sexta-feira, 1 de junho de 2018

Biografia do Prof. Dr. Dorival Macedo Cardoso



Baseada em texto de José Leal Prado

Dorival Cardoso nasceu em 14 de julho de 1907 em São Paulo. Formou-se em Medicina em 1930, pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Lá, foi influenciado pelo Instituto de Manguinhos (Curso de Química) e dos irmãos Ozório de Almeida. Pouco depois de sua graduação, iniciou carreira científica no Instituto Biológico de São Paulo. Nesse local desenvolveu uma série de trabalhos, alguns dos quais sob a inspiração de Paulo Enéas Galvão. Estes trabalhos, cerca de dezessete, versaram sobre permeabilidade muscular, vitaminas A, B e C, avitaminoses e endocrinologia experimental, e ocorreram num período aproximado de 20 anos (1930-1950).
Em 1934, Dorival Cardoso tornou-se o primeiro professor de Química Fisiológica da Escola Paulista de Medicina e, com exceção do ano de 1940, em que o curso foi ministrado por J. Papaterra Limongi, o Prof. Cardoso ministrou regularmente a maioria das aulas teóricas desta disciplina do curso médico até 1942.
Em 1943, quando o Dr. José Leal Prado foi convidado por Cardoso e por Ribeiro do Valle para ser Assistente de Química Fisiológica, essa disciplina estava aos cuidados de João Pereira Junior, então colaborador do Prof. Galvão em seus trabalhos experimentais no Instituto Biológico de São Paulo. Em 1944, Dorival Cardoso voltou a ministrar algumas aulas teóricas, mas já estava mais interessado em desenvolver nova etapa na vida profissional ligada à indústria farmacêutica. Suas aulas teóricas eram curtas, conforme testemunho do Prof. Leal Prado, e a ele pareciam refletir alguém voltado para outras preocupações.
O curso prático de Química Fisiológica consistia em algumas demonstrações para grupos de alunos, em sala acanhada, o que contrastava com a intensidade dos exercícios práticos individuais a que o Prof. Leal Prado estava acostumado no curso da Faculdade de Minas Gerais.
Conforme Leal Prado, apesar das qualidades e conhecimentos do Prof. Cardoso, ele não pode desenvolver satisfatoriamente a disciplina de Química Fisiológica na EPM, por ser uma escola privada que lutava com dificuldades financeiras. Mas o Prof. Cardoso demonstrou desprendimento em sua posição de professor, porque não constituiu obstáculo a novas condições que viriam a lançar as bases para as atividades científicas se tornassem permanentes nas disciplinas básicas do ensino médico.
Ainda conforme Leal Prado, no transcorrer de quarenta anos a EPM transformou-se de escola profissional pura em um centro médico misto, onde também se cria conhecimento novo. No entender do Prof. Prado, em 1977, ao escrever o texto base para esta biografia, o sucessor de Dorival Cardoso, na disciplina que passou a ser chamada de Bioquímica é que veria a transformação da EPM em um pleno centro médico-biológico de pesquisa e ensino. Este parecia já ser um sonho dos fundadores da EPM, já que convidaram para as disciplinas básicas pesquisadores promissores ou já realizados.
A partir de 1944, o espírito pragmático de Dorival Cardoso levou-o a desempenhar importante papel  no desenvolvimento de uma indústria brasileira de antibióticos e de outros produtos farmacêuticos, a Indústria Brasileira de Produtos Químicos S.A., em São Paulo, da qual foi diretor científico. Para dedicar-se a esse cargo, deixou sua ligação com o Instituto Biológico de São Paulo. Em sua própria indústria dedicou-se à investigação científica. Por exemplo, verificou que a redução do azul de metileno pode ser empregada na padronização do BCG (D.M. Cardoso e W.F. Almeida. Revista Brasileira de Tuberculose, 18:633, 1950); posteriormente descreveu um método bioquímico simples e rápido para padronização do BCG, baseado na capacidade redutora dos bacilos vivos sobre um sal de tetrazolio: ficou demonstrada uma relação linear entre quantidades de BCG vivos e o formazan obtido, de cor vermelha (D.M. Cardoso; G. Nazario; J. P. Amaral e W. F. Almeida, Revista Brasileira de Tuberculose, 20: 583-592, 1952). Artigo de 1960 registrou que em seminário internacional sobre tuberculose foi aceita a correlação entre redução do tetrazólio, contagem de bacilos e reações intradérmicas.
Em 1958, voltando a seu interesse pelas vitaminas, Cardoso observou que o teor da vitaminas B12 das fezes e rúmen varia com as condições varia com as condições alimentares dos bovinos, demonstrando correlação entre número de ciliados no rúmen e sua riqueza em vitamina B12.
Seu último trabalho versou sobre o tratamento do choque anafilático provocado pela injeção de soro equino na cobaia; foram apresentadas evidências da eficácia da associação de um anti-histamínico, de um corticoide e da adrenalina na prevenção desse tipo de choque experimental.
O Prof. Cardoso também se envolveu na administração da Associação Médica Brasileira durante 10 anos (1951-1961). A 15 de fevereiro de 1966 faleceu na cidade de São Paulo aos 59 anos de idade. A 21 do mesmo mês o Jornal da Associação Médica Brasileira publicou sua vida profissional e a lista de 27 trabalhos.

