sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Biografia do Prof. José Leal Prado de Carvalho

 

A partir de texto do Prof. Antonio Carlos de Matos Paiva

 

     Leal Prado nasceu em Alfenas, Minas Gerais, em 8 de setembro de 1918. Filho de Professores – seu pai, Aprígio de Carvalho Junior, foi professor da Escola de Farmácia e Odontologia de Alfenas e sua mãe, Rosina Prado de Carvalho, professora primária – deve ter deles herdado as qualidades que o tornaram verdadeiro mestre.

     Os cursos primário e secundário foram feitos na sua cidade natal, tendo concluído o último em 1933. Neste mesmo ano, ainda muito jovem, transferiu-se para Belo Horizonte onde frequentou o Curso Anexo à Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais durante um ano, ingressando, a seguir, na referida Faculdade. Diplomou-se em Medicina em 1940.

     O seu interesse pela pesquisa científica e a sua inclinação para o magistério cedo se manifestaram, despertados pela extraordinária personalidade do professor de Química Fisiológica, José Baeta Vianna, em cujo laboratório começou a trabalhar quando cursava o quinto ano de Medicina em 1939, inicialmente como monitor e depois como Assistente Voluntário. Este foi o período de fundamental importância para sua carreira de pesquisador e mestre, pois, foi nesta época que recebeu grande parte de sua formação e orientação sob a direta supervisão do Prof. Baeta Vianna.

     Em 1943, transferiu-se para São Paulo, por convite dos professores José Ribeiro do Valle e Dorival Macedo Cardoso, para exercer o cargo de assistente deste na cadeira de Química Fisiológica da Escola Paulista de Medicina. Ao mesmo tempo, também a convite do Prof. Ribeiro do Valle, então Chefe da Secção de Endocrinologia do Instituto Butantã, onde foi trabalhar como estagiário.

     Foi no Instituto Butantã, durante a direção do Prof. Otto Bier, que iniciou a sua carreira de pesquisador em São Paulo ao aceitar a incumbência de organizar um laboratório de química fisiológica, colaborando com os trabalhos em andamento e iniciando um estudo sobre a regulação da glicemia de ofídios. A sua convivência com os cientistas de padrão internacional que naquela época pertenciam ao Instituto Butantã consolidou a sua formação como cientista e resultou na publicação de dez trabalhos.

     Em maio de 1945, casou-se com Eline Michelet Sant’Anna, bacharel em Química, que na época ocupava o cargo de Chefe da Seção de Química da Laborterápica S.A. A compreensão dedicada e a valiosa colaboração dada pela sua esposa ao seu trabalho a partir de 1951, quando se tornou sua assistente foram outros fatores de grande importância para a sua obra científica.

     Em 1946 foi escolhido pelo Prof. Otto Bier para trabalhar como fellow do Canada-Brazil Trust Fund no Instituto de Medicina e Cirurgia Experimental da Universidade de Montreal, sob a direção do Prof. Hans Selye. Aí permaneceu por dois anos, frequentando seminários, participando de congressos científicos e principalmente aprendendo novas e importantes técnicas para o seu trabalho de pesquisa. Data deste período o início de seu interesse por hipertensão experimental. Este foi um tempo de grande produtividade, resultando na publicação de onze trabalhos. Antes de voltar ao Brasil, com bolsa concedida pelo Prof. Selye, visitou vários laboratórios nos Estados Unidos.

     Ao voltar ao Brasil, conscientizado da importância do trabalho em tempo integral numa instituição universitária, associou-se ao Prof. Ribeiro do Valle para organizar o Laboratório de Farmacologia e Bioquímica e uma pequena biblioteca departamental da Escola Paulista de Medicina, trabalhando em regime de dedicação exclusiva. Este foi o primeiro núcleo dedicado à pesquisa científica no regime de tempo integral da Escola Paulista de Medicina e teve influência decisiva no desenvolvimento desta instituição como centro de excelência em investigação biomédica e ensino de alto padrão.

     Após a conquista da cátedra de Química Fisiológica, em 1950, teve o Prof. José Leal Prado papel sempre proeminente na evolução da Escola Paulista de Medicina, tanto no aspecto didático como científico. Por todos os seus trabalhos e seus discípulos, o Prof. Leal Prado colaborou para a melhoria universitária, em particular para a pós-graduação.

     Participou ativamente na estruturação e fundação do Curso de Biomedicina no Brasil e na Escola Paulista de Medicina.  

     O Prof. José de Leal Prado Carvalho faleceu no ano de 1987.

 

Fontes bibliográficas:

Paiva, ACM – José Leal Prado de Carvalho in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Organizado por José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica dos Tribunais, 1977, pag. 175-177.

Site da Fundação Oswaldo Cruz

Site do Conselho Federal de Biomedicina

      

quinta-feira, 4 de março de 2021

Biografia de Raul Leitão da Cunha

 

A partir de texto de José Ribeiro do Valle

 

     Raul Leitão da Cunha nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 2 de janeiro de 1881. Filho do Dr. José Maria Leitão da Cunha e de dona Georgina Leitão da Cunha, ambos descendentes de tradicional família carioca. Casou-se com dona Zita Vidal Leitão da Cunha, pertencente à família do Barão de Santa Margarida.

     Leitão da Cunha formou-se em Medicina em 1903 na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Nessa mesma Faculdade foi professor de Anatomia Patológica e Diretor da Faculdade. Foi Reitor da Universidade do Brasil, após a criação desta, quando a Faculdade de Medicina passou a estar ligada a ela.

