domingo, 2 de julho de 2017

Biografia de Rocha Lima


Baseada em texto de Edgard de Cerqueira Falcão

     Henrique da Rocha Lima nasceu no Rio de Janeiro em 24 de novembro de 1879. Era filho de conceituado clínico carioca. Diplomou-se em medicina no início de 1901, pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, com a tese “Esplenomegalia nas Infecções Agudas”. Foi dos primeiros a participarem das fileiras de Oswaldo Cruz, passando a frequentar Manguinhos ainda quando aluno.
     Mal egresso da Faculdade, seguiu para a Alemanha, em viagem de aprimoramento técnico que durou dois anos. Em Berlim frequentou o Instituto de Higiene, tomando lições de microbiologia com Martin Ficker, e o Instituto de Patologia Rudolf Virchow, especializando-se em Anatomia Patológica com Kaiserling e Orth. Bastante enfronhado nesse dois ramos do saber, voltou ao Brasil, justamente quando Oswaldo Cruz delineava em Manguinhos o plano da escola de medicina experimental, destinada ao estudo dos grandes problemas sanitários brasileiros. Ninguém em melhores condições para colaborar com Oswaldo nessa magnífica empreitada do que ele. Assim, na nova organização foi-lhe confiado um dos dois postos de chefe de serviço então criados, com o encargo de supervisionar e orientar pesquisas e instituir cursos de aperfeiçoamento e especialização, que tiveram grande sucesso.
     Duas entidades mórbidas mereceram de sua parte, nessa fase, particular atenção e estudo: o carbúnculo sintomático, que dizimava os rebanhos brasileiros, e a febre amarela, contra a qual encetara Oswaldo vigorosa campanha de extermínio no Rio de Janeiro, baseada exclusivamente na perseguição ao inseto vetor, o Aedes egypti, na época denominado Stegomyia fasciata. Orientadas as pesquisas no sentido da obtenção de um meio profilático contra o carbúnculo, alcançou-se êxito, com a chamada vacina contra a peste da manqueira, em cujo preparo se distinguiu Alcides Godoy. Estudando, por outro lado, as lesões do fígado e do rim no curso do tifo icteroide, conseguiu Rocha Lima, por volta de 1905 e 1906, traçar o quadro característico delas, traduzido por extensa necrose salpicada, predominante na zona intermédia, ao lado da esteatose, conspícua nas células respeitadas pela necrose e verificada sobretudo nas zonas interna e externa do lóbulo hepático. Tão constantes e patognomônicas se mostraram essas alterações no acometimento pelo vírus amarílico, em comparação com lesões de outros agentes, que vieram a constituir elementos definidores da doença, conhecidos por sinal ou lesão de Rocha Lima. Mais adiante, em 1911 e 1914, completando e ampliando semelhantes estudos na Alemanha, apresentou-os nesse último ano, à Sociedade de Patologia da Alemanha, em Estrasburgo, não tendo, porém, conseguido o apreço devido nessa altura. Só muito mais tarde, por ocasião do surto de febre amarela de 1928 no Rio de Janeiro, veio a ter integral confirmação o conceito anátomo-clínico da febre amarela, baseado nos achados de Rocha Lima, por parte das meticulosas observações clínicas de Sinval Lins, consagrando-se a pesquisa sistemática das lesões em apreço como exame de rotina para esclarecimento diagnóstico post mortem, mediante o emprego do viscerótomo de Décio Parreiras.
     O prestígio crescente de Rocha Lima nos meios científicos internacionais não o deixaria permanecer por muito tempo em nosso meio. Duerck, ao assumir a cátedra da Universidade de Iena, convidou-o então para o cargo de assistente-chefe do Instituto Anátomo-Patológico desse estabelecimento. Aceitando o convite, Rocha Lima retirou-se do Brasil em 1909. Foi de curta duração sua permanência em Iena: oito meses. Foi atraído por outro grande centro alemão de pesquisas. Prowazek, conhecedor de perto de suas qualidades, chamou-o para o Tropeninstitut de Hamburgo, onde se veio a integrar de modo definitivo e duradouro. De 1910 a 1928, trabalhou a fio para a instituição fundada por Bernhard Nocht no grande porto hanseático. Inúmeras foram as facilidades de que se viu então cercado. Uma seção de patologia foi especialmente criada para ele, dando-lhe campo para praticar novas e empolgantes conquistas científicas.
     Além das investigações sobre as lesões hepáticas e renais da febre amarela, que lhe ocuparam a atenção, de início, nesse novo ambiente de trabalho, propiciando margem a publicações de elevado valor, no ano de 1912, também estudou na mesma oportunidade a tripanossomose americana, estampando excelentes contribuições, já de referência à evolução do parasita (Trypanosoma cruzi) nos tecidos e no corpo dos artrópodos hospedeiros intermediários (Triatoma magista), já com relação à patogênese das lesões orgânicas da protozoose que havia sido descoberta pelo grande Carlos Chagas (outra expressão da Escola de Manguinhos), donde o nome de “moléstia de Chagas”.
     Num afã verdadeiramente trepidante, teve ainda ocasião de praticar, ao mesmo tempo, pesquisas histopatológicas sobre a verruga peruana ou doença de Carrion, esclarecendo pontos obscuros no tocante à natureza e origem das lesões características do mal e descrevendo a forma intracelular do agente causador.
     As guerras balcânicas ocorridas em 1912-1913, fazendo reacender focos adormecidos de tifo exantemático, vieram desviar a atenção de Rocha Lima para outros centros onde sua presença foi reclamada. Assim, no decorrer de 1914 firmou contrato com o Governo de Hamburgo para ir estudar aquela grave enfermidade na Turquia, a grassar no seio das tropas que voltavam do campo de batalha. Encontrava-se em Constantinopla, em companhia de von Prowazek, procedendo a investigações sobre a matéria, quando iniciou a Primeira Guerra Mundial, obrigando-o a regressar à sede de sua instituição.
     Novamente comissionado em fins de 1914 pelo IX Exército Alemão para estudar a mortífera epidemia de tifo exantemático, irrompida num campo de concentração de prisioneiros russos, localizado em Kottbus, perto de Berlim, deslocou-se Rocha Lima para essa pequena cidade, onde, também em companhia de Prowazek, iniciou novos estudos sobre o assunto. Pouco depois contraíram ambos a doença, falecendo Prowazek a 17 de fevereiro de 1915, e escapando com vida Rocha Lima, muito alquebrado pela terrível infecção. Prosseguindo nessas pesquisas no próprio Tropeninstitut de Hamburgo, e mais tarde em Wloclawek (Polônia), veio, com Prowazek, a descobrir o germe responsável pela doença, por ele apresentado ao Congresso de Patologia de Guerra, reunindo em Berlim, em 26 e 27 de abril de 1916, dando-lhe a denominação de Rickettsia prowazeki, em homenagem aos dois mártires da ciência, Ricketts e Prowazek, sacrificados pelo tifo exantemático, quando o investigavam. Com esses estudos, abriu Rocha Lima novo capítulo no domínio da microbiologia, o das rickettsioses.
     Além do tifo exantemático, fez simultaneamente pesquisas em torno da febre recurrente e da febre das trincheiras, apurando a causa desta última como sendo também mais uma Rickttesia, por ele de igual modo descoberta em 1917, a Rickettsia pediculi.
     Instituída em 1919 a Universidade de Hamburgo, passando a integrá-la o Tropeninstitut, foi Rocha Lima nomeado docente livre e, em seguida, professor de Doenças Tropicais da Faculdade de Medicina. Sua aula inaugural, proferida em 10 de janeiro de 1920, versou sobre “Clamidozoários”, assunto acerca do qual esboçara a publicação de um livro, de parceria com Prowazek prejudicado pelo desaparecimento inesperado deste último.
     Duas vezes veio Rocha Lima ao Brasil durante o período em que se fixara em Hamburgo: no ano de 1920, a convite do Governo do Estado de São Paulo para assumir a direção do Instituto Butantã, o que não se concretizou, e, em 1928, para colaborar num curso ministrado no Rio de Janeiro, a cargo do Prof. Jakob. Dessa última feita, segundo convite daquele mesmo governo, a fim de chefiar a Divisão de Patologia Animal do Instituto Biológico (que Arthur Neiva, outro membro do grupo de Manguinhos, estava organizando em São Paulo), fez com que permanecesse definitivamente em nosso meio.
     No Biológico, a cuja direção geral ascendeu em 1933, e nela se manteve até 1949, imprimiu Rocha Lima o mesmo sistema adotado em Manguinhos, no começo do século. Tratou de formar pesquisadores em esclarecer problemas ligados aos interesses dos meios rurais, no domínio da patologia animal e vegetal. Orientador, sobretudo, de tais estudos, pouco tempo lhe sobrava para dedicar-se a novas investigações. Isso não obstante, teve oportunidade de colaborar com J. Reis e K. Silberschmidt na redação de importante capítulo sobre virologia para o famoso Tratado de Abderhalden sobre métodos de laboratório.
     Em três fases distintas pode-se dividir a brilhante carreira científica de Rocha Lima: 1- de 1903 a 1909, quando trabalhou ao lado de Oswaldo, ajudando-o a organizar Manguinhos; 2 – de 1910 a 1928, a serviço da Tropeninstitut de Hamburgo, na Alemanha; 3 – de 1928 a 1949, integrando e chefiando a Divisão de Patologia Animal do Instituto Biológico de São Paulo, a princípio, e, a partir de 1933, na direção geral do estabelecimento. Foi nessa época que assinou o memorável manifesto de fundação da Escola Paulista de Medicina inaugurando os seus cursos de Anatomia Patológica cuja responsabilidade logo transferiu para Juvenal Ricardo Meyer, renomado especialista do Instituto Biológico.
     Honrarias múltiplas, sobretudo na Alemanha, não faltaram para galardoar os méritos altíssimos de Rocha Lima. Condecorado com a Cruz de Ferro, pelo Imperador Guilherme II, por iminente perigo de vida em prol da Ciência, várias outras insígnias gloriosas lhe foram colocadas ao peito. Todavia, a que mais perto lhe deve ter tocado o coração foi, sem dúvida, a Medalha Bernhard Nocht, outorgada em 1921 pelo Tropeninstitut de Hamburgo, prêmio internacional a que mais três ilustres brasileiros vieram a fazer jus. 