Fonte bibliográfica:
Prado, J. L. – Dorival Macedo Cardoso in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes, de José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, pags. 61-64.

sábado, 26 de maio de 2018

Biografia do Prof. Dr. Costábile Gallucci



Baseada em texto de Helio Begliomini, da Academia de Medicina de São Paulo.

Em 1921 nasce em São Paulo, Costábile Galluci.
Em 1941 ingressa na Escola Paulista de Medicina. Enquanto aluno, gostava muito de futebol e nas competições da Pauli-Poli jogava de ponta esquerda, sendo que tinha um chute muito forte, temido pelos goleiros.
Após formar-se em 1946, passou a acompanhar o Prof. Alípio Correa Netto que, de 1933 a 1953 foi o chefe da cirurgia de cabeça, pescoço, toráx e vascular. Após o término da chefia de Alípio Correa Netto, o Dr. Euryclides de Jesus Zerbini, que trabalhava junto com Gallucci nesse serviço, decidiu sair da Escola Paulista de Medicina. Assim, em 1953, Gallucci foi convidado por Jairo Ramos e Silvio Borges para chefiar a cirurgia do tórax, cargo que exerceu de março de 1953 a junho de 1956. Neste ano, Gallucci afastou-se da instituição para ajudar o pai na Casa Gallucci, loja de ferragens tradicional da rua Florêncio de Abreu, que tornou-se reduto dos fanáticos torcedores do Palestra. Gallucci chegou a ser presidente do Conselho do Palmeiras.
Em 1957, Gallucci volta à EPM, porque o chefe da cirurgia do tórax, Ruy Margutti, suicidou-se. Então, houve a divisão em duas disciplinas: cirurgia do tórax, com a chefia do Dr. Luciano Barbosa Prata e cirurgia cardíaca com Gallucci, convidado por Jairo Ramos.
Em 1962, Gallucci recebeu o título de livre-docente com o trabalho Tratamento Cirúrgico da Estenose Pulmonar Valvular (Valvulotomia Pulmonar sob visão direta, com Hipotermia).
Posteriormente, o Prof. Gallucci só assumiu o cargo de professor titular após concurso, que exigiu fazê-lo, mesmo podendo ser nomeado pelo governo, sem a necessidade de tal concurso. Isso fala da personalidade do Prof. Gallucci, que sempre foi tido por seus discípulos como exemplo de ética e correção, bem como de entusiasmo. Em sua mesa a frase “Cada um que cresce é parte de mim que cresce, portanto estou crescendo”, expressa sua visão.
Em 15 de dezembro de 1965 ingressou na Academia de Medicina de São Paulo.
Em 1967, com o falecimento do Dr. Luciano Barbosa Prata, chefe da cirurgia do tórax, houve novamente a fusão de cirurgia do tórax com a cirurgia cardíaca.
De 1977 a 1979 ele teve o cargo de vice-mestre do Capítulo de São Paulo do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.
Em 1981 acompanhou o primeiro concurso para título de especialista e primeiro congresso do Departamento de Cirurgia Torácica da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, hoje Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica.
Em certa ocasião em que sentiu-se mal, pegou um táxi e pediu para ir direto para o Hospital São Paulo, onde foi imediatamente atendido por seus discípulos que lhe colocaram um marca-passo cardíaco.
O Prof. Dr. Costábile Gallucci faleceu em 1990.
Sua disciplina passou a ser chefiada por Enio Buffolo até 29 de janeiro de 1992, quando o conselho do departamento e a congregação fizeram nova separação entre tórax e cardiovascular.
O Prof. Gallucci gostava de música clássica. Em 1984, ao adentrar a sala de aula, prontamente identificou uma música que era assobiada por uma aluna e disse “Tanhauser!”, sabendo-se tratar da obra de Wagner.
Na EPM foi vice-diretor, diretor clínico do HSP, chefe do Departamento de Cirurgia por 2 vezes.
Publicou os seguintes livros: Choque (1978); Traumatismos Torácicos (1982); Diagnóstico Diferencial das Massas do Mediastino.
Foi casado com Wally, teve 2 filhas: Cecília e Laura. Faleceu em 1990. Tem a cadeira nº 44 da Academia de Medicina de São Paulo. Dá nome a um edifício da EPM.