     Por ocasião de seu sepultamento no Rio de Janeiro, em 16 de março de 1947, o jornal “O Estado de São Paulo” fez a seguinte publicação: “Como homem de ciência, mestre, administrador técnico, escritor, orientador da Universidade, político e jornalista, seus esforços dirigiam-se, sempre, para a valorização, para a moralização do ensino entre nós. Pela tribuna, pela imprensa, pela cátedra, nunca deixou de se bater por essa causa. Para ele, todos os vícios da organização nacional provinham do descaso, da má vontade com que, em geral, sempre foram encarados, no Brasil, os problemas atinentes ao ensino. Nunca se cansava de repetir que do estabelecimento do ensino em bases mais elevadas e sérias dependia a formação de uma mais sã consciência das responsabilidades coletivas. E dedicando o melhor dos seus esforços a esse ideal, tornou-se um dos grandes técnicos no setor da organização e administração do ensino superior, o que levou a enfrentar inúmeras campanhas e a superar muitas dificuldades erguidas pelos seus adversários. Por outro lado, a seriedade com que sempre se dedicou às obrigações do magistério e a invariável imparcialidade com que julgava as provas, os exames e os concursos, valeram-lhe a fama de uma severidade que não possuía”.

     Em Reunião da Congregação da Escola Paulista de Medicina de 9 de abril de 1947, em que fora reeleito e empossado o Prof. Álvaro Guimarães Filho, este anunciou que o “Conselho Técnico Administrativo” tomara a resolução de reverenciar a memória do grande amigo da Escola, o excelente mestre de medicina, Professor Leitão da Cunha que, ocupando altos postos na esfera federal, sempre acolheu e apoiou os interesses desta instituição. Já ele merecera o título Honoris Causa e, agora desaparecido, deve merecer o culto de nossa saudade e gratidão. A Congregação permaneceu de pé e em silêncio por um minuto e determinou a colocação de uma placa de bronze no anfiteatro principal da Escola que, passou a chamar-se Sala Leitão da Cunha.

     Leitão da Cunha foi paraninfo na formatura de 1938, da primeira turma de médicos formados pela Escola Paulista de Medicina.

 

Fonte bibliográfica:

Raul Leitão da Cunha in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Organizado por José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, págs. 239-240.




terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Biografia do Prof. Nylceo Marques de Castro


A partir de texto do Prof. Wilson da Silva Sasso

 

     Nylceo Marques de Castro nasceu em 6 de novembro de 1919 na cidade de Santos, estado de São Paulo. Lá fez cursos primário e secundário. Ingressou na Escola Paulista de Medicina em 1940, tendo se formado em 1945.

     Desde o ano de 1941 até sua formatura, foi monitor da Cadeira de Anatomia Descritiva e Topográfica, então sob o comando do Prof. Dr. João Moreira da Rocha. Depois de formado, foi nomeado segundo assistente da Cadeira, onde organizou, com o apoio do Prof. Moreira da Rocha, a Seção de Neuroanatomia. Nesta Seção, trabalhou intensivamente durante quatro anos. Quando de seu afastamento, deixou perto de 6 mil lâminas correspondentes a cortes de vários troncos cerebrais. Ainda quando no Departamento de Anatomia, preparou grande número de crânios, que passaram a fazer parte do acervo da “Coleção de Crânios da Escola Paulista de Medicina”.

     Preparou também, sobrepujando todas as deficiências materiais do momento, numerosos cortes de hemisférios cerebrais, sempre movido pela vontade incontida de melhorar o ensino e o aproveitamento dos alunos.

     Em 1949, foi indicado, pelo Prof. Edgard Mello Mattos Barrozo do Amaral, para exercer as funções de assistente na Cadeira de Histologia da Faculdade de Farmácia e Odontologia da Universidade de São Paulo, cargo que ocupou até 1959, quando se transferiu para a Cadeira de Histologia da Faculdade de Farmácia e Odontologia de São José dos Campos, onde, na qualidade de professor, permaneceu até a época de seu falecimento.

     Em 1950, foi nomeado, pelo Prof. Barrozo do Amaral, como primeiro assistente de Histologia Geral da Escola Paulista de Medicina, cargo que ocupou até maio de 1952. Nesta data, foi indicado pelo Conselho Técnico Administrativo para exercer as funções de Professor Contratado, incumbido da regência da Cadeira.

     Em 1949, candidatou-se à Livre-Docência de Anatomia da Escola Paulista de Medicina, recebendo os títulos de Doutor em Medicina e Livre-Docente de Anatomia.

     Da mesma forma, em abril de 1951, candidatou-se à Livre-Docência da Histologia da Faculdade de Farmácia e Odontologia da Universidade de São Paulo, onde foi aprovado com distinção.

     Em abril de 1955, candidatou-se à Cátedra de Histologia e Embriologia da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo, recebendo naquela ocasião o título de Livre-Docente da referida Cadeira.

     Em 1961, após concurso de títulos e provas, foi nomeado Professor Catedrático de Histologia e Embriologia da Escola Paulista de Medicina.

     Em 1965, então Professor Titular da Disciplina de Histologia e Embriologia da Escola Paulista de Medicina, por sugestão do Prof. Renato Locchi, Regente da Disciplina de Anatomia, foi eleito Chefe do recém-formado Departamento de Morfologia, cargo que exerceu até o início de suas funções de Diretor da Escola Paulista de Medicina, em 1968.

     Paralelamente à sua carreira universitária e suas atividades administrativas, o Prof. Marques de Castro desenvolveu intensa atividade científica, conforme atesta sua lista de trabalhos publicados, cerca de quarenta [conforme os moldes da época em que o Prof. Sasso escreveu isso], não só em nosso meio, como em revistas internacionais da especialidade. Neste particular, o Prof. Sasso, em seu relato biográfico, salientou as pesquisas realizadas pelo Prof. Nylceo no campo do “sexo genético”. Destacou o “primeiro trabalho publicado na literatura internacional” onde é relatado o diagnóstico do sexo genético em material humano normal e patológico, tendo sido padronizada a pesquisa do “cromolema sexual” em núcleos de fibras musculares lisas, o que lhe valeu o prêmio “Oscar Freire” de Medicina Legal do ano de 1956.

     Numerosas foram também suas pesquisas sobre “Histologia Comparada”, onde teve oportunidade de demonstrar a relação entre estrutura e função em órgãos ainda pouco estudados.