Fonte bibliográfica: "Henrique da Rocha Lima", por Edgard de Cerqueira Falcão in A Escola Paulista de Medicina - Dados Comemorativos de seu 40º aniversário (1933-1973) e anotações recentes. Por José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, páginas 86-91. 

domingo, 21 de maio de 2017

Biografia de Felício Cintra do Prado


Baseada em texto de João Roberto Pires de Campos

     Em 1932, visando adquirir prática de Ambulatório, informa João Roberto Pires de Campos que passou a frequentar o serviço de Clínica Médica de Homens da Policlínica de São Paulo, à Rua do Carmo, ambulatório esse dirigido por Felício Cintra do Prado, que acabava de regressar de viagem de estudos à Europa.
     Diplomado pela Faculdade de Medicina de São Paulo, em 1923, Felício Cintra do Prado iniciou sua vida profissional na área de Neurologia, na qual fez sua tese de doutoramento, Síndrome pirâmido-palidal, aprovada com distinção e distinguida  com o Prêmio Sérgio Meira de 1924, conferido pela então Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo.
     Tendo deliberado dedicar-se à clínica das moléstias do aparelho digestivo e da nutrição, empreendeu viagem de estudos à Europa, onde frequentou vários serviços hospitalares durante os anos de 1926, 1927 e 1928, especialmente em Viena e Berlim. Nesta última cidade trabalhou como assistente estagiário do Serviço do Professor Rudolph Ehrmann, no Hospital Neukoeln, onde coligiu material para o livro “Colecistite e Patologia Gastrointestinal”, laureado em 1930 pela Academia Nacional de Medicina com o Prêmio Alvarenga. De regresso a São Paulo, começou a trabalhar como clínico geral, manifestando predileção, que ainda conserva [em 1977, quando foi escrito o texto em que nos baseamos] pelos assuntos de gastroenterologia e terapêutica.
     Em 1933 começou a frequentar também o serviço da Policlínica um médico ainda moço, entusiasta, vivaz, que pouco depois falava da necessidade de criação de uma segunda Escola Médica em São Paulo: era Octavio de Carvalho, quem pouco depois, apesar da crítica e incredulidade de muitos, reunia a seu redor um grupo de médicos de escol, fundando com eles a Escola Paulista de Medicina. Para a cadeira de Terapêutica Clínica foi escolhido Felício Cintra do Prado.
     Em março de 1937 tiveram início as atividades da Cadeira, com aulas no anfiteatro da Sociedade de Medicina e Cirurgia e demonstrações práticas na Policlínica, que funcionava em 3 andares do mesmo edifício à Rua do Carmo. Foram seus assistentes, inicialmente, J. R. Pires de Campos e Francisco Xavier Pinto Lima e, posteriormente, também Reinaldo Chiaverini, Edmundo Blundi, Guido Guida, Dionysio Queiroza Guimarães, Milton Alvim Soares, Arnaldo Markman e outros. Só em 1953 a Cadeira de Terapêutica foi transferida para o Hospital São Paulo.
     Nascido em Amparo, Estado de São Paulo, a 20 de maio de 1900, Felício Cintra do Prado fez o curso secundário na cidade de Itu, no Estado de São Paulo, no Colégio São Luís dos padres jesuítas. Foi sempre um expositor brilhante, de palavra fácil e escorreita, gestos fidalgos e serenos, a evidenciarem sua primorosa educação. Acessível, desde logo soube conquistar a admiração e simpatia dos alunos que, em 1940, o escolheram como paraninfo da terceira turma de médicos formados pela Escola Paulista de Medicina. A sua oração de paraninfo “A Medicina e o Médico na Sociedade Contemporânea” (Pocai, São Paulo, 1941, 34 páginas) é um primor pelos conceitos inclusive no alerta já naquela época, dos perigos da plena socialização da Medicina de um lado e do outro do individualismo exagerado do médico [conforme palavras do autor da biografia João Roberto Pires de Campos]. Atuais e sempre oportunas são as suas expressões no final da aplaudida oração: “Mais grave, pelas suas consequências mediatas, se apresenta outro aspecto da questão, o cultural, que quer dizer crise do ensino. Trata-se, em rigor, de um período de adaptação. Não me refiro às mazelas e às fraudes do ensino, que constituem mal endêmico e pandêmico, mas à orientação do aprendizado. Vivemos uma época acentuadamente utilitarista e prática, em que se procura o rendimento máximo, rápido e fácil do trabalho, e este, mecanizado quanto possível. É o domínio, fatalmente passageiro, do material sobre o espiritual, e outras verdades sediças. O reflexo desta mentalidade já atingiu os arraiais do ensino, e o médico, influenciado pelo meio, corre agora o risco de transformar-se num simples técnico. Há mesmo os que defendem semelhante teoria, a qual terá sob algum prisma a sua justificativa, mas que, aliviando demasiado o ensino, ameaça a indispensável formação cultural do médico. Vencedora a tese, a derrota no fim será da profissão, levada aos poucos, de transigência em transigência, ao regime de práticos diplomados ou médicos licenciados, muito hábeis por certo, mas no fundo, gamelas e rábulas do ofício”.
     “Por último, o aspecto moral do problema, a crise ainda em esboço. Precisamos revalorizar a figura do profissional, desprestigiada pelo materialismo, pelo abandono das diretrizes espirituais na vida, e revalorizar não apenas pela cultura, mas também pela elevação do espírito e dignidade da conduta”.
     Felício Cintra do Prado casou-se com Leonor do Prado em 4 de outubro de 1937. Tiveram sete filhos: Luiz Eduardo, Heloísa Campos Pupo, Eleonora Velloso Roos, Fernando, Maria Cristina Prestes Motta, Felício Cintra do Prado Jr. e Patrício.
     Frequentador assíduo das reuniões da Congregação da Escola Paulista de Medicina, sua palavra criteriosa era sempre ouvida e acatada por seus pares. Também foi, durante longos anos, membro do Conselho Técnico-Administrativo da Escola, de que era muito cioso, e na crise política de 1964 exerceu com equanimidade por curto período a Diretoria da Escola.
     Tomou parte em Bancas Examinadoras de concursos de Livre Docência ou de preenchimento de Cátedra, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, entre outras.
     Foi um dos fundadores da Associação Paulista de Medicina, da qual foi Vice-Presidente nas diretorias de João Alves de Lima e Rubião Meira; e também da Sociedade de Gastroenterologia e Nutrição de São Paulo, tendo sido eleito seu Presidente, por duas vezes.
     Presidente da atual Academia de Medicina de São Paulo, em 1953, sua gestão foi marcada pela remodelação total de sua sede. Em reconhecimento ao trabalho então realizado, a Academia promoveu-lhe, em 1954, expressiva manifestação, conferindo-lhe o título de Sócio Benemérito.  
     Sua inclinação sempre foi pela Gastroenterologia, especialidade em que adquiriu grande notoriedade. Foi um dos fundadores da Federação Brasileira de Gastroenterologia, da qual chegou à Presidência. Em 1952, como relator brasileiro ao Primeiro Congresso Panamericano de Gastroenterologia realizado no México, apresentou importante trabalho sobre pancreatites. Como Secretário Geral da Comissão Organizadora do IV Congresso Panamericano, realizado em São Paulo, contribuiu incansavelmente para o grande sucesso alcançado. Participou ainda, como relator de temas oficiais, dos Congressos Panamericanos de Havana e de Bogotá.
     Ultimamente [em 1977] seu labor se tem voltado para as edições do livro “Atualização Terapêutica”, em colaboração com Jairo Ramos [em 1977, já falecido] e Ribeiro do Valle. Desde a primeira edição, de 1957, até a décima, de 1975, o livro tem constituído sucesso da literatura médica nacional, esgotando-se rapidamente suas tiragens e totalizando atualmente mais de 80 mil exemplares.
     Cintra do Prado é membro da Academia Nacional de Medicina na Argentina, da Academia Teuto-Ibero-Americana de Medicina, da Alemanha, da Sociedade Nacional de Gastroenterologia da França, da Sociedade de Gastroenterologia e membro honorário da Associação Interamericana de Gastroenterologia.
     Autor de “Clínica das Afecções do Estômago” (Edições Melhoramentos, São Paulo, 1950); de “Curso de Atualização Terapêutica”, em colaboração com o Professor José Ribeiro do Valle, coletânea das aulas proferidas por um grupo de Professores da Faculdade de Medicina da USP e da Escola Paulista de Medicina (Labofarma, São Paulo, 1952); de “Curso de Dietética”, coletânea de conferências de professores da Escola Paulista de Medicina em Curso organizado por Felício Cintra do Prado (Edições Nestlé, São Paulo, 1952).
     Felício Cintra do Prado publicou mais de cem trabalhos no Brasil e em importantes revistas estrangeiras como, por exemplo, no Journal of the American Medical Association, no American Journal of Digestive Diseases, na Presse Médicale, em La Prensa Medica Argentina e na Deutsche MedizinischeWochenschrift.
     Felício Cintra do Prado faleceu em 22 de fevereiro de 1983. Seu nome figura como patrono da cadeira nº 41 da Academia de Medicina de São Paulo, e como nome de uma rua do bairro de Vila Império da cidade de São Paulo.