Fontes bibliográficas: 
https://academiamedicinasaopaulo.org.br/biografias/37/BIOGRAFIA-COSTABILE-GALLUCCI.pdf
Arquivo oral de História da EPM.

domingo, 20 de maio de 2018

Biografia do Prof. Domingos Define



A partir de texto de Marino Lazzareschi

     Entre os subescritores do manifesto de fundação da Escola Paulista de Medicina figura o Professor Domingos Define como responsável pela Cátedra de Ortopedia e Cirurgia Infantil, que regeu até 1966, ano de sua aposentadoria compulsória.
     Mais um idealista juntava-se aos Fundadores da nova escola médica e enriquecer o seu corpo docente.
     Natural da Capital do Estado de São Paulo, onde nasceu aos 30 de dezembro de 1895, fez seus estudos primários no Colégio do Carmo, concluídos em 1910, ingressando a seguir na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1911.
     Em 1916 formou-se médico, defendendo tese de Doutoramento sob o título “Apendicite Amébica”, aprovada com distinção e louvor.
     Desde o período acadêmico, demonstrou seus pendores para a cirurgia e após longo aprendizado e treinamento de Anatomia, sob a orientação do Prof. Alfonso Bovero e na Técnica Cirúrgica da então Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, orientou-se para a Ortopedia que, entre nós, esboçava seus primeiros passos. Visando especializar-se, partiu em 1923 para a Alemanha, Áustria e Itália, tidas como berço da Ortopedia moderna. Deste modo conviveu e especializou-se nos serviços de Lorenz, Hoffa, Lange e Covilla, então substituído, por motivos de saúde, pelo não menos notável Victorio Putti.
     À sua personalidade moderada e pesquisadora aliou-se rica bagagem ortopédica adquirida nos contatos tidos e vividos na Europa. Voltando ao Brasil, já com a experiência de magistério que exercera na Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, integrou-se no serviço de Ortopedia e Cirurgia Infantil da Santa Casa de Misericórdia, em dezembro de 1924, na Enfermaria chefiada pelo Prof. Luiz Resende Puech.
     Por ocasião da inauguração do Pavilhão Fernandinho Simonsen, primeiro Hospital de Ortopedia do Brasil, foi encarregado de ministrar os cursos de semiótica ortopédica, acumulando, com a responsabilidade de Chefe de Clínica e 1º Assistente, cargos que já vinha exercendo com competência e dedicação há alguns anos.
       Em 1938, por motivo de doença, Puech se afastou da chefia da Cátedra de Ortopedia e do Pavilhão Fernandinho, indicando Domingos Define para substituí-lo. Nessa época já tinha conquistado brilhantemente a livre docência em Ortopedia com a tese intitulada “Etiopatogenia da Coxa Plana – estudo experimental”.
     Em 25 de julho de 1938 deu início ao curso de Ortopedia na Escola Paulista de Medicina para a primeira turma que se formava naquele ano.
     Durante 27 anos foi o elo que uniu a Escola Paulista de Medicina ao Pavilhão Fernandinho Simonsen, ministrando até 1953 os cursos nas enfermarias do referido Pavilhão, cuja chefia assumira em 1939, por motivo de falecimento do Prof. Puech. Assim pode, em que pesassem dificuldades naturais, ministrar cursos básicos ortopédicos para a formação de especialistas.
     Suas atividades não se restringiram apenas ao setor do ensino, mas também à divulgação e incremento da especialidade no país e fora dele. Foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, Membro efetivo de inúmeras Sociedades Internacionais e da SICOT Sociedade Internacional de Cirurgia de Ortopedia e Traumatologia, onde, em 1960, no Congresso de Nova York foi declarado Delegado Brasileiro, que gentilmente recusou a favor do Prof. Barros Lima, de Recife.
     Participou de inúmeros eventos ortopédicos, organizando Jornadas e Cursos e por duas vezes presidiu o Congresso Nacional de Ortopedia.
     Projetou a Ortopedia Brasileira no campo do ensino e da ciência. Publicou numerosos trabalhos no Brasil e no Exterior, culminando na apresentação de uma variação técnica na transposição da fíbula pró-tíbia em pseudoartrose da tíbia, congênita ou adquirida em crianças e outro trabalho propondo a transposição da ulna para o rádio nas agenesias congênitas do rádio. Estas apresentações tiveram repercussão nos Congressos da SICOT, em Nova York em 1960 e em Viena, em 1963.
     Em 1970, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados à medicina brasileira foi agraciado com a Ordem do Mérito Nacional concedida pelo Presidente da República.
     Continuador emérito da obra de Puech, enriqueceu-a com sua personalidade e idealismo, formando vários professores.
     Em sua aposentadoria foi substituído, em 1966, pelo saudoso prof. Dr. Ivo Define Frascá.
     Em 1977 (ocasião do texto base desta bibliografia) seus ex-assistentes o Professor Titular Dr. Marino Lazzareschi, os professores adjuntos Isaac Sobelmann, além de Samuel Atlas, titular da Faculdade de Medicina de Taubaté. Nessa ocasião (1977) o Prof Define prestava colaboração como Consultor e Presidente Honorário do “Centro de Estudos Domingos Define”, instituído pela Ortopedia da EPM em 1971.