     Prof. Nylceo também fez estágio de aperfeiçoamento no Instituto Gustave Roussy, da Universidade de Paris, sob a supervisão do Prof. Charles Oberling.

     Ainda em sua atividades científicas, o Prof. Nylceo de Castro teve a oportunidade de orientar numerosas teses e trabalhos de pesquisa. Diversos foram os professores formados sob sua orientação, entre eles: José Cassiano de Figueiredo, Chefe do Departamento de Morfologia da Escola Paulista de Medicina; Wilson da Silva Sasso, Professor Titular de Histologia da Escola Paulista de Medicina e Chefe do Departamento de Histologia e Embriologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo; José Merzel, Professor Titular de Histologia da Faculdade de Odontologia de Piracicaba; Hisakazu Hayashi, Chefe e Professor Adjunto da Disciplina de Embriologia da Escola Paulista de Medicina; Irineu Pontes Pacheco, Professor Adjunto do Departamento de Morfologia e Chefe do Setor de Microscopia Eletrônica da Escola Paulista de Medicina; Roberto D. Andreucci, Chefe do Departamento de Morfologia da Faculdade de Odontologia de São José dos Campos.

     O Prof. Marques de Castro também foi um dos criadores do Curso Biomédico da Escola Paulista de Medicina.

     Ainda exercendo as funções de Diretor da Escola Paulista de Medicina, faleceu tragicamente em acidente marítimo em janeiro de 1970.

     Assim se encerra o texto que foi escrito pelo Prof. Sasso sobre o Prof. Nylceo de Castro.

     O jornal “Folha de São Paulo” de 17 de janeiro de 1970 noticiou a morte do Prof. Nylceo Marques de Castro. Informa o texto que ele morreu afogado no dia 14 de janeiro de 1970, na baía de Trapandé, em Cananeia, litoral sul de São Paulo, quando seu barco virou devido à violência das ondas. Duas outras pessoas que navegavam juntas, o professor da EPM, Oscar Portugal, e o sr. Igílio dos Santos, conseguiram agarrar-se ao barco, e no dia seguinte alcançaram a praia de Pedrinhas, após dez horas, na Ilha Comprida, distante muitos quilômetros do local onde a embarcação virou. Ali pediram socorro e mobilizaram autoridades dos municípios de Iguape e Cananeia. O barco virou às 22:30 de quarta-feira, dia 14, quando os três tripulantes tentavam atravessar a baía de Trapandé, na pequena embarcação com motor de popa, pois queriam chegar a Ilha Comprida. O barco teria virado pela ação de grandes ondas, e, conforme o texto, o Dr. Nylceo teria desaparecido em seguida. Depois de alertadas, as autoridades procuraram pelo corpo do Dr. Nylceo, que só foi encontrado no dia 16 de janeiro, próximo a Iguape, tendo sido removido para o necrotério desse município.

     A Escola Paulista de Medicina designou uma comissão formada pelos médicos Oswaldo Ramos, José Cassiano Figueiredo e Marcelo Pio da Silva para ir a Iguape a fim de acompanhar a remoção do corpo do Dr. Nylceo para a Capital. Segundo informações da EPM, o corpo chegaria às 23:30 horas do dia 16 e seria velado no salão nobre da EPM.

     Ainda informou o jornal Folha de São Paulo que o Prof. Nylceo Marques de Castro nasceu em Santos a 6 de novembro de 1919, e tinha, portanto, 51 anos. Formou-se em Medicina pela EPM em 1945 e foi o primeiro aluno da EPM a se tornar Diretor da Escola em maio de 1968, substituindo o Prof. José Maria de Freitas. Antes de assumir a direção foi catedrático da Cadeira de Morfologia. Na sua mocidade foi campeão universitário de Remo e Natação e sempre foi apaixonado pelos esportes aquáticos.

     Conforme informações do Dr. Abel Pereira de Souza Junior, ex-aluno da EPM na época em que o Prof. Nylceo era Diretor, na ocasião do acidente o Prof. Prates (depois também foi Diretor) disse que o Prof. Nylceo teria ajudado a salvar o Prof. Portugal, mas não conseguiu salvar a si próprio, pois estava com um braço quebrado e esgotado.

     Ainda conforme o Dr. Abel, O Prof. Nylceo assumiu a Diretoria da EPM em um momento de crise, em 1968, quando o então Diretor, José Maria de Freitas foi demitido. Foi criada então uma Comissão Paritária com Professores, Funcionários e Alunos, a qual realizou a primeira reforma curricular que modernizou a grade e estrutura administrativa da EPM, dando, portanto, um grande salto para a Escola ser alçada a mais altos patamares.

 

Fontes bibliográficas:

Sasso, W. S. - Nylceo Marques de Castro in A Escola Paulista de Medicina – Dados Comemorativos de seu 40º Aniversário (1933-1973) e Anotações Recentes. Organizado por José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, págs. 204-207.

Acervo do jornal Folha de São Paulo – publicação de 17 de janeiro de 1970.

Depoimento do Prof. Dr. Abel Pereira de Souza Junior, ex-aluno da Escola Paulista de Medicina, da 36ª Turma (formado em 1973), sobre dados biográficos do Prof. Nylceo Marques de Castro.

 

 

        

 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Biografia do Prof. Paulino Watt Longo

 

A partir de texto do Prof. Octavio Lemmi

 

     Paulino Longo nasceu em São Paulo no dia 7 de junho de 1903. Após bacharelar-se em Ciências e Letras pelo Ginásio do Estado, ingressou na então assim chamada Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, em fevereiro de 1920, diplomando-se em 1926, quando apresentou tese inaugural que versou sobre “Contribuição ao Estudo da Esclerose Lateral Amiotrófica”. Esse seria o marco inicial de sua trajetória de neurologista, destinada a inexcedível brilho.

     Logo colaborou como voluntário nos trabalhos assistenciais e didáticos da então Clínica Neurológica e Psiquiátrica, dirigida pelo mestre Enjolras Vampré – o criador da Escola Neurológica Paulista –, tendo sido nomeado assistente já em 1928, cargo que exerceu com assiduidade e dedicação exemplares durante dez anos. Nesse período, realizou intensa atividade clínica e publicou mais de trinta trabalhos sobre a especialidade.