Referências bibliográficas:


1 – Capítulo intitulado “Felício Cintra do Prado”, escrito por João Roberto Pires de Campos no livro “A Escola Paulista de Medicina – dados comemorativos de seu 40º aniversário (1933-1973) e anotações recentes”. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, páginas 71 a 75.
2 – site da Academia de Medicina de São Paulo
http://www.academiamedicinasaopaulo.org.br/biografias/55/BIOGRAFIA-FELICIO-CINTRA-DO-PRADO.pdf                     

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Biografia do Prof. Alípio Correa Netto


Baseada em texto escrito pelo Prof. Costabile Gallucci

     Alípio Correa Netto nasceu em 14 de janeiro de 1898, em Cataguazes, Estado de Minas Gerais.  Fez a primeira parte de seu curso secundário no Ginásio de São José da cidade de Ubá, no mesmo Estado, terminando esse mesmo curso em São Paulo, sob orientação do Prof. Alfredo Paulino. Em fevereiro de 1918 matriculou-se na Faculdade de Medicina de São Paulo, tendo concluído o curso médico em março de 1924. Foi orador de sua turma na formatura e sua tese de doutoramento intitulou-se “Cistos Congênitos do Pescoço”.
     Participou ativamente do movimento revolucionário de 1932, ocupando o cargo de chefe de Cirurgia do Hospital de Sangue de Cruzeiro, no Vale do Paraíba. Daí surgiu o seu trabalho “Cirurgia de Guerra do Hospital de Sangue de Cruzeiro” (1934).
     Como estudante e depois como assistente trabalhou no serviço de João Alves Lima, grande mestre de Cirurgia que recebeu ensinamentos na Faculdade de Medicina de Paris.
     Alípio Correa Netto seguiu com dedicação a escola e a obra didática de Lemos Torres.
     Em 1935 prestou concurso de provas e títulos para o cargo de Professor Catedrático de Clínica Cirúrgica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, tendo sido classificado em primeiro lugar.
     Participando de movimento inovador e contestador, foi um dos fundadores da Escola Paulista de Medicina em 1933. Em 1936 tornou-se professor catedrático de Cirurgia da EPM.
     Imediatamente após assumir as duas cátedras, fez sentir sua condição de líder e de professor, sugerindo e adotando modificações no ensino médico e batalhando pela ideia de que muito mais do que Ensino Médico se deveria instituir o conceito de Educação Médica.
     Em 1944, participou da Segunda Guerra Mundial, integrando a Força Expedicionária Brasileira, como Major Médico, onde chefiou a Secção Brasileira do 32º Field Hospital. Por sua inteira dedicação nesse período, recebeu as seguintes condecorações: Bronze Star, outorgada pelo V Exército dos Estados Unidos, Medalha de Campanha e Medalha de Guerra do governo brasileiro. Além disso, foi condecorado como Cavaleiro da Legião de Honra do Governo da França.
     Por mais de 40 anos dedicou-se à educação médica (conforme texto de 1977) e, principalmente, à formação de professores. Formou uma das maiores escolas cirúrgicas do país, com muitos docentes em todos os campos da cirurgia: gastroenterologia, cirurgia cardíaca, vascular, cabeça e pescoço, plástica, entre outros.
     Foi pioneiro, no Brasil, da Cirurgia da Tuberculose, criando tradicional escola da especialidade, principalmente no Hospital São Luiz Gonzaga, em Jaçanã. Foi um dos iniciadores da Cirurgia Pulmonar não tuberculosa, do esôfago e do coração. Acumulou uma das maiores experiências mundiais em cirurgia da tiroide, reestruturando suas bases clínico-cirúrgicas. Ensinou, constantemente, a seus discípulos a fundamental importância do domínio dos métodos propedêuticos cirúrgicos na formação do cirurgião. Reconhecido por todos como insigne operador, Alípio Correa Netto era admirado como invulgar diagnosticador. Fiel ao princípio de educar e não apenas ensinar, sempre fez sentir a importância do correto vernáculo nas exposições orais, nas provas escritas e na redação de trabalhos científicos.
     Característica fundamental desse grande mestre tem sido facilitar a ascensão de seus assistentes na carreira profissional e universitária. Sempre incentivou a realização de trabalhos e teses de seus discípulos, acompanhando de perto a evolução de seus alunos e assistentes.
     Em relação à Cirurgia Experimental, procurou sempre estabelecer a diferença entre a cirurgia para aperfeiçoamento técnico em animais e a verdadeira cirurgia experimental, aquela que se caracteriza pela originalidade na pesquisa.
     Alípio Correa Netto preconizou e realizou profundas transformações nas Cátedras das Escolas Médicas em que exerceu suas atividades. Assim, em 1957, conseguiu, na Escola Paulista de Medicina, juntamente com os professores Antônio Bernardes de Oliveira e José Maria de Freitas, reunir as cátedras cirúrgicas em um único Departamento de Cirurgia. Deve-se assinalar que a transformação de Cátedras em Departamentos só foi oficializada na Reforma Universitária de 1968/1969, embora o primeiro Departamento em Escola Médica no Brasil já tivesse sido criado por Jairo Ramos em 1951 na Escola Paulista de Medicina.
     Alípio Correa Netto publicou mais de 70 trabalhos científicos como: “Clínica Cirúrgica”(5 volumes); “Propedêutica do Abdome”; “Megaesôfago, Patogenia, Diagnóstico e Tratamento”; “Afecções Cirúrgicas da Tiróide”; “Tratamento Cirúrgico do Megacólon”; Achalasie du Pylore chez l’Adulte; “Mecanismo da Cura da Caverna Tuberculosa pelo Colapso”.
     Homem de profunda formação humanística, não se restringiu à atividade médica. Foi fundador e presidente da Secção de São Paulo do Partido Socialista Brasileiro. Permaneceu nesse cargo até 1960, quando se desligou do partido.
     Exerceu o cargo eletivo de Deputado Estadual em 1951 e 1952. Em seu mandato apresentou, entre outros, dois projetos que se tornaram leis a partir de 1952: “Assistência Hospitalar no Estado de São Paulo”; “Assistência agro-médico-social ao trabalhador rural”.
     Foi Secretário de Higiene da Prefeitura Municipal de São Paulo na administração Jânio Quadros.
     Em 1955, por eleição do Conselho Universitário, exerceu o cargo de Reitor da Universidade de São Paulo.
     Em 1958 foi Secretário da Educação do Estado de São Paulo, no governo Jânio Quadros.
     Foi fundador e presidente da Associação Médica Brasileira de 1951 a 1955. Foi presidente da Academia Paulista de Medicina e do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.
     Também escreveu sobre assuntos diversos. Escreveu “Diário de Guerra”, sobre sua participação na Força Expedicionária Brasileira, publicado na revista Anhembi. Estudou a vida e a moléstia que acometeu Aleijadinho e escreveu um ensaio onde desvenda o diagnóstico da afecção do escultor.
     Atento ao problema do transplante de órgãos, publicou livro sobre o assunto, que, segundo o intelectual Paulo Duarte, “pseudo obra de ficção em torno de um dos mais belos episódios da cirurgia brasileira, que foi exatamente a posição de Euryclides de Jesus Zerbini”. Sobre esse livro chamado “Ponto no Infinito”, continua Paulo Duarte, “estão retratados os nossos costumes, os nossos médicos, as virtudes e as deficiências do nosso serviço hospitalar, as manifestações dos órgãos publicitários, a curiosidade incontrolável, as manifestações oficiais, as alegrias em relação ao feito”.
     Alípio Correa Netto escreveu a biografia de seu mestre João Alves de Lima no livro “Um Mestre da Cirurgia”.
     Alípio Correa Netto faleceu em São Paulo, em 24 de Maio de 1988.   

