quarta-feira, 26 de abril de 2023

Biografia do Prof. Dr. José Ramos Junior

 

A partir de texto do Prof. Dr. José Carlos Ramos de Oliveira

 

          José Ramos de Oliveira Júnior, que se tornou mais conhecido como José Ramos Junior, nasceu na cidade de Cachoeira Paulista, no estado de São Paulo, no dia 5 de novembro de 1911. Filho de José Ramos de Oliveira e de Dona Noêmia Macedo Ramos de Oliveira, passou sua primeira infância em sua cidade natal, e depois mudou-se com os pais para a capital do estado, vindo a morar no bairro do Brás.

          José Ramos teve uma irmã e dois irmãos, sendo que o mais novo também estudou medicina, tornando-se cirurgião e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o Prof. Dr. Mário Ramos de Oliveira, que, além disso, chegou a ser Diretor dessa mesma Faculdade.

          O professor José Ramos Júnior, como era conhecido no meio acadêmico e profissional, fez seus estudos secundários no “Gymnasio do Estado de São Paulo”, onde ingressou em 1924 e bacharelou-se no ano de 1929, conforme se designava então essa formatura algo equivalente a um segundo grau, guardadas as devidas diferenças.

          Após um ano de preparação, ele ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, graduando-se médico na turma de 1936. Durante o curso de medicina, José Ramos Junior dava aulas particulares a alunos interessados em prestar exames para o ingresso na Faculdade de Medicina, de modo que, com isso, desenvolveu sua aptidão para ser professor.

          Ele fez estágios em Clínica Médica no serviço do Prof. Rubião Meira na Santa Casa de São Paulo e no serviço do Prof. Jairo Ramos na Escola Paulista de Medicina, onde, além da assistência aos pacientes, ministrava ensinamentos a graduandos de medicina e médicos recém-formados. Inclusive, ele foi citado pelo Prof. Dr. José Reynaldo Marcondes no livro sobre os 40 anos da Escola Paulista de Medicina, a respeito do ensino prático a partir de 1936, conforme vemos no texto a seguir (grifo nosso):

“Éramos todos da 2ª Enfermaria da Santa Casa, serviço do Prof. Rubião Meira, recrutados pelo Jairo para iniciar o ensino de Clínica Propedêutica Médica na EPM. O método da Escola Lemos Torres – o ensino objetivo, o exame integral acurado do doente e sua técnica, o ensino individual, a valorização dos fatos concretos, o método de raciocínio que leva ao diagnóstico, afastadas as ideias preconcebidas e desmoralizada a intuição clínica – ia ser semeado na nova escola por aquele que melhor aprendera os seus princípios, Jairo Ramos. A EPM não tinha hospital nem ambulatório, aventuraram um à Rua Tabatinguera. Octavio de Carvalho conseguiu que a direção do Hospital Matarazzo cedesse uma enfermaria vazia, sem leitos e sem doentes. Comprou camas, colchões e iniciamos o ensino. As aulas começavam a uma hora da tarde. Eu chegava antes e convidava os doentes que estavam repousando no jardim do hospital a virem se deitar nas camas a fim de que, em seus corpos, se ensinasse a propedêutica física – inspeção, palpação, percussão e ausculta. Vieram no início por curiosidade e a dois mil réis. Depois era preciso que eu os trouxesse pelo braço e com palavras de persuasão. Em seguida foi preciso aumentar o preço: cinco mil réis e muita lábia. Mas ensinávamos. Cada assistente – Sabino, Tranchese, Lotufo, Ignácio, José Ramos, Macedo, João Grieco, Reynaldo – ensinava – ensinava a turmas de 6 a 8 estudantes. Após esta aula prática havia outra teórica, quase sempre ministrada pelo Jairo, que chegava mais tarde. Foi uma luta, principalmente por parte dos que tinham que acomodar os doentes, cada vez menos dispostos a colaborar. Mas só isto não bastava. Mais de uma vez eu levei em meu automóvel um doente e sua observação clínica, da 2ª Enfermaria. Eu almoçava em casa e seguia para a aula do Jairo, depois de nossa aula prática, desta vez com um caso clínico mesmo.”

           Podemos ver, então, que o Prof. Dr. José Ramos Junior recebeu sua formação nessa assim chamada “Escola Lemos Torres” que caracterizava toda uma inovação na maneira de abordar o paciente e de formular as hipóteses diagnósticas. O sucessor do Prof. Dr. Lemos Torres foi o Prof. Dr. Jairo Ramos, ambos entre os fundadores da Escola Paulista de Medicina em 1933 e influenciadores de José Ramos.

           José Ramos Junior especializou-se em Clínica Médica e Cardiologia. Exerceu essas atividades em consultório privado, bem como sendo médico concursado junto ao antigo Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas (IAPETC), que era uma autarquia do Governo Federal, desde sua inauguração na capital paulista em 1938. Suas funções nessa instituição duraram até a extinção do IAPTEC em 1966, quando os diferentes IAPs fundiram-se no antigo INPS (Instituto Nacional de Previdência Social).

          No ano de 1940, José Ramos casou-se com a professora de ensino primário Maria Apparecida Amalfi, que adotou o nome de casada de Maria Apparecida Ramos de Oliveira. O casal teve quatro filhos, Maria Lúcia (secretária e agente de comércio exterior), José Carlos (também médico e professor de Medicina), José Eduardo (engenheiro) e Maria Cecília (professora de ensino fundamental).