Fonte bibliográfica:
Lazzareschi, M – Domingos Define in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Empresa Gráfica Revista dos Tribunais, 1977, páginas 57-60.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Biografia de Décio Pereira de Queiroz Telles



A partir de texto de Dionísio Queiroz Guimarães

     Décio Pereira de Queiroz Telles nasceu em Campinas, Estado de São Paulo, a 8 de agosto de 1902, filho do Dr. Ederaldo Prado de Queiroz Telles e de Dona Maria Luzia Pereira Telles.
     Ainda criança, seus pais se transferiram para Mogi-Mirim. Fez estudos preparatórios no Ginásio de São Bento, da Capital, no Ginásio Diocesano e Instituto Cesário Mota, de Campinas e, por último, no Instituto Osvaldo Cruz, em São Paulo. Matriculou-se em 1920 na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, doutorando-se em 1925, após a defesa de Tese aprovada com distinção, sobre “Estudo Clínico da Coprobaciloscopia Tuberculosa”.
     No Rio de Janeiro, durante seus estudos, foi interno da 9ª Enfermaria de Clínica Médica da Santa Casa de Misericórdia, chefiada pelo Dr. Sylvio Muniz. Também trabalhou no Dispensário de Tuberculose da Praça da Bandeira, sob a direção do Dr. Plácido Barbosa, que orientava a Inspetoria de Tuberculose do então Distrito Federal. Em 1926, abriu consultório e foi clinicar em Campos do Jordão, onde permaneceu até 1931, tendo sido em 1930, nomeado Prefeito Sanitário dessa Estância. Em 1931 mudou-se para São Paulo e passou a frequentar a 2ª Enfermaria de Clínica Médica da Santa Casa de Misericórdia de S. Paulo, sob a chefia de Rubião Meira e assistência de Lemos Torres e Jairo Ramos. Na Revolução Constitucionalista de 1932, alistou-se no Batalhão da Liga da Defesa Paulista, como soldado, mas dele foi retirado pelo Comando Geral das Forças Paulistas, que o designou para atender todo o Hospital São Luiz Gonzaga de Jaçanã, que na ocasião estava desprovido de facultativos. Em 1933, foi nomeado médico-chefe do Ambulatório desse Hospital, onde exerceu sua atividade sob a direção de Lemos Torres até 1938. Ainda em 1933 foi nomeado Médico Tisiologista do Serviço de Saúde Escolar, criado nessa época para atender aos alunos dos Grupos Escolares da Capital. Nesse serviço permaneceu até 1938. No decurso desses anos fez várias conferências e comunicações sobre tuberculose, na Associação Paulista de Medicina e em outras sociedades médicas da Capital e do Interior. Foi também presidente da Seção de Tisiologia da Associação Paulista de Medicina. Em 1935 elegeu-se deputado à Constituinte de São Paulo, em cuja Carta Magna, nesse ano promulgada, conseguiu inserir o dispositivo constitucional que concedia 4 anos de licença, com todos os vencimentos, aos funcionários atacados de enfermidade duradoura que os incapacitasse para o trabalho e consequente aposentadoria ao termo desse prazo, com todas as vantagens do cargo, para os que não houvessem recuperado a saúde. Esse imperativo constitucional prevaleceu