Fonte bibliográfica: "Alípio Correia Neto" por Costabile Gallucci in  A Escola Paulista de Medicina - dados comemorativos se seu 40º aniversário (1933-1973) e anotações recentes. São Paulo, 1977. 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Biografia do Prof. Pedro de Alcântara


Baseada em texto do Prof. Dr. Azarias de Andrade Carvalho

     Pedro de Alcântara Marcondes Machado nasceu em 1º de maio de 1901, na cidade de São Paulo. Fez o curso primário na Escola Alemã Santo Adalberto (1909-1921), o curso secundário no Ginásio do Estado da Capital (1913-1918) e o superior na Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, diplomando-se médico em 1924.
     Cedo demonstrou pendores para o ensino, ingressando, por concurso (1927) como catedrático de Instrução Moral e Cívica no conceituado Ginásio do Estado, local que formou pessoas notáveis em São Paulo nas décadas anteriores a 1950.
     Iniciou formação pediátrica em 1927, com o Professor Pinheiro Cintra, como assistente voluntário, no Pavilhão Condessa Penteado, na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, então sede da Clínica Pediátrica da Faculdade de Medicina de São Paulo.
     Com a extinção da matéria Instrução Moral e Cívica em 1933, transferiu-se para o Instituto de Higiene, órgão em que já trabalhava como médico voluntário e onde passou a lecionar o curso de Higiene da Primeira Infância para educadoras sanitárias, transformando em Cátedra de Puericultura (1945) quando da instalação da Faculdade de Higiene e Saúde Pública de São Paulo. No Instituto de Higiene desenvolveu e aplicou novas ideias sobre a saúde da criança, ideias estas que lhe granjearam a admiração e o respeito dos colegas de São Paulo e do Brasil. Nesta ocasião, dava assistência pediátrica a tal número de filhos de colegas que estes, num ato de reconhecimento e amizade, presentearam-no com um automóvel.
     Desde os tempos de estudante de medicina (1923-24) frequentava o Serviço do Prof. Rubião Meira, na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, em cujas enfermarias se plasmaram notáveis vultos da medicina de São Paulo. Ali trabalhou (1925-26) como assistente voluntário sob a orientação de Lemos Torres.
     Como espírito progressista e atuante em sua época, não podia alhear-se às iniciativas arrojadas e empreendedoras, dando seu apoio e batalhando para a organização de nova escola médica em São Paulo. Incluindo-se entre os jovens médicos paulistas que lutavam por esse ideal, assinou o manifesto de 1º de junho de 1933, fundando a Escola Paulista de Medicina. Em sua fase de estruturação, numa das reuniões, foi um dos que usaram a palavra a favor do início imediato das aulas do curso médico. Durante aproximadamente 10 anos pertenceu ao Conselho Técnico Administrativo da EPM. Desenvolveu intensa atividade didática para alunos do curso médico. Orientou muitos médicos para a carreira pediátrica e durante sua gestão J. Renato Woiski defendeu a Livre-Docência, a primeira a realizar-se na Pediatria da Escola Paulista de Medicina.
     Em 1924, por ocasião da formatura, defendeu tese de doutoramento, com o trabalho Ensaio de Moral Sexual. Foi o primeiro pediatra a defender a Docência Livre em São Paulo (1935); em 1934 havia se tornado Livre Docente da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.
     Em 1946, concorreu à cátedra de Clínica Pediátrica e Higiene da 1ª Infância da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, tendo sido aprovado com distinção. Para este concurso apresentou a tese Contribuição para o Estudo da Proteção da Criança contra os Agravos Psíquicos. Como espírito independente e cônscio do valor de suas ideias, escreveu seu trabalho baseado na lógica de seu raciocínio e nos ensinamentos que a observação diária de inúmeras crianças e de suas famílias lhe deram, tendo tido a coragem de dispensar qualquer citação bibliográfica.
     Houve época em que exerceu, concomitantemente, o magistério como catedrático em duas escolas médicas e uma escola de saúde pública. Com a evolução do ensino de Pediatria e de acordo com seu modo de pensar, sentiu que era menos proveitoso para seus alunos e discípulos sua permanência em três cátedras, motivo pelo qual afastou-se, inicialmente, da Faculdade de Higiene e Saúde Pública de São Paulo (1950), a seguir da Escola Paulista de Medicina (1957), permanecendo apenas na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Aposentou-se finalmente em 1964.
     Foi também professor da Escola de Enfermagem do Hospital São Paulo e da Escola de Serviço Social de São Paulo.
     Pelas suas ideias, revolucionárias para aquela época, a respeito de pontos básicos de pediatria e, principalmente, de puericultura, ainda totalmente verdadeiras nos dias atuais (1977), aglutinou em torno de si uma plêiade de discípulos e admiradores que tiveram o mérito de prosseguir na divulgação daquelas ideias.
     Realçou os estreitos vínculos existentes entre a saúde da criança e a situação socioeconômica e cultural da população. Manteve acirradas polêmicas em defesa dessas ideias, que são hoje totalmente vitoriosas.
     Simplificou as práticas da Puericultura, especialmente a alimentação, de acordo com a realidade da criança de nossa situação, fazendo-as de fácil compreensão para estudantes e médicos e proporcionando alívio para as mães que se livraram de uma puericultura sofisticada e artificial. Lutou contra o conceito arraigado no espírito das mães, por culpa dos médicos, de valorizar demasiadamente os dados fornecidos por uma balança para avaliar o estado de saúde da criança. Da mesma maneira, procurou demonstrar a influência das condições de salubridade da habitação na proteção da saúde da criança. Combateu energicamente o valor das tabelas numéricas usadas para avaliação da quantidade de alimento necessário para a criança, de uso generalizado naquela época.
     Preocupado intensamente com o bem estar da criança, combatia todas as práticas que deixavam de considerá-la como um todo, no sentido de “corpo, alma e integração na família e na sociedade”. Foi pioneiro entre nós do reconhecimento e divulgação do desenvolvimento emocional e das reações psicológicas normais e anormais da criança, numa época em que não se cogitava sequer de psicologia ou de psiquiatria infantis.
     Espírito culto e sensível, sempre se deleitou com a literatura, a música e principalmente a pintura, chegando mesmo a realizar palestras e conferências confrontando a pintura clássica e a moderna em suas diversas formas de expressão.
     Foi também membro do Conselho Universitário da Universidade de São Paulo como representante da Congregação da Faculdade de Medicina, e do Conselho Administrativo do Museu de Arte Contemporânea de São Paulo.
     Além de numerosos artigos publicados traduziu os livros: Diagnóstico diferencial em Pediatria (alemão) – Dr. Walter Pflüger (Stuttgart), 1933; Como desenvolver o apetite da criança (inglês) – Aldrich.
     Publicou os seguintes livros: Mortalidade Infantil – Problema espiritual, econômico, sanitário e médico (1945), reeditado com o nome Causas e Remédios Sociais da Mortalidade Infantil; Higiene da Primeira Infância (1936) – reeditado em 1945 e 1951; Mãe e Filho (Noções de Puericultura) – 1952; Perturbações Nutritivas do lactente – 1946; Pediatria Básica – (colaboração com Eduardo Marcondes) em 4ª edição [no texto de 1977].
     Suas ideias, divulgadas por diversos meios de comunicação e também por seus discípulos, ou discípulos de seus discípulos que ocupam numerosas chefias de Pediatria no Estado de São Paulo e no Brasil, influíram de maneira marcante em toda a Pediatria nacional.
     Foi Presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria em 1954. Foi por ela homenageado ao ser indicado Patrono da Cadeira 10 da Academia Brasileira de Pediatria.
     Pedro de Alcântara faleceu em 18 de maio de 1979.

