro da Fonseca


A partir de texto de Carlos da Silva Lacaz

     Flávio Fonseca nasceu na cidade do Rio de Janeiro, a 12 de setembro de 1900. Diplomou-se em 1923 pela Faculdade Nacional de Medicina, radicando-se em São Paulo desde 1926.
     Fez concurso (que foi anulado) de língua e literatura alemã do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, onde defendeu a tese – “Considerações de ordem lexicológica sobre o substantivo alemão”, em concurso para Catedrático. Formou-se pela Aliança Francesa e falava fluentemente o francês, o inglês e o alemão. Interessado em corresponder-se com colegas da União Soviética e da Holanda, aprendeu também o russo e o holandês.
     Dedicava-se também à caça, de onde trazia os ácaros necessários às suas pesquisas no Butantã.
     Especializou-se em Parasitologia e Zoologia Médica, trabalhando ativamente nos laboratórios do Instituto Oswaldo Cruz. Em 1925 percorreu, em viagens de estudos, os sertões de Mato Grosso e as florestas da Bolívia, como médico, durante as construções da Estrada de Ferro Transcontinental Brasil-Bolívia.
     Em 1926, veio substituir, na Faculdade de Medicina de São Paulo, o catedrático de Microbiologia e Imunologia e aí lecionou até 1931. Neste ano vinculou-se ao Instituto Butantã, chefiando a Seção de Parasitologia.
     A partir de 1933, ocupou a Cátedra de Parasitologia da Escola Paulista de Medicina, da qual foi um dos fundadores, nas primeiras reuniões realizadas à rua Oscar Porto, a 1 de junho de 1933.
     Na Escola Paulista de Medicina fez parte do Conselho Técnico Administrativo e paraninfou uma de suas turmas.
     Diretor do Instituto Butantã por sete vezes, tornou-se grande especialista em acarologia, descrevendo numerosos ácaros parasitas de vertebrados da América do Sul.
     Deixou no Instituto Butantã cerca de oitenta mil exemplares de ácaros, sendo, provavelmente, uma das maiores coleções do mundo. Além de inúmeros trabalhos versando sobre ácaros, publicou vários outros sobre protozoários, entomologia médica, riquetsioses, etc.
     Manteve correspondência com acarologistas das Américas e da Europa.
     Descreveu diversas espécies novas de protozoários, entre os quais o Plasmodium simium, de primatas. Eleva-se a 130 0 número de trabalhos que publicou, além de magnífica e importante monografia sobre “Animais Peçonhentos” (Butantã, 1949).
     Como Diretor do Instituto Butantã obteve bolsas para diversos pesquisadores brasileiros na Europa e Estados Unidos; e do exterior trouxe também pesquisadores para estágio e pesquisa.
     Fundador da Sociedade Brasileira de Entomologia, do Clube Zoológico e do Parque Zoológico de São Paulo, era membro da Royal Society of Entomology de Londres, bem como da Sociedade Brasileira de Biologia e do Comitê Internacional da Review of Acarology.
     Nos seus trabalhos sobre malária, confirmou a hipótese da importância exercida pelos anofelinos do gênero Kerteszia na transmissão daquela protozoose nas matas e serras, o que por mais de 40 anos fora posta em dúvida. Flávio da Fonseca colaborou, igualmente, na luta antimalárica, tendo chefiado o Serviço de Profilaxia da Malária de São Paulo, nele introduzindo em 1946 o emprego do DDT e de medicamentos sintéticos modernos.
     No Instituto Butantã, aperfeiçoou as técnicas de preparo do soro antitetânico e de outros produtos imunoterápicos.
     Na Revolução Constitucionalista de 1932 foi comissionado como oficial médico, inspecionando as frentes de batalha em companhia de seu sogro, Eloy Lessa, diretor médico do Serviço Sanitário da Secretaria da Saúde.
     Por ocasião da comemoração do Quarto Centenário da Cidade de São Paulo recebeu do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo a medalha da Imperatriz Leopoldina, por trabalho apresentado e então publicado em volume São Paulo em Quatro Séculos, contendo outros trabalhos sobre diversos ramos de atividade, de cientistas e historiadores.
     Membro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, apresentou em suas reuniões anuais diversos trabalhos científicos. Contribuiu em duas edições do livro “Atualização Terapêutica” com trabalhos de sua especialidade. Tomou parte em Bancas Examinadoras para o preenchimento de cátedras de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia.
     A medicina era tradição de sua família. Seu pai foi secretário perpétuo da Academia Nacional de Medicina, seu irmão, Olympio da Fonseca Filho (1895-1978) era parasitologista consagrado, tendo sido Diretor do Instituto Oswaldo Cruz, do Instituto de Pesquisa da Amazônia e da Faculdade de Medicina da Praia Vermelha.
     O Prof. Flávio da Fonseca faleceu em São Paulo, no dia 22 de maio de 1963, aos 62 anos. Ocupando numerosos cargos de relevo, foi grande técnico, professor e administrador, com trabalhos científicos de repercussão internacional.

Fontes bibliográficas:
Lacaz, C.S. – Flávio Oliveira Ribeiro da Fonseca (1900-1963) in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Organizado por José Ribeiro do Valle. Editora Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, págs. 82-85.
Entrevista com Olympio da Fonseca Filho acessado em
http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/historia-oral/entrevista
tematica/olympio-da-fonseca