     Em 1938, com o falecimento de Fausto Guerner, professor e chefe da Clínica Neurológica da Escola Paulista de Medicina, foi Paulino Longo convidado para reger interinamente essa Cátedra, a qual seria por ele conquistada um ano após, em memorável concurso de títulos e provas.

     Desde logo surgiriam as múltiplas facetas de sua personalidade. Pelo seu magnetismo pessoal, traduzido em bondade, simplicidade constante bom humor e cordialidade, viu se agregarem em torno de si inúmeros jovens sequiosos de aprender a especialidade, os quais, com o decorrer dos anos, deveriam formar a sua escola neurológica. A eles transmitiu aulas e ensinamentos preciosos, caracterizados por objetividade e pelo seu espírito prático, baseados em cultura neurológica, profunda experiência e na preocupação constante de aliviar a dor e a angústia de seus pacientes.

     A todos os seus discípulos e companheiros dedicou incondicional amizade. Exultava com seus sucessos, mesmo os mais simples, e sentia-se feliz, nessas ocasiões, em poder reunir seus colaboradores, do mais credenciado ao mais jovem, em um restaurante simples, onde, num ambiente de alegria e animação, dirigia-lhes palavras de elogio e estímulo. Da mesma forma, compartilhava de seus problemas e angústias, e procurava ajudar sempre que possível. Quantas vezes aproximava-se de algum companheiro para cuidadosamente perguntar: “Você anda triste, o que está acontecendo? Você está doente? Precisa de dinheiro?”.

     Seus assistentes o homenagearam em seu 50º aniversário, em sua casa de Campos de Jordão, presenteando-o com uma série de trabalhos que viriam a ser publicados nos Arquivos de Neuro-Psiquiatria em dois números especiais. Seu colega e amigo Oswaldo Lange, professor de Neurologia e editor dessa revista disse que “melhor homenagem não poderia esperar quem vem, há longos anos, orientando grupo coeso de neurologistas, ao qual se deve, sem a menor dúvida, boa parte do progresso da Neurologia em nosso país”.

     Prof. Lemmi dizia que Paulino Longo sempre se colocava pronto a ajudar, mesmo em ocasiões em que sofresse algum prejuízo, ou que tivesse sido incompreendido. Prof. José Geraldo de Camargo Lima disse que, certa vez, ainda jovem neurologista, quando foi para Congresso em Buenos Aires de ônibus, surpreendeu-se com a presença do Prof. Longo que lhe deu um abraço. Depois no ônibus descobriu que Longo colocou dinheiro em seu bolso.

     Paulino Longo foi também um líder. Como afirmou no dia de sua morte seu amigo Prof. Deolindo Couto: “ele foi um líder da Neurologia paulista e brasileira, ligado que estava a todos os momentos da especialidade, graças a seu desprendimento, à sua inteligência, ao seu espírito gregário que unia e sensibilizava, e principalmente graças a seu amor ao trabalho”.

     Participou na fundação e nas atividades de sua sociedade médica e na criação de revistas especializadas. Publicou mais de 250 artigos. Participou na organização de diversos congressos médicos nacionais e internacionais. Participou de várias bancas, inclusive de 14 professores catedráticos em neurologia e 31 livre-docentes. Recebeu a Ordem do Mérito Médico concedida por decreto do Presidente da República, e o título de Professor Emérito concedido pela Congregação da Escola Paulista de Medicina.

     Em 1966 aposentou-se dizendo que devia dar lugar aos mais novos, tendo mantido frequência nas atividades acadêmicas. Em 15 de setembro de 1967 faleceu de um quadro cardíaco agudo. Seus discípulos fizeram-lhe um busto que fica á frente da Enfermaria da Neurologia do Hospital São Paulo. 

 

Fontes bibliográficas:

Lemmi, O – Paulino Watt Longo in A Escola Paulista de Medicina – dados comemorativos de seu 40º aniversário (1933-1973) e anotações recentes. Organizado por José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, páginas 208-211.

Depoimento pessoal do Prof. Dr. José Geraldo de Camargo Lima.    

domingo, 13 de dezembro de 2020

Biografia de Osório César

 

     Antes de Nise da Silveira (1905-1999) ter trabalhado com Arte e Psiquiatria (e fez certamente trabalho importante), houve Osório César (1895-1986).

     Osório Thaumaturgo César nasceu em 1895, em João Pessoa, Paraíba. Chegou em São Paulo com 17 anos de idade (1912), onde estudou Odontologia. Na ocasião, para se sustentar, deu aulas de violino. Começou a estudar Medicina em 1918 no Curso de Medicina ministrado junto à Escola de Farmácia, que fazia parte da então chamada Universidade de São Paulo (que não era a mesma que a atual, era privada; a atual foi fundada em 1934). Com a extinção dessa primeira Universidade de São Paulo, ele transferiu-se para a Faculdade de Medicina da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, em 1920. Formou-se em 1925, aos trinta anos de idade, fixando-se na área de Anatomia Patológica. Antes disso, a partir de 1923, frequentava o Hospital do Juquery como estudante interno. Nesse local, acabou sendo oficialmente contratado como médico, permanecendo trabalhando lá por quarenta anos.

     Em 1919, Osório César lançou o livro “Doutrinas Biológicas” (portanto, ainda como estudante), dedicado ao estudioso argentino Ingegnieros e prefaciado pelo médico Ulysses Paranhos. Em 1922 lançou os trabalhos “A Química da Vida” e “Dois Ensaios”. Neste último fez correlações entre reações proteícas e funções psíquicas.

     Em 1927, em parceria com J. Penido Monteiro, escreveu “Contribuição ao Estudo do Simbolismo Místico nos Alienados: um Caso de Demência Precoce Paranoide num Antigo Escultor”; segundo alguns essa obra foi traduzida para o Francês e o Alemão.