Fontes bibliográficas:

Capítulo sobre Pedro de Alcântara escrito por Azarias de Andrade Carvalho no livro “A Escola Paulista de Medicina – dados comemorativos de seu 40º aniversário (1933-1973) e anotações recentes”. Por José Ribeiro do Vale. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, pags. 142-146.

Sociedade Brasileira de Pediatria acessado em:
https://www.sbp.com.br/institucional/academia-brasileira-da-pediatria/patronos-e-titulares/pedro-de-alcantara-marcondes-machado/
  

sexta-feira, 17 de março de 2017

Biografia de Álvaro Guimarães Filho


Biografia embasada em texto do Prof. Dr. Henrique A. Paraventi

     Nascido em São Paulo, a 29 de agosto de 1901, Álvaro Guimarães Filho fez seus estudos em São Paulo e no Rio de Janeiro, no Colégio de São Bento e no Ginásio Oswaldo Cruz.
     Graduou-se pela Faculdade de Medicina de São Paulo em 1925. Durante o curso médico, foi interno da segunda enfermaria de Homens da Santa Casa de São Paulo, Cátedra de Clínica Médica dirigida por Rubião Meira, ali trabalhando com Álvaro Lemos Torres. Essa segunda enfermaria de homens da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo já era então renomado centro de estudos médicos e dela sairiam vários professores da Escola Paulista de Medicina.
     Durante o 6º ano médico, foi também interno efetivo da “Assistência Policial de São Paulo”. Foi eleito vice e posteriormente presidente do “Centro Acadêmico Oswaldo Cruz”, e, nessa época, chefiando delegação de universitários paulistas, levou ao 1º Congresso Interestadual de Medicina o trabalho “Estudo clínico do carcinoma primitivo do esôfago”.
     Depois de formado, defendeu tese inaugural, a 23 de março de 1926, intitulada “Higiene mental e sua importância em nosso meio”. Nesse mesmo ano viajou para a Europa, estagiando em Paris, na maternidade Baudelocque e no Hospital Broca, recebendo ensinamento de Couvelaire e Faure. Em Berlim, fez cursos de aperfeiçoamento com Strassman, Straus e Kristeller. Ainda em Viena frequentou na Universidade a segunda “Frauenklinik”, sob a orientação de Kermauner.
     Após meses de permanência nesses centros médicos, retornou ao Brasil em 1927, onde foi admitido como assistente voluntário na Clínica Obstétrica da Faculdade de Medicina de São Paulo, sob a chefia de Raul C. Briquet. Ali organizou o serviço Pré-Natal, e a seção de urologia feminina, assim como o departamento de Radiodiagnóstico Obstétrico. Em 1933 atingia a chefia clínica nessa disciplina.
     Suas atividades didáticas, no entanto, iniciaram-se em 1931, quando foi nomeado Professor de Enfermagem Cirúrgica na Escola de Obstetrícia e Enfermagem Especializada de São Paulo, anexa à Clínica Obstétrica da Faculdade de Medicina.
     Em 1932, por ocasião do movimento Constitucionalista, exerceu função de auxiliar médico da Superintendência dos Serviços Auxiliares de Saúde.
     Em 1933, foi encarregado por Paula Souza de organizar o serviço de Higiene Pré-Natal, no Centro de Saúde do então Instituto de Higiene de São Paulo, primeira organização desse gênero instalada no Brasil. Nesse mesmo ano é designado Professor Catedrático de Clínica Obstétrica da recém-fundada Escola Paulista de Medicina.
     Participa como sócio fundador de nova entidade associativa dos médicos de São Paulo, a Associação Paulista de Medicina, onde exerceu a presidência do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia.
     Em 1935 foi laureado pela Academia Nacional de Medicina, conjuntamente com Álvaro Lemos Torres e Jairo Ramos com o prêmio e medalha de ouro “Madame Durocher”, pelo trabalho “Coração na Gravidez”, em que firmam a conduta aplicada à gestante cardiopata.
     Desde o início de sua carreira no magistério superior, através de atividades didáticas, publicações em revistas especializadas e palestras proferidas nas várias entidades médicas, deu grande realce aos métodos de proteção materna e infantil, preocupando-se com o problema da mortalidade e morbidade maternas e perinatais. A semiologia obstétrica, a fisiologia da parturição e a orientação nutricional da gestante encontram nele fervoroso cultor.
     Em 1937, após brilhante concurso, é o primeiro a galgar o degrau de livre docência de Clínica Obstétrica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
     Os problemas éticos e morais na formação de médicos, enfermeiras e parteiras encontraram sempre em Álvaro Guimarães Filho devoto divulgador e defensor.
     Com a criação da Faculdade de Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo, foi empossado como professor catedrático da cadeira de Higiene Materna, onde permaneceu até a aposentadoria compulsória, ocupando também o cargo de diretor da Faculdade. Durante três períodos, integrou o Conselho Universitário de São Paulo, afastando-se somente pela aposentadoria compulsória. Nessa faculdade orientou  inúmeros médicos, enfermeiras, educadoras sanitárias, assistentes sociais, administradores hospitalares e nutricionistas, transmitindo-lhes com seu saber e dedicação ideias básicas de proteção materna.
     Para divulgação dos ensinamentos da especialidade fundou e dirigiu muitos anos a “Revista de Ginecologia e Obstetrícia de São Paulo”.
     Foi membro do Conselho Superior de Administração da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, por designação de sua Eminência, o Grande Chanceler, D. Carlos Carmelo, Cardeal Motta.
     Foi perito para questões matrimoniais do Tribunal Eclesiástico da Arquidiocese de São Paulo e um dos organizadores da Maternidade “Pró-Matre Paulista”.
     Na Escola Paulista de Medicina iniciou o curso regular de Clínica Obstétrica em 1938, permanecendo até a aposentadoria compulsória.
     Falar de Álvaro Guimarães Filho nessa fase de afirmação da Escola Paulista de Medicina seria desnecessário, tal o conhecimento público de sua profícua e intensa atuação.
     Nessa época, por solicitação de Lemos Torres, funda a “Escola de Enfermeiras do Hospital São Paulo” e com grupo de senhoras da sociedade paulista o Amparo Maternal. Com pertinácia, colabora intensamente na reativação das obras do Hospital São Paulo, que foi o primeiro hospital de ensino universitário criado no Brasil.
     Com o inopinado desaparecimento do Professor Lemos Torres, ocorrido em 1942, foi eleito diretor da Escola. Durante 14 anos teve a si o cargo de consolidar a instituição dando plenamente à Escola Paulista de Medicina o entusiasmo de sua juventude, o equilíbrio de sua maturidade e a energia do seu caráter. Apesar dos afazeres administrativos, jamais abandonou sua atividade didática e de pesquisa clínica a que sempre esteve afeito.
     Tomou parte ativa nos cursos regulares e de extensão universitária da sua Cadeira, não abandonando as atividades cirúrgicas e assistenciais de sua clínica. Foi inúmeras vezes solicitado para bancas examinadoras de provimento de cátedras e docências livres em quase todas as escolas médicas do Brasil.
     Durante sua gestão na diretoria da Escola Paulista de Medicina, alguns fatos devem ser lembrados: a ampliação do prédio da Escola e a conclusão do Hospital São Paulo, após árduas lutas e reivindicações junto ao Governo Federal, para conseguir o resgate da dívida do Hospital perante a Caixa Econômica Federal, terminado no ato público e festivo de doação do Hospital São Paulo à Escola Paulista de Medicina, através da Lei Federal 939 de 1 de dezembro de 1949 e sancionada pelo presidente da República Marechal Eurico Gaspar Dutra, sendo ministro da Educação e Cultura o Prof. Dr. Clemente Mariani e cabendo ao Deputado Federal paulista Dr. Horácio Lafer a feliz interferência nessa conquista.
     Ainda sob sua orientação foi construído o pavilhão de Patologia Médica, batizado em homenagem a Lemos Torres.
     Ao atingir, em 1966, a idade limite, foi jubilado após tantos esforços, dedicação e lutas para conservar bem alto os ideais dos fundadores da Escola Paulista de Medicina.
     Até bem pouco tempo [meados dos anos 1970] esteve à frente da primeira maternidade social criada em São Paulo, em plena atividade, no “Amparo Maternal de Vila Clementino”.