sempre em toda a legislação posterior, ainda hoje em pleno vigor. Em 1933, foi um dos fundadores da Escola Paulista de Medicina e escolhido para titular da Cadeira de Tisiologia. Na EPM lecionou, de início, para as alunas de Enfermagem, os assuntos de Tuberculose, bem como ministrou aulas da mesma matéria, em programas de outras Cátedras, enquanto a EPM não instalava a Cadeira de Tisiologia para os alunos de Medicina. Depois dessa instalação, não mais deixou de ensinar até sua aposentadoria. Foi relator de temas sobre tuberculose em Congressos Médicos paulistas, nacionais e internacionais, tendo publicado numerosos trabalhos sobre a especialidade. Em 1938, foi nomeado Diretor da então Seção de Tuberculose do Departamento de Saúde do Estado de São Paulo. Foi presidente da Liga Paulista Contra a Tuberculose. Em 1940, no Instituto Clemente Ferreira, organizou o 1º Curso de Tisiologia para Médicos que desejassem se instruir na especialidade. Em 1944, sob o governo do Dr. Fernando Costa, transformou a antiga Seção de Tuberculose que se compunha apenas do Instituto Clemente Ferreira e de um Ambulatório da Mooca, na Divisão do Serviço de Tuberculose, que reuniu em uma mesma e única organização, todos os serviços de tuberculose até então dispersos e subordinados a vários setores administrativos. Com a criação da Divisão do Serviço de Tuberculose, os Dispensários e Hospitais de Tuberculose, bem como ambulatórios, abrigos e outras instituições com a mesma finalidade, mesmo particulares, desde que estabelecessem convênios com o Estado, passaram a constituir um único organismo que incrementou e impulsionou consideravelmente a luta contra o mal, em todo Estado. Foram então criados e instalados muitos dispensários novos, todos modernamente aparelhados. Foram estimulados os estudos sobre a tuberculose e incentivado o entusiasmo de se lutar contra o flagelo. Fundou-se mesmo uma sociedade de estudos de tuberculose – o Centro de Estudos da Divisão do Serviço de Tuberculose, que muito contribuiu para a divulgação de conhecimentos da moléstia. Mas no aparelhamento da Divisão do Serviço de Tuberculose, que muito contribuiu para a divulgação de conhecimentos da moléstia. Mas no aparelhamento desse serviço havia de leitos, sendo que pacientes chegavam a morrer desamparados em qualquer lugar. Necessitavam ser internados. Eleito novamente deputado à Constituinte do Estado, em 1947, pugnou e conseguiu que constasse na Constituição um dispositivo que reservava uma verba equivalente a 2% do orçamento do Estado para a construção de Hospitais de Tuberculosos. Durante o exercício do magistério fez parte de bancas examinadoras de concursos para catedráticos e livre-docentes, não só em São Paulo, mas também na Bahia e no Paraná.
     Em 1955, terminando o terceiro mandato de deputado, voltou à direção da Divisão do Serviço de Tuberculose, em cujo cargo se aposentou em 1965. Nessa mesma data aposentou-se da Cadeira de Tisiologia da EPM.