     Em 1929, lançou o livro “A Expressão Artística nos Alienados: Contribuição para o Estudo dos Símbolos na Arte”.

     Nesses anos frequentou o meio intelectual paulista e círculos interessados em psicanálise.

     Nos anos 1930, Osório César estudou em Paris, além de Alemanha, Itália e União Soviética, tendo participado de um Congresso de Psiquiatria sob a presidência de Pavlov. Na ocasião, foi acompanhado pela famosa pintora Tarsila do Amaral, então sua companheira. César teve grande afinidade com o Marxismo, sendo que, em 1933, publicou dois livros sobre “Estado Proletário” no Brasil, um ano depois de retornar da União Soviética. Por isso, foi preso pelo governo de Getúlio Vargas.

     Em 1933, participou da exposição organizada por Flávio de Carvalho no Clube dos Artistas Modernos, chamada “Semana dos Loucos e das Crianças”, onde fez a palestra intitulada “Estudo Comparativo entre a Arte de Vanguarda e a Arte dos Alienados”.

     Em 1948, organizou a “Primeira Exposição de Arte do Hospital do Juquery” no Museu de Arte de São Paulo, com obras dos pacientes.

     Em 1949, criou a Seção de Pintura do Juquery. Essa Seção e a Associação de Assistência aos Psicopatas de São Paulo promoveram exposições na Capital e no interior.

     Em 1950, apresentou sua coleção de obras em Paris, na “Exposição de Arte Psicopatológica” do Primeiro Congresso Internacional de Psiquiatria. Nessa ocasião, apresentou o texto “Contribuição ao Estudo da Arte entre os Alienados”.

     Em 1952, foi convidado pela Maison National de Chareton para ir a Paris estudar Psiquiatria Social, onde ministrou a palestra “Arte em Psicopatologia” na Sociedade Médico-Psicológica.

     Osório César promovia reuniões em sua residência com músicos e pintores. Nessa seções, a partir da música, os pintores faziam certas produções. Desse ambiente participavam Walter Levy, Aldo Bonadei, Mário Zanini, Carlos Scliar, Gastão Worms, Durval Serra, entre outros. A música ouvida era principalmente de Beethoven, Prokoffief e Stravinsky.     

     Em 1986, Osório César morreu em São Paulo.

     Em 2020, após 16 anos fechado, o Museu de Arte Osório César reabriu suas portas em nova instalação, após reforma desde 2017 da antiga residência de Franco da Rocha, que fica na entrada do Complexo Hospitalar do Juquery e que foi também obra do engenheiro e arquiteto Ramos de Azevedo.

Bibliografia:

Neves, A.C. – O Emergir do Corpo Neurológico. Editora Companhia Ilimitada, 2010.

Andriolo, A.A. – A Psicologia da Arte no olhar de Osório César: leituras e escritos. Psicologia, Ciência e Profissão, 23 (4): 74-81, 2003.

https://revistaforum.com.br/cultura/depois-de-16-anos-museu-osorio-cesar-reabre-suas-portas-em-franco-da-rocha/  

  

    

 

 

sábado, 14 de novembro de 2020

Biografia de Franco da Rocha


 

     Francisco Franco da Rocha nasceu em Amparo, na então Província de São Paulo, em 23 de agosto de 1864. Conforme citação bibliográfica antiga “era filho único de um homem pobre, mas de família antiga e conceituada daquela cidade e aprendeu as primeiras letras num colégio dali”. Por um tempo ajudou os pais na lavoura, com a finalidade de custear seus estudos na Capital de São Paulo, onde estudou no Colégio Morton, juntamente com Arnaldo Vieira de Carvalho, Vicente de Carvalho, Carlos de Campos e Paulo de Moraes Barros. Aos 17 anos iniciou os então chamados “preparatórios”, terminando-os no Rio de Janeiro em 1885, entrando, a seguir, no Curso Médico. Em dezembro de 1890, recebeu o diploma de Medicina. Durante o curso, interessou-se pelo campo psiquiátrico. Foi nomeado interno da Clínica de Moléstias Mentais da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e, no sexto ano, interno da Casa de Saúde do Dr. Eiras.

     Em virtude de sua intenção de trabalhar em São Paulo, recusou convites do Professor Teixeira Brandão, o primeiro psiquiatra do Brasil, para ficar no Rio, onde seria designado substituto na Faculdade. Recusou também a oferta de Carlos Eiras para trabalhar na Casa de Saúde. Após chegar a São Paulo, começou a escrever no jornal Correio Paulistano e no jornal O Estado de São Paulo, onde propôs a organização do serviço público de assistência aos pacientes alienados, de acordo com os então chamados “modernos métodos” de tratamento psiquiátrico, que incluíam laborterapia. No governo de Cerqueira Cesar, foi nomeado médico do Hospício de São Paulo, quando começou seus trabalhos em torno da criação do Juquery.

     Para aprofundar-se no conhecimento de sua especialidade, Franco da Rocha estudou Inglês e Alemão, além do então habitual Francês, fazendo também citações de textos científicos no original em Italiano e Espanhol, em seus escritos. Isso o manteve sempre a par e passo com as novidades científicas, conforme se observa em seus artigos e livros. Escreveu para os Archivos de Psychiatria de Buenos Aires, a pedido do famoso psiquiatra Ingenieros. Escreveu para os Annales Medico-psychiatriques de Paris, órgão da Sociedade Médica Psicológica Francesa, da qual se tornou membro. Escreveu para o Algemeine Zeitschrift de Berlim. Contribuiu para o Tratado Internacional de Psicopatologia, publicado antes da Primeira Guerra Mundial.

     Em 1918, foi contratado para ser o primeiro professor a reger a Cadeira de Clínica Psiquiátrica e Moléstias Nervosas da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. Exerceu esse cargo até 22 de outubro de 1923, quando se aposentou do Serviço Público. Em 1927 fundou a Sociedade Brasileira de Psicanálise, juntamente com Durval Marcondes e outros. Foi o primeiro no Brasil a escrever livro sobre a doutrina de Freud em 1919-1920, que atualizou em 1930. Nos últimos anos de vida estudou a obra de Carl Gustav Jung e escreveu sobre estudos em Ornitologia. Faleceu em 1933.