Fonte bibliográfica: “Álvaro Guimarães Filho”, pelo Prof. Dr. Henrique A. Paraventi, in A Escola Paulista de Medicina – Dados comemorativos de seu 40º aniversário (1933-1973) e anotações recentes – Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, págs, 24 a 28.

     

domingo, 5 de março de 2017

Manifesto de Fundação da Escola Paulista de Medicina


     A anormalidade das condições de vida espiritual e material que há longos anos vem assolando a Humanidade, e que tão intensamente tem repercutido em nossa Pátria, não teve o dom de prostrar as energias do espírito paulista. A vitalidade espiritual de São Paulo tem o vigor das forças naturais incoercíveis, a que o homem pode dar uma direção, mas nunca opor um obstáculo eficaz.
     Às inúmeras provas que ela tem dado da sua exuberância junta-se hoje mais uma, que por certo nada deverá às demais em brilho e valor. Trata-se da fundação da Escola Paulista de Medicina, que visa atender a mais de um problema do nosso meio.
     Em primeiro lugar, o do ensino médico, que tem sempre tido, para São Paulo, enorme importância. De 1912 a 1917 grande esforço se despendeu na formação da Universidade de São Paulo [[1]], o sonho malogrado de EDUARDO GUIMARÃES e que viria contribuir para sua solução. Em 1912 o próprio governo paulista, dominado pela impressão da necessidade de uma escola médica em São Paulo, delegou a ARNALDO VIEIRA DE CARVALHO poderes plenos para sua criação. Do esforço infatigável desse inesquecível paulista resultou a Faculdade de Medicina de São Paulo, que tantos e tão sólidos motivos de orgulho tem dado à nossa terra.
     Paradoxalmente, entretanto, a mesma Faculdade, que se propunha resolver o problema do ensino médico entre nós, e que por algum tempo o fez, contribuiu, a seguir, para sua agravação, graças ao enorme impulso que deu às letras médicas e ao número elevado de profissionais competentes que formou, criando assim novos e vivos estímulos para a vocação médica. E hoje a Faculdade de Medicina de São Paulo é insuficiente para colher a totalidade dos frutos de sua própria obra de nobre e elevada propaganda da Medicina como profissão.
     Tal circunstância, aliada às demais condições determinantes da orientação vocacional e ao sempre crescente poder de absorção de novos médicos, cuja falta cada dia mais se faz sentir por todo nosso Estado, onde há núcleos inteiros de população desprovidos de recursos clínicos – deu em resultado cursarem atualmente as demais escolas médicas brasileiras cerca de mil e quinhentos jovens paulistas.
     Esse fato, se tem constituído um elemento importante para a unidade espiritual brasileira, não tem sido sem dano para a Família e para a economia paulistas. Em seu aspecto espiritual são outros tantos rapazes que realizam, fora do âmbito familiar, uma das fases mais importantes de sua formação moral; em seu aspecto material são milhares de contos anualmente desviados da economia paulista – e essas circunstâncias serão beneficiadas pela nova Escola.
     Outro problema de importância inegável concorre para a fundação de uma nova escola médica, e é a situação da Assistência Hospitalar entre nós. Rica em tantos aspectos da vida social, nossa terra é indigente na assistência hospitalar à população pobre ou remediada.
     Tal situação seria um opróbrio para São Paulo, não fosse próprio dos organismos jovens e em rápido crescimento realizarem-no assim mesmo, adiantando-se muito o desenvolvimento de alguns órgãos e retardando-se o de outros.
     Uma escola médica exige instalações hospitalares para o ensino das clínicas, e a criação de seu hospital não será o menor serviço prestado a São Paulo pela nova Escola que, só por isso, faria jus ao maior carinho e ao melhor desvelo por parte da população paulista.
     A premência desses dois problemas – o do ensino médico e o da assistência hospitalar – bastaria para justificar amplamente a presente iniciativa; por outro lado, o elevado grau de desenvolvimento, já referido, alcançado entre nós pela cultura médica, e o interesse que São Paulo sempre dedicou às manifestações da atividade intelectual são motivos que legitimam a certeza de que a nova Escola nasce com os mais seguros elementos da vitalidade.
     Os signatários, fundadores da Escola Paulista de Medicina, se congregam em Sociedade Civil despidos de qualquer intenção de lucro material. Segundo disposições expressas em seus estatutos, as quotas de formação de capital inicial não serão recuperadas, os lucros decorrentes do funcionamento da Escola serão integralmente aplicados na melhoria das instalações da mesma, e no caso de liquidação da Sociedade o seu patrimônio reverterá em benefício de instituições científicas idôneas [[2]].
     Anunciando ao público a sua decisão, os signatários estão certos de que servem à coletividade, e dela esperam amparo e colaboração.

     São Paulo, 1 de junho de 1933.

Dr. Afrânio do Amaral
Dr. Álvaro Guimarães Filho
Dr. Álvaro de Lemos Torres
Dr. Alípio Correa Neto
Dr. Antônio Carlos Pacheco e Silva
Dr. Antônio Bernardes de Oliveira
Dr. Antônio Prudente
Dr. A. Almeida Junior
Dr. Archimede Bussaca
Dr. Carlos Fernandes
Dr. Décio de Queiroz Telles
Dr. Domingos Define
Dr. Dorival Cardoso
Dr. Eduardo Ribeiro da Costa
Dr. Fausto Guerner
Dr. Felício Cintra do Prado
Dr. Felipe Figliolini
Dr, Flávio da Fonseca
Dr. H. Rocha Lima
Dr. Jairo Ramos
Dr. José Medina
Dr. José Ignácio Lobo
Dr. José Maria de Freitas
Dr. João Moreira da Rocha
Dr. Luiz Cintra do Prado
Dr. Marcos Lindenberg
Dr. Nicolau Rosseti
Dr. Octavio de Carvalho
Dr. Olivério M. Oliveira Pinto
Dr. Otto Bier
Dr. Paulo Mangabeira Albernaz
Dr. Pedro de Alcântara
Dr. Rodolfo de Freitas


[1] A Universidade de São Paulo referida no texto era privada. Iniciou seus cursos em 1912 e foi fechada em 1917. A atual Universidade de São Paulo foi fundada em 1934.
[2] A Escola Paulista de Medicina foi privada de 1933 a 1956, quando foi federalizada. 