Fonte bibliográfica:
Guimarães, D. Q. – Décio Pereira de Queiroz Telles in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes, por José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, páginas 53-56.

sábado, 17 de março de 2018

Biografia de Carlos da Rocha Fernandes



A partir de texto de José Ribeiro do Valle

     Carlos da Rocha Fernandes nasceu no Rio de Janeiro em 1 de fevereiro de 1891. Fez o curso primário no Colégio Salesiano Dom Bosco, em Ouro Preto; o curso secundário no Colégio Salesiano Santa Rosa, em Niterói. Cursou a Faculdade de Medicina de Medicina do Rio de Janeiro, formando-se em 28 de dezembro de 1911. Em 1912, passou a dirigir o Hospital da Laguna, em Santa Catarina. Regressou ao Rio de Janeiro e fez concurso, em 1915, para o Corpo de Saúde do Exército. Integrou a Comissão Militar, junto ao exército francês, durante a Primeira Guerra Mundial. Em 1920, foi eleito membro titular da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro.
     Em 1921, após concurso público, foi nomeado professor catedrático de Português e Francês do então recém-criado Colégio Militar de Fortaleza, onde lecionou por dois anos.
     De novo no Rio de Janeiro, dirigiu, por vários anos, o serviço de Obstetrícia na Pró-Matre como assistente do Professor Fernando Magalhães. Data desta época a sua monografia De jure vitae nesisque, contra o aborto, a fim de concorrer ao Prêmio Madame Durocher e que tanta celeuma despertou nos meios médicos da época. Em 1925 deixou a chefia da Cirurgia do Hospital Central do Exército. De 1926 a 1929 trabalhou em Uberaba, onde instalou e dirigiu a Casa de Saúde São Geraldo. Após transferir sua residência para São Paulo, reorganizou e dirigiu os Serviços de Radiologia e Fisioterapia do Hospital da Beneficência Portuguesa. Foi eleito sócio da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo e nomeado interventor da Cruz Vermelha pelo Órgão Central, em 1932.
     Em 1933 fez parte dos médicos fundadores da Escola Paulista de Medicina, resignando, em 1936, da regência da Cadeira de Física Médica. Nesse mesmo ano foi convidado e nomeado médico do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, para organizar e instalar o Departamento de Radiologia e Fisioterapia de seus serviços médicos, em cuja direção esteve até fins de 1963.
     Carlos Fernandes é autor de vários trabalhos e monografias esparsas em revistas científicas. Colaborou em vários jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo, com artigos sobre ensino e a medicina, questionando o que ocorria nessa época como curandeirismo. Colaborou com Armando Salles de Oliveira na fundação da Universidade de São Paulo.
     O autor do texto em que nos baseamos, Prof. Ribeiro do Valle, assinalou que Carlos Fernandes era profundo conhecedor de Grego e de Latim; diz também que em 10 de julho de 1973, de seu retiro na Ilha do Governador, Carlos Fernandes lhe respondeu, ao ser indagado sobre a Escola Paulista de Medicina em seus 40 anos: “Para que lembrar-me de mim? Estou com 82 anos... Por que sacudir-me a memória em busca de um passado já longínquo?... Sua atitude me fez relembrar o verso de Virgílio no segundo canto da Eneida: Infandum, regina, jubes renovare dolorem... (insuportável ó rainha, a mágoa que me convida a reviver)” E quanto à Escola Paulista de Medicina ele escreveu: “Essa criança que assisti ao nascer não teve o meu desvelo. Faltei. Fico apenas a contemplá-la de longe, cheia de encantos, de brilho, rodeada de plêiade excelsa de grandes profissionais que a ampararam e lhe dão vida faustosa... Isso me alegra e consola. Miro-a de longe e lhe desejo sempre um ridente futuro, como se deseja aos filhos de um grande amor”.

Fonte bibliográfica: Valle, José Ribeiro do - Carlos da Rocha Fernandes in A Escola Paulista de Medicina - Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e anotações recentes. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, São Paulo, pgs. 50-52. 

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Biografia de Archimede Busacca