     Deixou como sucessores: Enjolras Vampré, fundador da Neurologia paulista; Antonio Carlos Pacheco e Silva, seu sucessor no Juquery, depois Catedrático de Psiquiatria; Durval Marcondes, pioneiro na Psicanálise no Brasil; indiretamente, Osório César, pioneiro no estudo da Arte e Psiquiatria no Brasil.

     Quando Franco da Rocha fundou o Juquery, ele era uma instituição modelo, onde se empregava laborterapia e arteterapia. O Juquery ficou tornou-se mal falado principalmente após 1937, com a instalação da ditadura getulista, quando dobrou subitamente o número de internados nessa instituição.


Fonte bibliográfica:

Neves, AC – O Emergir do Corpo Neurológico no Corpo Paulista: Neurologia, Psiquiatria e Psicologia em São Paulo a partir dos periódicos médicos paulistas (1889-1936). Editora Livraria Companhia Ilimitada, 2010.    

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Biografia de Walter Sidney Pereira Leser



 A partir de texto de Magid Yunes

     Walter Leser nasceu em São Paulo aos 15 de novembro de 1909. Cursou o Ginásio do Estado da Capital e a Faculdade de Medicina de São Paulo, pela qual se formou em 1933 com a tese “Contribuição para um estudo dos métodos estatísticos aplicáveis à medicina e à higiene”. Desde cedo se interessou por problemas de Saúde Pública e Estatística. Logo após a formatura foi designado assistente de Estatística da Escola de Sociologia e Política (1933-1946) e em 1940, após concursos de títulos e de provas, foi nomeado Professor Catedrático de Higiene da Escola Paulista de Medicina e, depois, em 1946, da Faculdade de Farmácia e Odontologia da Universidade de São Paulo. Aposentado em ambos os cargos continuou a trabalhar ativamente. Foi Secretário de Saúde no Governo Abreu Sodré (1967-1970) e voltou a ocupar esse cargo na década de 1970.
     Em mais de 40 anos de atividades Leser atingiu objetivos em benefício da coletividade. Foi laureado com o prêmio Antenor Consoni, pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Foi considerado um professor universitário estudioso e culto. Acreditava no valor da ciência e da cultura como instrumentos de desenvolvimento e bem-estar da sociedade.
     Foi um dos pioneiros na introdução da Medicina Preventiva nas escolas médicas do Brasil. Em 1955, no Seminário de Viña del Mar, patrocinado pela Organização Pan-Americana de Saúde, apresentou relatório reformulando o Curso Médico e sugerindo a transformação da antiga Cadeira de Higiene em Departamento de Medicina Preventiva. Seu relatório, nessa reunião internacional sobre ensino médico, foi amplamente aprovado e trouxe como resultado a introdução de novos conceitos no campo do ensino médico.
     Para desenvolver um programa pioneiro de trabalho que obedecesse às diretrizes fixadas no Seminário de Viña del Mar, foi imediatamente criado na Escola Paulista de Medicina o Departamento e Instituto de Medicina Preventiva (IMPEP), do qual foi diretor desde sua instalação, em 1956.
     O principal objetivo dessa então nova estrutura curricular foi educar o futuro médico não só para uma medicina curativa, mas também para a medicina preventiva. Essa atividade de ensino médico era realizada junto ao paciente e seu domicílio. Desta forma, o estudante entrava em contato com problemas médicos e sanitários que afetavam a pessoa, sua família e sua comunidade.
     Leser participou ainda do Grupo de Estudos em Educação Médica que delineou novo modelo educacional para a Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília, então uma nova Universidade em uma nova cidade.
     A formação do Centro de Seleção de Candidatos a Escolas Superiores (CESCEM) e a organização da Fundação Carlos Chagas, em 1964, estiveram intimamente ligadas ao nome do Prof. Leser, que foi um de seus fundadores. Para essa nova organização, trouxe, além de seu esforço pessoal, as ideias e a experiência adquirida em atividades precursoras na EPM. A nova metodologia de seleção através de provas objetivas e a nova concepção das funções do exame vestibular já vinham sendo por ele empregadas na EPM.
     Dessa tarefa surgiu a Fundação Carlos Chagas, que daí ampliou sua ação a outros setores, bem como influenciou a origem de outras estruturas similares.
     Ao assumir, em 1967, pela primeira vez, a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, o Prof. Leser encontrou uma organização extremamente defeituosa, resultante da simples reunião de órgãos que, em 1947, foram destacados da antiga Secretaria da Educação e Saúde Pública, com grande carência de técnicos. Com a colaboração de pessoas de reconhecida capacidade, recuperou, em muitos setores, o atraso da Saúde Pública em nosso estado, enquanto, em outros, estabelecia bases firmes para o avanço técnico e científico e a adoção de medidas então modernas e inovadoras.
     Ao lado da implantação da reforma administrativa, estabeleceu critérios para preenchimento de cargos de chefia e criou a carreira de Sanitarista, aguardada há mais de quarenta anos. Atividades até então subestimadas, como a formação e adestramento de pessoal, tiveram novo alento com a reaproximação que exigiu e realizou com os estabelecimentos de Ensino Superior, especialmente com a Faculdade de Saúde Pública.
     Instituiu a “Caderneta de Vacinações”, desde então em pleno uso, e as “Normas ´para o Programa de Vacinações”. Criou condições para estabelecer um registro sistemático dessa atividade, capazes de fornecer elementos essenciais para finalidades educacionais, bem como para orientar, tecnicamente, a aplicação de cada vacina.
     Introduziu experimentalmente, em fins de 1967, a vacinação contra o sarampo – então uma endemia responsável pelo maior número de mortes de crianças paulistas, colocando a vacina nos trabalhos rotineiros da Unidades Sanitárias em 1969.