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Foto do Prof. Octavio de Carvalho diante de seu próprio busto



Nesta fotografia, o Prof. Dr. Octavio de Carvalho, fundador da Escola Paulista de Medicina, discursa diante de seu próprio busto, que foi elaborado, esculpido, pelo Prof. Dr. Marcos Lindenberg. Ambos foram diretores da Escola Paulista de Medicina. Esse busto ficava no pátio interno da EPM e agora se encontra na entrada do Edifício Octavio de Carvalho, à Rua Botucatu, 740. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Biografia de Marcos Lindenberg


Baseada em texto de Silvio J. Pinto Borges

     Marcos Lindenberg nasceu em Cabo Frio, Estado do Rio de Janeiro, em 27 de março de 1901. Estudou o primeiro grau na Escola Americana e no Colégio Mackenzie. Fez o segundo grau no Ginásio do Estado de São Paulo. Em 1918 ingressou na Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, atual Faculdade de Medicina da USP, que cursou até o quinto ano, quando transferiu-se para a Faculdade de Medicina da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, onde defendeu tese e diplomou-se em 1923.
     Em 1920 foi nomeado aluno-preparador das cadeiras de Anatomia e Histologia, nas quais iniciou sua formação científica sob a orientação de Alfonso Bovero. Deve sua iniciação no campo da Patologia, ao qual dedicou toda sua atividade profissional e docente, a Oscar Klotz, de quem foi aluno-assistente na cadeira de Anatomia Patológica e a Alexandrino Pedroso, com quem estagiou no Laboratório Central da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, em Microbiologia e Imunologia. Ainda estudante do sexto ano, fixou-se em Campinas, onde organizou e dirigiu o laboratório de análises do Instituto Oftalmológico Penido Burnier e o de Patologia Clínica do Hospital do Circolo Italiani Uniti, hoje [nos anos 1970] Casa de Saúde de Campinas. Nessa cidade, e com a colaboração de Vicente Baptista, promoveu a fundação da Associação Médica de Campinas. Retornou a São Paulo em 1929, reinstalando seu serviço de análises e pesquisas clínicas, cujas atividades suspendeu em 1951 para espontaneamente dedicar-se ao ensino em regime de tempo integral.
     Comissionado pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, integrou em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, a Primeira Formação Sanitária de Profilaxia de Campanha, para a qual instalou e dirigiu, em Cruzeiro, um hospital de emergência para moléstias infecciosas.
     Sua experiência no domínio da Patologia Clínica foi amplamente aproveitada. Organizou e chefiou o laboratório do Sanatório Esperança. Na Escola Paulista de Medicina, em instalações provisoriamente anexas à sua Cadeira e mais tarde transferidas para o Pavilhão Maria Thereza de Azevedo, encarregou-se do serviço de laboratório para as primeiras enfermarias de ensino ali localizadas. Posteriormente, construído o atual Hospital São Paulo, e já então com a valiosa colaboração de seu jovem assistente João Marques de Castro, planejou o Laboratório Central que, sob a chefia desse saudoso companheiro, haveria de constituir-se em ativo centro de ensino e pesquisa. Em 1950 foi convidado pela Universidade Federal da Bahia para reinstalar, atualizar e dirigir o Laboratório do Hospital das Clínicas de sua Faculdade de Medicina onde permaneceu dois anos, desenvolveu pesquisa e organizou cursos de formação de técnicos de laboratório. Nessa ocasião, a convite de Pernambuco, colaborou no planejamento dos laboratórios do Hospital das Clínicas de Recife.
     Quando, em 1933, teve Octavio de Carvalho a iniciativa de fundar em São Paulo uma segunda faculdade de ensino médico, Marcos Lindenberg com ele colaborou decididamente e desde os primeiros passos para a realização do projeto. Fundada a primeiro de junho de 1933 a Escola Paulista de Medicina, a ela dedicou sempre acendrado amor e o melhor de seus esforços; regeu a cadeira de Patologia Geral, que assumira como professor fundador, até outubro de 1964, quando se aposentou; foi membro do Conselho Técnico Administrativo em vários períodos; em 1959 foi nomeado diretor da Escola, cargo para o qual foi reconduzido em 1962 e que spo deixou em janeiro de 1964; integrou bancas examinadoras de concursos para professor catedrático nas universidades de Belém do Pará, do Recife, de Belo Horizonte, da Bahia e de Curitiba. Em 1963, por delegação do Ministério da Educação, participou dos trabalhos para a instalação em São Paulo de uma universidade federal; este empreendimento, que vinha de encontro a uma legítima aspiração da Escola Paulista de Medicina, qual seja a de integrar uma organização universitária, foi interrompido pelos acontecimentos políticos de março de 1964. Decorrido mais de um decênio [anos 1970] desde aquela época prenhe de incompreensões e radicalismos é forçoso reconhecer a elevação de propósitos no empenho de conseguir integrar a Escola Paulista de Medicina numa Universidade Federal em São Paulo. Esta aspiração, infelizmente, não pôde ainda ser concretizada.
     A formação científica e profissional de Marcos Lindenberg fez-se com base em cuidadosa preparação geral e humanística, desenvolvida desde a juventude pelo contato permanente que manteve com o meio intelectual e artístico de São Paulo, que frequentou assiduamente como membro de suas mais expressivas associações culturais e das quais se aproximou através de seus estudos de piano, iniciados aos 13 anos de idade.
     Dedicou-se também à escultura sendo de sua autoria dois trabalhos em bronze, que doou à Escola: uma efígie de Álvaro Lemos Torres e o primoroso busto de Octavio de Carvalho, que compõe o monumento ao fundador da instituição e que se encontra em seu pátio interno [atualmente encontra-se à entrada do Edifício Octavio de Carvalho da Escola Paulista de Medicina].
     Refletiram-se marcadamente em sua atuação como educador os ensinamentos humanísticos com que assim enriquecera e completara sua formação para além dos campos da medicina. Insurge-se, por isso, contra o ensino e a prática dessa nobre profissão quando, a favor de uma tecnologia que aproveita apenas ao organismo físico, é esquecida a pessoa humana que nele vive, sente e sofre; e propõe que os cursos médicos condicionem e mesmo estimulem a cultura geral do futuro profissional que, assim preparado e sensibilizado, não deixará de oferecer ao bem estar físico, espiritual e social de seus semelhantes os cuidados e o amparo que dele são esperados.
     Eis as principais realizações de Marcos Lindenberg como diretor da Escola: construção, instalação, organização e desenvolvimento da biblioteca, hoje [nos anos 1970] Biblioteca Regional de Medicina-BIREME [atualmente não está mais na EPM]; melhoria e ampliação das condições de ensino e pesquisa nas disciplinas básicas e construção de um prédio de 6 pavimentos para laboratórios; construção do Instituto de Medicina Preventiva, o primeiro do Brasil, e, sob orientação de Walter Leser, implantação de seu ensino ao longo de todo o curso médico, com extensão ao âmbito domiciliar  e à comunidade; expansão e desenvolvimento do ensino clínico em ambulatório, programa para o qual deixou pronto e detalhado o projeto de um edifício de cerca de 14.000 m2 de área, já parcialmente construído e em funcionamento à Rua Pedro de Toledo; construção de uma pequena praça de esportes; promoção de cursos e conferências de extensão cultural; estímulo e colaboração para instalação pelos estudantes de uma sala acústica para audição de música gravada; estímulo e colaboração para organização pelo Centro Acadêmico Pereira Barreto de exposições de pintura e escultura com obras de autoria de médicos e estudantes da Escola; com a colaboração de A. Bernardes de Oliveira, apresentação de raridades bibliográficas médicas.
     Publicou em 1920, edição Weisflog Irmãos, “Lições de Mecânica Elementar” para estudantes de curso secundário, e deixou contribuições em patologia hepática e da esquistossomose, da moléstia de Chagas, das duodenites e colecistites e da hematologia.
     Encerradas suas atividades na Escola Paulista de Medicina, Marcos Lindenberg dirigiu, de março de 1966 a junho de 1975, o Serviço Social da Indústria da Construção e do Mobiliário do Estado de São Paulo, entidade sem fins lucrativos que preta assistência médica, odontológica e social aos empregados de empresas de construção civil.