Baseada em texto de Renato de Toledo

     “Archimede de Busacca, o imprevisível”. Com esse título, Sylvio Abreu Fialho relembrou a figura deste cientista que foi, também, um dos fundadores da Escola Paulista de Medicina.
     Imprevisível sim. Seu gênio difícil, habitualmente áspero, ríspido e mordaz na apreciação de pessoas e de coisas, deixando, apenas de quando em quando, transparecer seu fundo de bondade, criou mais antipatias e inimizades do que estima entre os oftalmologistas de São Paulo, que não o conheceram de perto.
     Talvez por isso tenha permanecido tão pouco entre os professores da EPM. Fundador, como os demais, deveria reger a Cadeira de Histologia até que chegasse a oportunidade da instalação da oftalmologia, para a qual se transferiria. Tal não aconteceu. No entanto, nunca foi negado o reconhecimento ao saber de Busacca. No Brasil e em outros países seus trabalhos foram citados e constaram entre os clássicos da oftalmologia universal.
     Pesquisador, muito mais clínico do que cirurgião, atividades para as quais não tinha paciência ou dom, desenvolveu a biomicroscopia ocular relacionando-a aos achados histopatológicos, como poucos fizeram.
     Essa sua predileção pela patologia oftalmológica veio desde sua formação universitária. Quando cursava o 2º ano de medicina, com 18 anos de idade, era já interno do Instituto Anatômico de Palermo, pa ssando posteriormente a Assistente, onde ficou até 1920. Em 1921 passou a Adjunto do Instituto de Patologia Geral de Palermo, quando se transferiu para a oftalmologia, ocupando o cargo de assistente nas Faculdades de Cagliari, Turim, Bolonha e Florença.
     Em 1926 fez concurso para Livre Docente em Oftalmologia em Florença, quando já apresentava relação de 33 publicações, a maioria sobre histologia, fisiopatologia e clínica oftalmológicas.
     Em 1928, transfere-se para São Paulo, revalidando seu diploma na então Faculdade Nacional de Medicina. Sua produção científica continua ininterrupta e com o mesmo ritmo, até março de 1971, quando faleceu, constando de seu currículo a relação de 155 trabalhos publicados em periódicos, além de 4 livros, um deles em 3 volumes, sobre biomicroscopia ocular. Praticamente nada publicou em português. Seus trabalhos figuram nas revistas alemãs, francesas e italianas.
     Busacca viveu exclusivamente para o estudo. Trabalhador incansável, avesso às atividades sociais, residindo sozinho no casarão onde também tinha seu consultório, fechava-se na enorme biblioteca todas as tardes, ao encerrar as consultas e, até altas horas, lia, revia casos de interesse, analisava desenhos de seus auxiliares, redigia trabalhos. Os poucos colegas que com ele estudavam, eram submetidos ao mesmo regime. Não admitia falha de interpretação e muito menos de observação.
     Orientou trabalhos de oftalmologistas de todo o Brasil, esclareceu dúvidas de quantos o procuraram, mas não fez continuadores.
     Momentos antes de sua morte, no Hospital da Escola que ajudou a fundar, o Dr. Renato de Toledo foi, atendendo a recomendação expressa em carta por ele entregue a seu advogado, examinar suas córneas, que deixaria para que o Banco de Córneas de São Paulo as transplantasse em dois pacientes por ele indicados.
     Conforme relato do Dr. Renato de Toledo: “Examinei, comovido, aqueles olhos sem vida, que durante sessenta anos esmiuçaram outros, e que, por sua vontade, num nobre gesto, continuariam a ajudar a ver”.
     Ainda informações adicionais sobre Archimede Busacca foram prestadas por Durval Livramento do Prado a Ribeiro do Valle:
     Busacca nasceu em Basico, Messina, na Itália, em 27 de janeiro de 1893 e diplomou-se em medicina pela Universidade de Palermo, em 1916, como aluno brilhante. Foi assistente do Instituto Anatômico de Palermo e adjunto de várias clínicas oftalmológicas universitárias. Recebeu a Cruz de Guerra por serviços prestados durante a Primeira Guerra. Em 1926 conquistou o título de Livre Docente de Clínica Oculística e honroso parecer da comissão examinadora. Seus Elements de Gonioscopie Normale, Pathologique et Experimentale foram publicados em São Paulo, em 1945, pela Tipografia Rossolillo; os 3 volumes da Biomicroscopie et Histopathologie de l’Oeil, em Zurich; a Biomicroscopie du Corps Vitre et du Fond de l’Oeil, por Masson et Cie., em Paris, em 1957 e o Manuel de Biomicroscopie Oculaire também em Paris, em 1966, por Doin-Deren et Cie.
     Antes de morrer, doou seus olhos a dois de seus clientes mais pobres, um olho para cada um, aos quais somente um transplante de córnea poderia lhes devolver a visão. A operação foi efetuada pela Sociedade Banco de Olhos do Estado de São Paulo, em São Paulo, com amplos resultados para os dois pacientes.
     Faleceu Busacca em São Paulo em março de 1971.

Referência bibliográfica:
Toledo, R. – Archimede Busacca (1893-1971) in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Organizado por José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica Revista dos Tribunais, 1977, páginas 46-49. 

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Biografia de Antônio Prudente Meirelles de Moraes