     Outras tantas providências vindas de sua atuação poderiam ser citadas. Convênios com a Faculdade de Saúde Pública e com a Fundação Getúlio Vargas, para a realização de cursos regulares de formação do pessoal da Secretaria da Saúde. Padronização de medicamentos. Critérios para internação e alta em hospitais. Normas técnicas para coleta e registro de dados epidemiológicos. Normas para imunização. Normas para tratamento de tuberculose e hanseníase.
     Entre seus trabalhos, alguns podem ser destacados. “Contribuição para o estudo dos métodos estatísticos aplicáveis à medicina e à higiene”, Tese, São Paulo, 1933. “Metodologia Estatística”, em colaboração com Dr. Pedro Egídio de Carvalho, 2 volumes, São Paulo, 1936 e 1938, Edição do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo. “Sobre o emprego dos testes de escolaridade na Escola Paulista de Medicina”, Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, 8:53, 1946 (em colaboração com o Dr. Hélio Lourenço de Oliveira). “Modificação do sistema dos exames de admissão às escolas superiores”, Revista da Associação Médica Brasileira, 2: 422-433, 1956. “Considerações gerais sobre a seleção de candidatos à Matrícula nas Escolas Médicas”, Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, 37: 54, 1962. “Exame conjunto para seleção de candidatos a escolas de currículo biológico”, Ciência e Cultura, 16: 354, 1964. “Considerações sobre a vacinação contra o sarampo”, Medicina e Cultura, São Paulo, 26: 69-73, 1971. “Relacionamento de certas características populacionais com a mortalidade no Município de São Paulo de 1950 a 1970”, Problemas Brasileiros, 109: 17-33, 1972.
     Para completar esta biografia recorremos ao artigo “Um Sanitarista chamado Walter Leser” de Mello e Bonfim, de 2015, publicado em Ciência e Saúde Coletiva, do qual vamos mencionar alguns aspectos.
     Conforme os autores, Leser foi influenciado em sua carreira pelo fato de, em 1928, no vestibular para a Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, ter sido aprovado por ter usado de estratagemas retóricos, pois em algumas questões não se sentia muito preparado. Na verdade, além da deficiência do método, deve-se reconhecer que ele foi um hábil e inteligente candidato em seu desempenho nessa prova.  
     Sendo pessoa com aptidão e formação para entrar na Escola Politécnica, ele mesmo não soube explicar como acabou escolhendo medicina. Percebendo que não podia lidar com a incerteza diagnóstica na Clínica de então, inicialmente dedicou-se à Cirurgia. Mas, a necessidade de dedicar-se a mais tempo de preparação e certa dificuldade financeira, fizeram-no afastar-se dessa possibilidade. Ao necessitar de tese de doutoramento, para se formar, procurou Geraldo de Paula Souza, no Instituto de Hygiene de São Paulo. Foi então sugerido que escrevesse sobre “Estatística Médica”, um campo então praticamente inexistente no Brasil. Aí começou a ser forjado o “Leser autodidata”. O seu orientador chegou a lhe dizer: “na dúvida, deite, reze e pense”. No fim, acabou dando certo e foi feita a marcante tese, em 1933, “Contribuição para o estudo dos métodos estatísticos aplicáveis à medicina e à higiene”.
     A partir daí, o Dr. Leser desenvolveu sua carreira em três áreas: laboratório de análises clínicas; ensino; gestão em saúde.
     Indicado por Paula Souza, foi contratado como assistente do Departamento de Química Biológica da Faculdade de Medicina, onde trabalhou com padrões de bioquímica sanguínea, iniciando publicações. No ano seguinte foi convidado pelo Dr. Gastão Fleury para se associar ao laboratório de análises clínicas.
     Em 1955, participou da criação do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (CREMESP), onde se inscreveu com o número 0004. Convidado por Flamínio Fávero, participou da chapa vencedora da primeira eleição para esse conselho.
     Sobre sua carreira docente, inicia-se em 1934. Paula Souza, que tinha participado da fundação da Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, o indicou para dar aula para a primeira turma como professor substituto de estatística, sendo logo efetivado.
     Em 1936, escreveu com seu colega Pedro Egydio de Carvalho (neurologista que ele indicou para assumir a vaga de estatística no Instituto de Hygiene) um livro de estatística e dois volumes, editado pelo Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo.
     Em 1946, deixou a Escola de Sociologia e Política para dedicar-se à EPM e à USP.
     No início da década de 1940, Paula Souza o indicou para a Cadeira de Higiene da EPM. A aprovação definitiva exigiu grande preparação por dois anos, quando fez tese sobre a presença de vitamina C na banana. Em sua banca estavam: Geraldo de Paula Souza, Francisco Borges Vieira, Samuel Pessoa, Marcos Lindenberg, Pedro de Alcântara Machado. Em 1942, tomou posse como catedrático de Higiene na EPM.
     Em 1946, foi convidado por professores, entre eles Zeferino Vaz, para prestar concurso na Faculdade de Farmácia e Odontologia da USP, onde se esperava que ele ajudasse a modificar a conflitante estrutura acadêmica da faculdade. Foi aprovado com tese sobre a vitamina A.
     Na EPM, além da Estatística e da Epidemiologia, ele esteve à frente do novo currículo para a graduação. De seus estudos epidemiológicos, causou impacto a relação entre a mortalidade infantil em São Paulo, o poder aquisitivo, e o abastecimento de água entre 1950 e 1970. Editou um livro de Epidemiologia embasado em duas apostilas de Estatística de 1973.
     Em relação à EPM mais especificamente, seus dois principais trabalhos foram a criação do Departamento de Medicina Preventiva e suas propostas para modificação dos vestibulares.