Fonte bibliográfica: “Marcos Lindenberg”, por Silvio J. Pinto Borges in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, São Paulo, 1977, págs. 116-120.      


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Biografia de Jairo Ramos


Baseada em texto do Prof. Dr. Octavio Ribeiro Ratto

Este texto do Professor Octavio Ribeiro (com alguns poucos acréscimos explicativos), além dos dados biográficos propriamente ditos, expressa também como os seguidores de Jairo Ramos o admiravam.

     Jairo de Almeida Ramos nasceu em 24 de abril de 1900, em Marquês de Valença, descendendo de tradicional família do Estado do Rio de Janeiro. Com poucos anos de idade veio com sua família para o Estado de São Paulo, inicialmente morando em Avaré, e posteriormente na Capital. Na cidade de São Paulo fez o seu curso secundário no Ginásio do Estado, matriculando-se a seguir na então denominada Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, onde se diplomou em 1923.
     Não é fácil sumarizar uma vida tão intensamente vivida como a do Professor Ramos. Ele foi educador, líder de classe, médico por excelência, chefe de família exemplar, pai dedicado e amigo sincero. Lutou durante toda a sua existência pelo bem coletivo, empenhando-se profundamente no desempenho das tarefas que lhe foram confiadas. Nunca se envaideceu das honrarias recebidas, sabendo sempre suportar o sofrimento com humildade e resignação. A ambição não foi a sua meta, tendo pautado a sua vida pelo amor ao trabalho e pelo culto à verdade.
     Nos últimos anos do curso médico ligou-se à 2ª Medicina de Homens da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, onde funcionava o Serviço de Rubião Meira, trabalhando sob a orientação de Lemos Torres. Nesta enfermaria, que se tornou célebre pelo número de mestres que produziu, começou a formar o seu tirocínio clínico, com grandes sacrifícios de ordem pessoal, já que durante todo o tempo de estudante teve necessidade de trabalhar para prover a sua existência e ajudar a de seus familiares. Uma vez graduado defendeu tese de doutoramento (nessa ocasião todo formando era obrigado a fazer essa tese que era similar a um trabalho de conclusão de curso), escolhendo como assunto a propedêutica dos derrames pleurais. Na 2ª Medicina de Homens, diariamente, pela manhã, ia adentrando os campos mais variados da medicina interna, com interesse mais particular pela cardiologia. Ao final da tarde voltava à enfermaria, onde ministrava cursos particulares de semiologia para pequenos grupos de alunos.
     Trabalhando com afinco, em poucos anos de profissão, tornou-se respeitado pelo apuro com que inquiria os doentes, pelo virtuosismo de sua propedêutica, pelo raciocínio lógico que utilizava na discussão de casos, pela vontade obstinada em transmitir os conhecimentos adquiridos. Ao lado de intensa atividade clínica e didática, ainda lhe sobrava tempo para a investigação clínica e experimental, como bem demonstra o excelente trabalho feito em colaboração com Oria, no qual estuda os plexos nervosos do coração no megaesôfago.
     Com o seu espírito de devotamento às grandes causas, participou da fundação da Associação Paulista de Medicina, em 1930, e do Movimento Constitucionalista de 1932.
     Em 1933, juntamente com uma plêiade de jovens entusiastas, engaja-se de corpo e alma, na fundação da Escola Paulista de Medicina, instituição que foi a menina de seus olhos e da qual nunca mais de afastou até a morte.
     Com Alípio Corrêa Netto escreveu um manual de propedêutica do abdome, e logo após, em 1935, o livro “Lições de Eletrocardiografia”. Neste mesmo ano presta concurso de livre docência na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
     Dotado de invulgar espírito de curiosidade realizou investigações clínicas no terreno da cardiologia, pneumologia, gastroenterologia, nefrologia, hematologia e moléstias infecciosas, fruto de paciente pesquisa e análise de abundante material que manuseou trabalhando na 2ª Medicina de Homens, no Hospital São Paulo, na Clínica Obstétrica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e no Hospital de Tuberculose São Luiz Gonzaga, de Jaçanã.
     O seu interesse não ficou só na medicina, voltou-se também para os médicos e, assim, em 1939, assume a Presidência da então Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, hoje Academia de Medicina de São Paulo. De 1945 a 1952 e de 1955 a 1956, dirigiu os destinos da Associação Paulista de Medicina.
     Na Associação Paulista de Medicina trabalhou arduamente, transformando a organização que era limitada à Capital, em poderosa e harmônica entidade de âmbito estadual. Conseguiu a doação do terreno e a seguir o financiamento para a construção da sede da Associação, inaugurada sob a sua presidência em 1952.
     O alargamento dos horizontes da Associação Paulista de Medicina ensejou a criação da Associação Médica Brasileira, na qual a sua participação foi marcante e decisiva.
     Emprestou apoio, colaborou ativamente, foi membro ou dirigiu a Sociedade Brasileira de Cardiologia, os Arquivos Brasileiros de Cardiologia, o Conselho Regional de Medicina, o Conselho Federal de Medicina, a Associação Paulista de Hospitais, a Associação Médica Brasileira, e tantos outros organismos que seria fastidioso enumerar.
     A vida de Jairo Ramos se confunde com a da própria Escola Paulista de Medicina. A esta casa, que idolatrava, deu o melhor de si. Conheci-o aqui, em 1939 (palavras do professor Ratto). Ao relacionamento professor-aluno associou-se profunda amizade, o que me permitiu convívio íntimo e continuado durante 33 anos, com esta figura singular que nos recônditos de sua alma era todo bondade, amizade, afeto e dedicação. Com a sua convivência percebi logo as suas três grandes preocupações: o lar, a Escola Paulista de Medicina, os médicos.
     Foi professor de Propedêutica, dirigindo pequena enfermaria, a princípio no Pavilhão Maria Tereza, depois no Hospital São Paulo, primeiro hospital de clínicas do Brasil. Com número reduzido de leitos e com modesto laboratório anexo, conseguia dar um curso dos melhores para a época. Criador de escola foi preparando um grupo de assistentes sempre crescente, para muitos dos quais conseguia bolsas de estudo no exterior, com a finalidade de se aprimorarem em campos específicos. Em 1951, contando com pessoal especializado em número suficiente, defendeu a ideia plenamente acatada pela Congregação da Escola Paulista de Medicina da instalação do Departamento de Medicina, do qual foi seu Diretor até 31 de dezembro de 1965.
     Com a criação do Departamento procedeu a inúmeras modificações no ensino, aprimorando o aprendizado, como o noviciado, os seminários, a enfermaria geral, as reuniões clínico-patológicas e anátomo-propedêuticas.
     Na Escola não se plantou cômoda e egoisticamente no seu Departamento, foi mais adiante. Sempre alerta, batalhou, incentivou, ajudou e prestigiou toda e qualquer iniciativa que trouxesse melhoria ao padrão de serviços que a instituição presta à coletividade. Assim aconteceu quando do auxílio da Fundação Rockfeller, na modificação do exame vestibular, de que acabou resultando o CESCEM, na criação do Departamento de Medicina Preventiva. Além de professor, pertenceu, praticamente a todos os conselhos e comissões da Escola, foi seu Diretor e Presidente da Sociedade Paulista para o Desenvolvimento da Medicina, sociedade mantenedora do Hospital São Paulo.
     Aos 31 de dezembro de 1965, mal saído de grave doença, é aposentado compulsoriamente pela entrada em vigor do Estatuto do Magistério Superior Federal. A recondução que era permitida por lei não ocorreu. Jairo Ramos nunca se conformou com o acontecido e guardou consigo essa mágoa, porém não deixou de frequentar e amar a Escola até sua morte ocorrida em 27 de setembro de 1972.
     Jairo Ramos foi homem dotado de personalidade marcante e por isso, muitas vezes, não foi muito bem compreendido. Passou pela vida terrena com a predestinação de servir e servir bem. Atingiu a eternidade com a paz de espírito que é o privilégio daqueles que bem cumpriram o seu dever e sua missão. 

Referência bibliográfica: Ratto, O. R. - "Jairo de Almeida Ramos" in A Escola Paulista de Medicina - dados comemorativos de seu 40º aniversário (1933-1973) e anotações recentes. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, pgs. 92 a 95, 1977.