          No ano de 1953, a convite do Professor Doutor Antônio Prudente, o Prof. José Ramos passou a exercer sua especialidade de clínico no recém-inaugurado Hospital do Câncer da Associação Paulista de Combate ao Câncer (APCC).  No ano seguinte, patrocinado pela APCC, ele fez estágio no Sloan Kettering Hospital, em Nova Iorque, onde obteve o título de Oncologista Clínico e aprendeu os fundamentos e a prática da quimioterapia para tratamento do câncer. Desde então, tornou-se Diretor do Departamento de Medicina Interna do Instituto Central da APCC até 1970.

          Na década de 1950, o Prof. Dr. José Ramos iniciou sua carreira como Professor Titular de Clínica Propedêutica Médica da Faculdade de Medicina de Sorocaba da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A partir de 1970, também se tornou Professor Titular de Oncologia Cínica da Faculdade de Medicina do Centro de Ciências Biológicas e Médicas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, que agregou também a antiga Faculdade de Medicina de Sorocaba.

          A convite do Diretor do Departamento de Câncer do Ministério da Saúde do Governo Federal, ministrou, com outros oncologistas, durante os anos de 1974 e 1975, Cursos Intensivos de Oncologia Clínica (CIOC) na maioria das capitais brasileiras. Tais cursos, de 40 horas, tiveram por objetivo difundir a necessidade de que as escolas de medicina ministrassem especificamente a disciplina de Oncologia Clínica em suas grades curriculares.

          Na década de 1960, recebeu o título de Fellow of the American College of Physicians (F.A.C.P.).

          O Prof. Dr. José Ramos Junior publicou vários artigos científicos, seja na observação clínica de pacientes, como também na pesquisa clínica. Ainda nos anos 60, recebeu o prêmio Pravaz-Recordati pelo trabalho experimental realizado em animais de laboratório que recebiam altas doses de corticosteroides, equivalentes ao que pacientes com câncer recebiam como tratamento, muitos apresentando morte súbita. Nesse trabalho mostrou que as altas doses de corticoides nos animais de experimentação, provocavam lesões necróticas no miocárdio.

               Em 1990, o Dr. Ramos Junior tornou-se Professor e Orientador contratado pela Disciplina de Clínica Médica e de Semiologia Clínica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Campinas (Unicamp), por convite do Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti, então Reitor dessa Universidade. 

          Além dos vários trabalhos científicos publicados, o Prof. Ramos Jr. publicou quatro livros, onde colocou toda sua vivência como clínico, cardiologista, oncologista e observador da alma humana.

          O primeiro livro, sem dúvida o de maior sucesso, pois ainda de uso prático até hoje, foi “Semiotécnica da Observação Clínica- Síndromes Clínico-Propedêuticas”. Publicado em junho de 1970, pela Editora Sarvier - Editora de Livros Médicos S.A. chegou a mais 3 edições, em 2 volumes. revisadas e atualizadas por ele, e depois em mais 2 edições, quando os dois volumes foram compostos em um único tomo pela equipe editorial. No prefácio de sua primeira edição, o Prof. José Ramos Júnior faz a síntese do livro com a afirmação de que a obra “mostra a prática médica do exame clínico, a síntese da fisiopatologia de cada sintoma e de cada sinal, para servir ao raciocínio e à compreensão das suas semiogêneses”. De certa forma, o Professor Dr. José Ramos Junior colocou em texto detalhado uma espécie de elaboração daquilo que começou como “Escola Lemos Torres”.

          O outro livro, “Oncologia Clínica”, foi publicado também pela editora Sarvier, alcançando 2 edições (1979 e 1984). Neste livro, o Prof. Ramos Jr., ao lado da descrição pormenorizada de tumores sólidos, leucemias e linfomas, sua oncogênese, classificação e tratamento cirúrgico, quimioterápico e radioterápico, avançou em conceitos da genética dos cânceres e das perspectivas futuras da imunoterapia para o tratamento do câncer. Comentou também das razões para a criação da disciplina de oncologia clínica nos cursos de medicina, o que também indica sua originalidade e criatividade ao propor inovações no curso médico nessa ocasião. 

            Em 1990, o Prof. Ramos Junior publicou o livro "Disritmia Encefálica Paroxística Primária", pela Editora Sarvier. Nessa obra ele colocou como objetivo "firmar conceitos fisiopatológicos, anatomopatológicos, e pirncipalmente clínicos e da semiotécnica da Anamnese... o propósito é tornar a descrição clínica mais completa... para que a assistência ao paciente seja a mais adequada". Não vem ao caso aqui um eventual julgamento neurológico desse conceito. Trata-se antes, como ele frisou, ainda de uma abordagem clínica adequada ao paciente, dentro dos moldes da época dessa produção.  

         Já o médico observador da alma humana apareceu na monografia “Personalidade”, publicada pela Editora Sarvier em 1991. Neste trabalho, publicado no ano que antecedeu seu falecimento, o autor colocou sua experiência como arguto observador dos tipos de personalidade que enriqueceram sua longa vida de médico e professor. No prefácio enfatizou: “Toda a dissertação contida nos capítulos teve a insistente preocupação didática em reunir e sintetizar os conhecimentos científicos sobre os tipos de personalidade...com o propósito de ser útil para o estudante de medicina, para os médicos, para o sociólogo, para o professor, para o advogado, para o psicólogo”.

          Após ter sofrido um Acidente Vascular Cerebral Isquêmico em novembro de 1991, que limitou sua prática clínica e suas atividades docentes, o Prof. José Ramos de Oliveira Júnior faleceu no Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, em 07 de outubro de 1992, por parada cardiorrespiratória consequente a um infarto agudo do miocárdio.

 

Fontes Bibliográficas:

 

Oliveira, J.C.R. Dados Biográficos sobre o Prof. Dr. José Ramos Junior, 2023.

 

Valle, J. R. – A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e anotações recentes. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977.