Baseada em texto de Dino Carlos Bandiera
    
     Antônio Prudente nasceu aos 8 de julho de 1906 em São Paulo e faleceu aos 17 de setembro de 1965 no Rio de Janeiro. Fez seus estudos secundários no Colégio São Bento e o Curso Médico na Faculdade de Medicina de São Paulo, tendo se formado na turma de 1928. Após a formatura, dedicou toda a sua existência ao ensino médico, principalmente à formação de Cancerologistas e à luta contra o câncer no Brasil.
     Em 1929, defendeu tese inaugural de doutoramento aprovado com grande distinção, sobre “Tratamento dos Fibromiomas Uterinos”. Nesse mesmo ano, seguiu para Berlim, onde, durante dois anos, no Serviço de Franz Kaiser, preparou-se e adquiriu grande experiência no tratamento cirúrgico de neoplasias malignas.
     Em 1933 iniciou a mobilização da opinião pública, através de uma série de artigos publicados em “O Estado de São Paulo”, sobre o problema do câncer. Foi em 1934, por ocasião do banquete oferecido ao Prof. Antônio Cândido de Camargo, que na época se aposentava, que conseguiu grande número de assinaturas de médicos presentes, o que tornou possível a fundação da Associação Paulista de Combate ao Câncer. As dificuldades para arrecadação de fundos, no início, foram enormes. Graças, porém, a relações pessoais com o Comendador José Martinelli, obteve do mesmo, donativo substancial. Foram iniciadas então, em 1946, as famosas campanhas contra o câncer, que não só esclareceram o público, como também proporcionaram fundos para a compra do terreno e construção do Instituto Central. E, assim, em 1948, foi instalada a Primeira Clínica de Tumores da Associação Paulista de Combate ao Câncer, no Hospital Santa Cruz. Nessa Clínica, foram preparados médicos para mais tarde assumirem as respectivas funções no Instituto Central.
     A construção do Instituto Central, primeira obra particular no gênero em nosso país, foi realizada graças ao sucesso obtido com as campanhas de fundo, sendo possível a sua inauguração em abril de 1953.
     O trabalho dedicado ao estudo do projeto e a fiscalização da construção, assim como à seleção do equipamento sob a máxima economia, dificilmente poderá ser relatado. O Instituto Central logo se tornou Centro de Ensino, onde se formaram cancerologistas hoje em atividade no país.
     A dedicação de Antônio Prudente, secundado pela atividade sem par de sua esposa Dona Carmen Annes Dias Prudente, permitiu manter bem alto o padrão da Instituição. Exerceu em dois períodos as altas funções de Diretor do Serviço Nacional de Câncer. Suas atividades na luta contra esse flagelo não se limitaram ao Brasil. No terreno internacional teve ação permanente, desde 1947, quando foi designado Membro da Comissão Diretora da União Internacional Contra o Câncer. Ocupou vários cargos nessa organização, e a ele se deve não ter havido cisão entre elementos europeus e americanos da Entidade.
     Em 1950, durante o Congresso de Paris, foi eleito Presidente do VI Congresso Internacional de Câncer. Apesar das dificuldades inerentes ao nosso meio, pode realizar, em São Paulo, Congresso de tal repercussão que foi considerado pela Unesco o mais organizado Congresso do ano.
     Neste Congresso, realizado em 1954, data da comemoração do IV Centenário da Fundação da Cidade de São Paulo, estiveram representados 54 países; contou com cerca de 1200 congressistas.
     Antônio Prudente participou ainda, como Delegado do Brasil, dos Congressos Internacionais de Câncer de Madrid (1933), Bruxelas (1936), Estados Unidos (1947), Paris (1950), Bombaim (1956), Londres (1958) e Tóquio (1960). Quanto à sua atividade didática devemos assinalar que em 1931 foi nomeado Assistente da Cadeira de Técnica Cirúrgica da Faculdade de Medicina, onde cooperou com Benedito Montenegro no curso regular dado anualmente até 1934.
     Em 1935 foi escolhido professor da Cadeira de Cirurgia Reparadora e Plástica da Escola Paulista de Medicina, sendo também um dos professores fundadores da EPM.
     Em 1939, tornou-se Docente de Técnica Cirúrgica da Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, após concurso de Títulos e Provas, tendo defendido na ocasião a tese “Reparação no Câncer”.
     Proferiu, como convidado, aulas em várias Faculdades de Medicina do Brasil, tais como Nacional de Medicina, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Universidade de São Paulo, Bahia, Pernambuco. Ainda como convidado, proferiu aula na Faculdade de Medicina de Paris, New York, Buenos Aires, Montevideo, Assunção, Rosário de Santa Fé, Santiago do Chile, Lima, México, Chicago, Saint Louis, New Orleans, Tóquio, Cairo, Berlim e Roma.
     Tomou parte em várias Bancas Examinadoras de Concursos para Catedráticos e Docentes de Clínica Cirúrgica, Técnica Cirúrgica, Ortopedia e Ginecologia, em várias Faculdade Médicas do país. Entre cargos e funções exercidas convém destacar: 1º Diretor Presidente do Instituto Central do Câncer de São Paulo, Vice-Presidente da Pan-Pacific Surgical Society, Membro da Comissão Diretora e Vice-Presidente da Union Internationale contre le Cancer, Presidente da Sociedade Latino-Americana de Cirurgia Plástica, Presidente do 1º Congresso Latino-Americano de Cirurgia Plástica.
     Publicou cerca de 200 trabalhos em revistas médicas nacionais e estrangeiras, alguns dos quais constituíram contribuições originais, por exemplo, referentes ao tratamento hormonal do câncer de mama, à amputação interescápulo-torácica, transplantes livres de músculo, ligadura da aorta abdominal, melanoma maligno, regeneração de tecidos. Publicou sete livros entre os quais Nouvelles Techniques Operatoires dans la Chirurgie du Cancer, Masson & Cia, Paris 1951, teve grande repercussão. Pertenceu a 26 sociedades científicas das quais 13 estrangeiras.

Fonte bibliográfica:
Escola Paulista de Medicina - 40 anos - e fatos recentes. José Ribeiro do Valle, 1977.