     O Departamento de Medicina Preventiva surgiu em 1955, de uma Conferência da Organização Panamericana de Saúde (OPAS), em Viña del Mar, no Chile. Apenas dois cursos enviaram estudos solicitados sobre o campo de higiene, o que colocou o estudo de Walter Leser, Jairo Ramos e Felício do Prado no centro do debate. As novas premissas da OPAS para o ensino em medicina que foram colocados parecem ainda muito atuais: o ensino da medicina geral; o cuidado individual, familiar e comunitário; a introdução da visão de saúde no sistema de referências do médico, e orientação de atividades práticas comunitárias. A partir daí, o Departamento de Medicina Preventiva teve sua carga horária estendida para vários anos do currículo de graduação, com aulas, visitas, seminários com convidados, assistência em ambulatório geral dedicado ao ensino de prevenção clínica, discussões de história natural das doenças e sua multicausalidade.
     Em 1962, a Fundação Rockfeller levou o Prof. Leser a visitar vários centros de medicina preventiva dos Estados Unidos, incluindo Columbia, Harvard, Cornell. Ele gostou especialmente da Western Reserve University, com um “currículo integral vertical”, que ele havia defendido na EPM, na Associação Brasileira de Ensino Médico (ABEM), e como consultor do curso da Universidade de Brasília.
     Sempre com sua preocupação a respeito dos critérios de avaliação no vestibular, ele aceitou presidir a banca oral do vestibular de 1952 da EPM. Decepcionado com o modelo adotado, levou essa questão à Congregação, que autorizou a realização de um teste de inteligência no ano seguinte, sem que valesse nota. Feito o vestibular, a aplicação de um teste adaptado do exército americano, permitiu-lhe concluir que uma parcela dos aprovados não tinha grau de inteligência necessário para fazer o curso de medicina. A partir daí, houve completa remodelação do processo de admissão, que passou a ter testes específicos das disciplinas, teste de inteligência e redação.
     Em 1962, foi convidado por Isaías Raw para reestruturar o vestibular de medicina da USP. Com o aumento de cursos e de procura por vestibulares, levou-o a fundar o Centro de Seleção de Candidatos às Escolas Médicas (CESCEM), o que influenciou a criação do CESGRANRIO e depois da FUVEST. Com o CESCEM criou também a Fundação Carlos Chagas.
     Para a Secretaria de Saúde do Governo Abreu Sodré, foi indicado por Jairo Ramos, já que ainda era inexperiente em saúde pública. Seguidor da linha de Paula Souza, Leser não se alinhava a clientelismos políticos, e assumiu a Secretaria em tempos difíceis. Em 1947 acontecera o desmembramento da área da Saúde da Secretaria da Educação, sendo criada a Secretaria de Estado dos Negócios da Saúde Pública e Assistência Social, supostamente em busca de organização e eficiência. Mas, até que Leser assumisse na década de 1960, isso não ocorreu.
     Dessa forma, em 1967, houve um decreto para reforma da administração pública. Foi então feito do Centro de Saúde o eixo da organização sanitária e a carreira de médico sanitarista. Foi criado o Instituto de Saúde de São Paulo para auxiliar na assistência e avaliação de desempenho.
     A prevenção foi trazida para o primeiro plano. A erradicação da varíola proposta pela OMS levou à vacinação em massa de 90% da população do estado entre 1968 e 1970. Foi instituído o calendário vacinal, suas normas técnicas, a caderneta de vacinação. Houve a renovação do Código Sanitário que remontava a 1918. Foram construídas instalações, comprados medicamentos. Foi feita política de saúde mental, combate a endemias, criados centros de saúde. Em Igaraçu do Tietê combateu a febre tifoide, o que levou a ter nome de rua nessa cidade. Com seu colega de turma e professor da EPM, Abrahão Rotberg, fez o termo lepra ser substituído oficialmente por hanseníase.
     Mesmo sem ser pessoa com envolvimento político, defendeu o grupo de sanitaristas de sua secretaria frente ao governo militar, incluindo médicos com filiação à esquerda como David Capistrano da Costa Filho e Pedro Dimitrov.
     Em 1975, foi convidado pelo governador Paulo Egydio Martins para voltar à Secretaria da Saúde. Na primeira semana de trabalho, já enfrentou o hercúleo trabalho contra a epidemia de meningite, até então censurada pela ditadura. Conseguiu a marca impressionante de 10 milhões de pessoas vacinadas em 4 dias na Grande São Paulo, com 95% de cobertura vacinal no Estado de São Paulo. No mesmo ano, no litoral, teve que lidar com uma epidemia supostamente de uma forma de encefalite.
     Trabalhou com a melhora dos Centros de Saúde e a Revisão do Código Sanitário do Estado. Entre 1976 e 1978 conseguiu promover a efetivação de mais de 300 sanitaristas no estado que ainda estava carente desses cargos, por meio da dinamização do curso obrigatório para essa área. Carreira essa que foi extinta em 1987.
     Walter Leser faleceu em 2004, com 94 anos. Sua companheira, Dona Helena, faleceu com 100 anos. Seus passatempos eram xadrez e futebol. Alguns traços de sua personalidade que são lembrados: exigência, austeridade, sobriedade e inteligência. Ele foi uma pessoa moderna, ou como se costuma dizer, à frente de seu tempo. Acentuava o seu autodidatismo, dizendo ser apenas “um tocador de ouvido”. Era visto mais como o líder de um grupo do que realizava em conjunto, mais do que uma pessoa que tivesse apenas seu nome no que fazia. No fim das contas, seu nome foi dado à “Medalha de Honra e Mérito da Gestão Pública em Saúde” do governo paulista. Um nome que acabou adquirindo sua própria aura mítica em Saúde Pública, com respeito mesmo de seus adversários.

Fontes bibliográficas:

“Walter Sidney Pereira Leser”, por Magid Yunes in “A Escola Paulista de Medicina – dados comemorativos de seu 40º aniversário (1933-1973) e anotações recentes”. Organizado por José Ribeiro do Valle. Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1977, pg. 229-232.

Mello, GA & Bonfim, JRA – Um sanitarista chamado Walter Leser. Ciência & Saúde Coletiva, vol. 20, n. 9, Sept. 2015.Acessível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232015000902749